A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 1 



A MENINA FOI A PRIMEIRA a ouvir as fortes pancadas na porta. Seu quarto  o 

mais prximo  entrada do apartamento. No incio, entorpecida pelo sono, pensou que era 

seu pai, subindo do esconderijo no poro. Ele havia esquecido suas chaves e estava 

impaciente porque ningum ouvira sua primeira e tmida batida. Mas depois vieram as 

vozes, fortes e brutais no silncio da noite, que no tinham nada a ver com seu pai. 

-  a polcia! Abram a porta! Agora! As pancadas recomearam, desta vez mais 

fortes. Elas ecoavam at a medula dos ossos. O irmo mais novo, adormecido na cama ao 

lado, agitou-se. 

-  a polcia! Abram a porta! Abram a porta! Que horas eram? Ela espiou pelas 

cortinas. Ainda estava escuro l fora. 

Ficou com medo. Lembrou-se das recentes conversas sussurradas que havia 

escutado, tarde da noite, quando seus pais pensavam que estava dormindo. Ela havia 

caminhado silenciosamente at a porta da sala de estar para ouvir e olhar atravs de uma 

pequena fresta. A voz nervosa de seu pai. O rosto ansioso da me. Eles conversavam em 

sua lngua materna, que a menina compreendia, embora no fosse fluente como eles. Seu 

pai havia sussurrado que os tempos que estavam por vir seriam difceis. Que eles teriam 

que ser corajosos e muito cuidadosos. Ele pronunciava palavras estranhas, desconhecidas: 

"campos", "batida policial, uma grande batida policial", "prises de manh cedo", e a 

menina ficava imaginando o que tudo aquilo poderia significar. Seu pai havia murmurado 

que nem as mulheres nem as crianas estavam em perigo, somente os homens, e que ele 

ficaria escondido no poro todas as noites. 

De manh, o pai havia explicado  menina que seria mais seguro se ele dormisse l 

embaixo durante algum tempo. At "que as coisas voltassem a ficar mais seguras". Que 

"coisas", exatamente? pensou a menina. O que significava "seguras"? Quando as coisas 

voltariam a ficar "seguras"? Ela queria descobrir o que ele quisera dizer com "campos" e 

"batida policial", mas ficou preocupada em admitir que havia escutado seus pais 

conversando s escondidas diversas vezes. Ento, no ousou perguntar a ele. 

- Abram a porta!  a polcia! E se os policiais houvessem encontrado seu pai no 

poro? ela se perguntava. Era essa a razo por que estavam aqui, a polcia tinha vindo para 

levar Papa para os lugares que ele havia mencionado durante aquelas conversas 

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sussurradas no meio da noite: "os campos", longe, fora da cidade? Com passos surdos, a 

menina percorreu rapidamente o caminho at o quarto da me, no fim do corredor. Sua 

me acordou no instante em que sentiu a mo sobre seu ombro. 

-  a polcia, mame - a menina sussurrou. - Eles esto esmurrando a porta. 

Sua me girou as pernas, empurrando-as para fora dos lenis, e afastou os 

cabelos dos olhos. A menina achou que ela parecia cansada, velha, muito mais velha do 

que seus 30 anos. 

- Eles vieram para levar Papa embora? - suplicou a menina, com as mos nos 

braos da me. - Eles vieram busc-lo? A me no respondeu. Novamente, as vozes em 

altos brados no fim do corredor. A me rapidamente vestiu um penhoar por cima da 

camisola, pegou a menina pela mo e dirigiu-se  porta. Sua mo estava quente e 

pegajosa, como a de uma criana, a menina pensou. 

- Pois no? - sua me disse timidamente, sem abrir o ferrolho. Uma voz de 

homem. Ele berrou o nome dela. 

- Sim, Monsieur, sou eu - ela respondeu. Seu sotaque saiu forte, quase 

desagradvel. 

- Abra a porta. Imediatamente. Polcia. 

A me levou a mo  garganta e a menina notou como ela estava plida. Parecia 

esgotada, paralisada. Como se no pudesse mais se mexer. A menina jamais havia visto 

aquele medo no rosto da me. Sentiu sua boca ficar seca de angstia. 

Os homens bateram na porta novamente. A me a abriu com dedos trmulos e 

desajeitados. A menina estremeceu, esperando ver ternos ver-de-acinzentados. 

Havia dois homens l. Um era policial, usando sua capa azul-escura at os joelhos 

e um quepe alto e redondo. O outro usava uma capa de chuva bege. Ele tinha uma lista 

nas mos. Mais uma vez, disse o nome da mulher. E o nome do pai. Falava francs 

perfeitamente. Ento estamos seguros, pensou a menina. Se eles so franceses e no 

alemes, no estamos em perigo. Se eles so franceses, no vo nos fazer mal. 

A me puxou a menina para perto de si. Ela podia ouvir o corao da mulher 

batendo atravs do penhoar. Queria empurrar a me. Queria que ela se aprumasse e 

olhasse para os homens com coragem, que parasse de se curvar de medo, que impedisse 

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seu corao de bater daquela maneira, como o de um animal apavorado. Ela queria que 

sua me fosse corajosa. 

- Meu marido... no est aqui - gaguejou a me. - Eu no sei onde ele est. Eu no 

sei. 

O homem com a capa de chuva bege adentrou o apartamento impetuosamente. 

- Apresse-se, Madame. Vocs tm dez minutos. Pegue algumas roupas. O 

suficiente para alguns dias. 

A me no se mexeu. Ela olhava para o policial com os olhos arregalados. Ele 

estava de p sobre a plataforma entre dois lances de escada, com as costas voltadas para a 

porta. Parecia indiferente, entediado. 

Ela ps uma das mos sobre sua manga azul-marinho. 

- Monsieur, por favor... - ela comeou. 

O policial se virou, afastando a mo dela com uma expresso dura e vazia nos 

olhos. 

- A senhora me ouviu. Vocs viro conosco. Sua filha tambm. Faa exatamente o 

que estamos mandando. 



Paris, maio de 2002 

BERTRAND ESTAVA ATRASADO, como sempre. Tentei no me importar com 

isso, mas me importei. Zo estava encostada indolente-mente contra a parede, entediada. 

Parecia tanto com o pai que s vezes me fazia sorrir. Mas no hoje. Olhei para o prdio 

alto e antigo. A casa de Mame. O velho apartamento da av de Bertrand. E ns iramos 

morar l. Iramos sair do Boulevard du Montparnasse, com seu trfego barulhento, com as 

ambulncias incessantes por causa de trs hospitais na vizinhana, com seus cafs e 

restaurantes, para esta rua estreita e tranqila  margem direita do Sena. 

O Marais no era um arrondissement com o qual eu estava familiarizada, embora 

admirasse sua beleza antiga caindo aos pedaos. Ser que eu estava feliz com a mudana? 

No tinha certeza. Bertrand no havia realmente pedido a minha opinio. No havamos 

conversado muito sobre isso. Como era seu estilo, ele havia tomado a dianteira da coisa 

toda. Sem mim. 

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- L est ele - disse Zo. - Apenas meia hora atrasado. 

Observamos Bertrand subir a rua, passeando, com seu caracterstico andar sensual. 

Esguio, moreno, transpirando sensualidade, o arqutipo do homem francs. Ele estava ao 

telefone, como sempre. Arrastando-se atrs dele estava Antoine, seu colega de trabalho, 

barbudo e de rosto rosado. Seu escritrio ficava na rue de 1'Arcade, bem atrs da 

Madeleine. Bertrand tinha feito parte de uma firma de arquitetura durante muito tempo, 

desde antes do nosso casamento, mas abriu seu prprio negcio com Antoine cinco anos 

atrs. 

Bertrand acenou para ns e depois apontou para o telefone, baixando as 

sobrancelhas e fazendo uma careta. 

- Como se ele no conseguisse se livrar da pessoa ao telefone - zombou Zo. - 

Com certeza. 

Zo tinha apenas 11 anos, mas s vezes parecia que j era uma adolescente. 

Primeiro por sua altura, que fazia com que todas as suas amigas parecessem ans - assim 

como seus ps, ela acrescentaria austeramente - e, depois, por uma lucidez precoce que 

muitas vezes me deixava sem flego. Havia algo de adulto em seu olhar solene, cor de 

avel, e no modo pensativo como levantava o queixo. Ela sempre foi assim, mesmo 

quando pequena. Calma, madura, s vezes madura demais para sua idade. 

Antoine veio nos cumprimentar enquanto Bertrand continuava em sua conversa, 

alta o bastante para que a rua inteira ouvisse, agitando as mos no ar, fazendo mais 

caretas, virando-se de vez em quando para certificar-se de que estvamos captando cada 

palavra. 

- Um problema com outro arquiteto - explicou Antoine com um sorriso discreto. 

- Um concorrente? - indagou Zo. 

- , um concorrente - respondeu Antoine. Zo suspirou. 

- O que significa que podemos passar o dia todo aqui - ela disse. Tive uma idia. 

- Antoine, por acaso voc est com a chave do apartamento de madame Tzac? - 

Sim, Julia, estou com ela - ele disse, sorrindo. Antoine sempre me respondia em ingls 

quando eu falava em francs com ele. Suponho que ele tinha a inteno de ser gentil, mas, 

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secretamente, isso me deixava chateada. Eu sentia como se meu francs ainda no fosse 

bom, mesmo depois de estar morando aqui durante todos esses anos. 

Antoine exibiu a chave. Decidimos subir, ns trs. Zo digitou a senha com vigor e 

dedos hbeis. Caminhamos pelo ptio frondoso e fresco que levava ao elevador. 

- Odeio esse elevador - observou Zo. - Papa deveria fazer algo sobre isso. 

- Querida, ele s est reformando a casa de sua bisav - observei. - No o prdio 

todo. 

- Bem, ele deveria - respondeu ela. 

Enquanto espervamos pelo elevador, meu celular comeou a tocar o tema de 

Darth Vader. Examinei o nmero que piscava no visor. Era Joshua, meu chefe. 

Atendi. 

- Sim? Joshua foi direto ao ponto. Como sempre. 

- Preciso que voc volte s trs. Estamos fechando a pauta de julho. Cmbio final. 

- Putz! - respondi atrevidamente. Ouvi uma risadinha no outro lado da linha antes 

que ele desligasse. Joshua sempre parecia gostar quando eu dizia "putz". Talvez isso o 

fizesse lembrar-se de sua juventude. Antoine parecia se divertir com minhas grias fora de 

moda. Eu o imaginava colecionando-as e depois tentando repeti-las com seu sotaque 

francs. 

O elevador era uma daquelas inimitveis geringonas parisienses com uma cabine 

diminuta, uma grade de ferro manual e portas duplas de madeira que inevitavelmente 

batiam na sua cara. Espremida entre Zo e Antoine - que exagerou ligeiramente com seu 

perfume de veti-ver - dei uma olhada no meu rosto no espelho enquanto deslizvamos 

para o alto. Eu parecia to desgastada quanto o elevador que rangia. O que havia 

acontecido com a beldade cheia de frescor que veio de Boston, Massachusetts? A mulher 

que me encarava de volta estava na temida idade entre os 45 e os 50, a terra de ningum 

cheia de flacidez, com a chegada das rugas e a furtiva aproximao da menopausa. 

- Eu tambm odeio esse elevador - comentei secamente. Zo sorriu e beliscou 

minha bochecha. 

- Mame, at mesmo Gwyneth Paltrow ficaria horrorosa nesse espelho. 

Eu tive de sorrir. Era um comentrio tpico de Zo. 

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A ME COMEOU A SOLUAR, baixinho no incio, e depois mais alto. 

A menina olhava para ela, atordoada. Em todos os seus 10 anos de idade, ela 

jamais vira a me chorar. Horrorizada, observava as lgrimas deslizarem pelo rosto plido e 

amarrotado da me. Queria dizer  me para parar de chorar. No conseguia agentar a 

vergonha de ver sua me naquela choradeira na frente desses estranhos. Mas os homens 

no estavam prestando ateno s lgrimas da me. Eles disseram a ela que se apressasse. 

No havia tempo a perder. 

No quarto, o menino continuava a dormir. 

- Mas para onde vocs vo nos levar? - suplicou sua me. - Minha filha  francesa, 

ela nasceu em Paris, por que vocs a querem tambm? Para onde esto nos levando? Os 

homens no disseram mais nada. Eles eram vultos assomando-a, fortes, ameaadores. Os 

olhos da me estavam brancos de terror. Ela foi para o quarto e afundou na cama. Depois 

de alguns segundos, endireitou as costas e se virou para a menina. Sua voz era um 

sussurro, seu rosto uma mscara de tenso. 

- Acorde seu irmo. Vistam-se, os dois. Pegue algumas roupas para e ele para 

voc. Depressa! Depressa, agora! Seu irmo ficou mudo de terror quando espiou pela 

porta e viu os homns. Ele viu sua me despenteada, soluando, tentando arrumar a mala. 

Reuniu toda a fora que seu corpo de 4 anos de idade possua. Recusou-se a se mover. A 

menina tentou persuadi-lo. Ele no ouvia. Ficou ali, sem se mover, com seus bracinhos 

dobrados sobre o peito. 

A menina tirou a camisola, apanhou uma blusa de algodo e uma saia. Enfiou os 

ps dentro dos sapatos. Seu irmo a observava. Eles podiam ouvir a me chorando em seu 

quarto. 

- Vou para o nosso lugar secreto - ele sussurrou. 

- No! - ela respondeu num mpeto. - Voc vai conosco, voc tem que ir. 

Ela o agarrou, mas ele conseguiu escapar do aperto e se esgueirou para dentro do 

armrio longo e profundo escondido na superfcie da parede do quarto. Aquele dentro do 

qual eles brincavam de esconde-esconde. Eles se escondiam ali a toda hora, como se fosse 

a prpria casinha deles. Maman e Papa sabiam sobre ele, mas sempre fingiam que no. 

Eles os chamavam pelos nomes. Falavam alto, com suas vozes alegres: "Mas aonde foram 

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essas crianas? Que estranho, elas estavam aqui agora mesmo!" E ela e o irmo davam 

risadinhas divertidas. 

Eles tinham uma lanterna l dentro e algumas almofadas, brinquedos e livros, e at 

mesmo uma garrafa dgua que Maman enchia todos os dias. Seu irmo ainda no sabia 

ler, ento a menina lia alto para ele Um Bom Diabrete. Ele amava o conto do rfo Charles 

e a aterrorizante Madame Mac'miche, e como Charles se vingou dela por toda sua 

crueldade. Ela lia para ele repetidamente. 

A menina podia ver o rostinho do irmo espreitando-a atravs da escurido. Ele 

estava agarrado a seu ursinho favorito, e no tinha mais medo. Talvez ficasse a salvo l, no 

fim das contas. Tinha gua e a lanterna. Ele podia ver as figuras no livro da Condessa de 

Sgur. Sua preferida era a da magnfica vingana de Charles. Talvez ela devesse deix-lo l 

por enquanto. Os homens jamais o encontrariam. Ela voltaria para peg-lo mais tarde 

quando eles tivessem autorizao para ir para casa novamente. E Papa, ainda no poro, 

saberia onde o menino estava escondido, caso subisse. 

- Voc est com medo a dentro? - perguntou baixinho, ao mesmo tempo que os 

homens as chamavam. 

- No - ele respondeu. - No estou com medo. Voc me tranca aqui dentro. Eles 

no vo me pegar. 

Ela fechou a porta diante do rostinho plido do irmo e girou a chave na 

fechadura. Depois, colocou a chave no bolso. A fechadura ficava escondida por um 

dispositivo em forma de um interruptor de luz que girava em torno de si mesmo. Era 

impossvel ver o contorno do armrio no apainelamento da parede. Sim. ele estaria seguro 

ali. Ela tinha certeza. 

A menina murmurou o nome dele e encostou a palma da mo sobre o painel de 

madeira. 

- Volto mais tarde para buscar voc. Prometo. 



ENTRAMOS NO APARTAMENTO E mexemos desajeitadamente nos interruptores 

de luz. Nada aconteceu. Antoine abriu duas venezianas. O sol precipitou-se para dentro do 

ambiente. Os cmodos estavam nus, empoeirados. Sem moblia, a sala de estar parecia 

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imensa. Os raios dourados entravam oblqos pelas longas vidraas encardidas, salpicando 

as tbuas do assoalho marrom-escuro. 

Olhei em volta para as prateleiras vazias, para os quadrados mais escuros nas 

paredes em que costumavam pender lindas pinturas, para a lareira de mrmore que me 

fazia lembrar de tantos invernos quando o fogo ardia, e de Mame estendendo suas mos 

plidas e delicadas na direo do calor das chamas. 

Postei-me ao lado de uma das janelas e olhei para o ptio verde e tranqilo l 

embaixo. Fiquei feliz por Mame ter ido embora antes de ver seu apartamento vazio. Isso 

poderia t-la deixado perturbada. Eu fiquei. 

- Ainda tem o cheiro de Mame - comentou Zo. - Shalimar. 

- E de Minette, aquele bicho horrvel - acrescentei, levantando o nariz. Minette 

havia sido o ltimo animal de estimao de Mame. Uma siamesa com incontinncia 

urinaria. 

Antoine me olhou surpreso. 

- A gata - expliquei. Desta vez, falei em ingls.  claro que eu sabia que la chatte 

era o feminino de "gato", mas tambm podia significar "xoxota". A ltima coisa que eu 

queria era fazer Antoine dar risada por causa de algum duplo sentido. 

Antoine avaliou o lugar com olhar profissional. 

- O sistema eltrico  antigo - ele observou, apontando para os fusveis de 

porcelana brancos e antiquados. - O aquecimento tambm. 

Os aquecedores gigantescos estavam negros de sujeira, escamosos homo rpteis. 

- Espere at ver a cozinha e os banheiros - retruquei. 

- A banheira tem garras - disse Zo. - Vou sentir falta delas. Antoine examinou as 

paredes, dando pancadinhas com o n dos dedos. 

- Suponho que voc e Bertrand queiram reform-lo completamente? - perguntou, 

olhando para mim. 

Encolhi os ombros. 

- No sei exatamente o que ele quer fazer. Mudar para este lugar foi idia dele. Eu 

no estava muito animada com a idia de mudar para c. Eu queria algo mais... prtico. 

Algo novo. 

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Antoine sorriu. 

- Mas vai ficar novinho em folha depois que a gente terminar. 

- Talvez. Mas, para mim, este sempre ser o apartamento de Mame. O 

apartamento ainda tinha as marcas de Mame, mesmo depois de ela ter se mudado para 

um asilo, nove meses antes. A av de meu marido morou aqui durante anos. Lembrei-me 

do nosso primeiro encontro, 6 anos atrs. Eu havia ficado impressionada com as pinturas 

antigas, e com lareira de mrmore, que ostentava fotos de famlia emolduradas em prata 

lavrada, a moblia elegante, enganosamente simples, os inmero-os livros alinhados sobre 

as prateleiras da biblioteca, o piano de cauda coberto com um suntuoso veludo vermelho. 

A sala de estar ensolarada dava para um sereno ptio interno com uma espessa camada 

de hera que se estendia por sobre a parede oposta. Tinha sido bem ali que eu a encontrara 

pela primeira vez, que eu estendera minha mo para ela, sem jeito, no estando ainda 

habituada com o que minha irm Charla chamava de "essa coisa beijoqueira francesa". 

Voc no aperta a mo de uma mulher parisiense, mesmo que voc esteja 

encontrando pela primeira vez. Voc deve beij-la uma vez em cada face. 

Mas eu ainda no sabia disso na poca. 



O HOMEM COM A CAPA de

chuva bege olhou para a lista novamente. 

- Espere - ele disse. - Est faltando uma criana. Um menino. Ele pronunciou o 

nome da criana. 

O corao da menina sobressaltou-se. A me olhou na direo da filha. A menina 

levou prontamente o dedo aos lbios. Um movimento que os homens no captaram. 

- Onde est o menino? - perguntou o homem. 

A menina deu um passo  frente, torcendo as mos. 

- Meu irmo no est aqui, Monsieur - ela respondeu com seu francs perfeito, o 

francs de uma nativa. - No incio deste ms ele foi com alguns amigos para o interior. 

O homem de capa de chuva olhou para ela pensativamente. Depois, fez um gesto 

rpido com o queixo para o policial. 

Vasculhe o lugar. Rpido. Talvez o pai esteja escondido tambm. 

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O policial percorreu os cmodos, fazendo rudos surdos, abrindo e fechando 

portas desajeitadamente, olhando debaixo das camas, dentro dos armrios. 

Enquanto ele fazia seu servio ruidosamente pelo apartamento, o outro homem 

caminhava pela sala. Quando ele estava de costas, a menina rapidamente mostrou a chave 

 me. "Papa vai subir e peg-lo. Papa vir mais tarde", ela movimentou os lbios sem 

fazer som. "Est bem", ela pareceu dizer, "eu entendi onde o menino est". Mas sua me 

comeou a franzir o cenho, a fazer um gesto de chave com a mo como se a perguntar 

"onde voc vai deixar a chave para Papa, como  que ele vai saber onde ela est?". O 

homem virou-se rapidamente e ficou observando-as. A me ficou paralisada. A menina 

tremia de terror. 

Ele fitou-as por alguns instantes. Depois, fechou abruptamente a janela. 

- Por favor - a me pediu - est to quente aqui dentro! O homem sorriu. A 

menina achou que nunca tinha visto um sorriso mais feio do que aquele. 

- Vamos mant-la fechada, Madame - ele respondeu. - Hoje pela manh, uma 

senhora atirou o filho pela janela e, em seguida, pulou. Ns no queremos que o mesmo 

acontea novamente. 

A me nada respondeu, entorpecida de terror. A menina encarava o homem, 

odiando-o, odiando cada centmetro dele. Sentia repugnncia por seu rosto rosado, sua 

boca reluzente. O olhar frio e mortal em seus olhos. O modo como ele ficava ali, com as 

pernas separadas e o chapu de feltro pendendo para a frente, com suas mos gordas 

entrelaadas nas costas. 

Ela o odiava com todas as foras, como jamais havia odiado ningum na vida, mais 

do que ela havia odiado aquele menino horrvel na escola, Daniel, que havia sussurrado 

coisas horrveis para ela, coisas horrveis sobre o sotaque de sua me, o sotaque de seu 

pai. 

Ela ouviu o policial continuar sua busca desajeitada. Ele no iria encontrar o 

menino. O armrio estava engenhosamente escondido. O menino estaria seguro. Eles 

nunca o encontrariam. Nunca. 

O policial voltou. Encolheu os ombros e balanou a cabea. 

- No h ningum aqui - ele disse. 

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O homem com a capa de chuva empurrou a me na direo da porta. Pediu as 

chaves do apartamento. Ela as entregou silenciosamente. Desceram as escadas em fila, a 

descida retardada pelas bolsas e trouxas que a me carregava. A menina estava pensando 

rpido. Como ela conseguiria entregar a chave para o pai? Onde  que ela poderia deix-

la? Com a concierge? Ser que ela estaria acordada quela hora? Estranhamente, a 

concierge j estava acordada e esperando atrs de sua porta. A menina notou que ela 

tinha uma expresso estranha, uma satisfao maligna no rosto. Por que ela estava com 

aquele jeito - perguntou-se a menina - por que ela no olhava para sua me, ou para ela, 

mas somente para os homens, como se ela no quisesse v-la ou  me, como se ela 

jamais as tivesse visto? E, no entanto, sua me sempre havia sido gentil com essa mulher. 

Ela havia tomado conta do beb da concierge algumas vezes, a pequena Suzanne, que 

muitas vezes chorava por causa de dores de barriga, e sua me havia sido to paciente, 

cantando interminavelmente para Suzanne em sua lngua materna. O beb adorava, 

adormecendo tranqilamente. 

- A senhora sabe onde o pai e o filho esto? - perguntou o policial. Ele entregou a 

ela as chaves do apartamento. 

A concierge encolheu os ombros. Ela continuava sem olhar para a menina ou para 

sua me. Enfiou as chaves no bolso com um movimento rpido e vido, do qual a menina 

no gostou. 

- No - ela respondeu ao policial. - No tenho visto muito o marido ultimamente. 

Talvez ele tenha fugido para se esconder com o garoto. Vocs podem vasculhar os pores 

ou as reas de servio no ltimo andar. Posso lhes mostrar. 

O beb no pequeno cercado comeou a choramingar. A concierge olhou para trs, 

por sobre o ombro. 

- No temos tempo - respondeu o homem com a capa de chuva. - Precisamos 

prosseguir. Voltaremos mais tarde, se necessrio. 

A concierge entrou para pegar o beb que chorava e segurou-o contra o peito. Ela 

disse que sabia que havia outras famlias no prdio vizinho. Ela proferiu seus nomes com 

uma expresso de desgosto, pensou a menina, como se estivesse dizendo palavres, 

aquelas palavras sujas que voc jamais deveria pronunciar. 

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BERTRAND FINALMENTE ENFIOU o telefone no bolso e voltou sua ateno para 

mim. Ele me lanou um de seus sorrisos irresistveis. Por que eu tinha um marido to 

inacreditavelmente atraente? - pensei pela milionsima vez. Quando eu o vi pela primeira 

vez, h muitos anos, esquiando em Courchevel, nos Alpes franceses, ele era do tipo esguio 

e juvenil. Agora, aos 47 anos, maior, mais forte, transpirava masculinidade, "um jeito 

francs" e classe. Ele era como o bom vinho, amadurecendo com graa e fora, ao passo 

que eu tinha certeza de que havia perdido minha juventude em algum lugar entre o rio 

Charles e o Sena e certamente no estava desabrochando na meia-idade. Se os cabelos 

prateados e as rugas pareciam realar a beleza de Bertrand, eu tinha certeza de que eles 

diminuam a minha. 

- Bem? - ele disse, apalpando minha bunda com uma mo descuidada e 

possessiva, embora seu scio e nossa filha estivessem olhando. - Bem, isso no  

excelente? - Excelente - repetiu Zo. - Antoine acabou de nos dizer que tudo precisa ser 

reformado, o que significa que provavelmente no nos mudaremos por mais um ano. 

Bertrand riu. Uma risada maravilhosamente contagiante, um misto de hiena com 

saxofone. Esse era o problema com o meu marido. Charme inebriante. E ele amava lig-lo 

a toda fora. Eu imaginava de quem ele o havia herdado. De seus pais, Colette e Edouard? 

Superinteligentes, refinados, cultos. Mas no charmosos. Suas irms, Ccile e Laure? Bem-

criadas, brilhantes, maneiras perfeitas. Mas elas s riam quando se sentiam obrigadas. 

Supus que ele provavelmente havia herdado de Mame. A rebelde e beligerante Mame. 

- Antoine  to pessimista - Bertrand riu. - Estaremos aqui em breve. Vai dar um 

bocado de trabalho, mas teremos as melhores equipes trabalhando aqui. 

Ns o seguimos pelo longo corredor de tbuas corridas que rangiam, visitando os 

quartos que davam para a rua. 

- Esta parede precisa ser demolida - Bertrand declarou, apontando, e Antoine 

aquiesceu. - Precisamos trazer a cozinha para mais perto. De outra forma, a Miss Jarmond 

aqui no vai consider-la "prtica". 

Ele disse a palavra em ingls, olhando para mim com uma piscadela travessa e 

desenhando pequenas aspas no ar com os dedos. 

-  um apartamento bem grande - observou Antoine. - Um tanto grandioso. 

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- Agora, sim. Mas era muito menor antigamente, muito mais humilde - disse 

Bertrand. - Foram tempos difceis para meus avs. Meu av no ganhou dinheiro at os 

anos 1960. Depois, ele comprou o apartamento do outro lado do corredor e juntou os 

dois. 

- Ento, quando vov era criana, ele morava nesta parte pequena? - perguntou 

Zo. 

- Isso mesmo - disse Bertrand. - Nesta parte daqui. Aquele era o quarto dos pais, 

e ele dormia aqui. Era muito menor. 

Antoine batia nas paredes com os ns dos dedos pensativmente. 

- Sim, eu sei o que voc est pensando - Bertrand sorriu. - Voc quer juntar estes 

dois cmodos, no ? - E! - admitiu Antoine. 

- No  m idia. Vai dar trabalho, no entanto. H um trecho de parede 

complicado aqui, vou te mostrar mais tarde. Apainelamento espesso. Canos e outras coisas 

passando pelo meio dele. No ser to fcil quanto parece. 

Olhei para o meu relgio. Eram duas e meia. 

- Preciso ir - eu disse. - Tenho uma reunio com Joshua. 

- O que faremos com Zo? - perguntou Bertrand. Zo revirou os olhos. 

- Eu posso de repente pegar um nibus e voltar para Montparnasse. 

- E a escola? - perguntou Bertrand. 

Nova revirada de olhos. 

- Papa! Hoje  quarta-feira. No tenho escola nas quartas  tarde, lembra? 

Bertrand coou a cabea. 

- No meu tempo era... 

- Era na quinta, no havia escola s quintas - disse Zo, com um jeito cantado. 

- Esse sistema educacional francs ridculo! - suspirei. - E h aula nos sbados de 

manh, para completar! Antoine concordou comigo. Seus filhos estavam matriculados em 

uma escola particular na qual no havia aulas aos sbados pela manh. Mas Bertrand - 

como seus pais - acreditava firmemente no sistema escolar pblico francs. Eu quis colocar 

Zo em uma escola bilnge. Havia vrias delas em Paris, mas a tribo dos Tzac no 

aceitou isso. Zo era francesa, nascida na Frana. Ela iria para uma escola francesa. No 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 14 



momento, ela estava estudando no Lyce Montaigne, perto do Jardim de Luxemburgo. Os 

Tzac viviam se esquecendo de que Zo tinha uma me americana. Felizmente, o ingls de 

Zo era perfeito. Eu jamais havia falado outra lngua com ela, e ela ia a Boston visitar meus 

pais com bastante freqncia. Zo passava a maioria dos veres em Long Island com 

minha irm Charla e a famlia dela. 

Bertrand virou-se para mim. Estava com aquele brilhozinho no olhar, aquele que 

me deixava alerta, que significava que ele iria ser muito engraado ou muito cruel, ou 

ambos. Antoine obviamente tambm sabia o que aquilo sugeria, a julgar pelo modo 

humilde com que ele mergulhou em um profundo estudo de seus mocassins de verniz 

com borlas. 

- Ah, sim,  verdade, sabemos o que Miss Jarmond pensa de nossas escolas, 

nossos hospitais, nossas greves interminveis, nossas longas frias, nosso sistema de 

encanamento, nosso servio postal, nossa TV, nossa poltica, o coc de nossos cachorros 

nas caladas - disse Bertrand, exibindo seus dentes perfeitos para mim. - J ouvimos isso 

tudo tantas vezes, mas tantas vezes, no  mesmo? "Gosto de estar nos Estados Unidos, 

tudo  limpo nos Estados Unidos, todo mundo recolhe o coc do cachorro nos Estados 

Unidos!" - Papa, pare com isso, voc est sendo grosso! - protestou Zo, pegando na 

minha mo. 



DO LADO DE FORA, a menina viu um vizinho de pijama debruado na janela. Ele 

era um bom homem, um professor de msica. Tocava violino e ela gostava de ouvi-lo. Do 

outro lado do ptio, ele tocava com freqncia para ela e para o irmo. Canes francesas 

antigas como Sur le Pont d'Avicjnon e A la Claire Fontaine, e tambm canes do pas de 

seus pais, canes que sempre faziam seu pai e sua me danarem alegremente, com os 

chinelos de sua me deslizando pelas tbuas do assoalho e seu pai rodopiando sem parar, 

at que ficassem tontos. 

- O que vocs esto fazendo? Para onde os esto levando? - ele exclamou. 

Sua voz soou at o outro lado do ptio, encobrindo os gritos do beb. O homem 

com a capa de chuva no respondeu. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 15 



- Mas vocs no podem fazer isso - disse o vizinho. - Eles so gente boa. honesta! 

Vocs no podem fazer isso! Ao som de sua voz, as venezianas comearam a se abrir e 

rostos surgiram por detrs das cortinas. 

Mas a menina percebeu que ningum se mexia, ningum dizia nada. As pessoas 

apenas observavam. 

A me ficou paralisada, com suas costas se contorcendo com os soluos. Os 

homens a empurraram. 

Os vizinhos olhavam silenciosamente. At mesmo o professor de msica 

permaneceu silencioso. 

Repentinamente, a me se virou e gritou com toda a fora de seus pulmes. Ela 

gritou o nome do marido trs vezes. 

Os homens a agarraram pelos braos e a sacudiram com brutalidade. Ela deixou 

cair as bolsas e as trouxas. A menina tentou impedi-los, mas eles a empurraram. 

Um homem surgiu  porta. Um homem franzino com as roupas amarrotadas, o 

queixo com a barba por fazer e os olhos vermelhos e cansados. Ele atravessou o ptio, 

mantendo a postura ereta. 

Quando ele chegou at os homens, lhes disse quem era. Seu sotaque era forte, 

assim como o da mulher. 

- Leve-me com minha famlia - ele disse. 

A menina enfiou sua mo dentro da mo do pai. 

Ela estava segura, pensou. Estava segura com sua me, com seu pai. Isso no iria 

durar muito. Essa era a polcia francesa, no eram os alemes. Ningum iria fazer mal a 

eles. 

Logo estariam de volta ao apartamento, e mame prepararia o caf-da-manh. E o 

menino sairia de seu esconderijo. E Papa iria para o armazm no fim da rua onde 

trabalhava como chefe de seo e fazia cintos, bolsas e carteiras junto com todos os seus 

colegas de trabalho e tudo voltaria a ser como antes. E as coisas logo voltariam a ficar 

seguras novamente. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 16 



Do lado de fora, era dia. A rua estreita estava vazia. A menina olhava para o seu 

prdio, para os rostos silenciosos nas janelas, para a concierge com a pequena Suzanne no 

colo. 

O professor de msica ergueu a mo lentamente em um gesto de despedida. 

Ela acenava de volta, sorrindo. Tudo iria ficar bem. Ela iria voltar, eles todos iriam 

voltar. 

Mas o homem parecia aflito. 

Havia lgrimas descendo pelo seu rosto, lgrimas silenciosas de impotncia e 

vergonha que ela no conseguia compreender. 



GROSSO? POIS SUA ME adora - gargalhou Bertrand, piscando para Antoine. - 

Voc no adora, meu amor? No adora, chri? Ele circulava pela sala de estar, estalando 

os dedos no ritmo da msica de Amor, sublime amor. 

Eu me senti uma boba, uma idiota, na frente de Antoine. Por que Bertrand tinha 

tanto prazer em me fazer parecer a americana maledi-cente e preconceituosa, sempre 

crtica dos franceses? E por que eu s conseguia ficar ali parada e o deixava fazer isso? 

Havia sido engraado, num primeiro momento. No comeo do nosso casamento, era uma 

piada clssica, do tipo que fazia com que tanto os amigos franceses quanto os americanos 

gargalhassem estrondosamente. No comeo. 

Eu sorri, como de costume. Mas hoje meu sorriso me pareceu um tanto tenso. 

- Voc tem ido visitar Mame ultimamente? - perguntei. Bertrand j estava 

ocupado, medindo alguma coisa. 

- O qu? - Mame - repeti pacientemente. - Acho que ela gostaria de v-lo. Para 

falar sobre o apartamento. 

Os olhos dele encontraram os meus. 

- No tenho tempo, amour. Voc vai? Um olhar suplicante. 

- Bertrand, eu vou toda semana. Voc sabe disso. Ele suspirou. 

- Ela  sua av - eu disse. 

- E ela ama voc, lAmricaine. - Ele sorriu maliciosamente. - E eu tambm, bb. 

Aproximou-se para me beijar suavemente nos lbios. A americana. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 17 



- Ento voc  a americana - Mame havia declarado, h tantos anos, nesta mesma 

sala, examinando-me com suas ris cinzentas e pensativas. LAmricaine. Como aquilo havia 

me feito sentir americana, com meus cachos em camadas, meus tnis e um sorriso 

saudvel! E como extremamente francesa era essa senhora de 70 anos, com suas costas 

eretas, seu nariz aristocrata, seu coque impecvel nos cabelos e seus olhos perspicazes. E, 

mesmo assim, gostei de Mame desde o comeo, de sua risada surpreendente e gutural, de 

seu senso de humor seco. 

Mesmo hoje, eu tinha de admitir que gostava mais dela do que dos pais de 

Bertrand, que ainda me faziam sentir "a americana", embora eu j morasse em Paris h 25 

anos, j estivesse casada com o filho deles h 15 e houvesse dado  luz a primeira neta 

deles, Zo. 

Ao descer, novamente confrontando-me com o desagradvel reflexo no espelho 

do elevador, repentinamente me ocorreu que eu j tinha suportado as estocadas de 

Bertrand por tempo demais, e sempre encolhendo os ombros de maneira afvel. 

Hoje, pela primeira vez e por alguma razo obscura, senti que j tinha agentado 

o bastante. 



A MENINA PERMANECEU PERTO DOS PAIS. Eles caminharam a rua inteira. com 

o homem da capa de chuva bege mandando que se apressassem. 

Para onde estavam indo? ela se perguntava. Por que eles tinham que correr tanto? 

Mandaram que entrassem numa grande garagem. Ela reconheceu a rua, que no era longe 

de onde morava, de onde seu pai trabalhava. 

Na garagem, havia homens debruados sobre motores, usando macaces azuis 

manchados de leo. Os homens os olhavam fixamente, silenciosos. Ningum dizia nada. 

Foi ento que a menina viu um grupo grande de pessoas de p na garagem com bolsas e 

cestas aos seus ps. Na maioria, mulheres e crianas, ela observou. Ela conhecia 

ligeiramente algumas delas. Mas ningum ousava acenar ou dizer ol. Depois de algum 

tempo, dois policiais apareceram. Eles chamaram os nomes. O pai da menina levantou a 

mo quando o nome da famlia deles foi ouvido. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 18 



A menina olhou a sua volta. Viu um menino que conhecia da escola, Lon. Ele 

parecia cansado e assustado. Ela sorriu para ele, queria dizer-lhe que estava tudo bem, que 

eles iriam para casa em breve. Isso no ia durar muito, eles logo iriam ser mandados de 

volta. Mas Lon olhava fixamente como se ela fosse uma louca. Ela olhou para os prprios 

ps, com as bochechas vermelhas. Talvez ela tivesse entendido tudo errado. Seu corao 

estava aos pulos. Talvez as coisas no fossem acontecer como ela imaginara. Ela se sentiu 

muito ingnua, boba e criana. 

Seu pai se inclinou sobre ela. O queixo com a barba por fazer fez ccegas em sua 

orelha. Ele disse o nome dela. Onde estava o irmo? Ela lhe mostrou a chave. O irmozinho 

estava seguro no armrio secreto deles, ela sussurrou, orgulhosa de si mesma. Ele estaria a 

salvo l. 

Os olhos de seu pai se arregalaram e ficaram estranhos. Ele apertou o brao da 

menina com fora. Mas est tudo bem, ela disse, ele vai ficar bem.  um armrio fundo e l 

tem ar suficiente para ele respirar. E ele tem gua e a lanterna. Ele vai ficar bem, Papa. 

- Voc no compreende - disse o pai - voc no compreende. E, para seu pavor, 

ela viu que seus olhos se encheram de lgrimas. Ela puxou sua manga. No conseguia 

suportar ver seu pai chorar. 

- Papa - ela disse - ns vamos voltar para casa, no vamos? Ns vamos voltar 

depois que chamarem nossos nomes? O pai enxugou as lgrimas. Ele baixou o olhar para 

ela. Olhos tristes e terrveis que ela no suportava encarar. 

- No - ele disse - no vamos voltar. Eles no vo nos deixar voltar. 

Ela sentiu algo frio e horrvel atravess-la. Mais uma vez, ela se lembrou do que 

havia entreouvido, os rostos de seus pais observados por detrs da porta, o medo e a 

angstia deles no meio da noite. 

- O que voc quer dizer com isso, Papa? Para onde ns vamos? Por que no 

vamos voltar para casa? Me diz! Me diz! Ela quase gritou as ltimas palavras. 

O pai abaixou os olhos para encar-la. Ele disse seu nome mais uma vez, muito 

suavemente. Os olhos ainda estavam midos. Seus clios estavam pontilhados de lgrimas. 

Ele colocou a mo atrs de seu pescoo. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 19 



- Seja corajosa, meu amor. Seja corajosa, o mais corajosa que puder. Ela no podia 

chorar. Seu medo era to grande que parecia engolir tudo ao redor, parecia sugar cada 

emoo de dentro dela, como um aspirador forte e monstruoso. 

- Mas eu prometi a ele que eu ia voltar, Papa. Eu prometi a ele. 

A menina viu que ele havia comeado a chorar novamente, que ele no a estava 

ouvindo. Ele estava envolvido em sua prpria tristeza, em seu prprio medo. 

Foram todos mandados para fora. A rua estava vazia, exceto pelos nibus 

alinhados ao longo da calada. O tipo de nibus comum que a menina costumava tomar 

com a me e o irmo para andar pela cidade - nibus comuns, os verdes e brancos de 

todo dia, com plataformas na traseira. 

Receberam ordens para que entrassem nos nibus e foram empurrados uns contra 

os outros. A menina procurou novamente os uniformes cinza-esverdeados, pela lngua 

rude e gutural que ela havia aprendido a temer. Mas estes eram apenas policiais. Policiais 

franceses. 

Atravs do vidro empoeirado do nibus, ela reconheceu um deles, o jovem ruivo 

que a havia ajudado a atravessar a rua muitas vezes no caminho para casa, de volta da 

escola. Ela deu pancadinhas no vidro para atrair sua ateno. Quando seus olhos 

encontraram com os dela. ele rapidamente olhou para o outro lado. Parecia constrangido, 

quase aborrecido. Ela se perguntou por qu. Quando estavam sendo todos empurrados 

para dentro dos nibus, um homem protestou e foi forado violentamente pela polcia. 

Um policial gritou que atiraria caso algum tentasse escapar. 

Com desnimo, a menina observou os prdios e as rvores passando. Ela s 

conseguia pensar em seu irmo no armrio, na casa vazia, esperando por ela. S conseguia 

pensar nele. Cruzaram uma ponte e ela viu o Sena reluzindo. Para onde eles estavam indo? 

Papa no sabia. Ningum sabia. Estavam todos com medo. 

Um alto estrondo de trovo assustou a todos. A chuva caiu to pesadamente que 

o nibus teve que parar. A menina ouvia as gotas martelando o teto do nibus. No durou 

muito. Logo, o nibus retomou seu caminho, os pneus silvando sobre as pedras reluzentes 

da pavimentao. O sol apareceu. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 20 



O nibus parou e todos saram, carregados de trouxas, malas, crianas chorando. A 

menina no conhecia aquela rua. Ela nunca estivera ali. Viu o metr elevado numa das 

extremidades da rua. 

Eles foram levados para um grande prdio de cor plida. Havia algo escrito nele 

em enormes letras escuras, mas ela no conseguia decifrar. Viu que toda a rua estava cheia 

de famlias como a dela, descendo dos nibus. A polcia gritava com eles. A polcia 

francesa, novamente. 

Agarrada  mo do pai, ela foi empurrada para dentro de uma enorme arena 

coberta. Grupos de pessoas estavam amontoados no meio da arena, assim como nos 

duros assentos de ferro das galerias. Quantas pessoas? Ela no sabia. Centenas. E havia 

mais chegando. A menina olhou para cima, para a imensa clarabia azul em forma de 

abbada. O sol impiedoso brilhava atravs dela. 

Seu pai encontrou um lugar para se sentarem. A menina observava o ingresso 

constante de pessoas engrossando a multido. O barulho aumentou mais e mais, um 

zumbido constante de milhares de vozes, crianas chorando, mulheres gemendo. A 

temperatura subiu de forma insuportvel, ficando mais sufocante  medida que o sol se 

elevava no cu. Havia cada vez menos espao, e estavam todos amontoados uns contra os 

outros. Ela observava os homens, as mulheres, as crianas e seus rostos oprimidos, seus 

olhos amedrontados. 

- Papa - ela perguntou - quanto tempo vamos ficar aqui? - No sei, meu amor. 

- Por que a gente est aqui? Ela colocou a mo sobre a estrela amarela costurada 

na frente de sua blusa. 

-  por causa disso, no ? - ela disse. - Todo mundo aqui tem uma. Seu pai 

sorriu. Um sorriso triste, pattico. 

-  - ele respondeu. -  por causa disso. A menina franziu a testa. 

- No  justo, Papa - ela reclamou. - No  justo! Ele a abraou, dizendo seu 

nome com ternura. 

- Sim, minha querida, voc est certa. No  justo. 

Ela se sentou, apoiando-se nele com a face pressionada contra a estrela que ele 

tinha no palet. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 21 



Cerca de um ms antes, sua me havia costurado as estrelas em todas as suas 

roupas. Em todas as roupas da famlia, exceto nas do irmozinho pequeno. Antes disso, 

suas carteiras de identidade haviam sido carimbadas com as palavras "Judeu" ou "Judia". E 

depois, havia todas as coisas que eles no tinham mais permisso para fazer. Brincar no 

parque. Andar de bicicleta, ir ao cinema, ao teatro, ao restaurante,  piscina. No poder 

mais pegar emprestados os livros da biblioteca. 

Ela havia visto as placas que pareciam ter sido colocadas por toda parte: PROIBIDO 

PARA JUDEUS. E na porta do armazm onde seu pai trabalhava, um grande cartaz dizia: 

FIRMA JUDIA. Mame tinha que fazer compras depois das quatro horas da tarde, quando 

j no havia mais nada nas lojas por causa do racionamento. Eles tinham que tomar o 

ltimo vago do metr. E tinham que estar em casa antes do toque de recolher e no 

podiam sair de casa at a manh seguinte. O que eles tinham permisso para fazer? Nada. 

Nada, ela pensava. 

Injusto. To injusto! Por qu? Por que eles? Por que tudo isso? De repente, parecia 

que ningum podia explicar aquilo. 



JOSHUA J ESTAVA NA sala de reunies, bebendo o caf ralo de que ele tanto 

gostava. Entrei apressada e me sentei entre Bamber, o diretor de fotografia, e Alessandra, a 

editora de matrias especiais. 

A sala dava para a congestionada rue Marbeuf, a apenas alguns metros do 

Champs-Elyses. No era a minha rea favorita de Paris - tumultuada e espalhafatosa 

demais - mas eu estava acostumada a vir aqui todos os dias e caminhar pela avenida, 

seguindo as caladas largas e empoeiradas, lotadas de turistas durante todas as horas do 

dia, no importando qual fosse a estao. 

Eu vinha escrevendo para a revista americana semanal Seine Scenes durante os 

ltimos seis anos. Publicvamos uma edio em papel, alm da verso on-line. Em geral, 

eu escrevia crnicas sobre qualquer evento capaz de interessar a um pblico americano 

baseado em Paris. Isso inclua "a cor local", o que ia desde a vida social e cultural - 

espetculos, filmes, restaurantes, livros - at as eleies presidenciais francesas, que 

estavam prximas. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 22 



Na verdade, era um trabalho difcil. Os prazos eram apertados. Joshua era um 

tirano. Eu gostava dele, mas ele era um tirano. Era o tipo de chefe que tinha pouco 

respeito por vidas particulares, casamentos e filhos. Se algum engravidasse, se tornava 

uma pessoa sem importncia. Se algum estivesse com o filho doente, era encarado com 

raiva. Mas ele tinha um olho perspicaz, excelente experincia editorial e um dom fantstico 

para a ocasio perfeita. Todos ns nos curvvamos para ele. Reclamvamos toda vez que 

virava as costas, mas no vamos um fim para isso. Cinqento, nascido e criado em Nova 

York, ele havia passado os ltimos dez anos em Paris. Joshua parecia enganosamente 

plcido. Tinha um rosto alongado e olhos cados. Mas, no minuto em que abria a boca, ele 

dominava. As pessoas escutavam o que Joshua tinha a dizer. E ningum jamais o 

interrompia. 

Bamber era de Londres e tinha quase 30 anos. Com quase 2 metros de altura, 

usava culos com lentes arroxeadas, ostentava vrios piercings pelo corpo e tingia os 

cabelos de laranja. Ele tinha um maravilhoso senso de humor britnico que eu achava 

irresistvel, mas que Joshua raramente compreendia. Eu tinha muita simpatia por Bamber. 

Ele era um colega eficiente e discreto. Era tambm um apoio maravilhoso quando Joshua 

estava em um dia ruim e descarregava sua fria em cima de ns. Bamber era um aliado 

precioso. 

Alessandra era meio italiana, de pele suave, e terrivelmente ambiciosa. Uma moa 

bonita com a cabea coberta de cachos negros e brilhantes e o tipo de boca mida e 

rechonchuda que fazia os homens ficarem chapados. Eu jamais consegui me decidir se 

gostava dela ou no. Ela tinha a metade da minha idade e j recebia um salrio igual ao 

meu, mesmo que o meu nome estivesse acima do dela no expediente. 

Joshua examinou as pautas para os prximos exemplares. Havia um artigo 

alentado sobre as eleies presidenciais, um tpico importante desde a controvertida 

vitria de Jean-Marie le Pen no primeiro turno. Eu no estava muito ansiosa para escrever 

sobre isso e fiquei secretamente feliz quando a matria foi designada para Alessandra. 

- Julia - disse Joshua, olhando para mim por cima dos culos - esta aqui  a sua 

praia. A sexagsima comemorao do Vel' d'Hiv. 

Eu pigarreei. O que foi que ele disse? Parecia "veldif". 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 23 



Deu um branco na minha cabea. 

Alessandra olhou para mim com superioridade. 

- Dezesseis de julho de 1942? Isso lembra alguma coisa? - ela perguntou. s vezes 

eu odiava sua voz anasalada de Senhora Sabe-tudo. Como ela fez hoje. 

Joshua continuou. 

- A grande concentrao no Vlodrome d'Hiver. Vel' d'Hiv  a forma abreviada 

desse nome. Um famoso estdio fechado onde eram realizadas corridas de bicicleta. 

Milhares de famlias judias, trancadas l durante dias, em condies aterrorizantes. Depois, 

enviadas para Auschwitz. E colocadas nas cmaras de gs. 

Aquilo realmente me lembrou alguma coisa. Mas apenas ligeiramente. 

- Sim - eu disse com firmeza, olhando para Joshua. - Est bem, e da? Ele encolheu 

os ombros. 

- Bem, voc poderia comear procurando sobreviventes ou testemunhas do Vel' 

d'Hiv. Depois verifique a comemorao em si, quem est organizando, onde, quando. 

Finalmente, os fatos. O que aconteceu exatamente. Ser um trabalho delicado, voc sabe. 

Os franceses no gostam de falar sobre Vichy, Ptain, essas coisas. No  algo de que 

tenham muito orgulho. 

- H um homem que poder ajud-la - disse Alessandra, com um pouco menos 

de superioridade. - Franck Lvy. Ele criou uma das maiores associaes para auxiliar judeus 

a encontrar suas famlias aps o Holocausto. 

- J ouvi falar dele - eu disse, anotando o nome. E tinha mesmo. Franck Lvy era 

uma figura pblica. Ele dava conferncias e escrevia artigos sobre bens roubados de 

judeus e os horrores da deportao. 

Joshua engoliu outro caf. 

- Nada de gua-com-acar - ele disse. - Sem sentimentalismo. Fatos. 

Testemunhos. E - olhando para Bamber - fotos boas e eloqentes. Procurem material 

antigo tambm. No h muita coisa disponvel, vocs iro descobrir, mas talvez esse Lvy 

possa ajud-los. 

- Vou comear por uma ida ao Vel' d'Hiv - disse Bamber. - Vou dar uma olhada. 

Joshua deu um sorriso estranho. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 24 



- O Vel' d'Hiv no existe mais. Foi demolido em 1959. 

- Onde era? - perguntei, feliz por no ser a nica ignorante. Alessandra respondeu 

mais uma vez. 

- Rue Nlaton. No dcimo quinto arrondissement. 

- Ainda assim, podemos ir l - eu disse, olhando para Bamber. - Talvez haja 

pessoas morando na rua que se lembrem do que aconteceu. 

Joshua deu de ombros. 

- Voc pode tentar - ele disse. - Mas acho que no vai encontrar muitas pessoas 

dispostas a falar com voc. Como eu disse, os franceses so sensveis. Esse assunto  

extremamente delicado. No se esquea de que foi a polcia francesa que prendeu todas 

aquelas famlias judias. No foram os nazistas. 

Ouvindo Joshua, percebi como eu sabia pouco sobre o que aconteceu em Paris em 

julho de 1942. Eu no havia aprendido sobre isso na escola em Boston. E, desde que 

chegara a Paris h 25 anos, eu no lera muito sobre o assunto. Era como um segredo. Algo 

enterrado no passado. Algo que ningum mencionava. Eu estava ansiosa por me sentar na 

frente do computador e comear a pesquisar na internet. 

Assim que a reunio terminou, fui at meu escritrio, que era um pequeno 

cubculo com vista para a barulhenta rue Marbeuf. Tnhamos um espao de trabalho 

apertado. Mas eu estava acostumada. No me incomodava. Eu no tinha espao para 

escrever em casa. Bertrand havia prometido que eu teria um grande cmodo para mim no 

apartamento novo. Meu prprio escritrio particular. Finalmente. Parecia bom demais para 

ser verdade. O tipo de luxo ao qual eu levaria um tempo para me acostumar. 

Liguei o computador, conectei-me  internet e entrei no Google. Digitei: 

"vbdrome d'hiver vel' d'hiv". Os resultados da busca foram numerosos. A maioria deles 

em francs. Muitos eram bastante detalhados. 

Fiquei lendo a tarde toda. No fiz nada mais alm de ler, armazenar informaes e 

procurar livros sobre a Ocupao e as batidas policiais. Percebi que muitos dos livros 

estavam fora de catlogo. Perguntei-me qual era a razo. Por que ningum queria ler 

sobre o Vel' d'Hiv? Por que ningum mais se importava? Liguei para algumas livrarias. 

Disseram-me que seria difcil conseguir alguns livros. Por favor, tente, insisti. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 25 



Quando desliguei o computador, senti-me extremamente cansada. Meus olhos 

estavam doloridos. Minha cabea e meu corao estavam pesados com tudo o que eu 

havia descoberto. 

Mais de 4 mil crianas judias foram confinadas no Vel' d'Hiv com idades entre 2 e 

12 anos. A maioria das crianas era francesa. 

Nenhuma delas voltou de Auschwitz.



O DIA SE ARRASTAVA SEM 

. 

FIM Insuportvel. Aconchegada com a me, a 

menina observava as famlias  sua volta lentamente perderem a sanidade. No havia nada 

para beber, nada para comer. O calor era sufocante. O ar estava impregnado de uma 

poeira seca e leve que fazia arder os olhos e a garganta. 

Os enormes portes do estdio estavam fechados. Ao longo de cada parede, 

policiais de rostos mal-encarados os ameaavam silenciosamente com as mos nas armas. 

No havia lugar para onde ir. Nada para fazer, a no ser sentar ali e esperar. Esperar o qu? 

O que iria acontecer com eles, com sua famlia, com essa massa de gente? Junto com seu 

pai, eles tentaram encontrar os banheiros no outro lado da arena. Foram recebidos por um 

mau cheiro inimaginvel. Havia muito poucos sanitrios para tal multido, e eles logo 

pararam de funcionar. A menina teve que se acocorar contra a parede para se aliviar, 

lutando contra uma avassaladora nsia de vmito, com sua mo espalmada contra a boca. 

As pessoas estavam urinando e defecando onde podiam, envergonhadas, humilhadas, 

agachadas como animais perto do cho imundo. Ela viu uma senhora cheia de dignidade 

se escondendo atrs do casaco do marido. Outra mulher ofegava de horror, apertando as 

mos contra a boca e o nariz, sacudindo a cabea. 

A menina seguiu o pai atravs da multido, de volta ao local onde haviam deixado 

a me. Tiveram que abrir caminho. As galerias estavam abarrotadas de trouxas, sacolas, 

colches e beros. A arena era uma massa negra de gente. Quantas - a menina se 

perguntava - quantas pessoas 40 havia ali? Crianas corriam pelos corredores, enlameadas, 

sujas, gritando por gua. Uma mulher grvida, enfraquecida de calor e sede, gritava a 

plenos pulmes que ia morrer, que ia morrer naquela hora. Repentinamente, um senhor 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 26 



caiu estatelado no cho empoeirado. Seu rosto azulado se contorceu e estremeceu. 

Ningum se moveu. 

A menina sentou-se perto da me. A mulher estava calada. Ela quase no falava. A 

menina pegou sua mo e a apertou. A me no reagiu. O pai se levantou para pedir gua 

a um policial para sua filha e esposa. O homem respondeu rispidamente que no havia 

gua naquele momento. O pai disse que aquilo era abominvel, que eles no podiam ser 

tratados como ces. O policial virou-lhe as costas. 

A menina viu Lon novamente, o menino que ela vira na garagem. Ele estava 

perambulando no meio da multido, procurando os portes. Ela percebeu que ele no 

estava usando sua estrela amarela. Ela havia sido arrancada. Ela se levantou e foi at ele. 

Seu rosto estava encardido. Havia um hematoma em sua face esquerda e outro sobre a 

clavcula. Ela se perguntou se tambm estava com aquela aparncia cansada e abatida. 

- Vou sair daqui - ele disse em voz baixa. - Meus pais me disseram para ir embora. 

Agora. 

- Mas como? - ela perguntou. - A polcia no vai deixar voc passar. O menino 

olhou para ela. Tinha a sua idade, 10 anos, mas parecia ser mais velho. J no havia mais 

nada de menino nele. 

- Vou descobrir um jeito - ele disse. - Meus pais me disseram para ir embora. Eles 

arrancaram a minha estrela.  a nica forma. De outro modo, ser o fim. O fim de todos 

ns. 

Novamente, ela sentiu o medo tomar conta dela. O fim? Esse menino estaria 

certo? Era mesmo o fim? Ele a encarava firmemente, com um leve desdm. 

- Voc no est acreditando em mim, no ? Voc devia vir junto comigo. 

Arranque sua estrela e venha comigo agora. Vamos nos esconder. Eu vou tomar conta de 

voc. Eu sei o que fazer. 

Ela pensou em seu irmozinho esperando no armrio. Com os dedos, ela mexeu 

na chave lisa em seu bolso. Poderia ir com esse menino gil e esperto. Poderia salvar seu 

irmo e a si mesma. 

Mas se sentia pequena demais, vulnervel demais para fazer algo assim, sozinha. 

Estava com muito medo. E seus pais... Sua me, seu pai... O que aconteceria com eles? Ser 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 27 



que esse menino estava dizendo a verdade? Ser que ela podia confiar nele? Ele colocou 

uma das mos no brao dela, percebendo sua relutncia. 

- Vem comigo - ele insistiu. 

- Eu no sei - ela murmurou. Ele se afastou. 

- Eu j me decidi. Estou indo embora. Adeus. 

Ela o observou aproximar-se da entrada. A polcia estava fazendo com que mais 

pessoas entrassem: senhores em macas e cadeiras de rodas, grupos interminveis de 

crianas choramingando, mulheres aos prantos. Ela observou Lon se esgueirar por entre a 

multido, esperando pelo momento certo. 

A certa altura, um policial o agarrou pela gola e o empurrou de volta. gil e rpido, 

ele se levantou, voltando sorrateiramente na direo dos portes, como um nadador 

lutando habilmente contra a correnteza. A menina observava, fascinada. 

Um grupo de mes gritava na entrada, exigindo com fria gua para as crianas. A 

polcia pareceu momentaneamente confusa, sem saber o que fazer. A menina viu o garoto 

deslizar facilmente em meio ao pandemnio, rpido como um raio. Depois, ele sumiu. 

Ela voltou para perto de seus pais. A noite comeou a cair lentamente e, com ela, a 

menina sentiu que seu desespero, e o das milhares de pessoas trancadas l dentro com 

ela, comeou a crescer, como algo monstruoso, fora de controle, um desespero completo 

e absoluto que a encheu de pnico. 

Ela tentou fechar os olhos, o nariz e os ouvidos para bloquear o mau cheiro, a 

poeira, o calor, os uivos de sofrimento, a viso de adultos chorando, de crianas gemendo, 

mas no conseguia. 

Conseguia apenas observar, impotente, silenciosa. L no alto, perto da clarabia, 

onde as pessoas estavam sentadas em pequenos grupos, ela percebeu uma sbita 

comoo. Um grito de cortar o corao, uma chuva de roupas caindo em cascata por 

sobre os balces e um baque surdo sobre o cho duro da arena. Depois, um suspiro na 

multido. 

- Papa, o que foi aquilo? - ela perguntou. 

O pai tentou virar o rosto dela para o outro lado. 

- Nada, querida, nada. Apenas algumas roupas caindo l de cima. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 28 



Mas ela tinha visto. Ela sabia o que era. Uma jovem, da idade de sua me, e uma 

criana pequena. A mulher havia saltado do parapeito mais alto, abraada ao seu filho. 

De onde a menina estava, ela podia ver o corpo desconjuntado da mulher, o 

crnio ensangentado da criana, aberto como um tomate maduro. 

A menina baixou a cabea e chorou. 



QUANDO EU ERA MENINA, morando no da Hyslop Road em Brookline, 

Massachusetts, jamais imaginei que um dia me mudaria para a Frana e me casaria com 

um francs. Pensei que iria ficar nos Estados Unidos durante toda a minha vida. Aos 11 

anos, eu tinha uma quedinha pelo Evan Frost, nosso vizinho. Sardento, um tipo 

caracterstico de Norman Rockwell, usava aparelho nos dentes e tinha um co, Inky, que 

gostava de fazer travessuras sobre os lindos canteiros de flores de meu pai. 

Meu pai, Sean Jarmond, era professor do MIT. Do tipo "cientista louco", com o 

cabelo desalinhado e culos que pareciam os olhos de uma coruja. Ele era bastante 

popular, os estudantes gostavam dele. Minha me, Heather Carter Jarmond, era uma ex-

campe de tnis de Miami, aquele tipo de mulher esportista, bronzeada, magra, que 

parecia nunca envelhecer. Ela gostava de ioga e de comida saudvel. 

Aos domingos, meu pai e o vizinho, sr. Frost, embarcavam em interminveis 

embates de gritos atravs da cerca viva pelo fato de Inky ter estragado as tulipas de meu 

pai, enquanto minha me fazia bolinhos de farelo de cereais e mel na cozinha e suspirava. 

Ela era avessa a conflitos. Sem dar ateno ao pandemnio, minha irmzinha Charla 

assistia a Gilligans Island ou a Speed Racer na sala de TV, devorando quilos de alcauz 

vermelho. No andar de cima, Katy Lacy, minha melhor amiga, e eu ficvamos olhando por 

detrs das cortinas para o lindo Evan Frost se divertindo com o objeto do furor de meu pai, 

um labrador negro. 

Foi uma infncia feliz e protegida. Sem acessos, sem cenas. A Runkle School ficava 

no fim da rua. Calmos dias de Ao de Graas. Natais aconchegantes. Longos veres 

preguiosos em Nahant. Semanas pacficas fundindo-se em meses pacficos. A nica coisa 

que me deixava morta de medo era quando minha professora da quinta srie, a loura 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 29 



plida Miss Sebold, lia O Corao Delator de Edgar Allan Poe. Graas a ela, tive pesadelos 

durante anos. 

Foi durante a minha adolescncia que senti os primeiros anseios pela Frana, uma 

fascinao insidiosa que aumentou com a passagem do tempo. Por que a Frana? Por que 

Paris? A lngua francesa sempre tinha me atrado. Eu a achava mais suave, mais sensual do 

que o alemo, o espanhol ou o italiano. Eu costumava fazer excelentes imitaes do 

gamb francs dos Looney Tunes, Pepe Le Pew. Mas, l no fundo, eu sabia que minha 

crescente atrao por Paris no tinha nada a ver com os tpicos clichs americanos de 

romance, sofisticao e sensualidade. Era algo alm disso. 

Quando descobri Paris, fui rapidamente atrada por seus contrastes. Os bairros 

toscos e espalhafatosos me atraam tanto quanto os majestosos bairros Haussmannianos. 

Eu adorava seus paradoxos, seus segredos, suas surpresas. Levei 25 anos para conseguir 

me encaixar na paisagem, mas consegui. Aprendi a suportar os garons impacientes e os 

grosseiros motoristas de txi. Aprendi a dirigir pela Place de l'Etoile, imune aos insultos 

berrados contra mim pelos irados motoristas de nibus e - ainda mais surpreendente - 

por louras elegantes e radiantes em brilhantes Minis pretos. Aprendi a domar concierges 

arrogantes, vendedoras esnobes, telefonistas blases e mdicos pomposos. Aprendi como 

os parisienses se consideram superiores ao restante do mundo, e especificamente a todos 

os outros cidados franceses que morem de Nice a Nancy, com um desdm particular 

dirigido aos habitantes dos subrbios da Cidade das Luzes. Aprendi como o restante da 

Frana apelidou os parisienses de "caras de cachorro" com a rima "Parisien, tte de chier 

Obviamente, eles no eram muito chegados aos parisienses. Ningum amava Paris mais do 

que um verdadeiro parisiense. Ningum tinha mais orgulho de sua cidade do que um 

verdadeiro parisiense. Ningum era mais arrogante, mais convencido e to irresistvel. Por 

que eu amava tanto Paris? Eu ficava imaginando. Talvez porque ela jamais tenha se 

rendido a mim. Ela pairava sedutoramente perto, e ainda assim me fazia saber qual era o 

meu lugar. A americana. Eu seria sempre a americana. LAmricaine. 

Eu sabia que queria ser jornalista quando tinha a idade de Zo. Primeiro, comecei 

a escrever para o jornal da escola, e nunca parei desde ento. Vim morar em Paris quando 

tinha pouco mais de 20 anos, depois de me formar pela Universidade de Boston em lngua 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 30 



inglesa. Meu primeiro emprego foi como assistente jnior para uma revista americana de 

moda que logo abandonei. Eu procurava tpicos mais substanciais do que comprimentos 

de saias ou as cores para a primavera. 

Peguei o primeiro emprego que surgiu. Reescrever press releases para uma rede 

de TV americana. O salrio no era exatamente fantstico, mas era suficiente para que eu 

me mantivesse, morando no dcimo oitavo arrondissement, dividindo um apartamento 

com dois gays, Herv e Christophe, que se tornaram amigos constantes desde ento. 

Naquela semana, eu tinha um jantar com eles na rue Berthe, onde eu havia 

morado antes de conhecer Bertrand. Ele raramente me acompanhava. s vezes eu me 

perguntava por que ele no tinha o menor interesse em Herv e Christophe. 

- Porque seu querido marido, cocotte, como quase todo cavalheiro francs 

burgus abastado, prefere mulheres a homossexuais! Eu quase podia ouvir a voz lnguida 

de minha amiga Isabelle, sua risadinha maliciosa. Sim, ela estava certa. Bertrand era 

definitivamente f das mulheres. Em larga escala, Charla diria. 

Herv e Christophe ainda moravam no mesmo lugar que eu havia dividido com 

eles. Exceto que meu pequeno quarto era agora um grande closet. Christophe era uma 

vtima da moda e tinha orgulho disso. Eu me deliciava com os jantares deles. Sempre havia 

uma mistura interessante de pessoas - uma modelo famosa ou um cantor, um escritor 

controvertido, um vizinho gay e bonito, um ou outro jornalista americano ou canadense ou 

algum jovem editor em incio de carreira. Herv trabalhava como advogado para uma 

firma internacional e Christophe era professor de ioga. 

Eles eram meus verdadeiros e queridos amigos. Eu tinha outros amigos aqui, 

expatriados americanos - Holly, Susannah e Jan - que conheci por meio da revista ou do 

colgio americano onde eu ia com freqncia para colocar anncios procurando babs. Eu 

tinha at mesmo algumas amigas francesas - como Isabelle, amizade feita nas aulas de 

bal de Zo na Salle Pleyel - mas Herv e Christophe eram aqueles para quem eu ligava  

uma da manh quando Bertrand estava sendo difcil. Aqueles que foram ao hospital 

quando Zo quebrou o tornozelo ao cair da patinete. Aqueles que jamais esqueciam meu 

aniversrio. Aqueles que sabiam a que filmes assistir, que discos comprar. As refeies com 

eles eram invariavelmente uma delcia, primorosas e  luz de velas. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 31 



Cheguei com uma garrafa de champanhe gelado. Christophe ainda estava no 

chuveiro, explicou Herv, cumprimentando-me  porta. Em torno dos 40 anos, Herv era 

magro, usava bigode e era muito cordial. Fumava como uma chamin. Era impossvel faz-

lo parar. Por isso, todos ns desistimos. 

- Que casaco bonito - ele comentou, colocando o cigarro no cinzeiro para abrir o 

champanhe. 

Herv e Christophe sempre notavam o que eu estava vestindo, se eu estava com 

um perfume novo, uma nova maquiagem, um novo penteado. Quando eu estava com eles, 

jamais me sentia como rAmricaine tentando desesperadamente acompanhar os chiques 

parisienses. Eu me sentia eu mesma. E eu amava isso neles. 

- Esse verde-azulado fica muito bem em voc, combina divinamente com seus 

olhos. Onde voc comprou? - perguntou Herv. 

- Na H&M, na rue de Rennes. 

- Voc est esplndida. Ento, como vo indo as coisas no apartamento? - ele 

perguntou, entregando-me um copo e uma torrada quente coberta com tarama cor-de-

rosa. 

- H muita coisa ainda por fazer - suspirei. - Vai levar meses. 

- E eu imagino que o arquiteto em forma de marido esteja excitado com a coisa 

toda. 

Estremeci. 

- Voc quer dizer que ele  infatigvel. 

- Ah - disse Herv. - E, portanto, um p no saco para voc. 

- Acertou - respondi, bebendo o champanhe. 

Herv me olhou de perto atravs de seus culos minsculos e sem aro. Ele tinha 

olhos cinza-plido e clios ridiculamente longos. 

- Diga, Juju - ele falou - voc est bem? Sorri animadamente. 

- Sim, estou bem. 

Mas "bem" estava longe do que eu realmente sentia. O conhecimento recente 

sobre os eventos de julho de 1942 havia despertado uma vulnerabilidade dentro de mim, 

precipitando algo profundo e silencioso que me assombrava, que me sobrecarregava. Eu 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 32 



havia carregado aquele peso comigo durante toda a semana, desde que comeara a 

pesquisar sobre a concentrao no Vel' d'Hiv - Voc est estranha - disse Herv, 

preocupado. Veio se sentar perto de mim, colocando sua mo branca e longilnea sobre o 

meu joelho. - Eu conheo este rosto, Julia. Este  o seu rosto triste. Agora me diga o que 

est acontecendo. 



A NICA FORMA DE BLOQUEAR todo aquele inferno  sua volta era enterrar a 

cabea entre os joelhos pontudos e tampar os ouvidos com as mos. Ela balanava para a 

frente e para trs. pressionando o rosto contra as pernas. Pense em coisas boas, pense em 

todas as coisas de que voc gosta, em todas as coisas que fazem voc feliz, em todos 

aqueles momentos mgicos e especiais de que voc se lembra. Sua me levando-a para o 

cabeleireiro e todos a cumprimentando pelos cabelos encorpados cor de mel. Voc vai ter 

orgulho desse cabelo mais tarde, ma petite! As mos de seu pai trabalhando o couro no 

armazm, rpidas e fortes, e como ela admirava sua habilidade. Seu aniversrio de 10 anos 

e o relgio novo, a linda caixa azul, a correia de couro que seu pai havia feito, seu aroma 

delicioso e inebriante, e o discreto tique-taque do relgio que a fascinou. Ela havia ficado 

to orgulhosa! Mas mame havia dito para no us-lo na escola. Poderia quebr-lo ou 

perd-lo. Apenas sua melhor amiga, Armelle, o vira. E ela tinha ficado com tanta inveja! 

Onde estaria Armelle agora? Ela morava no fim da rua e freqentavam a mesma escola. 

Mas Armelle havia sado da cidade no incio das frias escolares. Fora para algum lugar 

com os pais, algum lugar no sul. Ela escrevera uma carta e nada mais. Armelle era mida, 

ruiva e muito inteligente. Sabia de cor toda a tabuada de multiplicar, e dominava at 

mesmo a gramtica mais complicada. 

Armelle nunca tinha medo, e a menina admirava isso nela. Mesmo quando as 

sirenes disparavam no meio da aula, uivando como lobos furiosos, fazendo todos darem 

um sobressalto, Armelle permanecia calma, controlada, tomando a mo da menina e 

guiando-a ao descer para o mofado poro da escola, impermevel a todos os 

amedrontados sussurros das outras crianas e s ordens trmulas de Mademoiselle 

Dixsaut. E eles se amontoavam com os ombros colados, na umidade escura, com a luz das 

velas bruxuleando sobre os rostos plidos, durante o que pareciam horas, e ouviam o 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 33 



ronco dos avies bem acima de suas cabeas, enquanto Mademoiselle Dixsaut lia Jean de 

La Fontaine ou Molire e tentava fazer com que suas mos parassem de tremer. Olhe para 

as mos dela, Armelle falava dando risadinhas. Ela est com medo, ela quase no 

consegue ler, olhe s. E a menina olhava para Armelle, maravilhada, e sussurrava: "Voc 

no est com medo? Nem um pouquinho?" Um desdenhoso balanar de sedosos cachos 

vermelhos. No, no estou com medo. E, s vezes, quando o estremecimento causado 

pelas bombas penetrava no cho encardido, fazendo com que a voz de Mademoiselle 

Dixsaut vacilasse e parasse, Armelle agarrava a mo da menina e a apertava com fora. 

Sentia saudade de Armelle e queria que ela estivesse aqui agora para segurar sua 

mo e dizer-lhe para no ter medo. Sentia saudades das sardas de Armelle, de seus 

travessos olhos verdes e seu sorriso insolente. Pense nas coisas que voc ama, nas coisas 

que fazem voc feliz. 

No vero passado, ou dois veres antes, ela no conseguia se lembrar, Papa os 

havia levado para passar alguns dias no campo perto de um rio. Ela no conseguia lembrar 

o nome do rio. Mas a gua havia proporcionado uma sensao muito suave e maravilhosa 

em sua pele. Seu pai havia tentado ensinar-lhe a nadar. Aps alguns dias, ela conseguiu 

um nado deselegante estilo cachorrinho que fez todos rirem. Na beira do rio, seu irmo 

tinha ficado louco de felicidade e excitao. Ele era pequeno na poca, apenas havia 

comeado a andar. Ela havia passado o dia correndo atrs dele enquanto ele escorregava e 

emitia sons agudos na margem lamacenta. E mame e Papa pareciam to calmos, jovens e 

apaixonados, a cabea da me encostada no ombro do pai. Ela se lembrou do pequeno 

hotel  beira do rio, onde eles haviam desfrutado de refeies simples e suculentas sob o 

caramancho fresco e frondoso, e de quando a patronne havia pedido a ela que a ajudasse 

atrs do balco. E l estava ela servindo caf e se sentindo muito adulta e orgulhosa, at 

derramar caf no p de algum, mas a patronne havia sido muito gentil com relao a 

isso. 

A menina levantou a cabea e viu sua me conversando com Eva, uma moa que 

morava perto deles. Eva tinha quatro filhos pequenos, uma penca de meninos barulhentos 

de quem a menina no gostava muito. O rosto de Eva, como o de sua me, parecia 

abatido e envelhecido. Ela imaginava como  que eles podiam ficar parecendo muito mais 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 34 



velhos de uma hora para outra. Eva era polonesa tambm. Seu francs, como o de sua 

me, no era muito bom. Como a me e o pai da menina, Eva tinha famlia na Polnia. 

Seus pais, tios e tias. A menina se lembrava do terrvel dia - quando tinha sido? - no 

muito tempo antes, quando Eva recebera uma carta da Polnia e aparecera no 

apartamento com o rosto coberto de lgrimas e desabara nos braos de sua me. Sua me 

tinha tentado confort-la, mas a menina podia sentir que ela tambm estava abalada. 

Ningum queria lhe dizer exatamente o que havia acontecido, mas a menina 

compreendeu, prestando ateno a cada palavra em idiche que conseguia entender por 

entre os soluos. Era alguma coisa terrvel na Polnia. Famlias inteiras haviam sido 

assassinadas, casas queimadas, somente cinzas e runas haviam restado. Ela perguntara a 

seu pai se seus avs, os pais de sua me, estavam a salvo, aqueles cuja fotografia em 

preto-e-branco estava sobre a lareira de mrmore na sala de estar. Seu pai havia dito que 

no sabia. Que ele havia recebido notcias muito ruins da Polnia. Mas ele no havia 

contado a ela que notcias eram essas. 

Enquanto ela olhava para Eva e para sua me, se perguntava se seus pais tinham 

razo em proteg-la de tudo, se eles tinham razo em manter as notcias ruins e 

perturbadoras longe dela. Se eles tinham razo em no explicar por que tantas coisas 

haviam mudado para eles desde o incio da guerra. Como quando o marido de Eva nunca 

mais voltara, desde o ano passado. Ele havia desaparecido. Onde? Ningum lhe dizia. 

Ningum explicava. Ela odiava ser tratada como um beb. Ela odiava as vozes que se 

abaixavam quando ela entrava na sala. 

Se eles houvessem contado a ela, se eles houvessem contado tudo o que sabiam, 

isso no teria tornado o dia de hoje mais fcil? 



ESTOU BEM, APENAS CANSADA, s isso. Ento, quem  que vem hoje  noite? 

Antes que Herv pudesse responder, Christophe entrou na sala - uma viso do chique 

parisiense em tons caquis e creme, exalando perfume masculino caro. Christophe era um 

pouco mais jovem do que Herv, bronzeado o ano inteiro, era magro e estava usando seus 

longos cabelos grisalhos presos na nuca em um grosso rabo-de-cavalo,  la Karl Lagerfeld. 

Quase ao mesmo tempo, a campainha tocou. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 35 



- Aha - disse Christophe, jogando-me um beijo - deve ser Guillaume. 

Ele correu para a porta da frente. 

- Guillaume? - perguntei baixinho para Herv. 

- Nosso novo amigo. Trabalha na rea de marketing. Divorciado. Um rapaz 

brilhante. Voc vai gostar dele.  o nosso nico convidado. Todo mundo est fora da 

cidade por causa do feriado prolongado. 

O homem que entrou na sala era alto, moreno, na casa dos trinta e tantos anos. 

Estava trazendo uma vela perfumada embrulhada e rosas. 

- Esta  Julia Jarmond - disse Christophe. - Nossa queridssima amiga jornalista 

desde h muito, muito tempo, quando ramos jovens. 

- O que foi apenas ontem - murmurou Guillaume, no verdadeiro estilo francs 

galante. 

Tentei manter um sorriso simptico no rosto, consciente dos olhos inquiridores de 

Herv movendo-se para mim de vez em quando. Era 52 esquisito, porque normalmente eu 

teria confiado em Herv. Eu lhe teria dito como andava me sentindo estranha na ltima 

semana. E a questo com Bertrand. Eu sempre tinha aturado o senso de humor 

provocativo, s vezes francamente maldoso, de Bertrand. Isso nunca havia me magoado. 

Nunca havia me incomodado. At agora. Eu costumava admirar sua inteligncia, seu 

sarcasmo. Isso tinha feito com que eu o amasse ainda mais. 

As pessoas riam de suas piadas. Elas at tinham um pouco de receio dele. Atrs da 

risada irresistvel, dos olhos cintilantes cinza-azulados, do sorriso charmoso, havia um 

homem duro e exigente que estava acostumado a conseguir o que queria. Eu tinha 

aceitado isso porque ele se desculpava todas as vezes que percebia que havia me 

magoado. Ele me cobria de presentes, flores e sexo apaixonado. A cama era 

provavelmente o nico lugar em que Bertrand e eu verdadeiramente nos comunicvamos, 

o nico lugar onde ningum dominava o outro. Eu me lembro de Charla me dizendo uma 

vez, depois de testemunhar uma tirada particularmente mordaz lanada por meu marido: - 

Esse cara insuportvel alguma vez  gentil com voc? E, vendo meu rosto enrubescer 

lentamente, disse: - Meu Deus. J entendi. Coisas de cama. As aes falam mais alto do 

que as palavras. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 36 



E ela havia suspirado e afagado minha mo. Por que eu no abri o jogo para Herv 

esta noite? Algo havia me impedido. Algo havia selado meus lbios. 

Depois de estarmos sentados em torno na mesa de mrmore octo-gonal, 

Guillaume me perguntou para que jornal eu trabalhava. Quando respondi, seu rosto 

permaneceu impassvel. No fiquei surpresa. Os franceses nunca haviam ouvido falar do 

Seine Scenes. Ele era lido principalmente por americanos que moravam em Paris. Isso no 

me incomodou; eu jamais almejei a fama. Estava feliz com um emprego que me pagava 

bem e me deixava com muitas horas livres, apesar do despotismo ocasional de Joshua. 

- E sobre o que voc est escrevendo no momento? - perguntou Guillaume 

educadamente, enrolando o macarro verde no garfo. 

- O Vel' d'Hiv - respondi. - O sexagsimo aniversrio est chegando. 

- Voc est falando da batida policial durante a guerra? - perguntou Christophe 

com a boca cheia. 

Eu estava prestes a responder quando percebi que o garfo de Guillaume havia 

parado a meio caminho entre o prato e a boca. 

- Sim, a grande concentrao no Vlodrome d'Hiver - respondi. 

- Isso no aconteceu em algum lugar fora de Paris? - Christophe continuou, 

mastigando a comida. 

Guillaume havia baixado o garfo, silenciosamente. De alguma forma, seus olhos 

haviam ficado presos aos meus. Ele tinha olhos escuros e uma boca fina e sensvel. 

- Foram os nazistas, creio eu - disse Herv, servindo-se de mais Chardonnay. 

Nenhum deles pareceu ter percebido o rosto tenso de Guillaume. - Os nazistas que 

prenderam judeus durante a Ocupao. 

- Na verdade, no foram os alemes - comecei. 

- Foi a polcia francesa - interrompeu Guillaume. - E aconteceu no meio de Paris. 

Em um estdio onde costumavam ser realizadas famosas corridas de bicicleta. 

-  mesmo? - perguntou Herv. - Pensei que tivessem sido os nazistas, nos 

subrbios. 

- Andei pesquisando sobre isso na ltima semana - eu disse. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 37 



- Ordens alems, sim, mas foi uma ao da polcia francesa. Vocs no 

aprenderam isso na escola? - Eu no me lembro. Acho que no - admitiu Christophe. 

Os olhos de Guillaume olharam-me novamente, como se ele estivesse puxando 

algo de dentro de mim, sondando-me. Senti-me perturbada. 

-  impressionante - disse Guillaume, com um sorriso irnico - o nmero de 

franceses que ainda no sabem o que aconteceu. E os americanos? Voc sabia disso, Julia? 

No desviei os olhos. 

- No, eu no sabia, e ningum me ensinou sobre isso na escola em Boston nos 

anos 1970. Mas agora eu sei muito mais. E o que eu descobri me deixou arrasada. 

Herv e Christophe permaneceram em silncio. Eles pareciam perdidos, sem saber 

o que dizer. Guillaume finalmente falou. 

- Em julho de 1995, Jacques Chirac foi o primeiro presidente a chamar a ateno 

para o papel do governo francs durante a Ocupao. E especificamente para essa batida 

policial. Seu discurso virou manchete dos jornais. Vocs se lembram disso? Eu havia lido o 

discurso de Chirac durante a minha recente pesquisa. Ele certamente havia se exposto. 

Mas eu no me lembrava disso, embora eu deva ter lido nos jornais seis anos antes. E os 

meninos - eu no conseguia evitar cham-los assim, sempre o fiz - obviamente no 

haviam lido ou no se lembravam do discurso de Chirac. Eles fitavam Guillaume, 

embaraados. Herv fumava como uma chamin e Chris-tophe roa as unhas, o que ele 

sempre fazia quando ficava nervoso ou se sentia desconfortvel. 

O silncio tomou conta do ambiente. Era esquisito haver silncio nesta sala. Houve 

tantas festas alegres e barulhentas aqui, pessoas urrando de tanto rir, piadas sem fim, 

msica alta. Tantos jogos, discursos de aniversrio, dana at de madrugada, apesar dos 

vizinhos do andar de baixo batendo irados no teto com uma vassoura. 

O silncio era pesado e doloroso. Quando Guillaume comeou a falar novamente, 

sua voz havia mudado. Seu rosto havia mudado tambm. Ele estava plido e no 

conseguia mais olhar para ns. Ele olhava para baixo, para o prato cheio de macarro 

intocado. 

- Minha av tinha 15 anos no dia da batida. Disseram-lhe que ela estava livre 

porque estavam pegando somente crianas pequenas, entre 2 e 12 anos, com os pais. Ela 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 38 



foi deixada para trs. E eles levaram todos os outros. Seus irmos menores, sua irmzinha, 

sua me, seu pai, sua tia, seu tio. Seus avs. Foi a ltima vez que ela os viu. Ningum 

voltou. Ningum. 



OS OLHOS DA MENINA estavam vidrados com o horror da noite. No incio da 

madrugada, a mulher grvida havia dado  luz uma criana prematura natimorta. A menina 

havia testemunhado os gritos, as lgrimas. Ela viu a cabea do beb, manchada de sangue, 

aparecer entre as pernas da mulher. Ela sabia que deveria desviar o olhar, mas no 

conseguia evitar encarar, aterrorizada, fascinada. Ela viu o beb morto, acinzentado e 

plido, como um boneco enrugado, prontamente escondido atrs de um lenol sujo. A 

mulher gemia constantemente. Ningum conseguiu silenci-la. 

Ao amanhecer, seu pai havia apanhado no bolso da menina a chave para o 

armrio secreto. Ele a pegou e foi conversar com um policial. Brandindo a chave, ele 

explicou a situao. Estava tentando ficar calmo, a menina podia ver, mas estava em seu 

limite. Ele tinha que ir buscar o filho de 4 anos, disse ao homem. Voltaria para c, ele 

prometia. Apanharia o filho e voltaria imediatamente. Mas o policial riu na cara dele e 

escarneceu: - Voc acha que eu vou acreditar nisso, meu pobre homem? O pai insistiu que 

o homem fosse com ele, para acompanh-lo, s iria buscar o filho e voltar imediatamente. 

O policial ordenou-lhe que sasse da frente dele. O pai voltou para seu lugar com os 

ombros cados. Estava chorando. 

A menina pegou a chave de sua mo trmula e a recolocou no bolso. Por quanto 

tempo seu irmo poderia sobreviver? ela imaginava. Ele ainda deve estar esperando por 

ela. Ele confiava nela. Confiava nela totalmente. 

Ela no conseguia suportar a idia de o irmo esperar no escuro. Ele deve estar 

com fome, com sede. A gua provavelmente j havia acabado. E a pilha da lanterna. Mas 

qualquer coisa era melhor do que aqui, ela pensou. Qualquer coisa era melhor do que este 

inferno, o mau cheiro, o calor, a poeira, as pessoas gritando, morrendo. 

Ela olhou para sua me agachada, sozinha, que no havia emitido um nico 

lamento nas ltimas horas. Olhou para o pai, para o seu rosto fatigado e abatido, para seus 

olhos fundos. Olhou  sua volta, para Eva e seus filhos exaustos, dignos de pena, e para 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 39 



todas as outras famlias, para todas essas pessoas desconhecidas que, como ela, tinham 

estrelas amarelas no peito. Ela olhou para os milhares de crianas correndo para l e para 

c, famintas, com sede, os pequenos que no entendiam, que pensavam que aquilo era 

alguma brincadeira estranha que j estava ficando longa demais, e que queriam ir para 

casa, para suas camas e para seus ursinhos de pelcia. 

Ela tentou descansar, colocando o queixo pontudo novamente sobre os joelhos. O 

calor voltou com o sol nascente. Ela no sabia como iria suportar outro dia ali. Sentia-se 

fraca, cansada. Sua garganta estava ressecada. Seu estmago doa com o vazio. 

Depois de algum tempo, ela cochilou. Sonhou que estava de volta em casa, de 

volta ao seu quartinho de frente para a rua, de volta  sala de estar onde o sol costumava 

brilhar atravs das janelas e formar figuras sobre a lareira e sobre a fotografia de sua av 

polonesa. E ela ouvia o professor de violino tocar do outro lado do ptio frondoso: "Sur le 

pont dAvignon, on y danse, on y danse. Sur le pont dAvicjnon, on y danse tous en rond." 

Sua me ia preparar o jantar, cantando junto, Les beaux messieurs font comme a, etpuis 

encore comme a. Seu irmo estaria brincando com o trenzinho vermelho pelo corredor, 

fazendo-o deslizar sobre as tbuas escuras do assoalho com estrpito e estrondo. Les 

belles dames font comme a, et puis encore comme a. Ela podia sentir o cheiro de casa, 

seu aroma reconfortante de cera de vela e temperos, e todas as coisas tentadoras sendo 

preparadas na cozinha. Ela podia ouvir a voz do pai lendo para a me. Eles estavam 

seguros. Estavam felizes. 

Ela sentiu uma mo fria sobre a testa. Olhou para cima e viu uma moa usando um 

vu azul marcado com uma cruz. 

A moa sorriu para ela e lhe entregou uma caneca com gua fresca, que ela bebeu 

com avidez. Depois, a enfermeira lhe deu um biscoito com consistncia de papel e um 

pouco de peixe enlatado. 

- Voc precisa ser corajosa - murmurou a jovem enfermeira. Mas a menina viu que 

ela tambm, como o pai da menina, tinha lgrimas nos olhos. 

- Eu quero sair daqui - sussurrou a menina. Ela queria voltar para o sonho, para a 

paz e a segurana que havia sentido. 

A enfermeira assentiu. Ela deu um pequeno sorriso triste. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 40 



- Eu compreendo. No h nada que eu possa fazer. Sinto muitssimo. 

Ela se levantou e se dirigiu para outra famlia. A menina a interrompeu, agarrando 

sua manga. 

- Por favor, quando  que a gente vai sair? - ela perguntou. 

A enfermeira sacudiu a cabea. Ela acariciou a face da menina suavemente. Depois, 

prosseguiu em direo  prxima famlia. 

A menina pensou que ia ficar louca. Queria gritar e chutar e berrar, queria sair 

daquele lugar horrvel, medonho. Queria voltar para casa, voltar para o que sua vida havia 

sido antes da estrela amarela, antes que os homens batessem  sua porta. 

Por que isso estava acontecendo com ela? O que  que ela ou seus pais haviam 

feito para merecer isso? Por que ser judeu era to terrvel? Por que os judeus estavam 

sendo tratados assim? Ela se lembrou do primeiro dia em que havia usado a estrela na 

escola. Aquele momento quando ela havia entrado na sala de aula e os olhos de todos se 

voltaram para a estrela. Uma grande estrela amarela do tamanho da palma da mo de seu 

pai sobre seu pequeno peito. E depois ela viu que havia outras meninas na classe que 

tambm tinham estrelas. Armelle tambm usava uma. Isso fez com que ela se sentisse um 

pouco melhor. 

No recreio, todas as meninas com as estrelas se agruparam. Os outros estudantes 

apontavam para elas, todos aqueles que antes eram seus amigos. Mademoiselle Dixsaut 

fez questo de explicar que as estrelas no deveriam mudar nada. Todos os estudantes 

seriam tratados da mesma forma que antes, com ou sem estrela. 

Mas o discurso de Mademoiselle Dixsaut no havia ajudado. A partir daquele dia, a 

maioria das meninas parou de falar com as crianas com estrelas. Ou, ainda pior, as 

encaravam com desdm. Ela no conseguia suportar o desdm. E aquele menino, Daniel, 

havia sussurrado algo para ela e Armelle na rua, na frente da escola, com a boca cruel e 

crispada: - Seus pais so judeus sujos, vocs so judias sujas. 

Por que sujas? Por que ser judeu era ser sujo? Isso a fez sentir-se envergonhada, 

triste. Ela sentiu vontade de chorar. Armelle no havia dito nada, mordendo o lbio at sair 

sangue. Foi a primeira vez que viu Armelle amedrontada. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 41 



A menina queria arrancar a estrela. Ela disse aos pais que se recusava a voltar  

escola com ela. Mas sua me havia dito que no, que deveria ter orgulho dela, que deveria 

ter orgulho de sua estrela. Seu irmo havia dado um ataque porque ele tambm queria 

uma estrela. Mas ele tinha menos de 6 anos, explicou pacientemente sua me, e tinha que 

esperar mais alguns anos. Ele choramingou a tarde toda. 

Ela pensou em seu irmo no armrio fundo e escuro. Ela queria tomar seu 

corpinho quente nos braos, beijar seus cabelos louros cacheados, seu pescoo rolio. Ela 

agarrou a chave em seu bolso com toda a fora que tinha. 

- Eu no me importo com o que os outros digam - ela sussurrou para si mesma. - 

Vou encontrar um jeito de voltar e salv-lo. Vou encontrar um jeito. 



DEPOIS DO JANTAR, HERV nos ofereceu um pouco de limoncello, um licor 

italiano gelado feito de limo que tinha uma linda cor amarela. Guillaume bebericou o seu 

lentamente. Ele no havia falado muito durante a refeio. Parecia contido. Eu no ousei 

trazer  baila novamente o assunto do Vel' d'Hiv. Mas foi ele que se virou para falar 

comigo enquanto os outros escutavam. 

- Minha av est velha agora - ele disse. - Ela no fala mais sobre esse assunto. 

Mas ela me contou tudo o que eu preciso saber, ela me disse tudo sobre aquele dia. Acho 

que a pior coisa para ela foi ter que continuar vivendo sem os outros. Ter que continuar 

sem eles. Sua famlia inteira. 

Eu no conseguia pensar em algo para dizer. Os meninos estavam em silncio. 

- Depois da guerra, minha av ia ao Hotel Luttia, no Boulevard Raspail, todos os 

dias - continuou Guillaume. - Era onde voc tinha que ir para descobrir se algum havia 

voltado dos campos de concentrao. Havia listagens e organizaes. Ela ia l todos os 

dias e esperava. Mas, depois de algum tempo, parou de ir. Ela comeou a ouvir sobre os 

campos. Comeou a compreender que estavam todos mortos. Que ningum iria voltar. 

Antes, ningum realmente sabia. Mas depois, com os sobreviventes voltando e contando 

suas histrias, todos souberam. 

Outro silncio. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 42 



- Sabe o que eu acho mais chocante sobre o Vel' d'Hiv? - disse Guillaume. - O 

nome em cdigo da operao. 

Eu sabia a resposta para aquilo, graas  minha extensa pesquisa. 

- Operao Brisa da Primavera - murmurei. 

- Um nome suave, no , para algo to horrvel? - ele disse. - A Gestapo havia 

pedido  polcia francesa para "arrebanhar" um determinado nmero de judeus entre 16 e 

50 anos de idade. A polcia foi to aplicada em deportar o nmero mximo de judeus que 

eles decidiram aperfeioar as ordens, ento prenderam todas aquelas criancinhas nascidas 

na Frana. Crianas francesas. 

- A Gestapo no havia pedido essas crianas? - perguntei. 

- No - ele respondeu. - No no incio. Deportao de crianas teria revelado a 

verdade: teria se tornado bvio para todos que os judeus no estavam sendo enviados 

para campos de trabalho, mas para a morte. 

- Ento por que as crianas foram presas? - Perguntei. Guillaume tomou um gole 

de seu limoncello. 

- A polcia provavelmente pensou que os filhos de judeus, mesmo tendo nascido 

na Frana, ainda assim eram judeus. No fim das contas, a Frana enviou quase 80 mil 

judeus para os campos da morte. Somente alguns milhares conseguiram voltar. E quase 

nenhuma criana conseguiu. 

No caminho para casa, eu no conseguia tirar os olhos tristes de Guillaume da 

minha mente. Ele havia se oferecido para me mostrar fotografias de sua av e de sua 

famlia, e eu havia dado a ele o nmero do meu telefone. Ele prometeu me ligar em breve. 

Bertrand estava assistindo  televiso quando entrei. Ele estava deitado no sof, 

com um dos braos sob a cabea. 

- Ento - ele disse, mal tirando os olhos da tela - como estavam os meninos?  

altura de seus padres usuais de refinamento? Tirei minhas sandlias e sentei-me no sof 

ao lado dele, olhando para seu perfil bonito e elegante. 

- Uma refeio perfeita. Havia um homem interessante, Guillaume. 

- Aha - disse Bertrand, olhando para mim, divertido. - Gay? - No, acho que no. 

Mas eu nunca presto ateno nessas coisas, de qualquer modo. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 43 



- E o que havia de to interessante nesse cara, Guillaume? - Ele estava nos 

contando sobre sua av, que escapou da concentrao do Vel' d'Hiv em 1942. 

- Humm - ele respondeu, trocando de canal com o controle remoto. 

- Bertrand - eu disse - quando voc estava na escola, aprendeu alguma coisa 

sobre o Vel' d'Hiv? - No fao idia, chrie. 

-  nisso que estou trabalhando no momento para a revista. O sexagsimo 

aniversrio ser em breve. 

Bertrand pegou um dos meus ps descalos e comeou a massage-lo com dedos 

firmes e quentes. 

- Voc acha que os seus leitores iro se interessar pelo Vel' d'Hiv? - ele perguntou. 

-  passado. No  um assunto sobre o qual a maioria das pessoas queira ler. 

- Porque os franceses tm vergonha,  isso que voc quer dizer? - perguntei. - 

Ento devemos enterrar tudo e seguir em frente, como eles? Ele tirou meu p do joelho e 

o brilho em seu olhar apareceu. Eu me retesei. 

- Puxa! - ele disse com um sorriso perverso. - Mais uma chance de mostrar aos 

seus compatriotas quanto ns franceses somos desonestos, colaborando com os nazistas e 

enviando aquelas pobres famlias inocentes para a morte. A pequena Miss Nahant 

descobre a verdade! O que voc vai fazer, amour, esfregar isso nos nossos narizes? 

Ningum mais se importa. Ningum se lembra. Escreva sobre alguma outra coisa. Algo 

divertido, algo bonitinho. Voc sabe como fazer isso. Diga a Joshua que o Vel' d'Hiv  um 

erro. Ningum vai ler. Eles vo bocejar e voltar a ateno para a prxima coluna. 

Eu me levantei, irritada. 

- Eu acho que voc est errado - respondi, agitada. - Acho que as pessoas no 

sabem o suficiente sobre o assunto. Mesmo Christophe no sabia muito sobre isso, e ele  

francs. 

Bertrand bufou. 

- Ah, Christophe mal sabe ler! As nicas palavras que ele consegue decifrar so 

Gucci e Prada. 

Sa da sala em silncio, entrei no banheiro e comecei a encher a banheira. Por que 

eu no disse a ele para ir para o inferno? Por que eu o suportava, todas as vezes? Porque 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 44 



voc  louca por ele, certo? Desde que voc o conheceu, mesmo que ele seja autoritrio, 

grosseiro e egosta? Ele  inteligente e bonito, podendo ser to engraado e um amante 

to maravilhoso, no ? Memrias de noites sensuais sem fim, beijos e carcias, lenis 

amarrotados, seu lindo corpo, sua boca quente, seu sorriso travesso. Bertrand. To 

charmoso. To irresistvel. To difcil.  por isso que voc o atura. No  mesmo? Mas por 

quanto tempo? Uma conversa recente com Isabelle voltou  minha mente: Julia, voc atura 

Bertrand porque voc tem medo de perd-lo? Ns estvamos sentadas em um pequeno 

caf perto da Salle Pleyel, enquanto nossas filhas estavam na aula de bal, e Isabelle havia 

acendido seu milsimo cigarro e me olhava diretamente nos olhos. No, eu havia 

respondido. Eu o amo. Eu realmente o amo. Eu o amo do jeito como ele . Ela havia 

assobiado, impressionada, mas no convencida. Bem, que sorte a dele, ento. Mas, pelo 

amor de Deus, quando ele estiver indo longe demais, diga a ele. Voc tem que dizer a ele. 

Deitada na banheira, lembrei-me de quando conheci Bertrand. Foi numa prosaica 

discoteca em Courchevel. Ele estava com um grupo de amigos barulhentos e levemente 

embriagados. Eu estava com meu namorado, Henry, que havia conhecido alguns meses 

antes na rede de TV em que eu trabalhava. Tnhamos uma relao informal, 

despreocupada. Nenhum de ns estava profundamente apaixonado pelo outro. ramos 

apenas dois compatriotas americanos curtindo a vida na Frana. 

Bertrand me chamou para danar. No parecia incomod-lo o fato de que eu 

estivesse acompanhada por outro homem. Irritada, recusei. Ele foi muito insistente. 

- Apenas uma dana. Somente uma dana. Mas ser uma dana maravilhosa, eu 

lhe prometo. 

Olhei para Henry, que encolheu os ombros. 

- V em frente - ele disse, piscando o olho. 

Ento eu me levantei e dancei com o francs audacioso. 

Eu era muito bonita quando tinha 27 anos. E eu tinha sido Miss Nahant aos 17. 

Ainda tinha a minha tiara de strass guardada em algum lugar. Zo gostava de brincar com 

ela quando era pequena. Nunca fui vaidosa com relao  minha aparncia. Mas eu havia 

percebido que, morando em Paris, eu recebia muito mais ateno do que do outro lado do 

Atlntico. Tambm descobri que os homens franceses eram mais ousados, mais abertos, 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 45 



no que se relacionava a flertar. E eu tambm compreendi que, a despeito do fato de eu 

no ter nada das parisienses sofisticadas - alta demais, loura demais, com os dentes 

grandes demais - meus encantos de Nova Inglaterra pareciam ser exatamente o tipo que 

mais fazia sucesso. Nos meus primeiros meses em Paris, fiquei impressionada com a forma 

como os homens franceses - e as mulheres - encaram fixamente uns aos outros. Medindo-

se constantemente. Verificando silhuetas, roupas, acessrios. Lembrei-me da minha 

primeira primavera em Paris e de caminhar pelo Boulevard Saint-Michel com Susannah, do 

Oregon, e Jan, da Virginia. Ns nem sequer estvamos vestidas para sair, estvamos 

usando jeans, camisetas e sandlias havaianas. Mas ns trs ramos altas, atlticas, louras 

e parecamos definitivamente americanas. Os homens vinham a ns constantemente. 

- Bonjour, Mesdemoiselles, vous tes amricaines, Mesdemoiselles? Homens 

jovens, homens maduros, estudantes, executivos, uma infinidade de homens, exigindo 

nmeros de telefone, convidando-nos para jantar, para uma bebida, pedindo coisas, 

fazendo piadas, alguns charmosos, outros bem menos. Isso no acontecia l onde ns 

morvamos. Os homens americanos no perseguem as moas nas ruas e nem declaram a 

sua paixo. Jan, Susannah e eu dvamos risadinhas que no conseguamos prender, 

sentindo-nos lisonjeadas e espantadas ao mesmo tempo. 

Bertrand diz que se apaixonou por mim durante aquela primeira dana na boate 

em Courchevel. Exatamente naquele momento. Eu no acredito nisso. Acho que, para ele, 

aconteceu um pouco mais tarde. Talvez na manh seguinte, quando ele me levou para 

esquiar. 

- Merde alors, as francesas no esquiam desse jeito! - Ele suspirou, encarando-me 

com admirao ostensiva. 

- Desse jeito como? - eu havia perguntado. 

- Elas no esquiam nem com a metade dessa velocidade, ele riu, e me beijou 

apaixonadamente. Entretanto, eu havia me apaixonado por ele instantaneamente. Tanto 

que havia dado ao pobre Henry um olhar de despedida enquanto saa da discoteca de 

brao dado com Bertrand. 

Bertrand falou quase imediatamente sobre casamento. No havia passado pela 

minha cabea que isso fosse acontecer to depressa, eu estava bem feliz sendo sua 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 46 



namorada por uns tempos. Mas ele havia insistido e tinha sido to encantador e to 

amoroso que eu finalmente concordei em casar-me com ele. Acredito que ele sentia que 

eu iria ser a esposa perfeita, a me perfeita. Eu era inteligente, culta, instruda summa cum 

laude pela Universidade de Boston) e bem-comportada - "para uma americana", eu quase 

podia ouvi-lo pensando. Eu era saudvel e forte. No fumava, no tomava drogas, quase 

no bebia e acreditava em Deus. E ento, de volta a Paris, conheci a famlia Tzac. Como 

eu tinha ficado nervosa naquele primeiro dia! O apartamento clssico e impecvel na rue 

de l'Universit. Os frios olhos azuis de Edouard e seu sorriso seco. Colette e sua 

maquiagem cuidadosa, suas roupas perfeitas, tentando ser amvel, servindo-me caf e 

acar com dedos elegantes e unhas bem-feitas. E as duas irms. Uma era angulosa, loura 

e plida: Laure. A outra era ruiva, com bochechas cor de rubi e voluptuosa: C-cile. Thierry, 

o noivo de Laure, estava l. Ele quase no conversou comigo. As duas irms haviam olhado 

para mim com aparente interesse, perplexas com o fato de o irmo Casanova ter escolhido 

uma americana sem sofisticao, quando ele tinha le tout Paris a seus ps. 

Eu sabia que Bertrand - e sua famlia tambm - esperava que eu tivesse trs ou 

quatro filhos em rpida sucesso. Mas as complicaes comearam logo aps nosso 

casamento. Complicaes sem fim que no espervamos. Uma srie de abortos 

espontneos me deixaram perturbada. 

Consegui ter Zo depois de seis anos difceis. Bertrand esperou durante bastante 

tempo pelo filho nmero dois. Eu tambm. Mas ns nunca mais falamos sobre o assunto. 

E depois, havia Amlie. 

Mas eu certamente no queria pensar em Amlie esta noite. Eu j tinha feito muito 

isso no passado. 

A gua do banho estava morna, ento sa tiritando de frio. Bertrand ainda estava 

assistindo  televiso. Normalmente, eu teria ido at ele, que teria me tomado nos braos, 

sussurrado e me beijado, e eu teria dito que ele fora rude demais, mas eu teria dito isso 

com voz de meni-ninha e feito beicinho de criana. E ns teramos nos beijado e ele teria 

me levado para nosso quarto e feito amor comigo. 

Mas esta noite eu no fui at ele. Mergulhei na cama e li um pouco mais sobre as 

crianas do Vel' d'Hiv. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 47 



E a ltima coisa que eu vi antes de apagar a luz foi o rosto de Guillaume quando 

ele nos contou sobre sua av. 



H QUANTO TEMPO ELES estavam l? A menina no conseguia se lembrar. Se 

sentia enfraquecida, entorpecida. Os dias se misturavam com as noites. A certa altura ela 

tinha ficado enjoada, vomitando blis, gemendo e com dor. Ela havia sentido a mo de seu 

pai sobre ela, confortando-a. A nica coisa que tinha na mente era o irmo. No conseguia 

parar de pensar nele. Ela tirava a chave do bolso e a beijava febrilmente, como se estivesse 

beijando suas bochechinhas arredondadas, seus cabelos cacheados. 

Algumas pessoas haviam morrido ali durante os ltimos dias, e a menina vira tudo. 

Ela havia visto mulheres e homens enlouquecerem no calor sufocante e malcheiroso e 

serem espancados at carem e serem amarrados a macas. Ela vira ataques cardacos, 

suicdios e febres altas. A menina havia observado os corpos sendo carregados para fora. 

Ela jamais presenciara tamanho horror. Sua me havia se transformado em um animal 

submisso. Ela quase no falava. Chorava em silncio e rezava. 

Uma manh, gritaram ordens speras pelos alto-falantes. Eles deveriam pegar seus 

pertences e se reunir perto da entrada. Em silncio. Ela se levantou, fraca e cambaleante. 

Suas pernas estavam bambas e mal podiam sustent-la. Ela ajudou seu pai a levantar a 

me. Eles pegaram suas sacolas. A multido arrastava os ps vagarosamente na direo 

dos portes. A menina percebeu como todos se moviam lenta e dolorosamente. At as 

crianas coxeavam como velhos, com as costas curvadas, as cabeas baixas. A menina se 

perguntou para onde estavam indo. Quis perguntar ao pai, mas seu rosto magro e fechado 

significava que ela no ia conseguir nenhuma resposta naquele momento. Ser que 

finalmente estavam indo para casa? Seria o fim? Estava terminado? Ela poderia ir para casa 

e libertar o irmo? Eles desceram a rua estreita, com a polcia mandando que 

continuassem. A menina olhou para os estranhos que os observavam da calada, pelas 

janelas, varandas e portas. A maioria deles tinha rostos vazios, sem compaixo. 

Continuavam olhando, sem dizer palavra. Eles no se importam, pensou a menina. Eles no 

se importam com o que esto fazendo conosco, para onde estamos sendo levados. Um 

homem riu, apontando para eles. Ele estava segurando uma criana pela mo. A criana 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 48 



estava rindo tambm. Por qu, pensou a menina, por qu? Parecemos engraados com 

nossas roupas fedorentas e miserveis?  por isso que esto rindo? O que  to 

engraado? Como eles podem rir, como podem ser to cruis? Ela quis cuspir neles, gritar 

com eles. 

Uma mulher de meia-idade atravessou a rua e rapidamente enfiou algo em sua 

mo. Era um pequeno pedao de po macio. A mulher foi afugentada por um policial. A 

menina s teve tempo suficiente para v-la voltar para o outro lado da rua. A mulher havia 

dito: "Coitadinha da menina! Que Deus tenha piedade dela!" O que Deus estava fazendo? 

pensou a menina, lerdamente. Deus havia desistido deles? Ele os estava punindo por algo 

que ela no sabia? Seus pais no eram religiosos, embora ela soubesse que acreditavam 

em Deus. Eles no a haviam criado dentro da tradio religiosa, como Armelle havia sido 

criada pelos pais, respeitando todos os rituais. A menina imaginava se essa no seria a 

punio deles. A punio por no praticar a religio bem o bastante. 

Ela entregou o po para o pai. Ele lhe disse para com-lo. Ela o devorou rpido 

demais e quase se sufocou. 

Foram levados nos mesmos nibus municipais para uma estao de trens de 

frente para o rio. Ela no sabia que estao era aquela. Nunca havia estado l antes. Ela 

raramente havia sado de Paris em todos os seus 10 anos de idade. Quando viu o trem, 

sentiu o pnico tomar conta dela. No, ela no podia ir embora, tinha que ficar, tinha que 

ficar por causa de seu irmo, havia prometido voltar para salv-lo. Puxou a manga da 

camisa do pai, sussurrando o nome do irmo. O pai abaixou o olhar para ela. 

- No h nada que possamos fazer - ele disse com determinao impotente. - 

Nada. 

Ela pensou no menino inteligente que escapara, aquele que havia sado. A raiva 

tomou conta dela. Por que seu pai estava sendo to fraco, to covarde? Ele no se 

importava com o prprio filho? Ele no se importava com o menininho? Por que ele no 

tinha coragem de fugir? Como ele podia continuar l e ser conduzido para dentro de um 

trem, como um carneiro? Como ele podia apenas ficar ali sem sair correndo e no voltar 

depressa para o apartamento, para o filho, para a liberdade? Por que ele no pegou a 

chave com ela e fugiu? O pai olhou para ela, e a menina soube que ele tinha lido todos os 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 49 



pensamentos que passavam por sua cabea. Disse a ela muito calmamente que estavam 

em grande perigo. Ele no sabia para onde estavam sendo levados. No sabia o que iria 

acontecer a eles. Mas sabia que, se tentasse escapar agora, seria morto. Atirariam nele, 

instantaneamente, na frente dela, na frente da me dela. E, se isso acontecesse, esse seria 

o fim. Ela e a me estariam sozinhas. Ele tinha que ficar com elas para proteg-las. 

A menina ouvia. Ele jamais havia usado aquele tom de voz com ela antes. Era a voz 

que ela havia escutado escondida durante aquelas preocupantes conversas secretas. Ela 

tentava entender. Tentava no deixar transparecer sua angstia no rosto. Mas seu irmo... 

Era culpa dela! Ela  quem havia dito a ele para ficar no armrio. Era tudo culpa dela. Ele 

poderia estar aqui com eles agora. Ele poderia estar aqui, segurando sua mo, se no fosse 

o que ela tinha feito. 

Ela comeou a chorar lgrimas que ardiam e queimavam seus olhos, suas faces. 

- Eu no sabia! - ela soluava. - Papa, eu no sabia, pensei que a gente ia voltar, 

pensei que ele fosse ficar seguro! - Ento, ela levantou os olhos para ele, com fria e dor 

em sua voz, e esmurrou o peito dele com seus pequenos punhos. - Voc nunca me disse, 

Papa, voc nunca explicou, voc nunca me contou sobre o perigo, nunca! Por qu? Voc 

pensou que eu era muito pequena para entender, no foi? Voc queria me proteger? Era 

isso que voc estava tentando fazer? O rosto de seu pai. Ela no podia mais olhar para ele. 

Ele baixou os olhos para ela com tanto desespero, tanta tristeza! Suas lgrimas levaram 

embora a imagem do rosto dele. Ela chorou sozinha com o rosto escondido entre as mos. 

Seu pai no a tocou. Naqueles terrveis minutos solitrios, a menina compreendeu. Ela no 

era mais uma menina feliz de 10 anos. Era algum com muito mais idade. Nada jamais 

seria como antes para ela, para sua famlia, para seu irmo. 

Ela explodiu uma ltima vez, puxando com fora o brao do pai, com uma 

violncia que era nova para ela. 

- Ele vai morrer! Ele vai morrer! - Estamos todos em perigo - ele finalmente 

respondeu. - Voc e eu, sua me, seu irmo, Eva e seus filhos, e todas essas pessoas. 

Todos aqui. Eu estou aqui com voc. E ns estamos com seu irmo. Ele est em nossas 

oraes, em nossos coraes. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 50 



Antes que ela pudesse responder, eles foram empurrados para dentro do trem, um 

trem que no possua assentos, apenas vages vazios. Um trem coberto para gado. Era 

sujo e cheirava mal. De p, perto das portas, a menina olhou para fora, para a estao 

cinzenta e empoeirada. 

Em uma plataforma perto dali, uma famlia esperava por outro trem. O pai, a me 

e duas crianas. A me era bonita, com os cabelos presos em um coque bem-feito. Eles 

provavelmente estavam passando frias ali. Havia uma menina que devia ter a sua idade. 

Ela estava usando um vestido lils muito bonito, seus cabelos estavam limpos e os sapatos 

brilhavam. 

As duas meninas olharam uma para a outra, cada uma de um lado da plataforma. 

A me, bonita e com os cabelos arrumados, estava olhando tambm. A menina no trem 

sabia que seu rosto coberto de lgrimas estava negro de sujeira e seus cabelos ensebados. 

Mas ela no curvou a cabea de vergonha. Manteve-se ereta, com o queixo erguido. 

Enxugou as lgrimas. 

E quando as portas foram fechadas, quando o trem deu um solavanco, com as 

rodas tinindo e rangendo, ela olhou atravs de uma pequenina fenda no metal. Ela no 

parava de olhar a menininha na plataforma. Ficou olhando at que a figura com o vestido 

lils desaparecesse completamente. 



EU NUNCA GOSTEI DO dcimo quinto arrondissement. Provavelmente por causa 

da monstruosa quantidade de prdios altos e modernos que desfiguravam as margens do 

Sena prximo  Torre Eiffel, e a isso eu jamais me acostumei, embora eles tenham sido 

construdos no incio dos anos 70, muito antes de eu chegar a Paris. Mas, quando eu virei 

na rue Nlaton com Bamber, onde o Vel' d'Hiv ficava antigamente, pensei comigo mesma 

que eu gostava dessa rea de Paris menos ainda. 

- Que rua medonha - murmurou Bamber. Ele tirou algumas fotos com a cmera. 

A rue Nlaton era escura e silenciosa. Ela obviamente nunca recebia muita luz do 

sol. De um lado, prdios burgueses de pedra construdos no fim do sculo XIX. Do outro, 

onde costumava ficar o Veldrome d'Hiver, havia uma grande construo acastanhada, 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 51 



tpica do incio dos anos 60, horrenda tanto na cor quanto na proporo, MINISTRE DE 

L'INTRIEUR - dizia a placa sobre as portas giratrias de vidro. 

- Que lugar estranho para construir prdios do governo - observou Bamber. - 

Voc no acha? Bamber havia encontrado somente algumas fotos ainda existentes do Vel' 

d'Hiv. Eu segurava uma delas na mo. Grandes letras negras diziam: VEL' D'HIV sobre uma 

fachada plida. Um enorme porto. Um agrupamento de nibus estacionados ao longo da 

calada, e o alto das cabeas das pessoas. Tinha sido tirada provavelmente de uma janela 

do outro lado da rua na manh da batida policial. 

Procuramos por uma placa, algo que mencionasse o que havia acontecido aqui, 

mas nada encontramos. 

- No consigo acreditar que no h nada - comentei. 

Finalmente encontramos algo no Boulevard de Grenelle, logo depois da esquina. 

Uma placa mnima. Melhor dizendo, humilde. Imaginei se algum alguma vez tinha olhado 

para ela. Dizia: Nos dias 16 e 17 de julho de 1942, 13.152 judeus foram presos em Paris e 

nos subrbios, deportados e assassinados em Auschwitz. No Vlodrome d'Hiver, que no 

passado estava situado neste local, 1.129 homens, 2.916 mulheres e 4.115 crianas foram 

aqui reunidos em condies subumanas pela polcia do governo de Vichy, seguindo 

ordens dos ocupantes nazistas. Que aqueles que tentaram salv-los recebam nossos 

agradecimentos. Passante, no se esquea jamais! - Interessante - refletiu Bamber. - Por 

que tantas crianas e mulheres, e to poucos homens? - Estavam circulando rumores 

sobre uma grande batida policial - expliquei. - J haviam ocorrido algumas antes, 

especialmente em agosto de 1941. Mas, at ento, somente homens haviam sido presos. E 

elas no haviam sido to grandes, to planejadas em detalhes como esta.  por isso que 

esta  infame. Na noite de 16 de julho, a maioria dos homens se escondeu, pensando que 

as mulheres e as crianas estariam seguras. Foi a que eles se enganaram. 

- Por quanto tempo isso foi planejado? - Meses - respondi. - O governo francs 

estava trabalhando nisso atentamente desde abril de 1942, listando todos os judeus que 

seriam presos. Mais de 6 mil policiais parisienses foram encarregados de executar a ordem. 

No incio, a data escolhida havia sido 14 de julho. Mas  afete nacional aqui. Ento, foi 

adiada para um pouco mais tarde. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 52 



Caminhamos na direo da estao do metr. Era uma rua sombria. Sombria e 

triste. 

- E depois? - perguntou Bamber. - Para onde foram levadas todas aquelas 

famlias? - Ficaram confinadas no Vel' d'Hiv por alguns dias. Um grupo de enfermeiras e 

mdicos finalmente teve permisso para entrar. Todos eles descreveram o caos e o 

desespero. Depois, as famlias foram levadas para a Estao Austerlitz, e para os campos 

nos arredores de Paris. E depois, enviados diretamente para a Polnia. 

Bamber ergueu uma das sobrancelhas. 

- Campos? Voc quer dizer campos de concentrao na Frana? - Campos que 

so considerados as antecmaras francesas para Auschwitz. Drancy, o mais prximo de 

Paris, Pithiviers e Beaune-la-Rolande. 

- Estou imaginando como esses lugares estaro hoje - disse Bamber. - 

Deveramos ir l e descobrir. 

- Iremos - respondi. 

Paramos na esquina da rue Nlaton para um caf. Dei uma olhada no relgio. Eu 

havia prometido ir ver Mame hoje. Sabia que no conseguiria. Amanh, ento. Isso nunca 

era um sacrifcio para mim. Ela era a av que eu jamais tivera. Minhas duas avs haviam 

falecido quando eu era pequena. Eu s queria que Bertrand fizesse um pouquinho mais de 

esforo, considerando que ela se derretia por ele. 

Bamber me trouxe de volta ao Vel' d'Hiv. 

- Com certeza isso me deixa feliz por no ser francs - ele disse. Depois, se 

lembrou. 

- Opa, desculpe. Agora voc , certo? - Sim - respondi. - Por causa do casamento. 

Tenho dupla nacionalidade. 

- Eu no quis ofender - ele tossiu. Parecia envergonhado. 

- No se preocupe - eu sorri. - Mesmo aps todos esses anos, os parentes do meu 

marido ainda me chamam de "a americana". 

Bamber riu. 

- Isso incomoda voc? Dei de ombros. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 53 



-s vezes. Morei aqui mais da metade da minha vida. Eu realmente sinto que este 

 o meu lugar. 

- Voc est casada h quanto tempo? - Vamos completar 16. Mas moro aqui h 

25 anos. 

- Voc teve um daqueles pomposos casamentos franceses? Soltei uma risada. 

- No, foi bem simples. Na Borgonha, onde os meus sogros possuem uma casa, 

perto de Sens. 

Lembrei-me rapidamente daquele dia. No houve muito entrosa-mento entre 

Sean e Heather Jarmond e Edouard e Colette Tzac. Parecia que todo o lado francs da 

famlia havia esquecido de como falar ingls. Mas no me importei. Eu estava to feliz! O 

sol brilhava maravilhosamente. A tranqila igrejinha interiorana. Meu vestido simples cor 

de marfim que minha sogra aprovara. Bertrand, estonteante em sua casaca cinza. O jantar 

na casa dos Tzac foi esplendidamente realizado. Champanhe, velas e ptalas de rosas. 

Charla fazendo um discurso muito engraado em seu pssimo francs, e que s fez rir a 

mim. Laure e Ccile sorriram de maneira afetada. Minha me, com seu terninho magenta 

claro, e seu sussurro em meu ouvido "eu realmente espero que voc seja feliz, meu amor". 

Meu pai valsando com a empertigada Colette. Parecia que havia sido h tanto tempo! - 

Voc sente saudade dos Estados Unidos? - Bamber perguntou. 

- No. Sinto saudade da minha irm. Mas no dos Estados Unidos. Um garom 

jovem veio trazer nossos cafs. Ele deu uma olhada no cabelo cor de fogo de Bamber e 

sorriu. Depois, ele viu o impressionante arsenal de cmeras e lentes. 

- Turistas? - perguntou. - Tirando belas fotos de Paris? - No somos turistas. 

Estamos apenas tirando belas fotos do que restou do Vel' d'Hiv - disse Bamber em francs, 

com seu lento sotaque britnico. 

O garom pareceu perplexo. 

- Ningum pergunta muito sobre o Vel' d'Hiv - ele disse. - Sobre a Torre Eiffel, 

sim, mas no sobre o Vel' d'Hiv. 

- Somos jornalistas - eu disse. - Trabalhamos para uma revista americana. 

- s vezes h famlias judias que vm aqui - relembrou o rapaz. - Depois dos 

discursos de comemorao no memorial que fica mais abaixo no rio. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 54 



Tive uma idia. 

- Voc no conheceria algum, um vizinho nesta rua, que saiba sobre a batida 

policial, que pudesse conversar conosco? - perguntei. Ns j tnhamos conversado com 

diversos sobreviventes. A maioria deles havia escrito livros sobre sua experincia, mas nos 

faltavam testemunhas. Parisienses que tivessem visto tudo isso acontecer. 

Depois eu me senti tola. Afinal, o rapaz no tinha mais do que 20 anos. Seu pai 

provavelmente ainda no era nascido em 1942. 

- Conheo sim - ele respondeu, para minha surpresa. - Se vocs subirem a rua, 

vero uma loja que vende jornais  sua esquerda. Xavier, o encarregado da loja, ir contar 

a vocs. A me dele sabe, ela mora l desde que nasceu. 

Deixamos-lhe uma bela gorjeta. 



NA PEQUENA ESTAO DE TREM, houve uma caminhada empoeirada e sem fim 

atravs de uma pequena cidade, onde a maioria das pessoas olhava e apontava. Seus ps 

doam. Para onde estavam indo agora? O que iria acontecer com eles? Estavam longe de 

Paris? A viagem de trem havia sido rpida, no chegara a duas horas. Como sempre, ela 

pensava no irmo. Seu corao ficava mais apertado a cada quilmetro percorrido. Como 

ela iria voltar para casa? Como ela iria conseguir? Sentia o estmago embrulhado ao 

imaginar que ele provavelmente estava pensando que ela o havia esquecido. Era no que 

ele acreditava, trancado no armrio escuro. Ele pensava que ela o havia abandonado, que 

ela no se importava, que ela no o amava. Ele no tinha gua, no tinha luz e estava com 

medo. Ela o havia desapontado. 

Onde eles estavam? Ela no tivera tempo de olhar para o nome da estao 

quando desceram. Mas havia percebido as primeiras coisas a que uma criana urbana 

presta ateno: o campo vioso, as campinas verdes, os campos dourados. O aroma 

inebriante de ar fresco e de vero. O zumbido de uma abelha. Pssaros no cu. Nuvens 

brancas e fofas. Ela sentia que isso era glorioso, depois do fedor e do calor dos ltimos 

dias. Talvez as coisas no fiquem to ruins, afinal. 

Ela seguiu os pais atravs dos portes de arame farpado, com guardas de 

aparncia rspida dos dois lados empunhando armas. Depois, ela viu as fileiras de 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 55 



barraces escuros, a austeridade do lugar, e ento ficou desanimada. Agarrou-se ao corpo 

da me. Os policiais comearam a gritar ordens. Mandaram que as mulheres e crianas 

fossem para os galpes  direita, os homens para os da esquerda. Impotente, agarrada  

me, ela observou o pai ser empurrado juntamente com um grupo de homens. Ela sentiu 

medo sem ele ao lado dela. Mas no havia nada que ela pudesse fazer. As armas a 

aterrorizavam. Sua me no se moveu. Seus olhos estavam embotados, mortos. Seu rosto 

estava branco e com uma aparncia doentia. 

A menina pegou a mo da me enquanto elas eram empurradas na direo dos 

barraces. O interior estava vazio e encardido. Tbuas e palha. Sujeira e mau cheiro. As 

latrinas ficavam do lado de fora, meras tbuas de madeira em volta de buracos. 

Ordenaram-lhes que se sentassem l, em grupos, para urinar e def ecar  vista de todos, 

como animais. Isso a revoltou. Sentiu que no podia ir. No podia fazer isso. Olhou 

enquanto a me abria as pernas sobre um dos buracos. Ela curvou a cabea de vergonha. 

Mas ela finalmente fez o que lhe foi mandado, encolhida, esperando que ningum 

estivesse olhando para ela. 

Logo acima do arame farpado, a menina podia vislumbrar o vilarejo. A torre negra 

de uma igreja. Uma caixa-d'gua elevada. Telhados e chamins. rvores. L, a menina 

pensou, naquelas casas prximas, as pessoas tinham camas, lenis, cobertores, comida e 

gua. Elas estavam limpas e tinham roupas limpas. Ningum gritava com elas. Ningum as 

tratava como gado. E elas estavam bem ali, do outro lado da cerca. No vilarejozinho limpo 

onde ela podia ouvir o sino da igreja tocando. 

Havia crianas de frias l, ela pensou. Crianas indo a piqueniques, brincando de 

esconde-esconde. Crianas felizes, mesmo que houvesse uma guerra e menos comida para 

comer do que o normal, e mesmo que talvez seus pais houvessem ido embora para lutar. 

Crianas felizes, amadas, tratadas com carinho. Ela no podia imaginar por que havia tanta 

diferena entre ela e aquelas crianas. Ela no podia imaginar por que todas aquelas 

pessoas junto com ela tinham que ser tratadas daquela forma. Quem havia decidido isso, e 

para qu? Deram-lhes sopa morna de repolho. Era rala e arenosa. Nada mais. Depois, ela 

observou as fileiras de mulheres se despirem e brigarem para lavar seus corpos sujos sob 

um filete de gua em cima de tinas de ferro enferrujadas. Ela as achou feias, grotescas. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 56 



Odiou as flcidas, as magras, as velhas, as jovens. Odiou ter que ver sua nudez. No queria 

olhar para elas. Odiou ter que v-las. 

Ela se aconchegou no calor da me e tentou no pensar no irmo. Sua pele 

coava, seu couro cabeludo tambm. Queria um banho, sua cama, seu irmo. Queria 

jantar. Ela imaginou se algo poderia ser pior do que o que estava acontecendo com ela 

nos ltimos dias. Pensou em seus amigos, nas outras menininhas na escola que tambm 

tinham estrelas. Dominique, Sophie, Agns. O que acontecera a elas? Alguma delas teria 

conseguido escapar? Algumas estariam a salvo, escondidas em algum lugar? Ser que 

Armelle estaria escondida com sua famlia? Ser que conseguiria v-la novamente, ver seus 

outros amigos de novo? Ser que voltaria para a escola em setembro? Naquela noite, ela 

no conseguiu dormir. Precisava do toque tranqilizador do pai. Seu estmago doa. 

Sentiu que ele se contraa de dor. Sabia que eles no tinham permisso para sair dos 

barraces durante a noite. Cerrou os dentes, abraando a barriga com os braos. Mas a 

dor ficou pior. Lentamente ela se levantou, andou na ponta dos ps por entre as fileiras de 

mulheres e crianas adormecidas, para as latrinas do lado de fora. 

Holofotes ofuscantes varriam o campo enquanto ela se precipitava sobre as 

tbuas. A menina olhou l dentro e viu grossos vermes plidos contorcendo-se na massa 

escura de fezes. Ela ficou com medo de que algum policial sobre as torres de vigia pudesse 

ver suas ndegas e puxou a saia at os quadris. Voltou rapidamente para o barraco. 

L dentro, o ar estava fedido e abafado. Algumas crianas se lamentavam durante 

o sono. Ela pde ouvir uma mulher soluando. Ela se virou para a me, olhando para o 

rosto branco e encovado. 

Aquela mulher feliz e amorosa j no existia mais. J no existia mais a me que 

costumava arrebat-la nos braos e sussurrava palavras de amor, apelidos em idiche. A 

mulher com os brilhantes cachos cor de mel e silhueta voluptuosa, aquela que todos os 

vizinhos e lojistas cumprimentavam pelo primeiro nome. Aquela que tinha um cheiro 

clido, recon-fortante, maternal: comida deliciosa, sabonete novinho, roupas de cama 

limpas. Aquela com a risada contagiante. Aquela que dizia que, mesmo que houvesse uma 

guerra, eles iriam se sair bem, porque eram uma famlia boa e forte, uma famlia cheia de 

amor. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 57 



Aquela mulher havia desaparecido aos poucos. Havia se tornado plida e esquisita, 

e jamais ria ou sorria. Tinha um cheiro ranoso e acre. Seus cabelos haviam se tornado 

secos e quebradios, com fios grisalhos. 

A menina sentiu como se a me j estivesse morta. 



A VELHA SENHORA OLHOU PARA Bamber e para mim com olhos midos e 

translcidos. Ela deve estar perto de fazer 100 anos, pensei. Seu sorriso no tinha dentes, 

como o de um beb. Mame era uma adolescente, comparada com ela. Morava bem em 

cima da loja do filho, o jornaleiro da rue Nlaton. Um apartamento apertado e atravancado 

com moblia empoeirada, tapetes comidos pelas traas e plantas sem vio. A velha senhora 

estava sentada em uma poltrona que afundava, perto da janela. Ela nos observou 

enquanto entrvamos e nos apresentvamos. Pareceu satisfeita por estar recebendo 

visitantes inesperados. 

- Jornalistas americanos, ento - disse com voz trmula, avaliando-nos. 

- Americana e ingls - corrigiu Bamber. 

- Jornalistas interessados no Vel' d'Hiv? - ela perguntou. Peguei minha caneta e 

meu bloco de anotaes e os equilibrei sobre meu joelho. 

- A senhora se lembra de alguma coisa sobre a batida policial, madame? - 

perguntei-lhe. - Poderia nos dizer alguma coisa, mesmo o menor dos detalhes? Ela soltou 

uma risada que parecia um cacarejo. 

- Voc pensa que eu no me lembro, minha jovem? Voc pensa que talvez eu 

tenha esquecido? - Bem - eu disse - foi h bastante tempo, afinal de contas. 

- Quantos anos voc tem? - ela perguntou abruptamente. 

Senti meu rosto enrubescer. Bamber escondeu um sorriso por detrs da cmera. 

- Quarenta e cinco - respondi. 

- Vou fazer 95 anos - ela disse, ostentando as gengivas desdentadas. - No dia 16 

de julho de 1942, eu tinha 35 anos. Dez a menos do que voc tem agora. E eu me lembro. 

Me lembro de tudo. 

Ela fez uma pausa. Seus olhos turvos olharam para fora, para a rua. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 58 



- Eu me lembro de ter acordado muito cedo por causa do ronco dos nibus que 

estavam bem debaixo da minha janela. Olhei para fora e os vi chegarem. Cada vez mais. 

Nossos prprios nibus municipais, os nibus que eu usava todos os dias. Os verdes e 

brancos. Havia muitos deles. Eu me perguntei por que motivo eles estavam aqui. Depois, 

eu vi as pessoas sarem. E todas as crianas. Tantas crianas! Sabe,  difcil esquecer as 

crianas. 

Eu tomava notas enquanto Bamber lentamente clicava a cmera. 

- Depois de algum tempo me vesti e desci com meus filhos, que eram pequenos 

na poca. Ns estvamos curiosos e queramos saber o que estava acontecendo. Nossos 

vizinhos e a concierge vieram tambm. Ento, ns vimos as estrelas amarelas, e 

entendemos tudo. Os judeus. Eles estavam arrebanhando os judeus. 

- A senhora tinha alguma idia do que iria acontecer a essas pessoas? - perguntei. 

Ela encolheu os velhos ombros. 

- No - ela respondeu. - Ns no tnhamos idia. Como poderamos? Foi depois 

da guerra que descobrimos. Pensvamos que eles estavam sendo enviados para trabalhar 

em algum lugar. Ns no imaginvamos que algo de ruim estava acontecendo. Eu lembro 

que algum disse:  a polcia francesa, ningum vai fazer mal a eles." Ento, ns no nos 

preocupamos. E, no dia seguinte, mesmo isso tendo acontecido no meio de Paris, no 

havia nada nos jornais, nada no rdio. Ningum parecia preocupado. Ento ns tambm 

no ficamos. At que eu vi as crianas. 

Ela fez uma pausa. 

- As crianas? - repeti. 

- Alguns dias mais tarde, os judeus foram levados novamente de nibus - ela 

continuou. - Eu estava na calada, e eu vi as famlias saindo do vlodrome, todas aquelas 

crianas sujas e chorando. Elas pareciam amedrontadas, imundas. Fiquei chocada. Percebi 

que no vlo-drome elas no haviam tido muito para comer ou beber. Eu me senti 

impotente e com raiva. Tentei jogar-lhes pes e frutas, mas a polcia no deixou. 

Ela fez uma pausa novamente, por um longo tempo. De repente, parecia cansada, 

esgotada. Bamber calmamente colocou sua cmera de lado. Esperamos. No nos 

movemos. Fiquei imaginando se ela falaria novamente. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 59 



- Depois de todos esses anos... - ela disse finalmente, com a voz abrandada, quase 

num sussurro. - Depois de todos esses anos, eu ainda vejo as crianas, sabe? Eu as vejo 

subindo nos nibus e sendo levadas embora. Eu no sabia para onde elas estavam indo, 

mas tinha um pressentimento. Um pressentimento horrvel. A maioria das pessoas  minha 

volta estava indiferente. Elas achavam que aquilo era normal. Era normal para elas que os 

judeus estivessem sendo levados embora. 

- Por que a senhora acha que elas estavam achando tudo normal? - perguntei. 

Outra risada. 

- Disseram a ns, franceses, durante anos, que os judeus eram inimigos do nosso 

pas,  por isso! Em 1941 ou 1942, houve uma exposio no Palais Berlitz, se no me falha 

a memria, no Boulevard des Italiens, chamada "O Judeu e a Frana". Os alemes fizeram 

com que ela ficasse aberta durante meses. Um grande sucesso junto  populao 

parisiense. E o que era? Uma chocante demonstrao anti-semita. 

Seus velhos dedos deformados alisaram a saia. 

- Eu me lembro dos policiais, sabe? Nossos prprios bons policiais parisienses. 

Nossos prprios, bons e honestos gendarmes. Empurrando as crianas para dentro dos 

nibus. Gritando. Usando seus cassetetes. 

Ela encostou o queixo no peito e resmungou algo que eu no compreendi. Parecia 

algo como "que vergonha para ns todos por no termos impedido aquilo". 

- A senhora no sabia - eu disse suavemente, emocionada por seus olhos 

repentinamente midos. - O que a senhora poderia ter feito? - Ningum se lembra das 

crianas do Vel' d'Hiv, sabe? Ningum est interessado. 

- Talvez este ano elas se lembrem - respondi. - Talvez este ano seja diferente. 

Ela franziu seus lbios enrugados. 

- No. Voc vai ver. Nada mudou. Ningum se lembra. Por que deveriam? Aqueles 

foram os dias mais sombrios do nosso pas. 



ELA FICOU IMAGINANDO ONDE seu pai estaria. Em algum lugar no mesmo 

campo, em um dos galpes, certamente, mas ela s o viu uma ou duas vezes. Ela no tinha 

noo dos dias que passavam. A nica coisa que a atormentava era o irmo. Ela acordava  

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 60 



noite, tremendo, pensando nele dentro do armrio. Tirou a chave do bolso e ficou olhando 

para ela com dor e horror. Talvez ele esteja morto agora. Talvez tenha morrido de sede, de 

fome. Ela tentou contar os dias desde aquela quinta-feira negra quando os homens vieram 

prend-los. Uma semana? Dez dias? No sabia. Sentia-se perdida, confusa. Havia sido um 

vendaval de terror, fome e morte. Mais crianas haviam morrido no campo. Seus corpinhos 

haviam sido levados em meio a gritos e lgrimas. 

Um dia, de manh, ela percebeu um grande nmero de mulheres conversando 

exaltadamente. Elas pareciam preocupadas, aflitas. Perguntou  me o que estava 

acontecendo, mas a me respondeu que no sabia. Sem se deixar intimidar, a menina 

perguntou a uma mulher que tinha um menininho da idade de seu irmo, e que havia 

dormido perto delas durante os ltimos dias. O rosto da mulher estava avermelhado, 

como se estivesse com febre. Ela disse que havia boatos circulando pelo campo. Os pais 

iam ser enviados para o leste, para trabalhar. Eles deveriam preparar a chegada das 

crianas, que iriam mais tarde, depois de alguns dias. A menina ouviu, chocada. Ela repetiu 

a conversa para a me. Os olhos da me pareceram se abrir com um clique. Ela balanou a 

cabea veementemente. Disse que no, que aquilo no podia acontecer. Eles no podiam 

fazer isso. Eles no podiam separar as crianas dos pais. 

Naquela vida calma e protegida que parecia to distante, a menina teria 

acreditado na me. Ela costumava acreditar em tudo o que a me dizia. Mas neste cruel 

mundo novo, a menina sentia que havia crescido. Sentia-se mais velha do que a me. Ela 

sabia que as outras mulheres estavam dizendo a verdade. Sabia que os boatos eram 

verdadeiros. Ela no sabia como explicar isso para a me. A me havia se tornado uma 

criana. 

Quando os homens entraram nos barraces, ela no sentiu medo. Sentiu que 

estava endurecida. Sentiu que uma grossa muralha havia crescido em torno dela. Pegou a 

mo da me e a apertou. Queria que a me fosse corajosa e forte. Mandaram que fossem 

para fora. Tinham que fazer uma fila para entrar em outro galpo, em pequenos grupos. 

Ela esperou na fila pacientemente com a me. Ficava olhando em volta para tentar 

localizar o pai, mas ele no estava em lugar nenhum. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 61 



Quando chegou a vez de elas entrarem no galpo, ela viu alguns policiais sentados 

atrs de uma mesa. Havia duas mulheres de p perto deles, usando roupas comuns. 

Mulheres do vilarejo, olhando com rostos duros e frios para as filas de pessoas. Ela as 

ouviu dar ordens  senhora na frente dela para entregar o dinheiro e as jias. Ela observou 

a senhora apalpar a aliana de casamento e o relgio. Uma menininha de uns 6 ou 7 anos 

estava perto dela, tremendo de medo. Um policial apontou para as pequeninas argolas de 

ouro que a menina tinha nas orelhas. Ela estava com medo demais para retir-las sozinha. 

A av se curvou para tir-las. O policial soltou um suspiro de irritao. Aquilo estava 

demorando demais. Nessa velocidade, eles ficariam ali a noite inteira. 

Uma das mulheres do vilarejo se aproximou da menina e, com um gesto rpido, 

arrancou-lhe as argolas das orelhas, rasgando os pequenos lbulos. A menininha gritou, 

com as mos esfregando o pescoo ensangentado. A velha senhora gritou tambm. Um 

policial deu-lhe um tapa no rosto. Elas foram empurradas para fora. Um murmrio de 

medo varreu a fila. Os policiais brandiram suas armas e fez-se silncio. 

A menina e a me no tinham nada para entregar. Apenas a aliana de casamento 

da me. Uma mulher do vilarejo de rosto corado rasgou o vestido da me do pescoo at 

o umbigo, revelando sua pele plida e as roupas ntimas desbotadas. Suas mos 

apalparam as pregas do vestido, as roupas ntimas, as aberturas do corpo da me. A me 

se retraiu, mas nada disse. A menina observava, com o medo crescendo dentro dela. Ela 

odiou o modo como os homens olhavam para o corpo da me, odiou o modo como a 

mulher do vilarejo a tocava, manuseando-a como um pedao de carne. Ser que eles iam 

fazer aquilo com ela tambm? ela se perguntou. Iriam rasgar suas roupas do mesmo 

modo? Talvez tomassem a chave dela. Ela a apertou no bolso com toda a sua fora. No, 

eles no podiam pegar a chave. Ela no iria deixar. No deixaria que lhe tirassem a chave 

do armrio secreto. Nunca. 

Mas os policiais no estavam interessados no que ela tinha nos bolsos. Antes que 

ela e a me sassem, ela olhou mais uma vez para as pilhas que cresciam sobre a mesa: 

colares, pulseiras, broches, anis, relgios, dinheiro. O que iriam fazer com tudo aquilo? ela 

pensou. Vender? Usar? Para que eles precisavam daquelas coisas? Do lado de fora, elas 

entraram em outra fila. Era um dia quente e em-poeirado. A menina tinha sede, sua 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 62 



garganta estava seca e arranhava. Elas ficaram l durante um longo tempo, sob o olhar 

silencioso dos policiais. O que estava acontecendo? Onde estava seu pai? Por que elas 

estavam ali de p? A menina conseguia ouvir sussurros incessantes atrs dela. Ningum 

sabia. Ningum sabia responder. Mas ela sabia. Ela sentia. E, quando aconteceu, ela j 

estava esperando por aquilo. 

Os policiais caram sobre elas como um bando de enormes pssaros negros. Eles 

arrastaram as mulheres para um lado do campo e as crianas para o outro. Mesmo as 

crianas menores foram separadas de suas mes. A menina observava tudo, como se 

estivesse em outro mundo. Ela ouviu os gritos, os berros, viu as mulheres se jogando no 

cho, com suas mos puxando as crianas pelas roupas, pelos cabelos. Ela observou os 

policiais levantarem os cassetetes e baterem nas cabeas das mes, nos rostos. Ela viu uma 

mulher cair. Seu nariz tinha se tornado uma polpa ensangentada. 

Sua prpria me estava ao lado dela, paralisada. Ela podia ouvi-la respirando em 

suspiros curtos e ofegantes. Segurou na mo fria da me. Sentiu o policial pux-las com 

violncia para separ-las, ouviu a me soltar um grito agudo, e depois a viu mergulhar 

novamente na direo dela, com seu vestido rasgado e aberto, seu cabelo desgrenhado, 

sua boca contorcida, gritando o nome da filha. Ela tentou agarrar as mos da me, mas os 

homens a empurraram para o lado, fazendo-a ficar de joelhos. A me lutou como uma 

criatura enlouquecida, dominando os policiais por alguns segundos, e, naquele preciso 

momento, a menina viu sua verdadeira me emergir, a mulher forte e passional que ela 

tanto admirava e de quem sentia saudades. Ela sentiu os braos da me envolvendo-a 

mais uma vez, sentiu o cabelo denso e grosso acariciar seu rosto. De repente, torrentes de 

gua fria a cegaram. Cuspindo, tentando respirar, ela abriu os olhos para ver os homens 

arrastarem sua me para longe pela gola de seu vestido encharcado. 

Para ela, parecia que aquilo havia durado horas. Crianas perdidas, chorando. 

Baldes de gua jogados em seus rostos. Mulheres se debatendo, subjugadas. Os sons 

surdos dos golpes. Mas ela sabia que tudo havia acontecido muito rapidamente. 

Silncio. Estava acabado. Finalmente, a multido de crianas estava de um lado e 

as mulheres do outro. Entre elas, uma cerrada fileira de policiais. Os policiais ficavam 

repetindo que as mes e as crianas com mais de 12 anos iam preceder as outras, e que as 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 63 



mais novas iriam na semana seguinte para juntar-se a elas. Os pais j haviam ido, disseram. 

Todos deveriam cooperar e obedecer. 

Ela viu a me de p com as outras mulheres. Sua me olhava para a filha com um 

pequeno sorriso corajoso. Ela parecia dizer: "Viu, minha querida? Ns vamos ficar bem, a 

polcia disse. Voc vir nos encontrar daqui a alguns dias. No se preocupe, meu amor." A 

menina olhou em volta para a multido de crianas. Tantas crianas! Ela olhou para as 

menores, que mal sabiam andar, com seus rostos contrados de tristeza e medo. Ela viu a 

menininha dos lbulos ensangentados com as palmas das mos viradas na direo da 

me. O que iria acontecer com todas essas crianas, com ela? pensava. Para onde os pais 

estavam sendo transportados? As mulheres foram levadas embora, para fora dos portes 

do campo. Ela viu sua me se virar e caminhar pela longa estrada que passava pelo vilarejo 

e levava  estao. O rosto de sua me se virou para ela uma ltima vez. 

Depois, ela se foi. 



ESTAMOS TENDO UM DOS nossos "bons" dias hoje, Madame Tzac - disse 

Vronique, sorrindo para mim quando entrei no quarto branco e ensolarado. Ela fazia 

parte da equipe que cuidava de Mame na casa de repouso limpa e alegre no 177 

arrondissement, no muito longe do Pare Monceau. 

- No a chame de Madame Tzac - vociferou a av de Bertrand. - Ela odeia. 

Chame-a de Miss Jarmond. 

No pude evitar um sorriso. Vronique pareceu desconcertada. 

- E, de qualquer forma, Madame Tzac sou eu - disse a velha senhora com um 

toque de arrogncia e total desdm pela outra Madame Tzac, sua nora Colette, a me de 

Bertrand. To tpico de Mame, pensei. To mal-humorada, mesmo nessa idade. Seu 

primeiro nome era Marcelle. Ela tinha averso a esse nome. Ningum nunca a chamava de 

Marcelle. 

- Eu sinto muito - disse Vronique humildemente. Pus uma das mos em seu 

brao. 

- Por favor, no se preocupe com isso - eu disse. - Eu no uso meu nome de 

casada. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 64 



-  coisa de americano - disse Mame. - Miss Jarmond  americana. 

- Sim, eu percebi - disse Vronique, mais animada. Percebeu o qu? Senti vontade 

de perguntar. Meu sotaque, minhas roupas, meus sapatos? - Ento, voc est tendo um 

bom dia hoje, Mame? - Sentei-me perto dela e cobri sua mo com a minha. 

Comparada com a velha senhora da rue Nlaton, Mame parecia ter o frescor da 

juventude. Sua pele quase no tinha rugas. Seus olhos cinzentos eram brilhantes. Mas a 

velha senhora da rue Nlaton, a despeito de sua aparncia decrpita, tinha a cabea no 

lugar, e Mame, aos anos, sofria do mal de Alzheimer. Havia dias em que ela simplesmente 

no sabia quem era. 

Os pais de Bertrand haviam decidido transferi-la para a clnica de repouso quando 

perceberam que ela era incapaz de morar sozinha. Ela era capaz de acender o queimador 

do fogo e deix-lo aceso o dia todo. Deixava a banheira transbordar. Ou saa 

regularmente do apartamento e era encontrada perambulando pela rue de Saintonge de 

camisola. Ela havia resistido, naturalmente. No quis ir para a clnica de repouso de jeito 

nenhum. Mas havia se adaptado bem, apesar dos ocasionais acessos de mau humor. 

- Estou tendo um "bom" dia - ela sorriu quando Vronique nos deixou a ss. 

- Ah, estou vendo - eu disse - aterrorizando tudo aqui, como sempre? - Como 

sempre - ela respondeu. Depois, ela se virou para mim. Seus afetuosos olhos cinzentos 

passearam pelo meu rosto. - Onde est aquele intil do seu marido? Ele nunca vem, sabe? 

E no me venha com uma daquelas desculpas do tipo "ele est muito ocupado". 

Suspirei. 

- Bem, pelo menos voc est aqui - ela disse asperamente. - Voc parece cansada. 

Est tudo bem? - Tudo bem - respondi. 

Eu sabia que estava com a aparncia cansada. No havia muito que eu pudesse 

fazer a respeito. Sair de frias, eu acho. Mas no planejava tirar frias antes do vero. 

- E o apartamento? Eu havia acabado de passar por l para ver o andamento das 

obras antes de ir para a clnica. Uma colmia de atividades. Bertrand supervisionando tudo 

com a energia de sempre. Antoine com a aparncia esgotada. 

- Vai ficar maravilhoso - eu disse. - Quando estiver pronto. 

- Sinto saudades de l - disse Mame. - Sinto saudades de morar l. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 65 



- Tenho certeza disso - respondi. Ela encolheu os ombros. 

- Voc fica apegada aos lugares, sabe? Como s pessoas, eu acho. Imagino se 

Andr sente saudade. 

Andr era seu falecido marido. Eu no o conhecera. Ele havia morrido quando 

Bertrand era adolescente. Eu estava acostumada a ouvir Mame falar dele no tempo 

presente. Eu jamais a corrigia, jamais a lembrava de que ele morrera anos antes de cncer 

no pulmo. Ela adorava falar dele. Quando a conheci, muito antes de comear a perder a 

memria, ela me mostrava os lbuns de fotos toda vez que eu ia v-la na rue de 

Saintonge. Eu sentia como se conhecesse o rosto de Andr Tzac de cor. Os mesmos olhos 

azuis-acinzentados de Edouard. Um nariz mais arredondado. Um sorriso mais caloroso, 

talvez. 

Mame havia me contado com todos os detalhes como eles haviam se conhecido, 

como haviam se apaixonado, e como tudo havia ficado difcil durante a guerra. Os Tzac 

eram originalmente da Borgonha, mas quando Andr herdou os vinhedos da famlia de 

seu pai, no foi capaz de pagar as contas. Ento, ele se mudou para Paris e abriu um 

pequeno antiqurio na rue de Turenne, perto da Place des Vosges. Levou algum tempo 

para que ele firmasse sua reputao, para que o negcio prosperasse. Edouard assumiu as 

rdeas depois da morte do pai e mudou a loja para a rue du Bac, no stimo 

arrondissement, onde os mais prestigiados antiqurios de Paris podiam ser encontrados. 

Ccile, a irm mais nova de Bertrand, agora comandava o lugar e estava se saindo muito 

bem. 

O mdico de Mame - o melanclico mas competente Docteur Roche - disse-me 

uma vez que era uma excelente terapia perguntar a Mame sobre o passado. De acordo 

com ele, ela provavelmente tinha uma melhor percepo do que acontecera trinta anos 

antes do que naquele dia de manh. 

Era como um jogo. Durante cada uma das minhas visitas, eu fazia perguntas. Eu 

fazia isso de forma natural, sem fazer grande alarde. Ela sabia perfeitamente qual era o 

meu objetivo, mas fingia ignorar. 

Foi divertido descobrir coisas sobre Bertrand de quando ele era pequeno. Mame 

me contou histrias muito interessantes. Ele tinha sido um adolescente desajeitado, no o 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 66 



cara legal de quem eu havia ouvido falar. Foi um aluno relutante, no o estudante 

brilhante que seus pais tanto elogiavam. Aos 14 anos, houve uma briga memorvel com o 

pai sobre a filha do vizinho, uma loura oxigenada promscua que fumava maconha. 

s vezes, no entanto, no era divertido sondar a memria defeituosa de Mame. 

Muitas vezes havia longas e horrveis lacunas. Ela no conseguia se lembrar de nada. Nos 

dias "ruins", ela se fechava como uma concha. Olhava fixamente para a televiso e fechava 

a boca de um jeito que fazia com que o queixo se projetasse. 

Um dia, de manh, ela no conseguia ter idia de quem era Zo. Ela ficava 

perguntando: "Quem  esta criana? O que ela est fazendo aqui?" Zo, como sempre, 

havia se comportado de maneira adulta com relao ao assunto. Porm, mais tarde, 

naquela noite, eu a ouvi chorando na cama. Quando perguntei carinhosamente qual era o 

problema, ela admitiu que no agentava ver sua bisav envelhecendo. 

- Mame - eu disse - quando foi que a senhora e Andr se mudaram para o 

apartamento da rue de Saintonge? Eu esperava que ela contorcesse o rosto, fazendo com 

que se parecesse com um velho macaco sbio, e viesse com algo como "ah, eu no 

consigo me lembrar...". 

Mas a resposta veio como uma chicotada. 

- Julho de 1942. 

Eu me sentei ereta, olhando para ela. 

- Julho de 1942? - repeti. 

- Isso mesmo - ela disse. 

- E como foi que vocs encontraram o apartamento? Estava ocorrendo uma guerra 

e deve ter sido difcil, no  mesmo? - De forma alguma - ela disse despreocupadamente. 

- Ele ficou vago de repente. Ouvimos falar dele pela concierge, Madame Royer, que era 

amiga de nossa antiga concierge. Ns morvamos na rue de Turen-ne, bem em cima da 

loja de Andr, num apartamentozinho apertado, desconfortvel, com apenas um quarto. 

Ento, ns nos mudamos com Edouard, que tinha 10 ou 12 anos na poca. Estvamos 

animados com a oportunidade de ter um apartamento maior. E o aluguel era barato, eu 

me lembro. Naquela poca, aquele quartier no tinha nem a metade da elegncia de 

agora. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 67 



Eu a observei cuidadosamente e pigarreei. 

- Mame, a senhora se lembra se era o incio de julho? Ou o fim? Ela sorriu, 

satisfeita por estar se saindo to bem. 

- Eu me lembro perfeitamente. Era fim de julho. 

- E a senhora se lembra por que o apartamento ficou vago to repentinamente? 

Outro sorriso radiante. 

- Mas  claro. Houve uma grande batida policial. As pessoas foram presas, sabe? 

Muitas moradias ficaram vagas repentinamente. 

Fiquei olhando para ela. Seus olhos me encararam tambm. Eles se obscureceram 

quando ela viu a expresso em meu rosto. 

- Mas como isso aconteceu? Como vocs se mudaram? Ela ajeitou as mangas, 

movendo a boca com dificuldade. 

- Madame Royer disse  nossa concierge que um apartamento de trs quartos 

estava vazio na rue de Saintonge. Foi isso que aconteceu. S isso. 

Silncio. Ela parou de movimentar as mos e as pousou sobre o colo. 

- Mas, Mame - sussurrei - vocs no pensaram que aquelas pessoas poderiam 

voltar algum dia? Seu rosto ficou sbrio e percebi algo tenso, doloroso, em seus lbios. 

- Ns no sabamos de nada - ela disse finalmente. - Nada. E ela baixou os olhos 

para as prprias mos e no disse mais nada. 



AQUELA FOI A PIOR NOITE. A pior noite da vida de todas aquelas crianas e da 

vida dela, pensou a menina. Os galpes haviam sido inteiramente saqueados. No havia 

restado nada - roupas, lenis, nada. Os edredons haviam sido rasgados em dois e as 

plumas brancas cobriam o cho como neve de mentirinha. 

Crianas chorando, gritando, soluando de terror. As crianas menores no 

conseguiam entender, ficavam gemendo, chamando por suas mes. Elas urinavam nas 

roupas, rolavam no cho, soltavam gritos agudos de desespero. As mais velhas, como ela, 

ficavam sentadas no cho sujo, com as cabeas entre as mos. 

Ningum olhava para elas. Ningum cuidava delas. Raramente recebiam comida. 

Elas estavam com tanta fome que mordiscavam a grama seca e pedacinhos de palha. No 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 68 



havia ningum para confort-las. A menina pensou: esses policiais... Eles no tm famlia 

tambm? Eles no tm filhos? No tm casas para onde voltam no fim do dia de trabalho 

para encontr-los? Como  que eles podem tratar crianas dessa maneira? Eles receberam 

ordens para isso ou esto agindo assim naturalmente? Na verdade, eles so mquinas e 

no seres humanos? Ela olhou para eles atentamente. Pareciam ser feitos de carne e osso. 

Eles eram homens. Ela no conseguia entender. 

No dia seguinte, a menina percebeu um punhado de pessoas observando-as pelo 

arame farpado. Mulheres com pacotes e comida. Elas estavam tentando empurrar a 

comida atravs das cercas. Mas os policiais ordenaram-lhes que fossem embora. Ningum 

mais veio olhar novamente. 

A menina se sentia como se houvesse se tornado outra pessoa. Uma pessoa 

endurecida, rude e selvagem. As vezes brigava com as outras crianas, aquelas que 

tentavam pegar o po velho e seco que ela havia encontrado. Ela as xingava. Batia nelas. 

Sentia-se perigosa, selvagem. 

No incio, ela no havia olhado para as crianas menores. Elas faziam com que ela 

se lembrasse demais do irmo. Mas agora sentia que tinha que ajud-las. Elas eram 

pequenas e vulnerveis. To patticas! To sujas! Muitas delas estavam com diarria. Suas 

roupas estavam duras de fezes. No havia ningum para lhes dar banho, ningum para 

lhes dar comida. 

Aos poucos, ela aprendeu seus nomes e suas idades, mas algumas das crianas 

eram to pequenas que quase no conseguiam responder. Elas ficavam agradecidas por 

uma voz calorosa, um sorriso, um beijo, e elas a seguiam por todo o campo, dezenas delas, 

fazendo fila atrs dela como pardais sujos e molhados. 

Ela lhes contava as histrias que costumava contar ao irmo antes de ele ir para a 

cama. A noite, deitada na palha infestada de piolhos, na qual as ratazanas faziam sons 

farfalhantes, ela sussurrava as histrias, fazendo com que ficassem mais compridas do que 

eram normalmente. As crianas mais velhas tambm se sentavam em volta. Algumas 

fingiam no ouvir, mas ela sabia que estavam escutando. 

Havia uma garota de 11 anos, uma menina alta de cabelos negros chamada 

Rachel, que olhava para ela freqentemente com um toque de desdm. Mas, noite aps 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 69 



noite, ela ouvia as histrias, arrastando-se para mais perto da menina, de modo a no 

perder uma s palavra. E, uma vez, quando a maioria das crianas pequenas estava 

finalmente adormecida, ela falou com a menina. 

Ela disse com uma voz profunda e spera: - Precisamos ir embora. Precisamos 

fugir. A menina sacudiu a cabea. 

- No h como. A polcia tem armas. No vamos conseguir fugir. Rachel encolheu 

os ombros ossudos. 

- Eu vou fugir. 

- E sua me? Ela est esperando por voc no outro campo, como a minha. 

Rachel sorriu. 

- Voc acredita nisso? Voc acredita no que eles disseram? A menina odiou o 

sorriso sabido de Rachel. 

- No - ela disse firmemente. - Eu no acredito neles. Eu no acredito em mais 

nada. 

- Nem eu - disse Rachel. - Eu vi o que eles fizeram. Eles nem escreveram os nomes 

das crianas direito. Eles colocaram aquelas etiquetazinhas que se misturaram quando a 

maioria das crianas as arrancou. Eles no se importam. Todos eles mentiram para ns. 

Para ns e para as nossas mes. 

E, para surpresa da menina, Rachel estendeu a mo e pegou a dela. Ela a apertou 

firmemente, como Armelle costumava fazer. Depois, ela se levantou e desapareceu. 

Na manh seguinte, elas foram acordadas muito cedo. Os policiais entraram nos 

barraces, empurrando-as com seus cassetetes. As crianas menores, ainda sonolentas, 

comearam a gritar. A menina tentou acalmar aquelas que estavam perto dela, mas elas 

estavam aterrorizadas. Foram levadas para um galpo. A menina segurava duas crianas 

pequenas pela mo. Ela viu um policial segurando um instrumento em uma das mos. 

Tinha um formato estranho. Ela no sabia o que era aquilo. As crianas pequenas 

ofegaram de medo e recuaram. Elas levaram tapas e chutes do policial, e depois foram 

arrastadas na direo do homem com o instrumento. A menina observava, horrorizada. 

Depois, ela compreendeu. Os cabelos iriam ser raspados. Todas as crianas teriam as 

cabeas raspadas. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 70 



Ela ficou olhando enquanto o grosso cabelo negro de Rachel caa no cho. Seu 

crnio nu era branco e pontudo como um ovo. Rachel olhava para o homem com dio e 

desprezo. Ela cuspiu nos sapatos dele. Um dos gendarmes a empurrou para o lado com 

brutalidade. 

As crianas menores estavam fora de si. Tiveram que ser agarradas e imobilizadas 

por dois ou trs homens. Quando foi a vez dela, a menina no lutou. Curvou a cabea. 

Sentiu a fria presso da mquina e fechou os olhos, incapaz de suportar a viso dos longos 

fios dourados caindo a seus ps. Seus cabelos. Seus lindos cabelos que todos admiravam. 

Ela sentiu soluos brotando em sua garganta, mas fez fora para no chorar. Nunca chorar 

na frente desses homens. Nunca chorar. Nunca. So apenas cabelos. Vo crescer 

novamente. 

Estava quase acabado. Ela abriu os olhos novamente. O policial que a segurava 

tinha gordas mos cor-de-rosa. Ela levantou os olhos para ele enquanto o outro raspava 

os ltimos cachos. 

Era o policial ruivo e amigvel do bairro dela. Aquele com quem a me costumava 

conversar. Aquele que sempre tinha uma piscadela para ela a caminho da escola. Aquele 

para quem ela acenou no dia da batida policial, aquele que havia virado o rosto. Agora, ele 

estava perto demais para olhar para o outro lado. 

Ela sustentou o olhar, sem baixar os olhos uma nica vez. Os olhos dele tinham 

uma cor estranha, amarelada como ouro. Seu rosto estava vermelho de vergonha, e ela 

pensou ter sentido que ele tremia. Ela no disse nada, olhando para ele com todo o 

desprezo que conseguia reunir. 

Ele apenas conseguia devolver o olhar, sem fazer um nico movimento. A menina 

sorriu um sorriso amargo para uma criana de 10 anos e afastou as mos pesadas dele. 



DEIXEI A CLNICA DE REPOUSO em um tipo de torpor. Eu tinha que ir para o 

escritrio, onde Bamber me esperava, mas me peguei voltando para a rue de Saintonge. 

Havia tantas perguntas em minha cabea que eu me sentia assoberbada. Mame estava 

dizendo a verdade ou havia se confundido por causa da doena? Realmente teria havido 

uma famlia judia morando l? Como  que os Tzac puderam se mudar para l sem saber 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 71 



de nada, como Mame havia afirmado? Caminhei lentamente pelo ptio. O alojamento da 

concierge provavelmente teria sido aqui, pensei. Anos antes, ele havia sido transformado 

em um pequeno apartamento. Uma fileira de caixas de correio metlicas ladeava o 

corredor. No havia mais uma concierge que entregava a correspondncia todos os dias 

em cada porta. Madame Royer - esse era o nome dela - Mame havia dito. Eu havia lido 

muito sobre as con-cierges e o papel que elas desempenharam durante as prises. A 

maioria delas havia cumprido as ordens da polcia, e algumas haviam ido alm, mostrando 

aos policiais onde determinadas famlias judias haviam se escondido. Outras haviam 

saqueado os apartamentos vagos e acumulado bens logo aps a batida policial. Apenas 

algumas, eu li, haviam protegido as famlias judias da melhor maneira que puderam. Eu me 

perguntava que tipo de papel Madame Royer havia desempenhado. Pensei rapidamente 

em minha concierge no Boulevard du Montparnasse. Ela tinha a minha idade, era de 

Portugal e no havia conhecido a guerra. 

Ignorei o elevador e subi os quatro andares de escada. Os operrios estavam fora, 

em horrio de almoo. O prdio estava silencioso. Quando abri a porta da frente, senti 

algo estranho me engolir, uma sensao desconhecida de vazio e desespero. Caminhei 

para a parte mais antiga do apartamento, a parte que Bertrand havia me mostrado no 

outro dia. Foi ali que tudo havia acontecido. Foi ali que os homens vieram bater  porta 

naquela manh quente de julho, um pouco antes do amanhecer. Parecia-me que tudo o 

que eu havia lido nas ltimas semanas, tudo o que eu havia aprendido sobre o Vel' d'Hiv 

tinha se juntado aqui, neste exato lugar onde em breve eu iria morar. Todos os 

depoimentos que eu havia examinado, todos os livros que eu tinha estudado, todos os 

sobreviventes e testemunhas que eu havia entrevistado me fizeram compreender, me 

fizeram ver, com uma clareza quase irreal, o que havia acontecido entre as paredes que eu 

tocava agora. 

O artigo que eu havia comeado a escrever alguns dias atrs estava quase 

concludo. Meu prazo final estava se aproximando. Eu ainda tinha que visitar os campos de 

Loiret e Drancy fora de Paris, e tinha uma reunio marcada com Franck Lvy, cuja 

associao estava organizando a maior parte das comemoraes do sexagsimo 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 72 



aniversrio da batida policial. Em breve, minha investigao estaria encerrada e eu 

escreveria sobre algum outro assunto. 

Mas agora que eu sabia o que havia acontecido aqui, to perto de mim, to 

intimamente ligado a mim,  minha vida, eu sentia que tinha que descobrir mais. Minha 

pesquisa ainda no estava terminada. Eu sentia que tinha que saber tudo. O que havia 

acontecido  famlia judia que morava neste lugar? Quais eram os seus nomes? Havia 

alguma criana? Algum havia voltado dos campos da morte? Estavam todos mortos? 

Perambulei pelo apartamento vazio. Em um aposento, a parede estava sendo demolida. 

Perdida no meio do entulho, percebi uma longa e profunda abertura, engenhosamente 

escondida atrs de um painel. Estava agora parcialmente  mostra. Teria sido um bom 

esconderijo. Se essas paredes pudessem falar... Mas eu no precisava que elas falassem. Eu 

sabia o que havia acontecido ali. Eu podia ver. Os sobreviventes haviam me contado sobre 

a noite quente e calma, os murros nas portas, as ordens rspidas, o trajeto de nibus 

atravessando Paris. Eles haviam me contado sobre o inferno ftido do Vel' d'Hiv. Aqueles 

que me contaram foram os que conseguiram sobreviver, que conseguiram escapar, que 

arrancaram suas estrelas e fugiram. 

Imaginei de repente se eu poderia lidar com esse conhecimento, se eu poderia 

morar aqui sabendo que em meu apartamento uma famlia havia sido presa e enviada para 

suas provveis mortes. Eu me perguntava como os Tzac conviveram com isso. 

Peguei meu celular e liguei para Bertrand. Quando ele viu meu nmero aparecer, 

ele murmurou "reunio". Aquele era o nosso cdigo para "estou ocupado". 

-  urgente - insisti. 

Eu o ouvi murmurar algo, e depois sua voz soou clara. 

- O que foi, amour? - ele perguntou. - Diga rpido, tem uma pessoa me 

esperando. 

Respirei fundo. 

- Bertrand - eu disse - voc sabe como seus avs conseguiram o apartamento da 

rue de Saintonge? - No - ele respondeu. - Por qu? - Acabei de ver Mame. Ela me disse 

que eles se mudaram para c em julho de 1942. Ela disse que o lugar estava vago porque 

uma famlia judia foi presa durante a batida policial do Vel' d'Hiv. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 73 



Silncio. 

- E ento? - perguntou Bertrand, finalmente. 

Senti meu rosto queimar. Minha voz ecoou pelo apartamento vazio. 

- Mas no incomoda voc o fato de sua famlia ter se mudado sabendo que a 

famlia judia havia sido presa? Eles alguma vez contaram isso a voc? Eu quase podia ouvi-

lo encolher os ombros daquele tpico jeito francs, com os cantos da boca curvados para 

baixo e as sobrancelhas arqueadas. 

- No, no me incomoda. Eu no sabia, eles nunca me disseram, mas ainda assim 

no me incomoda. Tenho certeza de que muitos parisienses se mudaram para 

apartamentos vazios em julho de 1942, depois da batida policial. Certamente isso no faz 

com que minha famlia seja colaboracionista, faz? Sua risada feriu meus ouvidos. 

- Eu nunca disse isso, Bertrand. 

- Voc est ficando muito sensvel com relao a tudo isso, Julia - ele disse, num 

tom mais carinhoso. - Isso aconteceu h sessenta anos, sabe? Havia uma guerra, lembre-se 

disso. Tempos difceis para todo mundo. Suspirei. 

- Eu s queria saber como tudo aconteceu. Eu no compreendo. 

-  simples, mon ange. Meus avs passaram por tempos difceis durante a guerra. 

O antiqurio no estava indo bem. Eles provavelmente ficaram aliviados ao se mudarem 

para um lugar maior e melhor. Afinal de contas, tinham um filho. Eles eram jovens. 

Estavam felizes por encontrar um teto. Eles provavelmente no pensaram duas vezes sobre 

a famlia judia. 

- Ah, Bertrand - sussurrei. - Como eles puderam no pensar sobre aquela famlia? 

Como no? Ele jogou beijos pelo telefone. 

- Eles no sabiam, eu acho. Tenho que ir, amour. Nos vemos  noite. 

E desligou. 

Fiquei no apartamento durante algum tempo, andando pelo longo corredor, 

parando na sala de estar vazia, correndo a palma da mo pelo mrmore liso da lareira, 

tentando compreender, tentando no deixar minhas emoes me dominarem 

completamente. 



A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 74 



JUNTO COM RACHEL, ela havia se decidido. Elas iam fugir. Iam abandonar aquele 

lugar. Era isso ou morrer. Ela sabia. Sabia que, se ficasse aqui com as outras crianas, seria 

o fim. Muitas delas estavam doentes. Meia dzia j havia morrido. Uma vez, ela vira uma 

enfermeira, como aquela no estdio, uma mulher com um vu azul. Uma nica enfermeira 

para tantas crianas doentes e com fome. 

A fuga era o segredo delas, que no haviam contado a nenhuma das outras 

crianas. Ningum deveria desconfiar de nada. Elas iriam escapar em plena luz do dia. Elas 

haviam percebido que, durante o dia, na maioria das vezes, os policiais quase no 

prestavam ateno a elas. Poderia ser rpido e fcil. Atrs dos galpes, na direo da 

caixa-d'gua, onde as mulheres do vilarejo haviam tentado empurrar comida atravs do 

arame farpado, elas haviam encontrado uma pequena fenda nos rolos de arame. Pequena, 

mas talvez grande o bastante para uma criana passar engatinhando. 

Algumas crianas j haviam deixado o campo, cercadas pelos policiais. Ela as havia 

observado sarem, criaturas pequenas e frgeis com suas roupas rasgadas e cabeas 

raspadas. Para onde estavam sendo levadas? Para longe? Para as mes e os pais? Ela no 

acreditava nisso. Rachel tambm no. Se todas elas estivessem sendo enviadas para o 

mesmo lugar, por que os policiais haviam separado os pais das crianas, para comear? 

Por que tanta dor, tanto sofrimento? a menina pensou. 

-  porque eles nos odeiam - Rachel havia dito a ela com sua voz rouca e 

profunda. - Eles odeiam os judeus. 

Tanto dio!, pensou a menina. Por que tanto dio? Ela nunca havia odiado 

ningum na vida, exceto talvez uma professora, uma vez. Uma professora que a punira 

severamente porque ela no havia aprendido a lio. Alguma vez tinha desejado que 

aquela mulher morresse? ela pensou. Tinha sim. Ento talvez fosse assim que a coisa 

funcionava. Eis como tudo tinha acontecido. Odiar tanto as pessoas que voc queria mat-

las. Odi-las porque usavam uma estrela amarela. Ela sentiu como se todo o mal e todo o 

dio do mundo estivessem concentrados bem ali, estocados em volta dela, nos rostos 

duros dos policiais, em sua indiferena, em seu desdm. E, fora do campo, todos odiavam 

os judeus tambm? Era assim que sua vida iria ser dali por diante? Ela se lembrou, em 

junho passado, de ter ouvido os vizinhos comentarem na escada quando voltava para casa 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 75 



da escola. Vozes femininas, falando em voz baixa, em sussurros. Ela havia feito uma parada 

nas escadas, com os ouvidos em p como os de um cachorrinho. 

- E, sabe? o palet dele se abriu e l estava ela, a estrela. Eu jamais imaginaria que 

ele fosse judeu. 

Ela ouviu a outra mulher inspirar, soltando um som agudo. 

- Um judeu! Um cavalheiro to distinto, tambm. Que surpresa! Ela havia 

perguntado  sua me por que alguns dos vizinhos no gostavam de pessoas judias. Sua 

me havia encolhido os ombros, suspirado, curvando a cabea sobre as roupas que estava 

passando a ferro. Mas ela no havia respondido. Ento, a menina foi ver o pai. O que havia 

de errado em ser judeu? Por que algumas pessoas odeiam os judeus? Seu pai havia 

coado a cabea, havia baixado os olhos para ela com um sorriso perplexo. Ele havia dito, 

hesitantemente: - Porque elas pensam que somos diferentes. Por isso, elas tm medo de 

ns. 

Mas o que era to diferente? pensou a menina. O que era to diferente? Sua me. 

Seu pai. Seu irmo. Ela tinha tanta saudade deles que se sentia fisicamente doente. Era 

como se houvesse cado em um buraco sem fundo. Fugir era a nica maneira de ter algum 

tipo de controle sobre sua vida, sobre essa nova vida que ela no compreendia. Talvez 

seus pais tivessem conseguido escapar tambm. Talvez todos eles tivessem conseguido 

fugir. Talvez todos eles tivessem conseguido voltar para casa. Talvez... Talvez... 

Ela pensou no apartamento vazio, nas camas desfeitas, na comida lentamente 

apodrecendo na cozinha. E seu irmo naquele silncio. No silncio morto do lugar. 

Rachel tocou em seu brao, fazendo-a dar um salto. 

- Agora - ela sussurrou. - Vamos tentar, agora. 

O campo estava silencioso, quase deserto. Depois que os adultos foram levados 

embora, havia menos policiais, ela percebera. E os policiais quase no falavam com as 

crianas. Eles as deixavam sozinhas. 

O calor pesava insuportavelmente nos galpes. Dentro, crianas frgeis e doentes 

estavam deitadas na palha mida. As meninas podiam ouvir vozes masculinas e risadas 

que vinham de mais longe. Os homens provavelmente estavam num dos barraces, 

mantendo-se afastados do sol. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 76 



O nico policial que elas podiam ver estava sentado na sombra, com o fuzil aos 

seus ps. Sua cabea estava reclinada e encostada na parede e ele parecia profundamente 

adormecido, com a boca aberta. Elas se esgueiraram na direo das cercas, como animais 

pequenos e geis, e conseguiram avistar os prados e os campos verdes estendendo-se 

diante delas. 

Silncio, calmaria. Calor e silncio. Algum as teria visto? Elas rastejavam na grama, 

com o corao aos saltos. Olharam para trs, por cima dos ombros. Nenhum movimento. 

Nenhum som. Era assim to fcil? pensou a menina. No, no podia ser. Nada era to fcil. 

No mais. 

Rachel estava apertando uma trouxa de roupas em seus braos. Ela insistiu com a 

menina para vesti-las. As camadas extras iriam proteger a pele contra o arame farpado, ela 

disse. A menina estremeceu ao lutar para entrar na suter suja e em trapos e na cala 

apertada e esfarrapada. A quem essas roupas teriam pertencido? ela pensou. A alguma 

pobre criana, agora morta, cuja me havia ido embora, e que havia sido deixada aqui para 

morrer sozinha? Ainda rastejando, elas se aproximaram da pequena fenda nos rolos de 

arame. Havia um policial de p a alguma distncia dali. Elas no podiam distinguir seu 

rosto, apenas o contorno de seu quepe alto e redondo. Rachel apontou para a abertura no 

arame. Elas teriam que se apressar agora. No havia tempo a perder. Elas se deitaram de 

bruos e serpentearam na direo do buraco. Parecia to pequeno!, pensou a menina. 

Como elas conseguiriam passar rastejando sem se cortarem no arame farpado, apesar das 

roupas extras? Como elas alguma vez imaginaram que iriam conseguir? Que ningum iria 

v-las? Que elas iriam se livrar dessa? Elas estavam loucas, ela pensou. Loucas. 

A grama fazia ccegas em seu nariz. O cheiro era delicioso. Queria enterrar o rosto 

nela e sentir o aroma verde e penetrante. Ela viu que Rachel j havia alcanado a fenda e 

estava cuidadosamente passando sua cabea atravs dela. 

De repente, a menina ouviu sons surdos e pesados sobre a grama. Seu corao 

parou. Ela levantou os olhos para uma enorme forma que assomava sobre ela. Um policial. 

Ele a arrastou e a levantou pela gola puda da blusa e a sacudiu. Ela se sentiu fraca de 

terror. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 77 



- Mas o que  que vocs pensam que esto fazendo? Sua voz sibilou em seu 

ouvido. 

Rachel estava na metade do caminho atravs dos rolos de arame farpado. O 

homem, ainda segurando a menina pela nuca, abaixou-se e segurou o tornozelo de 

Rachel. Ela lutou e chutou, mas ele era forte demais, puxan-do-a de volta com o rosto e as 

mos sangrando atravs do arame farpado. 

Elas ficaram de p na frente dele, Rachel soluando, a menina ereta, com o queixo 

erguido. Por dentro, ela estava tremendo, mas havia decidido que no mostraria seu 

medo. Ao menos, iria tentar. 

E a, ento, ela olhou para ele e ficou sem flego. 

Era o policial ruivo. Ele a reconheceu instantaneamente. Ela viu seu pomo-de-ado 

se agitar, sentiu a mo grossa em seu colarinho estremecer. 

- Vocs no podem fugir - ele disse asperamente. - Vocs precisam ficar aqui, 

vocs compreendem? Ele era jovem, tinha pouco mais de 20 anos, era corpulento e tinha a 

pele cor-de-rosa. A menina percebeu que ele estava suando sob o uniforme escuro. Sua 

testa brilhava com a umidade, seu lbio superior tambm. Seus olhos piscaram, e ele jogou 

o peso do corpo de um p para o outro. 

Ela percebeu que no estava com medo. Sentiu um tipo de estranha pena dele, o 

que a deixou perplexa. Colocou sua mo sobre o brao dele. Ele abaixou os olhos para ela 

com surpresa e embarao. 

- O senhor se lembra de mim, no lembra? - ela disse. No era uma pergunta. Era 

um fato. 

Ele acenou com a cabea que sim, esfregando a rea mida sob o nariz. Ela pegou 

a chave do bolso e mostrou para ele. A mo dele no vacilou. 

- O senhor se lembra do meu irmozinho - ela disse. - O menininho louro com os 

cabelos cacheados? Ele novamente acenou com a cabea. 

- O senhor tem que me deixar ir embora, Monsieur. Meu irmozinho, Monsieur. 

Ele est em Paris. Sozinho. Eu o tranqei no armrio porque pensei... - sua voz falhou. - Eu 

pensei que ele fosse ficar seguro l! Eu preciso voltar! Deixe-me passar por este buraco. O 

senhor pode fingir que nunca me viu, Monsieur. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 78 



O homem olhou para trs por cima do ombro, na direo dos galpes, como se 

estivesse com receio de que algum pudesse vir, que algum pudesse v-los ou ouvi-los. 

Ele levou um dos dedos aos lbios. Olhou novamente para a menina. Ele contorceu 

o rosto e sacudiu a cabea. 

- No posso fazer isso - ele disse, em voz baixa. - Tenho ordens. Ela pressionou 

sua mo contra o peito dele. 

- Por favor, Monsieur - ela disse baixinho. 

Perto dela, Rachel fungava, com o rosto coberto de cogulos de sangue e 

lgrimas. O homem olhou por sobre o ombro novamente. Ele parecia profundamente 

perturbado. Ela novamente percebeu a estranha expresso em seu rosto, aquela que ela 

vira no dia da batida policial. Uma mistura de pena, vergonha e raiva. 

A menina sentiu os minutos passarem opressivos, pesados. Interminveis. Ela 

sentiu os soluos e as lgrimas crescendo dentro dela novamente. O pnico. O que ela iria 

fazer se ele as mandasse de volta para os barraces? Como ela iria continuar? Como? 

Tentaria escapar novamente, pensou furiosa. Sim, ela faria tudo de novo. Tudo de novo. 

De repente, ele disse o nome dela e pegou em sua mo. A palma da mo do 

policial estava quente e pegajosa. 

- V - ele disse por entre os dentes cerrados, com o suor gotejando pelos lados de 

seu rosto plido. - V, agora! Rpido! Desconcertada, ela olhou para os olhos dourados. 

Ele a empurrou na direo do buraco, forando-a com a mo. Ele segurou o arame e a 

empurrou violentamente. O arame farpado feriu sua testa. Depois, estava terminado. Ela 

lutou para ficar de p. Ela estava livre, de p do outro lado. 

Rachel olhava fixamente, imvel. 

- Eu quero ir tambm - Rachel disse. 

O policial apertou uma das mos na parte de trs do pescoo dela. 

- No, voc vai ficar - ele disse. Rachel comeou a chorar. 

- Isso no  justo! Por que ela e no eu? Por qu? Ele a silenciou, levantando a 

outra mo. Atrs da cerca, a menina continuava paralisada no mesmo lugar. Por que 

Rachel no podia vir com ela? Por que Rachel tinha que ficar? - Por favor, deixe-a vir - 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 79 



disse a menina. - Por favor, Monsieur. Ela falou com voz baixa e calma. A voz de uma 

moa. 

O homem pareceu desconfortvel, impaciente. Mas ele no hesitou por muito 

tempo. 

- V, ento - ele disse, empurrando Rachel. - Rpido. 

Ele levantou o arame para Rachel rastejar. Ela se levantou e parou ao lado da 

menina, sem flego. 

O homem remexeu nos bolsos, puxou algo para fora e entregou para a menina, 

atravs da cerca. 

- Pegue isso - ele ordenou. 

A menina olhou para o grosso mao de dinheiro em suas mos. Ela o colocou no 

bolso, junto com a chave. 

O homem olhou novamente na direo dos galpes com a testa enrugada. 

- Pelo amor de Deus, corram! Corram agora, rpido, vocs duas. Se eles virem 

vocs... Arranquem as estrelas. Tentem encontrar ajuda. Tenham cuidado. Boa sorte! Ela 

quis agradecer-lhe pela ajuda, pelo dinheiro, ela quis estender a mo para ele, mas Rachel 

a segurou pelo brao e elas partiram. Correram o mais rpido que puderam atravs do



trigo dourado e alto, sempre em frente, com os pulmes quase se rompendo, os braos e 

as pernas em confuso, para longe do campo, para o mais longe possvel. 



AO CHEGAR EM CASA, percebi que vinha me sentindo enjoada durante os 

ltimos dias. Eu no havia me preocupado com isso, ocupada que estava na pesquisa para 

o artigo sobre o Vel' d'Hiv. Depois, na semana anterior, houve a revelao relativa ao 

apartamento de Mame. Mas foi a sensibilidade e a maciez dos meus seios que me fez 

prestar ateno ao meu enjo pela primeira vez. Verifiquei meu ciclo. Sim, ele estava 

atrasado. Mas aquilo havia acontecido tambm em anos anteriores. Finalmente fui at a 

pharmacie no Boulevard para comprar um teste de gravidez. S para confirmar. 

E l estava ela. Uma linhazinha azul. Eu estava grvida. Grvida. Eu no conseguia 

acreditar. 

Sentei-me na cozinha e nem ousava respirar. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 80 



A ltima gravidez, cinco anos antes, depois de dois abortos espontneos, havia 

sido um pesadelo. Dores e sangramentos precoces, depois a descoberta de que o vulo 

estava se desenvolvendo fora do tero, em uma das minhas trompas. Fora uma cirurgia 

difcil, com conseqncias complicadas, tanto fsica quanto emocionalmente. Levei muito 

tempo para superar tudo. Um dos meus ovrios havia sido removido. O cirurgio disse que 

tinha dvidas quanto  possibilidade de uma outra gravidez. E, na poca, eu j tinha 40 

anos. A decepo, a tristeza no rosto de Bertrand... Ele nunca falou sobre isso, mas eu 

sentia. Eu sabia. O fato de ele nunca querer conversar sobre os sentimentos dele s fez 

piorarem as coisas. Ele se reprimia, no se abria comigo. As palavras que nunca foram ditas 

cresceram como um ser tangvel entre ns. Eu s tinha falado a respeito com o meu 

psiquiatra. E com meus amigos muito ntimos. 

Lembrei-me de um fim de semana recente na Borgonha, quando convidamos 

Isabelle, seu marido e os filhos para se hospedarem conosco. A filha deles, Mathilde, tinha 

a idade de Zo, e havia o pequeno Matthieu. O modo como Bertrand olhava para o 

menininho, uma agradvel criaturinha de 4 ou 5 anos. Os olhos de Bertrand seguindo-o, 

Bertrand brincando com ele, carregando-o nos ombros, sorrindo, mas com alguma coisa 

triste e melanclica nos olhos. Foi insuportvel para mim. Isabelle me encontrou chorando 

sozinha na cozinha enquanto todos terminavam a quiche Lorraine do lado de fora. Ela me 

deu um abrao apertado, encheu um grande copo de vinho, ligou o CD player e 

amorteceu o som do meu choro com velhos sucessos de Diana Ross. 

- No  culpa sua, ma cocotte, no  culpa sua. Lembre-se disso. 

Eu me senti incompetente por muito tempo. A famlia Tzac foi gentil e discreta 

com relao ao assunto, mas ainda assim eu sentia que no havia sido capaz de dar a 

Bertrand o que ele mais queria na vida - um segundo filho. E, ainda mais importante, um 

menino. Bertrand tinha duas irms e nenhum irmo. O nome da famlia iria desaparecer se 

no houvesse ningum para perpetu-lo. Eu no havia percebido como esse fator era 

importante para esta famlia em particular. 

Quando deixei bem claro que, embora fosse a esposa de Bertrand, eu deveria ser 

chamada de Julia Jarmond, todos me dirigiram um silncio surpreso. Minha sogra, Colette, 

explicou-me com um sorriso desajeitado que na Frana esse tipo de atitude era moderno. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 81 



Moderno demais. Uma postura feminista que no caa bem de jeito nenhum. Uma mulher 

francesa deveria ser chamada pelo nome do marido. Eu iria ser, pelo resto da minha vida, 

Madame Bertrand Tzac. Eu me lembro de devolver-lhe um sorriso branco cheio de dentes 

e dizer-lhe sem constrangimento que eu iria continuar usando o nome Jarmond. Ela no 

disse nada e, dali por diante, ela e Edouard, meu sogro, sempre me apresentavam como a 

"esposa de Bertrand". 

Baixei os olhos para a linha azul. Um beb. Um beb! Um sentimento de alegria, de 

absoluta felicidade, tomou conta de mim. Eu ia ter um beb. Olhei em volta para a cozinha 

excessivamente familiar. 

Fui at a janela e olhei para o ptio escuro e encardido para onde dava a cozinha. 

Menino ou menina, isso no importava. Eu sabia que Bertrand esperaria que fosse menino. 

Mas ele adoraria se fosse menina, tambm. Eu sabia disso. Um segundo filho. A criana por 

quem espervamos h tanto, tanto tempo. Aquela por quem havamos parado de esperar. 

A irm ou o irmo que Zo havia parado de mencionar. A criana sobre a qual Mame havia 

parado de ter curiosidade. 

Como eu iria contar a Bertrand? Eu no podia simplesmente ligar para ele e 

despejar a notcia pelo telefone. Tnhamos que estar juntos, apenas ns dois. Precisvamos 

de privacidade e intimidade. E tnhamos que ter cuidado depois disso, sem deixar ningum 

saber at que eu estivesse com pelo menos trs meses de gravidez. Eu estava doida para 

ligar para Herv e Christophe, para Isabelle, para minha irm e meus pais, mas me contive. 

Meu marido deveria ser o primeiro a saber. Depois, minha filha. Acabei tendo uma idia. 

Peguei o telefone e liguei para Elsa, a bab. Perguntei se ela estava livre hoje  

noite para tomar conta de Zo. Depois, fiz reservas em nosso restaurante favorito, uma 

brasserie na rue Saint-Dominique que freqentvamos regularmente desde o comeo do 

nosso casamento. Finalmente, liguei para Bertrand, caiu na caixa postal e deixei recado 

para que ele me encontrasse no Thoumieux s nove horas em ponto. 

Ouvi o clique da chave de Zo na porta da frente. A porta bateu e depois ela 

entrou na cozinha com sua pesada mochila na mo. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 82 



- Oi, me - ela me disse. - Voc teve um bom dia? Eu sorri. Como sempre, todas 

as vezes que eu punha os olhos em Zo, eu ficava tocada por sua beleza, sua figura 

esbelta, seus luminosos olhos cor de avel. 

- Venha c, voc - eu disse, envolvendo-a em um abrao voraz. Ela recuou e me 

encarou. 

- Foi um dia bom, no foi? - ela perguntou. - Posso sentir no seu abrao. 

- Voc tem razo - respondi, doida para contar a ela. - Foi um dia muito bom. 

Ela olhou para mim. 

- Fico feliz. Voc tem estado esquisita ultimamente. Pensei que era por causa 

daquelas crianas. 

- Aquelas crianas? - eu disse, afastando seus sedosos cabelos castanhos do rosto. 

- Voc sabe... as crianas - ela disse. -As crianas do Vel' d'Hiv. Aquelas que nunca 

voltaram para casa. 

- Voc est certa - eu disse. - Isso me deixou triste. Ainda deixa. 

Zo pegou na minha mo, girando minha aliana de casamento, algo que ela fazia 

desde pequena. 

- E depois eu ouvi voc falando no telefone na semana passada - ela disse, sem 

olhar para mim. 

- E...? - Voc pensou que eu estivesse dormindo. 

- Ah - eu disse. 

- Eu no estava. Era tarde. Voc estava falando com Herv, eu acho. Vocs 

estavam conversando sobre o que Mame havia contado a voc. 

- Sobre o apartamento? - perguntei. 

- Isso - ela disse, finalmente olhando para mim. - Sobre a famlia que morava l. E 

o que havia acontecido quela famlia. E como Mame tinha morado l todos esses anos e 

no parecia se importar muito com isso. 

- Voc ouviu tudo isso - eu disse. Ela fez um aceno com a cabea. 

- Voc sabe alguma coisa sobre aquela famlia, me? Voc sabe quem eles eram? 

O que aconteceu? Sacudi a cabea. 

- No, meu bem, eu no sei. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 83 



-  verdade que Mame no se importou? Eu tinha que ser cuidadosa. 

- Meu amor, tenho certeza de que ela se importava. Eu no acho que ela 

realmente soubesse o que tinha acontecido. 

Zo continuava girando minha aliana, desta vez mais rapidamente. 

- Me, voc vai descobrir sobre eles? Segurei os dedos nervosos que puxavam 

minha aliana. 

- Vou, Zo.  exatamente o que eu vou fazer - eu disse. 

- Papa no vai gostar - ela disse. - Ouvi Papa dizendo a voc para parar de pensar 

sobre o assunto. Para parar de se preocupar com isso. Ele parecia aborrecido. 

Eu a puxei para perto de mim, pousando meu queixo sobre o ombro dela. Pensei 

no segredo maravilhoso que eu carregava dentro de mim. Pensei na noite que teria no 

Thoumieux. O rosto incrdulo de Bertrand, sem flego de tanta alegria. 

- Meu bem - eu disse - Papa no vai se importar. Prometo. 



EXAUSTAS, AS CRIANAS FINALMENTE pararam de correr, abaixando-se atrs 

de um grande arbusto. Elas estavam com sede e sem flego. A menina estava com uma 

dor aguda num dos lados do corpo. Se ela apenas pudesse beber um pouco de gua! 

Descansar um pouco. Recuperar as foras. Mas ela sabia que no podia ficar ali. Ela tinha 

que continuar, tinha que voltar para Paris. De algum jeito. 

- Arranquem as estrelas - o homem havia dito. 

Elas se desvencilharam das roupas extras, rasgadas e esfarrapadas pelo arame 

farpado. A menina baixou os olhos para seu peito. L estava ela, a estrela, em sua blusa. Ela 

a puxou. Rachel, seguindo seu olhar, arrancou sua prpria estrela com as unhas. A dela 

saiu facilmente. Mas a estrela da menina estava muito bem costurada. Ela tirou a blusa e 

levantou a estrela at o rosto. Pontos pequenos e perfeitos. Ela se lembrou da me, 

curvada sobre a pilha de trabalhos manuais, costurando cada estrela pacientemente, uma 

aps a outra. A memria levou-a s lgrimas. Ela chorou com o rosto escondido na blusa 

com um desespero que no conhecia. 

Sentiu os braos de Rachel envolvendo-a, com suas mos ensangentadas 

acariciando-a e puxando-a para mais perto. Rachel disse: -  verdade, aquilo sobre seu 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 84 



irmo? Ele realmente est no armrio? A menina fez que sim com a cabea. Rachel a 

abraou mais forte e acariciou sua cabea desajeitadamente. Onde estaria sua me agora? 

a menina se perguntava. E seu pai? Para onde teriam sido levados? Estariam juntos? 

Estariam a salvo? Se eles pudessem v-la neste exato momento... Se eles pudessem v-la 

chorando atrs do arbusto, imunda, perdida, faminta... 

Ela se ps de p, fazendo o melhor possvel para sorrir para Rachel por entre os 

clios molhados. Sim, imunda, faminta talvez, mas sem medo. Enxugou as lgrimas com os 

dedos sujos. Estava crescida demais para ficar com medo. J no era um beb. Seus pais 

teriam orgulho dela.  o que ela queria. Orgulho porque havia escapado daquele campo. 

Orgulho porque estava a caminho de Paris para salvar o irmo. Orgulho porque ela no 

estava com medo. 

Ela se lanou  estrela com os dentes, roendo os pontos midos da me. 

Finalmente, o pedao de tecido amarelo saiu da blusa. Ela olhou para ele. Havia grandes 

letras negras. JUDIA. Ela enrolou a estrela na mo. 

- No parece pequena, de repente? - ela disse para Rachel. 

- O que vamos fazer com elas? - disse Rachel. - Se ns as guardarmos nos bolsos, 

e se formos revistadas, ser o nosso fim. 

Elas decidiram enterrar as estrelas sob o arbusto juntamente com as roupas que 

haviam usado para a fuga. O solo era macio e seco. Rachel cavou um buraco, colocou as 

estrelas e as roupas dentro dele e cobriu tudo com a terra marrom. 

- Pronto - ela disse, exultante. - Estou enterrando as estrelas. Elas esto mortas. 

Nesta sepultura. Para todo o sempre. 

A menina riu com Rachel. Depois elas sentiram vergonha. Sua me havia lhe dito 

para ter orgulho da estrela. Orgulho de ser judia. 

Ela no queria pensar em tudo isso agora. As coisas estavam diferentes. Tudo era 

diferente. Elas tinham que encontrar gua, comida e abrigo, e ela tinha que ir para casa. 

Como? Ela no sabia. Sequer sabia onde estavam. Mas ela tinha dinheiro. O dinheiro 

daquele homem. Ele no havia sido to mau, afinal de contas, aquele policial. Talvez isso 

significasse que havia outras pessoas boas que poderiam ajud-la tambm. Pessoas que 

no as odiavam. Pessoas que no pensavam que elas eram "diferentes". 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 85 



No estavam longe do vilarejo e podiam ver uma placa com o nome do lugar 

onde estavam. 

- Beaune-la-Rolande - leu Rachel em voz alta. 

O instinto disse-lhes que no fossem para o vilarejo. No iriam encontrar ajuda l. 

Os habitantes do vilarejo sabiam sobre o campo, e ainda assim ningum havia ido ajudar, 

com exceo daquelas mulheres, uma nica vez. E, alm do mais, o vilarejo ficava perto 

demais do campo. Elas poderiam encontrar com algum que as mandasse de volta para l. 

Viraram as costas para Beaune-la-Rolande e comearam a caminhar, mantendo-se 

prximas ao capim alto na lateral da estrada. Se elas apenas pudessem beber alguma 

coisa, pensou a menina. Ela se sentia fraca de sede e de fome. 

Caminharam por um longo tempo, fazendo paradas e escondendo-se quando 

ouviam um carro ocasional, um fazendeiro levando suas vacas para casa. Ser que elas 

estavam indo na direo correta? Para Paris? Ela no sabia. Mas, finalmente, ela sabia que 

estavam indo para cada vez mais longe do campo. Ela olhou para os seus sapatos. Eles 

estavam se desfazendo. Ainda assim, eram o segundo melhor par de sapatos que ela tinha, 

o par usado em ocasies especiais como aniversrios, para ir ao cinema e para visitar 

amigos. Ela os havia comprado no ano passado com a me, perto da Place de la 

Republique. Parecia que tanto tempo havia passado! Como se fosse outra vida. Os sapatos 

estavam pequenos demais agora, apertando os dedos de seus ps. 

No fim daquela tarde, elas chegaram a uma floresta, um longo trecho fresco e 

frondoso. O cheiro era doce e mido. Elas saram da estrada, esperando encontrar 

morangos ou mirtilos selvagens. Depois de algum tempo, chegaram a uma moita 

carregada de frutas. Rachel soltou um grito de prazer. Elas se sentaram e devoraram as 

frutinhas. A menina se lembrou de ter colhido frutas com o pai, quando eles haviam 

passado aqueles dias deliciosos perto do rio, tanto tempo atrs. 

Seu estmago, desabituado quele luxo, se contorceu. Sentiu nsia de vmito, 

segurando o abdmen. Vomitou uma massa de frutas no digeridas. Sua boca estava com 

um gosto amargo. Ela disse a Rachel que tinham que encontrar gua. Ela se forou a ficar 

de p e se encaminharam para dentro da floresta, um misterioso mundo cor de esmeralda 

salpicado com a luz dourada do sol. Ela viu um cervo trotando por entre as samam-baias e 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 86 



sua respirao parou de admirao. Ela no estava acostumada com a natureza, era uma 

verdadeira criana da cidade. 

Chegaram a um pequeno lago de guas claras mais para dentro da floresta. Ao 

tocarem nele, sentiram-no puro e fresco. A menina bebeu gua por um longo tempo, 

enxaguou a boca, lavou as manchas de mirtilo e depois deslizou as pernas para dentro da 

gua calma. Ela no nadava desde aquelas frias perto do rio, e no ousou entrar 

completamente no lago. Rachel sabia nadar, e disse-lhe para entrar, que ela a seguraria. A 

menina entrou na gua, agarrada aos ombros de Rachel, que a segurava pela barriga e 

pelo queixo, como seu pai costumava fazer com ela. A gua proporcionou-lhe uma 

sensao maravilhosa, uma carcia calmante e aveludada. Ela molhou a cabea raspada, 

onde os cabelos j comeavam a crescer, uma penugem dourada como a barba curta no 

queixo do pai. 

De repente, a menina se sentiu esgotada. Ela queria deitar sobre o musgo verde e 

fresco e dormir. Apenas por algum tempo. Somente para um descanso rpido. Rachel 

concordou. Elas poderiam descansar um pouquinho. Estavam seguras ali. 

Aconchegaram-se uma perto da outra, deleitando-se com o cheiro do musgo 

fresco, to diferente da palha malcheirosa dos barraces! A menina adormeceu 

rapidamente. Foi um sono profundo e tranqilo, do tipo que ela no tinha h muito 

tempo. 



ERA A NOSSA MESA HABITUAL. Aquela no canto,  direita de quem entra, 

passando pelo antigo bar de zinco e seus espelhos matizados. A banqueta estofada de 

veludo formava um L. Sentei-me e observei os garons em sua azfama com os longos 

aventais brancos. Um deles me trouxe um kir royal. Era uma noite movimentada. Bertrand 

havia me levado l em nosso primeiro encontro, anos antes. Nada havia mudado desde 

ento. O mesmo teto baixo, as paredes cor de marfim, os globos de luz plida, as toalhas 

de mesa engomadas. A mesma comida substanciosa de Corrze e Gascogne, as favoritas 

de Bertrand. Quando eu o conheci, ele morava perto da rue Malar, num apartamento 

antiquado de cobertura que me era insuportvel no vero. Sendo americana, criada em ar-

condicionado permanentemente ligado, me perguntava como ele agentava aquilo. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 87 



Naquela poca, eu ainda morava na rue Berthe com os meninos, e meu pequeno quarto 

escuro e fresco parecia o paraso durante os veres abafados de Paris. Bertrand e suas 

irms haviam sido criados naquela rea de Paris, o distinto e aristocrtico stimo 

arrondisse-ment, onde seus pais haviam morado durante anos na comprida e curva rue de 

la'Universit, e onde o antiqurio da famlia havia prosperado, na rue du Bac. 

Nossa mesa habitual. Onde estvamos sentados quando Bertrand me pediu em 

casamento. Onde eu contei a ele que estava grvida de Zo. Onde eu havia dito a ele que 

sabia sobre Amlie. 

Amlie. 

Esta noite no. Agora no. Amlie era coisa do passado. Era mesmo? Ser que era 

passado mesmo? Eu tinha que admitir que no tinha certeza. Mas, por enquanto, eu no 

queria saber. Eu no queria ver. Eu ia ter outro beb. Amlie no podia lutar contra isso. 

Sorri, um pouco amarga, fechando os olhos. No era essa a tpica atitude francesa, "fechar 

os olhos" para as escapadelas do marido? Eu me perguntava se seria capaz disso. 

Iniciei uma tremenda briga quando descobri que ele estava sendo infiel, dez anos 

atrs. Estvamos sentados bem aqui, refleti. E decidi contar-lhe bem aqui. Ele no negou 

nada. Permaneceu calmo, relaxado, e me ouviu com os dedos cruzados sob o queixo. 

Recibos de carto de crdito. Hotel de la Perle, rue des Canettes. Hotel Lenox, rue 

Delambre, Le Relais Christine, rue Christine. Um recibo de hotel atrs do outro. 

Ele no havia sido particularmente cuidadoso. Nem com relao aos cartes de 

crdito, nem com o perfume dela que impregnava as roupas, a pele, o cabelo dele, o cinto 

de segurana no assento do carona da caminhonete Audi e que foi a primeira pista, o 

primeiro sinal, eu me lembrava. EHeure Bleue. O perfume mais poderoso e enjoativo de 

Guerlain. No foi difcil descobrir quem ela era. Na verdade, eu j a conhecia. Ele havia me 

apresentado a ela logo depois do nosso casamento. 

Divorciada. Trs filhos adolescentes. Na casa dos 40, com cabelos castanhos 

grisalhos. A imagem da perfeio parisiense. Pequena, esguia, vestida com perfeio. A 

bolsa e os sapatos certos. Um emprego excelente. Um espaoso apartamento com vista 

para o Trocadro. Um sobrenome francs antigo e magnfico que soava como um vinho 

famoso. Um anel de braso na mo esquerda. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 88 



Amlie. A antiga namorada de Bertrand do Lyce Victor Duruy, de tantos anos 

antes. Aquela que ele jamais parou de encontrar. Aquela com quem ele nunca parou de 

transar, apesar do casamento, dos filhos e dos anos que passavam. 

- Agora somos amigos - ele havia jurado. - Apenas amigos. Bons amigos. 

Depois do jantar, no carro, eu me transformei em uma leoa, com as presas  

mostra, as garras de fora. Ele ficou lisonjeado, suponho. Ele prometeu, ele jurou. Havia s 

eu, somente eu. Ela no era importante, ela era apenas uma passade, uma coisa 

passageira. E, por muito tempo, acreditei nele. 

Mas recentemente comecei a pensar. Dvidas estranhas, passageiras. Nada de 

concreto, apenas dvidas. Eu ainda acreditava nele? - Voc est louca em acreditar nele - 

disseram Herv e Christophe. 

- Talvez voc deva perguntar a ele diretamente - disse Isabelle. 

- Voc est maluca, se acreditar nele - disseram Charla, minha me, Holly, 

Susannah e Jan. 

Nada de Amlie hoje, decidi firmemente. Apenas Bertrand e eu, e a maravilhosa 

novidade. Tomei meu drinque vagarosamente. Os garons sorriam para mim. Eu me sentia 

bem. Eu me sentia forte. Que Amlie fosse para o inferno. Bertrand era o meu marido. Eu 

ia ter um filho dele. 

O restaurante estava cheio. Olhei em volta para as mesas ocupadas. Um casal de 

idosos comendo ao meu lado, cada um com um copo de vinho, cuidadosamente 

inclinados sobre suas refeies. Um grupo de mulheres jovens, na casa dos 30, sem foras 

de tanto rirem, enquanto uma mulher de aparncia austera, que jantava sozinha em uma 

mesa prxima, olhava e franzia as sobrancelhas. Executivos em seus ternos cinza, 

acendendo charutos. Turistas americanos tentando decifrar o menu. Uma famlia e seus 

filhos adolescentes. O nvel de barulho estava alto. O de fumaa tambm. Mas no me 

importava. Eu estava acostumada. 

Bertrand iria chegar atrasado, como sempre. No tinha importncia. Eu tivera 

tempo de trocar de roupa e fazer o cabelo. Estava usando minha cala marrom-chocolate, 

aquela de que eu sabia que ele gostava, e uma blusa simples, justa, de cor viva. Brincos de 

prola Agatha e meu relgio de pulso Hermes. Dei uma olhada no espelho  minha 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 89 



esquerda. Meus olhos pareciam maiores e mais azuis do que o habitual, minha pele 

brilhava. Bom demais para uma mulher grvida de meia-idade, pensei. E o modo como os 

garons sorriam para mim me fazia pensar que eles concordavam comigo. 

Peguei a agenda na minha bolsa. A primeira coisa a fazer amanh de manh. Eu 

tinha que ligar para a minha ginecologista. Precisava marcar consultas, e rpido. Eu 

provavelmente teria que realizar alguns exames. Uma amniocentese, sem dvida. Eu j no 

era mais uma me "jovem". O nascimento de Zo parecia muito distante. 

De repente, entrei em pnico. Eu seria capaz de passar por tudo isso, 11 anos 

depois? A gravidez, o nascimento, as noites sem dormir, as mamadeiras, o choro, as 

fraldas? Bem, claro que eu seria, zombei de mim mesma. Eu ansiei por isso durante os 

ltimos dez anos. Claro que eu estava preparada. Bertrand tambm. 

Mas enquanto eu esperava por ele, a ansiedade cresceu. Tentei ignor-la. Abri meu 

notebook e li as recentes anotaes que eu havia escrito sobre o Vel' d'Hiv naquele dia, 

mais cedo. Logo fiquei absorta em meu trabalho. Eu no ouvia mais o tumulto do 

restaurante  minha volta, as pessoas rindo, os garons movendo-se agilmente por entre 

as mesas, as pernas das cadeiras arranhando o piso. 

Levantei os olhos para ver meu marido sentado  minha frente, observando-me. 

- Oi, voc chegou h quanto tempo? - perguntei. Ele sorriu e cobriu minha mo 

com a dele. 

- Tempo suficiente. Voc est linda. 

Ele estava usando seu casaco de veludo cotel azul-escuro e uma camisa branca e 

bem passada. 

- Voc est lindo - respondi. 

Eu quase deixei escapar, nessa hora. Mas no, era cedo demais. Rpido demais. Eu 

me contive com dificuldade. O garom trouxe um kir royal para Bertrand. 

- Bem? - ele disse. - Por que estamos aqui, amour? Algo especial? Uma surpresa? 

- Sim - eu disse, erguendo meu copo. - Uma surpresa muito especial. Beba! Brindemos  

surpresa. 

Nossos copos tilintaram. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 90 



- Ser que eu devo adivinhar o que ? - ele perguntou. Eu me senti travessa como 

uma menininha. 

- Voc nunca vai adivinhar! Nunca. Ele riu, divertido. 

- Voc est parecendo a Zo! Ela sabe o que  essa surpresa? Sacudi a cabea, 

sentindo-me cada vez mais excitada. 

- No. Ningum sabe. Ningum, exceto... eu. 

Estendi o brao e peguei numa das mos dele de pele macia e bronzeada. 

- Bertrand - eu comecei. 

O garom pairava  nossa volta. Decidimos fazer os pedidos. Foi feito em um 

minuto: confit de canard para mim e cassoulet para Bertrand. Aspargos de entrada. 

Observei as costas do garom se afastarem na direo da cozinha e depois eu 

contei. Rapidamente. 

- Estou esperando um beb. 

Examinei o rosto dele. Esperei a boca se curvar para cima, os olhos se arregalarem 

de prazer. Mas cada msculo de seu rosto permaneceu imvel, como uma mscara. Seus 

olhos piscaram para mim. 

- Um beb? - ele repetiu. Apertei sua mo. 

- No  maravilhoso? Bertrand, no  maravilhoso? Ele no disse nada. Eu no 

conseguia entender. 

- Voc est grvida h quanto tempo? - ele finalmente perguntou. 

- Acabei de descobrir - murmurei, preocupada com a insensibilidade dele. 

Ele esfregou os olhos, algo que sempre fazia quando estava cansado ou chateado. 

Ele no disse nada. Nem eu. 

O silncio se interps entre ns como uma nvoa. Eu quase podia senti-la com os 

dedos. 

O garom veio nos trazer o primeiro prato. Nenhum de ns tocou nos aspargos. 

- Qual  o problema? - perguntei, incapaz de suportar mais. Ele suspirou, sacudiu 

a cabea e esfregou os olhos novamente. 

- Pensei que voc fosse ficar feliz, emocionado - continuei, com as lgrimas 

descendo pelo meu rosto. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 91 



Ele descansou o queixo sobre a mo e olhou para mim. 

- Julia, eu j havia desistido - Mas eu tambm! Eu havia desistido totalmente. 

Os olhos dele estavam srios. Eu no estava gostando da determinao que havia 

neles. 

- O que voc quer dizer com isso? - continuei. - S porque voc havia desistido, 

significa que no pode...? - Julia. Vou fazer cinqenta anos em menos de trs anos. 

- E da? - eu disse com as faces ardendo. 

- No quero ser um pai velho - ele disse suavemente. 

- Ah, pelo amor de Deus - respondi. Silncio. 

- No podemos ter esse beb, Julia - ele disse, carinhosamente. - Agora temos 

outra vida. Zo logo ser uma adolescente. Voc tem 45 anos. Nossas vidas no so mais 

as mesmas. No h espao para um beb em nossas vidas. 

As lgrimas desceram nesse momento, molhando meu rosto, caindo na minha 

comida. 

- Voc est tentando me dizer... - engasguei - voc est tentando me dizer que eu 

tenho que fazer um aborto? A famlia na mesa ao lado nos encarava abertamente. Eu nem 

me importei. 

Como sempre, nos momentos de crise, eu falava na minha lngua materna. No 

era possvel falar em francs em momentos como esse. 

- Um aborto, depois de trs abortos espontneos? - eu disse, tremendo. 

O rosto dele estava triste. Meigo e triste. Eu quis lhe dar um tapa, chut-lo. 

Mas no podia. Tudo o que eu podia fazer era chorar em meu guardanapo. Ele 

acariciou meus cabelos, murmurou infinitas vezes que me amava. 

Exclu a voz dele da minha cabea. 



QUANDO AS CRIANAS ACORDARAM, j havia anoitecido. A floresta j no era 

o lugar pacato e frondoso que elas haviam percorrido naquela tarde. Era grande, nua, 

repleta de sons estranhos. Lentamente, elas caminharam atravs das samambaias, de mos 

dadas, fazendo paradas a cada som. Parecia que a noite se tornava cada vez mais negra 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 92 



para elas. Cada vez mais. Elas continuaram andando. A menina pensou que ia cair de 

exausto. Mas a mo quente de Rachel a encorajava. 

Elas finalmente chegaram a uma larga trilha que serpenteava atravs das campinas 

planas. A floresta havia ficado para trs. Elas ergueram os olhos para um cu sombrio e 

sem lua. 

- Olhe - disse Rachel, apontando para a frente. - Um carro. Elas viram faris 

brilharem atravs da noite. Faris que haviam sido escurecidos com tinta preta, permitindo 

passar somente um feixe de luz. Elas ouviram o motor barulhento se aproximando. 

- O que devemos fazer? - indagou Rachel. - Devemos fazer sinal para par-lo? A 

menina viu outro par de faris pintados e depois outro. Era uma longa fila de carros se 

aproximando. 

- Abaixe-se - ela sussurrou, puxando a saia de Rachel. - Rpido! No havia 

arbustos atrs dos quais se esconder. Ela ficou deitada no cho sobre a barriga, com o 

queixo afundado na terra. 

- Por qu? O que voc est fazendo? - perguntou Rachel. Ento, ela tambm 

compreendeu. 

Eram soldados. Soldados alemes fazendo o patrulhamento noturno. 

Rachel se acomodou ao lado da menina. 

Os carros chegaram mais perto, com os poderosos motores roncando. As meninas 

podiam distinguir os capacetes redondos e lustrosos dos homens sob a luz diminuda dos 

faris. Eles vo nos ver, pensou a menina. No temos como nos esconder. No h lugar 

onde se esconder, eles vo nos ver. 

O primeiro jipe passou, seguido pelos outros. Os olhos das meninas foram 

invadidos por uma poeira pesada e branca. Elas tentaram no tossir e nem se mover. A 

menina permaneceu deitada com o rosto para baixo, na terra, e as mos sobre os ouvidos. 

A fila de carros parecia interminvel. Os homens conseguiriam ver suas silhuetas escuras 

na lateral da estrada de terra? Ela se preparou para os gritos, os carros parando, portas 

batendo, passos rpidos e mos brutas em seus ombros. 

Mas os carros passaram por elas, zumbindo dentro da noite. O silncio voltou. Elas 

levantaram os olhos. A estrada de terra estava vazia, exceto pelas nuvens de poeira branca 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 93 



que se elevavam. Elas esperaram um momento e depois rastejaram ao longo da trilha, indo 

na direo oposta. Uma luz bruxuleava por entre as rvores. Uma luz branca que acenava 

para elas. Elas se aproximaram, mantendo-se nas laterais da estrada. Abriram o porto e 

caminharam furtivamente at uma casa. Parecia uma fazenda, pensou a menina. Pela 

janela aberta, viram uma mulher lendo perto da lareira e um homem fumando um 

cachimbo. Um delicioso aroma de comida flutuou at suas narinas. 

Sem hesitar, Rachel bateu na porta. Uma cortina de algodo foi puxada. A mulher 

que olhou para elas atravs do painel de vidro tinha um rosto longo e ossudo. Ela encarou 

as meninas e fechou a cortina novamente. No abriu a porta. Rachel bateu de novo. 

- Por favor, senhora, gostaramos de um pouco de comida, um pouco de gua. 

A cortina no se mexeu. As meninas ficaram de p na frente da janela aberta. O 

homem com o cachimbo se levantou da cadeira. 

- Vo embora - ele disse, com a voz baixa e ameaadora. - Saiam daqui. 

Atrs dele, a mulher de rosto ossudo olhava, silenciosa. 

- Por favor, um pouco de gua - pediu a menina. A janela foi fechada com um 

estrondo. 

A menina sentiu vontade de chorar. Como esses fazendeiros podiam ser to 

cruis? Ela viu que havia po sobre a mesa. Havia um jarro de gua tambm. Rachel a 

puxou para continuarem a andar. Elas voltaram para a sinuosa estrada de terra. Havia mais 

casas de fazenda. A cada vez, a mesma coisa acontecia. Elas eram mandadas embora. A 

cada vez, elas fugiam. 

J era tarde. Elas estavam cansadas, famintas, e quase no conseguiam andar. 

Chegaram a uma casa velha e grande, um pouco afastada da estrada de terra, iluminada 

por um poste alto cuja luz se refletia sobre elas. A fachada da casa era coberta de hera. 

Elas no ousaram bater. Na frente da casa, perceberam um grande canil vazio. Foram 

furtivamente para dentro dele. Estava limpo e quente. Tinha um reconfortante cheiro de 

cachorro. Havia uma tigela de gua e um osso velho. Elas lamberam a gua com a lngua, 

uma depois da outra. A menina estava receosa de que o cachorro pudesse voltar e mord-

las. Ela sussurrou isso para Rachel. Mas Rachel j havia cado no sono, enroscada como um 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 94 



animalzinho. A menina baixou os olhos para o rosto exausto dela - as faces magras, as 

rbitas fundas dos olhos. Rachel parecia uma velha. 

A menina cochilou espasmodicamente, encostando-se em Rachel. Teve um sonho 

horrvel e estranho. Ela sonhou com seu irmo, morto no armrio. Sonhou com seus pais 

sendo espancados pela polcia. Ela gemeu em seu sono. 

Latidos furiosos a acordaram, assustada. Ela cutucou Rachel com fora, com o 

cotovelo. Elas ouviram uma voz de homem e passos se aproximando. O cascalho rangia. 

Era tarde demais para escapar. Elas somente podiam ficar abraadas em desespero. Agora 

estamos mortas, pensou a menina. Agora vamos ser mortas. 

O co foi contido por seu dono. Ela sentiu uma mo tateando dentro do canil 

agarrar seu brao e o brao de Rachel. Elas se esgueiraram para fora. 

O homem era pequeno, murcho, com a cabea careca e um bigode prateado. 

- Mas o que  que temos aqui? - ele murmurou, examinando as meninas  luz do 

poste. 

A menina sentiu Rachel retesar-se, adivinhou que ela ia escapar, rpido como um 

coelho. 

- Vocs esto perdidas? - perguntou o velho. Sua voz parecia preocupada. 

As crianas ficaram surpresas. Esperavam ameaas, pancadas, qualquer coisa, 

exceto bondade. 

- Por favor, senhor, estamos com muita fome - disse Rachel. O homem assentiu. 

- D para ver isso. 

Ele se curvou para silenciar o cachorro que gania. Ento, ele disse: - Entrem, 

crianas. Sigam-me. 

Nenhuma das crianas se moveu. Ser que elas poderiam confiar nesse velho? - 

Ningum ir fazer mal a vocs aqui - ele disse. Elas se abraaram, ainda amedrontadas. 

O homem deu um sorriso bondoso, gentil. 

- Genevive! - ele gritou, voltando-se para a casa. 

Uma mulher idosa usando uma camisola azul apareceu na grande soleira da porta. 

- Por que esse seu co idiota est latindo agora, Jules? - ela perguntou, 

aborrecida. Depois, ela viu as crianas. Suas mos se ergueram at o rosto. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 95 



- Santo Deus! - ela murmurou. 

Aproximou-se. Tinha um rosto plcido, redondo, e uma grossa trana branca. Ela 

olhou para as crianas com pena e consternao. 

O corao da menina deu um salto. A velha senhora parecia com a fotografia de 

sua av da Polnia. Os mesmos olhos claros, os cabelos brancos, a mesma obesidade 

reconfortante. 

- Jules - a senhora sussurrou - elas so... O velho assentiu. 

- Sim, acho que sim. 

A senhora disse firmemente: - Elas precisam entrar. Devem se esconder 

imediatamente. 

Ela caminhou num andar cambaleante para a estrada de terra e observou 

atentamente em ambas as direes. 

- Rpido, crianas, venham agora - ela disse, pegando nas mos das duas. - Vocs 

esto seguras aqui. Vocs esto seguras conosco. 



A NOITE FOI HORRVEL. Acordei com o rosto inchado por falta de sono. Fiquei 

feliz por Zo j ter sado para a escola. Eu odiaria se ela me visse assim. Bertrand estava 

meigo, carinhoso. Disse que precisvamos conversar um pouco mais sobre o assunto. 

Poderamos conversar  noite, depois que Zo tivesse ido dormir. Ele disse tudo isso 

perfeitamente calmo, com grande delicadeza. Eu sabia que ele j havia tomado uma 

deciso. Nada, nem ningum, iria faz-lo querer que eu tivesse essa criana. 

Eu ainda no conseguia falar sobre o assunto com meus amigos ou com minha 

irm. A opo de Bertrand havia me perturbado a tal ponto que eu preferia manter o 

assunto em segredo, pelo menos por enquanto. 

Foi difcil passar aquela manh. Tudo que eu fazia parecia extenuante. Cada 

movimento era um esforo. Eu ficava tendo flashbacks da noite anterior. Do que ele havia 

dito. No havia outra soluo alm de me atirar no trabalho. Naquela tarde, iria me 

encontrar com Franck Lvy em seu escritrio. De repente, o Vel' d'Hiv parecia muito 

distante. Eu me sentia como se tivesse envelhecido durante a noite. Nada mais parecia 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 96 



importar. Nada, exceto a criana que eu carregava dentro de mim e que meu marido no 

queria. 

Eu estava a caminho do escritrio quando o celular tocou. Era Guillaume. Ele havia 

encontrado na casa da av alguns daqueles livros de que eu precisava sobre o Vel' d'Hiv 

cujas edies estavam esgotadas. Poderia emprest-los a mim. Ser que eu poderia 

encontr-lo mais tarde ou  noite para um drinque? Sua voz estava alegre, amistosa. 

Respondi imediatamente que sim. Concordamos em nos encontrar s seis horas, no Select, 

no Boulevard du Montparnasse, a dois minutos de casa. Ns nos despedimos e meu 

telefone tocou novamente. 

Desta vez era meu sogro. Fiquei surpresa. Edouard raramente me ligava. Ns nos 

dvamos bem, daquele jeito francs educado. Ns dois ramos primorosos em conversas 

triviais. Mas eu nunca me sentia verdadeiramente confortvel com ele. Falando nisso, eu 

sempre sentia que ele estava escondendo alguma coisa, nunca mostrando seus reais 

sentimentos para mim ou para qualquer outra pessoa. 

Ele era o tipo de homem que as pessoas ouvem. O tipo de homem a quem se olha 

com respeito. Eu no conseguia imagin-lo mostrando qualquer outro sentimento alm de 

raiva, orgulho e presuno. Nunca vi Edouard usando jeans, nem mesmo durante aqueles 

fins de semana na Borgonha quando ele se sentava no jardim, debaixo do carvalho, lendo 

Rousseau. Acho que jamais o vi sem gravata, tambm. Lembrei-me de quando o conheci. 

Ele no havia mudado muito nos ltimos 17 anos. A mesma postura de realeza, os cabelos 

prateados e os olhos frios como ao. Meu sogro era exacerbadamente apaixonado por 

culinria e estava constantemente enxotando Colette da cozinha, preparando refeies 

simples e deliciosas - pot-au-feu, sopa de cebolas, uma saborosa ratatouille ou uma 

omelete de trufas. A nica pessoa que tinha permisso para estar na cozinha com ele era 

Zo. Ele se derretia por Zo, embora Ccile e Laure tivessem filhos homens, Arnaud e 

Louis. Ele adorava minha filha. Eu nunca sabia o que acontecia durante aquelas sesses de 

culinria. Atrs da porta fechada, eu ouvia Zo rindo e legumes sendo picados, gua 

borbulhando, gordura sendo derretida em uma frigideira e o profundo estrpito ocasional 

de uma risada de Edouard. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 97 



Edouard perguntou como ia Zo, como estavam indo as obras do apartamento. E 

depois ele foi direto ao assunto. Ele tinha ido visitar Mame no dia anterior. Foi um dia 

"ruim", ele acrescentou. Mame estava em um de seus dias de mau humor. Ele esteve a 

ponto de deix-la com o beio espichado vendo televiso quando de repente, do nada, ela 

disse algo a meu respeito. 

- E o que ela disse? - perguntei, curiosa. 

Edouard pigarreou. 

- Minha me disse que voc andou fazendo todo tipo de perguntas sobre o 

apartamento da rue de Saintonge. 

Inspirei profundamente. 

- Bem,  verdade, fiz perguntas - admiti. Eu me perguntei aonde ele queria chegar. 

Silncio. 

- Julia, eu prefiro que voc no pergunte mais nada a Mame sobre a rue de 

Saintonge. 

Ele falou repentinamente em ingls, como se quisesse estar absolutamente certo 

de que eu compreendia. Aflita, respondi em francs. 

- Desculpe-me, Edouard. Acontece que no momento eu estou pesquisando fatos 

sobre a batida policial do Vel' d'Hiv para a revista. Fiquei surpresa com a coincidncia. 

Outro silncio. 

- Coincidncia? - ele repetiu, usando o francs novamente. 

- Bem, sim - respondi - sobre a famlia judia que morava l logo antes de sua 

famlia se mudar para o apartamento e que foi presa durante a batida policial. Acho que 

Mame ficou aborrecida quando me contou sobre isso. Ento, eu parei de fazer perguntas. 

- Obrigado, Julia - ele disse. Fez uma pausa. - Esse assunto realmente deixa Mame 

aborrecida. No o mencione novamente para ela, por favor. 

Parei no meio da calada. 

- Est bem, no mencionarei - eu disse - mas no tive inteno de fazer nenhum 

mal, eu s queria saber como sua famlia foi parar naquele apartamento, e se Mame sabia 

alguma coisa sobre a famlia judia. Voc sabe, Edouard? Voc sabe alguma coisa? - Sinto 

muito, no entendi - ele respondeu suavemente. -Agora preciso ir. At logo, Julia. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 98 



A linha ficou muda. 

Ele me deixou confusa a tal ponto que, por um breve momento, esqueci sobre 

Bertrand e a noite passada. Mame teria realmente reclamado com Edouard sobre as 

minhas perguntas? Eu lembro que ela no quis responder mais nada naquele dia. Havia se 

fechado, no abrindo mais a boca at o momento em que fui embora, perplexa. Por que 

Mame havia ficado to aborrecida? Por que Mame e Edouard estavam to interessados em 

fazer com que eu parasse de perguntar sobre o apartamento? O que eles no queriam que 

eu soubesse? Bertrand e o beb voltaram a cair sobre os meus ombros como uma carga 

pesada. De repente, eu no conseguia encarar a ida ao escritrio. O olhar curioso de 

Alessandra. Ela seria indiscreta, como sempre, e faria perguntas. Tentando ser amigvel, 

mas no conseguindo. Bamber e Joshua espiando meu rosto inchado. Bamber, um 

verdadeiro cavalheiro, no diria nada, mas apertaria meu ombro discretamente. E Joshua. 

Ele seria o pior de todos. "Bem, amorzinho, qual  o drama? O marido francs 

novamente?" Eu quase podia ver seu sorriso sarcstico, entregando-me uma xcara de caf. 

No havia como ir ao escritrio naquela manh. 

Dirigi-me de volta ao Arco do Triunfo, escolhendo um caminho que me deixava 

impaciente, mas que eu percorreria com habilidade em meio aos turistas que caminhavam 

morosamente, olhando para o Arco e parando para tirar fotos. Peguei meu caderno de 

endereos e liguei para a associao de Franck Lvy. Perguntei se eu poderia ir naquela 

hora, e no  tarde. Disseram-me que no haveria problema. Naquele momento seria 

perfeito. No era longe, logo depois da avenue Hoche. Levei apenas dez minutos para 

chegar l. Uma vez fora da artria obstruda do Champs-Elyses, as outras avenidas que 

saem dela estavam surpreendentemente vazias. 

Franck Lvy estava na casa dos 60 anos, supus. Havia algo profundo, nobre e 

cansado em seu rosto. Entramos em seu escritrio, uma sala com p-direito alto, cheia de 

livros, arquivos, computadores, fotografias. Meus olhos se demoraram sobre as imagens 

em preto-e-branco penduradas na parede. Bebs. Crianas pequenas. Crianas usando a 

estrela. 

- Muitas delas so crianas do Vel' d'Hiv - ele disse, seguindo o meu olhar. - Mas 

h outras tambm. Todas fazem parte das 11 mil crianas deportadas da Frana. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 99 



Sentamo-nos  escrivaninha. Eu lhe havia enviado um e-mail com algumas 

perguntas antes de nossa entrevista. 

- Voc queria saber sobre os campos de Loiret? - ele perguntou. 

- Sim - respondi. - Beaune-la-Rolande e Pithiviers. H muito mais informaes 

disponveis sobre Drancy, que fica mais perto de Paris. Muito menos sobre os outros dois. 

Franck Lvy deu um suspiro. 

- Voc est certa. H muito pouco a ser encontrado sobre os campos de Loiret em 

comparao com Drancy. E voc ver, quando for l, que no h muito ali que explique 

exatamente o que aconteceu. As pessoas que moram l tambm no querem se lembrar. 

No querem falar. Houve poucos sobreviventes tambm. 

Olhei novamente para as fotos, para as filas de rostos pequenos e vulnerveis. 

- Em primeiro lugar, o que eram esses campos? - perguntei. 

- Eram campos militares normais, construdos em 1939 para aprisionar soldados 

alemes. Mas, sob o governo de Vichy, os judeus foram enviados para l a partir de 1941. 

Em 1942, saram de Beaune-la-Rolande e Pithiviers os primeiros trens diretos para 

Auschwitz. 

- Por que as famlias do Vel' d'Hiv no foram enviadas para Drancy, nos subrbios 

de Paris? Franck Lvy deu um sorriso triste. 

- Os judeus sem filhos foram enviados para Drancy aps a batida policial. Drancy 

fica perto de Paris. Os outros campos ficavam a mais de uma hora de viagem, perdidos no 

meio do pacato interior de Loiret. E foi l, com toda liberdade de ao, que a polcia 

francesa separou as crianas de seus pais. Eles no poderiam ter feito isso com tanta 

facilidade em Paris. Suponho que voc tenha lido acerca da brutalidade desses policiais. 

- No h muito que ler. O sorriso triste esmoreceu. 

- Voc tem razo. No h muito que ler. Mas sabemos como aconteceu. Tenho 

alguns livros que terei prazer em lhe emprestar. As crianas foram arrancadas de suas 

mes. Espancadas com cassetetes, chutadas, encharcadas com gua fria. 

Meus olhos passearam mais uma vez pelos rostinhos nas fotos. Pensei em Zo, 

sozinha, arrancada de mim e de Bertrand. Sozinha, faminta e suja. Estremeci. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 100 



- Aquelas 4 mil crianas do Vel' d'Hiv foram uma grande dor de cabea para as 

autoridades francesas - disse Franck Lvy. - Os nazistas haviam pedido que os adultos 

fossem deportados imediatamente. No as crianas. A rgida programao dos trens no 

deveria ser alterada. Da a brutal separao das mes no incio de agosto. 

- E depois, o que aconteceu com essas crianas? - perguntei. 

- Seus pais foram deportados dos campos de Loiret diretamente para Auschwitz. 

As crianas foram deixadas praticamente sozinhas em condies sanitrias aterrorizantes. 

Em meados de agosto, a deciso de Berlim chegou. As crianas deveriam ser deportadas 

tambm. Entretanto, para evitar suspeitas, deveriam ser enviadas para Drancy, e depois 

para a Polnia, misturadas com adultos desconhecidos do campo de Drancy, de modo que 

a opinio pblica pensasse que aquelas crianas no estavam sozinhas, viajando para o 

leste com suas famlias para algum campo de trabalho para judeus. 

Franck Lvy fez uma pausa, olhando como eu para as fotografias penduradas na 

parede. 

- Quando essas crianas chegaram a Auschwitz, no houve "seleo". No foram 

colocadas em fila com os homens e as mulheres. No houve verificao de quem estava 

forte, quem estava doente, quem podia trabalhar, quem no podia. Elas foram enviadas 

diretamente para as cmaras de gs. 

- Pelo governo francs, em nibus franceses, em trens franceses - acrescentei. 

Talvez porque eu estivesse grvida, porque meus hormnios estavam em 

polvorosa ou porque eu no havia dormido, mas de repente me senti desolada. 

Eu olhava as fotos fixamente, pesarosa. 

Franck Lvy me observava em silncio. Depois ele se levantou e colocou uma das 

mos sobre o meu ombro. 



A MENINA SE LANOU SOBRE a comida que foi colocada  sua frente, enfiando-

a na boca com rudos que sua me teria detestado. Era o paraso. Parecia que ela nunca 

havia provado uma sopa to saborosa, to deliciosa. Po to fresco, to macio! Queijo brie, 

cremoso, substancioso. Pssegos aveludados, suculentos. Rachel comia mais lentamente. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 101 



Do outro lado da mesa, olhando para ela, a menina viu que Rachel estava plida. Suas 

mos tremiam, seus olhos estavam febris. 

O casal de idosos estava alvoroado pela cozinha, servindo mais potage, enchendo 

copos de gua fresca. A menina ouvia suas perguntas suaves e gentis, mas no conseguia 

respond-las. Foi somente mais tarde, quando Genevive levou a ela e a Rachel para o 

andar de cima para que tomassem banho, que ela comeou a falar. Contou sobre o grande 

lugar para onde todos foram levados e trancafiados durante dias, quase sem gua, sem 

comida. Depois, a viagem de trem pelo interior, o campo e a horrvel separao de seus 

pais. E, finalmente, a fuga. 

A velha senhora ouvia, assentia, despindo com habilidade uma Rachel de olhos 

apticos. A menina observava enquanto surgia o corpo ossudo, coberto de bolhas 

vermelhas inflamadas. A senhora sacudiu a cabea, horrorizada. 

- O que fizeram com voc? - ela murmurou. 

Os olhos de Rachel vacilaram levemente. A velha senhora ajudou-a a entrar na 

gua quente e cheia de sabo. Ela a lavou do modo como a me da menina costumava dar 

banho em seu irmozinho. 

Em seguida, Rachel foi embrulhada em uma grande toalha e carregada para uma 

cama prxima. 

- Agora  a sua vez - disse Genevive, preparando um novo banho. - Qual  o seu 

nome, pequenina? Voc ainda no me disse. 

- Sirka - respondeu a menina. 

- Que nome bonito! - disse Genevive, entregando a ela uma esponja limpa e o 

sabo. Ela percebeu que a menina estava tmida com relao a ficar nua na frente dela, 

ento ela se virou para deix-la se despir e entrar na gua. A menina se lavou 

cuidadosamente, deliciando-se na gua quente. Depois, saiu da banheira agilmente e se 

embrulhou em uma toalha deliciosamente perfumada com lavanda. 

Genevive estava ocupada, lavando as roupas imundas das meninas, na grande pia 

esmaltada. A menina a observou por alguns instantes e depois, timidamente, colocou sua 

mo no brao redondo e macio da velha senhora. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 102 



- Madame, a senhora poderia me ajudar a voltar para Paris? A velha senhora, 

surpresa, virou-se para olhar para ela. 

- Voc quer voltar para Paris, petite? A menina comeou a tremer dos ps  

cabea. Aflita, a velha senhora olhou-a fixamente. Ela largou na pia as coisas por lavar e 

enxugou as mos com uma toalha. 

- O que foi, Sirka? Os lbios da menina comearam a tremer. 

- Meu irmozinho Michel. Ele ainda est no apartamento. Em Paris. Ele est 

trancado em um armrio, em nosso esconderijo especial. Ele est l desde o dia em que a 

polcia foi nos prender. Pensei que ele fosse ficar seguro l. Prometi voltar e salv-lo. 

Genevive baixou os olhos para ela com preocupao e tentou acalm-la 

colocando suas mos sobre os ombrinhos ossudos. 

- Sirka, h quanto tempo seu irmozinho est no armrio? - Eu no sei - a menina 

sussurrou desanimadamente. - No consigo me lembrar. No me lembro! De repente, 

toda a esperana que ela havia acumulado dentro de si desapareceu. Nos olhos da velha 

senhora ela leu o que mais temia. Michel estava morto. Morto no armrio. Ela sabia. Era 

tarde demais. Ela havia esperado demais. Ele no havia sobrevivido. Ele no havia 

conseguido. 

Ele havia morrido l, sozinho, no escuro, sem gua ou comida, apenas com o urso 

e o livro de histrias. E ele havia confiado nela, havia esperado, provavelmente havia 

chamado o nome dela, gritado o nome dela muitas e muitas vezes: "Sirka, Sirka, onde  

que voc est? Onde  que voc est?" Ele estava morto, Michel estava morto. Ele tinha 4 

anos, e estava morto por causa dela. Se ela no o tivesse trancado naquele dia, ele poderia 

estar aqui agora, ela poderia estar dando banho nele agora, neste momento. Ela deveria 

ter tomado conta dele, deveria t-lo trazido para c, para a segurana. Era culpa dela. Era 

tudo culpa dela. 

A menina caiu no cho como um ser despedaado. Vrias ondas de desespero a 

inundavam. Jamais, em sua curta vida, havia conhecido dor to aguda. Ela sentiu 

Genevive pux-la para perto, acariciar sua cabea raspada, murmurar palavras de 

conforto. Ela se deixou entregar, rendendo-se completamente aos bondosos braos que a 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 103 



circundavam. Depois, teve a doce sensao de um colcho macio e lenis limpos 

envolvendo-a. Ela caiu em um sono estranho, agitado. 

Acordou cedo, sentindo-se perdida, confusa. No conseguia se lembrar de onde 

estava. Havia sido estranho dormir em uma cama de verdade, depois de todas aquelas 

noites nos galpes. Ela foi at a janela. As venezianas estavam levemente abertas, 

revelando um grande jardim que exalava um perfume adocicado. Galinhas passeavam pela 

grama, perseguidas pelo cachorro brincalho. Sobre um banco de ferro trabalhado, um 

gato ruivo e rolio lentamente lambia suas patas para limp-las. A menina ouviu pssaros 

gorjeando, um galo cantando. Uma vaca mugindo perto dali. Era uma manh fresca e 

ensolarada. A menina pensou que nunca havia visto um lugar mais adorvel, mais calmo. A 

guerra, o dio, o horror pareciam estar longe. O jardim e as flores, as rvores e todos os 

animais, nenhuma dessas coisas poderia ser manchada pelo mal que ela havia 

testemunhado nas ltimas semanas. 

Ela examinou as roupas que estava vestindo. Uma camisola branca, um pouco 

comprida demais para ela. Ela se perguntou a quem pertenceria. Talvez o casal de idosos 

tivesse filhos ou netos. Ela olhou  sua volta para o quarto espaoso. Era simples, mas 

confortvel. Havia uma estante perto da porta. Foi examin-la. Seus livros favoritos 

estavam l: Jlio Verne, Condessa de Sgur. Nas guardas dos livros, uma caligrafia 

cuidadosa e juvenil: Nicolas Dufaure. Ela imaginou quem seria. 

Ela desceu os degraus de madeira fazendo-os ranger, seguindo o murmrio de 

vozes que ouvia vindo da cozinha. A casa era silenciosa e acolhedora, de uma forma 

normal, sem cerimnia. Seus ps deslizaram sobre a cermica quadrada cor de vinho. Ela 

olhou para dentro de uma sala de estar ensolarada que tinha cheiro de lavanda e de cera 

de abelhas. Um grande relgio de pndulo fazia tique-taque solenemente. 

Ela caminhou na ponta dos ps na direo da cozinha, espiando pela porta. L, viu 

o casal sentado  mesa comprida bebendo em tigelas redondas e azuis. Eles pareciam 

preocupados. 

- Estou preocupada com Rachel - Genevive estava dizendo. - Ela est com uma 

febre muito alta e no est conseguindo manter nada no estmago. E as erupes em sua 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 104 



pele so horrveis. Realmente horrorosas. - Ela suspirou profundamente. - O estado dessas 

crianas, Jules! Uma delas tinha at piolhos nos clios. 

A menina entrou na cozinha, hesitante. 

- Eu estava pensando... - ela comeou. 

O casal de idosos ergueu os olhos para ela e sorriu. 

- Bem - sorriu o senhor - voc parece uma pessoa completamente diferente hoje 

de manh, Mademoiselle. As bochechas esto at um pouquinho rosadas. 

- Tinha umas coisas nos meus bolsos - disse a menina. Genevive se levantou. Ela 

apontou para uma prateleira. 

- Uma chave e um pouco de dinheiro. Esto bem ali. 

A menina foi at l para pegar os objetos, embalando-os. 

- Esta  a chave do armrio - ela disse em voz baixa. - O armrio onde Michel 

est. Nosso esconderijo especial. 

Jules e Genevive se entreolharam. 

- Eu sei que vocs pensam que ele est morto - disse a menina, vacilante. - Mas 

eu vou voltar l. Eu preciso saber. Talvez algum tenha conseguido ajud-lo, como vocs 

me ajudaram! Talvez ele esteja esperando por mim. Eu preciso saber, preciso descobrir! 

Posso usar o dinheiro que o policial me deu. 

- Mas como voc vai voltar para Paris, petite? - perguntou Jules. 

- Vou de trem. Paris no  longe daqui, certo? Novamente eles se entreolharam. 

- Sirka, ns moramos no sudeste de Orlans. Voc andou uma grande distncia 

com Rachel. Mas vocs se distanciaram ainda mais de Paris. 

A menina se empertigou. Ela voltaria para Paris, voltaria para Michel, para ver o 

que havia acontecido, no interessava o que a esperava. 

- Preciso ir - ela disse com firmeza. - H trens de Orlans para Paris, certamente. 

Eu vou hoje. 

Genevive aproximou-se dela e segurou suas mos. 

- Sirka, aqui voc est segura. Voc pode ficar durante algum tempo conosco. Pelo 

fato de vivermos nesta fazenda, temos leite, carne e ovos, e no precisamos de tquetes de 

racionamento. Voc pode descansar, comer e melhorar. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 105 



- Obrigada - disse a menina - mas j estou melhor. Preciso voltar a Paris. Vocs 

no tm que vir comigo. Eu posso me arranjar sozinha. Apenas me digam como chegar  

estao. 

Antes que a senhora pudesse responder, ouviu-se um longo pranto vindo do 

andar de cima. Rachel. Eles correram para o quarto. Rachel estava se contorcendo e se 

revirando de dor. Seus lenis estavam encharcados com uma substncia escura e ftida. 

-  o que eu temia - sussurrou Genevive. - Disenteria. Ela precisa de um mdico. 

E rpido. 

Jules desceu novamente as escadas, coxeando. 

- Vou  cidade ver se o Docteur Thvenin est por l - ele falou por sobre o 

ombro. 

Voltou uma hora mais tarde, ofegante sobre a bicicleta. A menina o observava pela 

janela da cozinha. 

- O sujeito foi embora - ele disse  esposa. - A casa est vazia. Ningum soube me 

dizer nada. Ento fui mais alm, na direo de Orlans. Encontrei um rapaz novo, consegui 

fazer com que viesse, mas ele foi um tanto arrogante, disse que tinha coisas mais urgentes 

para cuidar primeiro. 

Genevive mordeu o lbio. 

- Espero que ele venha logo. 

O mdico s apareceu no fim da tarde. A menina no ousara mencionar Paris 

novamente. Ela sentiu que Rachel estava muito doente. Jules e Genevive estavam 

preocupados demais com Rachel para se concentrarem nela. 

Quando eles ouviram o mdico chegar, saudado pelo latido do cachorro, 

Genevive se virou para a menina e disse-lhe para se esconder, rpido, no poro. Eles no 

conheciam esse rapaz, ela explicou rapidamente, esse no era o mdico de sempre. Eles 

tinham que agir com cautela. 

A menina deslizou pelo alapo. Ela se sentou no escuro, ouvindo cada palavra 

que vinha de cima. No dava para ver o rosto do mdico, mas ela no gostou da voz dele. 

Era estridente, nasal. Ele ficava perguntando de onde Rachel vinha. Onde eles a haviam 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 106 



encontrado? Ele era insistente, teimoso. A voz de Jules manteve-se firme. A menina era a 

filha de um vizinho que havia ido a Paris por alguns dias. 

Mas a menina sabia, pelo tom de voz do mdico, que ele no acreditava em uma 

s palavra do que Jules estava dizendo. Ele tinha uma risada desagradvel. Ficava falando 

sobre lei e ordem. Sobre o marechal Ptain e uma nova viso da Frana. Sobre o que o 

Kommandantur pensaria sobre essa menininha pequena e morena. 

Finalmente, ela ouviu a porta da frente bater. 

Depois ela ouviu a voz de Jules novamente. Parecia aterrorizada. 

- Genevive - ele disse. - O que foi que ns fizemos? 



GOSTARIA DE FAZER UMA PERGUNT , 

A Monsieur Lvy. Algo que no tem nada 

a ver com o meu artigo. Ele olhou para mim e voltou a sentar-se em sua cadeira. 

- Mas  claro. Por favor, pergunte. Eu me inclinei por sobre a mesa. 

- Se eu lhe desse um endereo, o senhor poderia me ajudar a ras-trear uma 

famlia? Uma famlia que foi presa em Paris em 16 de julho de 1942? - Uma famlia do Vel' 

d'Hiv - ele disse. 

- Isso - respondi. -  importante. 

Ele olhou para meu rosto cansado. Meus olhos inchados. Senti como se ele 

pudesse ler dentro de mim, ler a nova tristeza que eu estava carregando, ler que eu sabia 

sobre o apartamento. Ler tudo o que eu era naquela manh, enquanto estava sentada  

frente dele. 

- Miss Jarmond, durante os ltimos quarenta anos venho investigando cada judeu 

deportado deste pas entre 1941 e 1944. Um longo e doloroso processo. Mas um processo 

necessrio. Sim,  possvel dar-lhe o nome dessa famlia. Est tudo neste computador, bem 

aqui. Podemos obter o nome em alguns segundos. Mas a senhora pode me dizer por que 

quer saber sobre essa famlia em particular?  apenas mera curiosidade jornalstica ou 

alguma outra coisa? Senti minhas faces ruborizarem. 

-  pessoal - respondi. - E no  fcil explicar. 

- Tente - ele disse. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 107 



Hesitante no incio, eu lhe contei sobre o apartamento na rue de Saintonge. Sobre 

o que Mame havia dito. Sobre o que meu sogro havia dito. Finalmente, com mais fluncia, 

eu lhe disse que no conseguia parar de pensar sobre aquela famlia judia. Sobre quem 

eles eram, o que havia acontecido a eles. Ele me ouviu, assentindo de vez em quando. 

Depois ele disse: - s vezes, Miss Jarmond, no  fcil trazer o passado de volta. 

H surpresas desagradveis. A verdade  mais difcil do que a ignorncia. 

Concordei com um movimento de cabea. 

- Tenho conscincia disso - respondi. - Mas preciso saber. Ele me olhou de volta 

com olhos firmes. 

- Eu vou lhe dar os nomes. Para a senhora saber, e somente a senhora. No para a 

sua revista. Tenho sua palavra? - Sim - respondi, surpresa com sua solenidade. Ele se virou 

para o computador. 

- Por favor, o endereo. Dei a informao. 

Seus dedos voaram sobre o teclado. O computador soltou um pequeno estalido. 

Senti meu corao dar um salto. Depois a impressora gemeu e cuspiu uma folha branca de 

papel. Franck Lvy a entregou para mim, sem uma palavra. Li: 

26, rue de Saintonge, 75003 Paris STARZYNSKI W Ladyslaw, nascido em Varsvia, 

1910. Preso em 16 de julho de 1942. Garagem, rue de Bretagne. Vel' d'Hiv. Beaune-la-

Rolan-de. Comboio nmero 15, 5 de agosto de 1942. 

 Rywka, nascida em Okuniew, 1912. Presa em 16 de julho de 1942. Garagem, rue 

de Bretagne. Vel' d'Hiv. Beaune-la-Rolan-de. Comboio nmero 15, 5 de agosto de 1942. 

 Sarah, nascida em Paris, 12 arrondissement, 1932. Presa em 16 de julho de 1942. 

Garagem, rue de Bretagne. Vel' d'Hiv. Beaune-la-Rolande. 

A impressora emitiu outro gemido. 

- Uma fotografia - disse Franck Lvy. Ele olhou para ela antes de me entreg-la. 

Era de uma menina de 10 anos de idade. Li a legenda: junho de 1942. Tirada na 

escola, na rue des Blancs-Manteaux. Bem ao lado da rue de Saintonge. 

A menina tinha olhos claros e oblqos. Deveriam ser azuis ou verdes, pensei. 

Cabelos claros na altura dos ombros com um lao levemente torto. Um lindo sorriso 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 108 



tmido. Um rosto em forma de corao. Ela estava sentada atrs da carteira da escola com 

um livro aberto  sua frente. Sobre o peito, a estrela. 

Sarah Starzynski. Um ano mais nova do que Zo. 

Tornei a olhar a lista de nomes. Eu no precisava perguntar a Franck Lvy para 

onde o comboio nmero 15 que saiu de Beaune-la-Rolan-de havia ido. Eu sabia que era 

Auschwitz. 

- E a garagem na rue de Bretagne? - perguntei. 

-  onde a maioria dos judeus que moravam no terceiro arrondis-sement foi 

reunida antes de ser levada para a rue Nlaton e o vlodrome. 

Percebi que depois do nome de Sarah no havia meno a um comboio. Fiz essa 

observao para Franck Lvy. 

- Isso significa que ela no estava em nenhum dos trens que saram para a 

Polnia. At onde sabemos. 

- Ser que ela conseguiu escapar? - perguntei. 

-  difcil dizer. Algumas crianas realmente conseguiram escapar de Beaune-la-

Rolande e foram salvas por fazendeiros franceses que viviam nas redondezas. Outras 

crianas, que eram muito menores do que Sarah, foram deportadas sem que suas 

identidades fossem esclarecidas. Nesse caso, elas eram listadas, por exemplo, como 

"menino, Pithiviers". Meu Deus, eu no sei lhe dizer o que aconteceu a Sarah Starzynski, 

Miss Jarmond. Tudo o que posso dizer  que ela aparentemente nunca chegou em Drancy 

com as outras crianas de Beaune-la-Rolande e Pithiviers. Ela no est nos arquivos de 

Drancy. 

Baixei os olhos para aquele lindo rosto inocente. 

- O que pode ter acontecido a ela? - murmurei. 

- O ltimo rastro dela que temos  Beaune-la-Rolande. Ela pode ter sido salva por 

uma famlia da vizinhana. Ela pode ter permanecido escondida durante a guerra sob um 

outro nome. 

- Isso aconteceu com freqncia? 

- Aconteceu, sim. Um grande nmero de crianas judias sobreviveu, graas  ajuda 

e  generosidade de famlias francesas ou instituies religiosas. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 109 



Olhei para ele. 

- O senhor acha que Sarah Starzynski foi salva? Que ela sobreviveu? Ele baixou os 

olhos para a fotografia daquela criana sorridente e adorvel. 

- Espero que sim. Mas agora a senhora j sabe o que queria. A senhora sabe quem 

morava em seu apartamento. 

- Sim - eu disse. - Sim, obrigada. Mas ainda fico pensando como a famlia de meu 

marido pde viver l depois da priso dos Starzynski. No consigo entender isso. 

- Voc no deve julg-los com tanta severidade - advertiu-me Franck Lvy. - 

Houve, realmente, uma grande quantidade de indiferena parisiense, mas no se esquea 

de que Paris estava ocupada. As pessoas temiam por suas vidas. Aqueles foram tempos 

muito diferentes. 

Enquanto eu saa do escritrio de Franck Lvy, de repente senti-me frgil,  beira 

das lgrimas. Havia sido um dia sobrecarregado e cansativo. Meu mundo estava se 

fechando  minha volta, pressionando-me de todos os lados. Bertrand. O beb. A deciso 

impossvel que eu iria ter de tomar. A conversa que eu teria com meu marido hoje  noite. 

E, depois, o mistrio relativo ao apartamento da rue de Saintonge. A famlia Tzac 

se mudando para l, to rapidamente depois da priso dos Starzynski. Mame e Edouard 

no quererem falar a respeito. Por qu? O que havia acontecido? O que eles no queriam 

que eu soubesse? Enquanto eu caminhava na direo da rue Marbeuf, me sentia como se 

estivesse sendo assoberbada por algo enorme, algo com que eu no conseguia lidar. 

Mais tarde, naquela noite, encontrei Guillaume no Select. Ns nos sentamos perto 

do bar, longe do barulhento ferrasse. Ele tinha alguns livros com ele. Fiquei encantada. 

Eram exatamente os livros nos quais eu no tinha conseguido colocar as mos. 

Particularmente um deles, relativo aos campos de Loiret. Agradeci muito. 

Eu no havia planejado dizer nada sobre o que descobrira naquela tarde, mas saiu 

tudo em um turbilho. Guillaume ouviu cada palavra, atentamente. Quando terminei, ele 

disse que sua av havia lhe contado sobre apartamentos judeus sendo saqueados logo 

depois da batida policial. Outros tinham lacres fixados nas portas pela polcia, lacres que 

seriam rompidos muitos meses ou anos mais tarde quando ficou bvio que ningum iria 

voltar. De acordo com a av de Guillaume, a polcia muitas vezes trabalhou secretamente 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 110 



com as concierges, que eram capazes de encontrar novos moradores rapidamente por 

meio do boca a boca. Foi assim que provavelmente havia acontecido com meus sogros. 

- Por que isso  to importante para voc, Julia? - Guillaume perguntou 

finalmente. 

- Quero saber o que aconteceu quela menina. Ele me olhou com olhos srios, 

inquiridores. 

- Eu compreendo. Mas tenha cuidado ao questionar a famlia de seu marido. 

- Eu sei que eles esto escondendo alguma coisa. Eu quero saber o que . 

- Tenha cuidado, Julia - ele repetiu. Ele sorriu, mas seus olhos permaneceram 

srios. - Voc est brincando com a caixa de Pandora. As vezes,  melhor no abri-la. s 

vezes,  melhor no saber. 

Franck Lvy havia me dito a mesma coisa naquela manh. 



DURANTE DEZ MINUTOS, JULES e Genevive haviam corrido pela casa, como 

animais frenticos, sem falar, apertando as mos. Pareciam estar em agonia. Eles tentaram 

transportar Rachel, carreg-la para o andar de baixo, mas ela estava fraca demais. 

Finalmente resolveram mant-la na cama. Jules fez o que pde para acalmar Genevive, 

sem muito sucesso. Ela continuava desmoronando sobre o sof ou sobre a cadeira mais 

prxima e explodindo em lgrimas. 

A menina os seguia como um cozinho preocupado. Eles no respondiam a 

nenhuma de suas perguntas. Ela percebeu Jules lanando olhares contnuos pela janela e 

para os portes. A menina sentiu que o medo arrebatava seu corao. 

Ao cair da noite, Jules e Genevive se sentaram cara a cara em frente  lareira. Eles 

pareciam ter se recuperado. Pareciam calmos e tranqilos. Mas a menina percebeu que as 

mos de Genevive tremiam. Os dois estavam plidos e olhavam incessantemente para o 

relgio. 

A certa altura, Jules se virou para a menina. Falou baixo. Ele lhe disse para voltar 

para o poro. Havia grandes sacos de batatas. Ela teria que entrar em um deles e se 

esconder l da melhor maneira que conseguisse. Ela havia entendido? Era muito 

importante. Se algum entrasse no poro, ela teria que ficar invisvel. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 111 



A menina congelou. Ela disse: - Os alemes esto vindo! Antes que Jules ou 

Genevive pudessem dizer qualquer palavra, o co latiu, fazendo com que todos se 

sobressaltassem. Jules fez um sinal para a menina, apontando para o alapo. Ela 

obedeceu instantaneamente, deslizando para dentro do poro escuro e bolorento. Ela no 

conseguia enxergar, mas conseguiu encontrar os sacos de batatas no fundo do celeiro, 

sentindo o tecido grosso com as palmas das mos. Havia vrios sacos delas, empilhados 

uns em cima dos outros. Rapidamente, ela os separou com os dedos e escorregou por 

entre eles. Ao fazer isso, um dos sacos se rasgou e as batatas caram rolando em torno 

dela, ruidosamente, numa srie de rpidos golpes surdos. Ela rapidamente as colocou em 

camadas  sua volta e sobre si mesma. 

Ento ela ouviu os passos. Altos e ritmados. Ela ouvira aqueles passos antes em 

Paris, tarde da noite, depois do toque de recolher. Sabia o que significavam. Ela havia 

espiado pela janela, e vira os homens marcharem pela rua fracamente iluminada, com seus 

capacetes redondos e seus movimentos precisos. 

Homens marchando. Diretamente para a casa. Passos de uma dzia de homens. 

Uma voz masculina abafada, mas ainda assim clara, chegou a seus ouvidos. Ele estava 

falando em alemo. 

Os alemes estavam ali. Eles haviam vindo pegar Rachel e ela. Sentiu sua bexiga 

afrouxar. 

Passos bem acima de sua cabea. O murmrio de uma conversa que ela no 

conseguiu entender. Depois a voz de Jules: - Sim, tenente, h uma menina doente aqui. 

- Uma criana ariana, senhor? - disse a voz estrangeira e gutural. 

- Uma criana que est doente, tenente. 

- Onde est a criana? - No andar de cima. - A voz de Jules estava cansada agora. 

Ela ouviu os passos pesados balanarem o teto. Depois o fraco grito de Rachel 

vindo do alto da casa. Rachel foi arrancada da cama pelos alemes. Rachel gemia, dbil 

demais para reagir. 

A menina ps as mos sobre os ouvidos. Ela no queria ouvir, no podia ouvir. 

Sentiu-se protegida pelo repentino silncio criado por ela. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 112 



Deitada sob as batatas, ela viu um fraco raio de luz penetrando a escurido. 

Algum havia aberto o alapo. Algum estava descendo os degraus da escada que 

chegava ao poro. Ela tirou as mos dos ouvidos. 

- No h ningum aqui - ela ouviu Jules dizer. - A menina estava sozinha. Ns a 

encontramos em nosso canil. 

A menina ouviu Genevive assoando o nariz. Depois, sua voz chorosa, esgotada. 

- Por favor, no levem a menina. Ela est muito doente. A resposta gutural foi 

irnica. 

- Madame, a criana  judia. Provavelmente escapou de um dos campos prximos. 

No h razo para ela estar em sua casa. 

A menina observou a luz alaranjada vacilante de uma lanterna movendo-se 

lentamente ao longo das paredes de pedra do poro, chegando mais perto. Depois, 

aterrorizada, viu a enorme sombra negra de um soldado, recortada como um desenho. Ele 

estava se aproximando dela. Ele iria apanh-la. Ela tentou se tornar o menor possvel. 

Parou de respirar. Sentiu como se seu corao houvesse parado de bater. 

No, ele no iria encontr-la! Seria monstruosamente injusto, horrvel demais, se 

ele a encontrasse. Eles j tinham a pobre Rachel. No era o bastante? Para onde haviam 

levado Rachel? Estaria do lado de fora, em um caminho com os soldados? Ser que teria 

desmaiado? Ela imaginou para onde a estariam levando. Para um hospital? Ou de volta ao 

campo, esses monstros sedentos de sangue? Monstros! Ela os odiava. Ela desejava v-los 

todos mortos. Os filhos-da-puta. Ela usou todos os xin-gamentos que conhecia, todas as 

palavras que sua me a havia proibido de usar. Malditos filhos-da-puta! Ela gritava as 

palavras em sua mente, to alto quando podia, fechando bem os olhos, longe do ponto 

laranja de luz que se aproximava, percorrendo o topo dos sacos onde ela estava se 

escondendo. Ele no iria encontr-la. Nunca. Filhos-da-puta, malditos filhos-da-puta! A voz 

de Jules, novamente. 

- No h ningum l embaixo, tenente. A menina estava sozinha. Ela mal 

conseguia ficar de p. Tnhamos que cuidar dela. 

A voz do tenente chegou at a menina. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 113 



- Estamos apenas verificando. Vamos vasculhar seu poro, depois vocs iro 

conosco at o Kommandantur. 

A menina tentou no se mexer, no suspirar, no respirar, enquanto a lanterna 

passeava sobre sua cabea. 

- Ir com vocs? - A voz de Jules parecia tomada de pnico. - Mas por qu? Uma 

risada spera. 

- Uma judia em sua casa e o senhor pergunta por qu? Depois veio a voz de 

Genevive, surpreendentemente calma. Parecia que ela havia parado de chorar. 

- Vocs viram que no a estvamos escondendo, tenente. Ns a estvamos 

ajudando a melhorar. S isso. Ns no sabamos o nome dela. Ela no conseguia falar. 

- Sim - continuou a voz de Jules - ns at mesmo chamamos um mdico. No a 

estvamos escondendo, de jeito nenhum. 

Houve uma pausa. Ela ouviu o tenente tossir. 

- Na verdade foi isso mesmo que Guillemin nos disse. Vocs no estavam 

escondendo a menina. Ele disse isso mesmo, o bom Herr Doktor. 

A menina sentiu as batatas sendo mexidas acima de sua cabea. Ela permaneceu 

imvel como uma esttua, sem respirar. Seu nariz coava e ela estava com vontade de 

espirrar. 

Ela ouviu a voz de Genevive novamente. Calma, animada, quase forte. Um tom 

que ela nunca ouvira Genevive usar. 

- Ser que os cavalheiros gostariam de um pouco de vinho? As batatas pararam 

de se mover em volta dela. 

No andar de cima, o tenente gargalhou: - Vinho? Jawohl! - E talvez um pouco de 

pat? - disse Genevive, com a mesma voz animada. 

Os passos recuaram para o andar de cima e a porta do alapo se fechou com um 

estrondo. A menina sentiu que desfalecia de alvio. Ela se abraou a si prpria, com as 

lgrimas descendo pelo rosto. Por quanto tempo eles ficaram l em cima com os copos 

tilintando, os ps se arrastando, com as risadas entusiasmadas reverberando? 

Infinitamente. Parecia a ela que os berros do tenente ficavam cada vez mais alegres. Ela 

captou at mesmo um arroto asqueroso. Ela no ouvia nada de Jules e Genevive. Eles 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 114 



ainda estariam l em cima? O que estaria acontecendo? Ela tinha vontade de saber. Mas 

sabia que tinha que ficar onde estava at que Jules ou Genevive viessem busc-la. Seus 

membros estavam enrijecidos, mas ela ainda no ousava se mexer. 

Finalmente, a casa ficou silenciosa. O cachorro latiu uma vez, e depois no mais. A 

menina escutava. Teriam os alemes levado Jules e Genevive com eles? Ser que ela 

estava completamente sozinha na casa? Depois, ela ouviu o som abafado de soluos. O 

alapo se abriu com um gemido e a voz de Jules chegou at ela. 

- Sirka! Sirka! Quando ela surgiu, com as pernas doloridas, os olhos vermelhos por 

causa da poeira e as faces midas e sujas, viu que Genevive havia desmoronado, com o 

rosto escondido nas mos. Jules estava tentando confort-la. A menina observava, 

impotente. A velha senhora levantou os olhos. Seu rosto havia envelhecido, estava 

encovado. A menina ficou assustada. 

- Aquela menina - ela sussurrou - levada para a morte. Eu no sei onde, ou como, 

mas eu sei que ela ir morrer. Eles no me ouviram. Tentamos faz-los beber, mas eles 

mantiveram as mentes claras. Eles nos deixaram ficar, mas levaram Rachel. 

As lgrimas de Genevive desciam por suas faces enrugadas. Ela sacudiu a cabea 

em desespero, agarrou a mo de Jules e puxou-a para si. 

- Meu Deus, em que nosso pas est se transformando? Genevive chamou a 

menina com um gesto e segurou sua mozinha com a mo envelhecida. Eles me salvaram, 

a menina no parava de pensar. Eles me salvaram. Eles salvaram a minha vida. Talvez 

algum como eles tenha salvado Michel, salvado Papa e Maman. Talvez ainda haja 

esperana. 

- Pequena Sirka! - suspirou Genevive, apertando os dedos da menina. - Voc foi 

to corajosa l embaixo! A menina sorriu. Um sorriso lindo e corajoso que tocou fundo os 

coraes do velho casal. 

- Por favor - ela disse - no me chamem mais de Sirka. Esse era o meu apelido 

quando eu era beb. 

- Como devemos cham-la, ento? - perguntou Jules. A menina endireitou os 

ombros e ergueu o queixo. 

- Meu nome  Sarah Starzynski. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 115 



AO SAIR DO APARTAMENTO, onde estive para verificar o andamento das obras 

com Antoine, parei na rue de Bretagne. A garagem ainda estava l. E tambm uma placa, 

lembrando aos passantes que famlias judias do terceiro arrondissement haviam sido 

arrebanhadas ali na manh de 16 de julho de 1942, antes de serem levadas para o Vel' 

d'Hiv e deportadas para os campos da morte. Foi aqui que a odissia de Sarah comeou, 

pensei. Onde teria terminado? Enquanto fiquei l, esquecida do trfego, senti como se 

quase pudesse ver Sarah descendo a rue de Saintonge naquela quente manh de julho 

com sua me, seu pai e os policiais. Sim, eu podia ver tudo, eu podia v-los sendo 

empurrados para a garagem, bem aqui onde eu estava agora. Eu podia ver o rosto 

delicado em forma de corao, a confuso, o medo. Os cabelos lisos puxados para trs 

com um lao, os olhos oblqos cor de turquesa. Sarah Starzynski. Ser que ela ainda 

estaria viva? Ela deve ter uns 70 anos agora, pensei. No, ela no poderia estar viva. Ela 

havia desaparecido da face da Terra, com o restante das crianas do Vel' d'Hiv. Ela jamais 

voltara de Auschwitz. Ela era agora um punhado de p. 

Sa da rue de Bretagne e voltei para o meu carro. De acordo com o verdadeiro 

estilo americano, nunca fui capaz de dirigir um carro com cmbio manual. Meu carro era 

um pequeno modelo hidramtico japons do qual Bertrand debochava. Eu nunca o usava 

para dirigir em Paris. Os nibus e a rede de metr eram excelentes. Eu sentia que no 

precisava de um carro para me movimentar pela cidade. Bertrand zombava disso tambm. 

Bamber e eu amos visitar Beaune-la-Rolande naquela tarde, a uma hora de carro 

de Paris. Eu havia estado em Drancy naquela manh com Guillaume. Ficava bem perto de 

Paris, espremida entre os subrbios cinzentos e miserveis de Bobigny e Pantin. Durante a 

guerra, mais de sessenta trens haviam sado de Drancy - situada diretamente no corao 

do sistema ferrovirio francs - para a Polnia. At passarmos caminhando por uma 

grande e moderna escultura comemorativa do lugar, eu no havia me dado conta de que 

o campo agora estava obviamente habitado. Mulheres passeavam com carrinhos de beb 

e ces, crianas corriam e gritavam, cortinas se balanavam com a brisa, plantas cresciam 

nos peitoris das janelas. Eu estava perplexa. Como algum podia morar entre estas 

paredes? Perguntei a Guillaume se ele sabia sobre isso. Ele concordou com a cabea. 

Olhando para o rosto dele eu podia dizer que estava emocionado. Sua famlia inteira havia 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 116 



sido deportada daqui. No era nada fcil para ele vir a este lugar. Mas ele quis me 

acompanhar. Havia insistido. 

O curador do Museu Memorial de Drancy era um homem de meia-idade, de 

aparncia cansada, chamado Menetzky. Estava esperando por ns do lado de fora do 

minsculo museu que s era aberto caso algum telefonasse e agendasse um horrio. 

Perambulamos pela pequena e modesta sala, olhando as fotografias, os artigos e os 

mapas. Havia algumas estrelas amarelas em exposio por trs de um painel de vidro. Era 

a primeira vez que eu via uma de verdade. Senti-me impressionada e nauseada. 

O campo havia mudado muito pouco nos ltimos sessenta anos. O grande prdio 

em forma de U, construdo no fim dos anos 1930 como um projeto residencial inovador, e 

requisitado em 1941 pelo governo de Vichy para a deportao de judeus, agora abrigava 

quatrocentas famlias em pequeninos apartamentos, e essa era a sua funo desde 1947. 

Drancy tinha os aluguis mais baixos que se podia encontrar na vizinhana. 

Perguntei ao triste Monsieur Menetzky se os residentes da Cite de Ia Muette - o 

nome do local, que curiosamente significa "Cidade da Muda" - tinham alguma idia sobre 

o lugar onde estavam morando. Ele sacudiu a cabea. A maioria das pessoas era jovem. Na 

opinio dele, elas no sabiam e no se importavam. Depois, perguntei se muitos visitantes 

compareciam quele memorial. Ele respondeu que havia escolas que enviavam turmas de 

alunos, e s vezes vinham turistas. Folheamos o livro de visitantes. "Para Paulette, minha 

me. Eu te amo e nunca vamos te esquecer. Voltarei aqui todos os anos para pensar em 

voc. Foi daqui que voc partiu para Auschwitz em 1944 e de onde jamais voltou. Sua filha, 

Danielle." Senti lgrimas alfinetarem o fundo dos meus olhos. 

Depois, ele nos mostrou o nico vago de gado que havia no meio do gramado, 

do lado de fora do museu. Estava trancado, mas o curador tinha a chave. Guillaume me 

ajudou a subir, e ns dois ficamos de p no meio do pequeno espao vazio e nu. Tentei 

imaginar o vago lotado de pessoas, amontoadas umas contra as outras - crianas 

pequenas, avs, pais de meia-idade e adolescentes a caminho da morte. O rosto de 

Guillaume tinha empalidecido. Ele me disse mais tarde que nunca havia entrado no vago. 

Nunca tinha ousado. Perguntei-lhe se ele se sentia bem. Ele assentiu, mas eu podia ver 

quanto estava perturbado. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 117 



Enquanto caminhvamos, distanciando-nos do prdio, com diversos livros e 

folhetos debaixo do brao que me foram entregues pelo curador, no conseguia parar de 

pensar no que eu sabia sobre Drancy. Sua desumanidade durante aqueles anos de terror. 

Uma quantidade sem fim de trens cheios de judeus enviados diretamente para a Polnia. 

Eu no conseguia parar de pensar nas descries que havia lido e que me 

deixavam com o corao apertado sobre as 4 mil crianas do Vel' d'Hiv que chegaram aqui 

no fim do vero de 1942, sem seus pais, ftidas, doentes e esfomeadas. Sarah estivera 

entre elas, afinal de contas? Teria ela deixado Drancy e ido para Auschwitz, aterrorizada e 

sozinha num vago de gado cheio de estranhos? Bamber estava esperando por mim em 

frente ao nosso escritrio. Ele posicionou sua silhueta magricela no assento do carona 

depois de colocar seu equipamento fotogrfico no banco de trs. Depois, ele olhou para 

mim. Eu sabia que ele estava preocupado. Colocou uma mo delicada sobre o meu 

antebrao. 

- Hum... Julia, voc est bem? Os culos escuros no ajudaram, imaginei. Minha 

noite miservel estava escrita no meu rosto. A conversa com Bertrand at de manh cedo. 

Quanto mais conversamos, mais inflexvel ele ficou. No, ele no queria esse beb. Para 

ele, a essa altura, ainda nem era um beb. No era nem mesmo um ser humano. Era uma 

sementinha. No era nada. Ele no queria. Ele no podia lidar com isso. Era demais para 

ele. Sua voz havia ficado embargada, deixando-me estupefata. Seu rosto parecia 

devastado, envelhecido. Onde estava meu marido despreocupado, convencido, 

irreverente? Fiquei olhando para ele com franca surpresa. E se eu decidisse ter esse beb 

contra a vontade dele, disse com voz rouca, isso seria o fim. O fim de qu? Olhei para ele, 

horrorizada. O fim de ns dois, ele disse, com a terrvel voz embargada que eu no 

reconhecia. O fim do nosso casamento. Permanecemos em silncio, encarando um ao 

outro por sobre a mesa da cozinha. Perguntei a ele por que o nascimento do beb o 

aterrorizava tanto. Ele se virou e suspirou, esfregando os olhos. Estava ficando velho, 

respondeu. Estava se aproximando dos 50 anos. Isso por si s j era terrvel - envelhecer. A 

presso em sua profisso para se manter atualizado com relao aos caras mais jovens. 

Competir com eles, dia aps dia. E ver sua aparncia se degradar. O rosto no espelho com 

o qual ele se esforou tanto para se entender. Eu nunca havia tido esse tipo de conversa 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 118 



com Bertrand anteriormente. Jamais havia percebido que envelhecer estava sendo um 

problema to grande para ele. 

- Eu no quero ter 70 anos quando essa criana tiver 20 - ele murmurava vrias 

vezes. - No posso. No vou. Julia, voc tem que enfiar isso na sua cabea. Se voc tiver 

essa criana, isso vai me matar. Voc est ouvindo? Isso vai me matar. 

Respirei fundo. O que  que eu podia dizer a Bamber? Como eu poderia sequer 

comear? O que ele seria capaz de entender? Era to jovem, to diferente! Ainda assim, eu 

apreciava sua solidariedade, sua preocupao. Endireitei os ombros. 

- Bem, no vou esconder isso de voc, Bamber - eu disse, sem olhar para ele e 

apertando o volante com toda a minha fora. - Tive uma noite horrorosa. 

- Seu marido? - ele perguntou, tentando adivinhar. 

- Isso mesmo, meu marido - gracejei. 

Ele sacudiu a cabea. Depois, se virou para mim. 

- Se voc quiser falar sobre isso, Julia, estou aqui - disse, com o mesmo tom grave 

e vigoroso que Churchill havia usado para pronunciar "Nunca nos renderemos". 

No pude evitar um sorriso. 

- Obrigada, Bamber. Voc  o mximo. Ele abriu um largo sorriso. 

- Hum... como foi Drancy? Soltei um resmungo. 

- Ai, meu Deus, foi horrvel. O lugar mais deprimente que voc j viu. H pessoas 

morando no prdio, voc acredita nisso? Fui com um amigo cuja famlia foi deportada de 

l. Voc no vai se divertir tirando fotos de Drancy, acredite em mim.  dez vezes pior do 

que a rue Nlaton. 

Sa de Paris e peguei a A6. Felizmente no havia muitas pessoas na estrada nessa 

hora do dia. Viajamos em silncio. Percebi que eu tinha que conversar com algum, e logo, 

sobre o que estava acontecendo. Sobre o beb. Eu no podia continuar guardando esse 

segredo s para mim. Charla. Era cedo demais para ligar para ela. Ainda no eram seis da 

manh em Nova York, embora seu dia de trabalho como obstinada advogada bem-

sucedida estivesse para comear. Ela tinha dois filhos pequenos que eram a imagem 

perfeita de seu ex-marido, Ben. E agora ela tinha um novo marido, Barry, que era charmoso 

e estava no ramo da informtica, mas eu ainda no o conhecia bem. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 119 



Eu ansiava por ouvir a voz de Charla, o modo suave e caloroso com que ela dizia 

"Oi!" ao telefone quando sabia que era eu. Charla jamais havia se dado bem com Bertrand. 

Eles meio que se aturavam. Havia sido assim desde o incio. Eu sabia o que ele pensava 

dela: uma feminista americana linda, brilhante, arrogante. E Charla, com relao a ele: um 

sapo vaidoso, lindo e chauvinista. Eu sentia saudades de Charla. De sua vitalidade, seu riso, 

sua honestidade. Quando troquei Boston por Paris, h muitos anos, ela ainda era uma 

adolescente. No senti tanta falta dela no incio. Ela era apenas minha irm mais nova. 

Agora  que eu estava sentindo. Sentia uma falta danada dela. 

- Hum... - veio a voz suave de Bamber - aquela no era a nossa sada? Era. 

- Merda! - exclamei. 

- No tem importncia - disse Bamber, mexendo no mapa. - A prxima tambm 

serve. 

- Desculpe - murmurei. - Estou um pouco cansada. 

Ele sorriu de modo compreensivo. E ficou de boca calada. Eu gostava disso em 

Bamber. 

Beaune-la-Rolande se aproximava - uma cidadezinha melanclica perdida em 

meio a campos de trigo. Estacionamos no centro, perto da igreja e da prefeitura. 

Caminhamos pela cidade e Bamber tirava uma foto aqui e ali. Percebi que havia poucas 

pessoas. Era um lugar triste e vazio. 

Eu tinha lido que o campo ficava na parte nordeste da cidade e que uma escola 

tcnica havia sido construda sobre ele nos anos 1960. O campo ficava a alguns 

quilmetros da estao, exatamente no lado oposto, o que significava que as famlias 

deportadas tiveram que andar atravs do corao da cidade. Deve haver gente aqui que se 

lembra, eu disse a Bamber. Pessoas que viram de suas janelas, da entrada de suas casas, os 

incontveis grupos caminhando penosamente. 

A estao de trem no estava mais operante. Ela havia sido reformada e 

transformada numa creche. Havia algo de irnico naquilo, pensei, olhando atravs das 

janelas para os desenhos coloridos e animais empalhados. Um grupo de crianas 

pequenas estava brincando em uma rea cercada  direita do prdio. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 120 



Uma mulher de quase 30 anos carregando uma criana nos braos veio perguntar 

se eu precisava de alguma coisa. Respondi que eu era jornalista, pesquisando o velho 

campo de concentrao que ficava ali nos anos 40. Ela nunca tinha ouvido falar de um 

campo naquela rea. Apontei para a placa afixada sobre a porta da creche. 

Em memria das milhares de crianas, mulheres e homens judeus que, entre maio 

de 1941 e agosto de 1943, passaram por esta estao e pelo campo de concentrao em 

Beaune-la-Rolande, antes de serem deportadas para Auschwitz, o campo de extermnio, 

onde foram assassinadas. Nunca se esqueam. 

Ela encolheu os ombros, sorrindo para mim como quem pede desculpas. Ela no 

sabia. Era jovem demais, de qualquer maneira. Isso havia acontecido muito antes do seu 

tempo. Perguntei se havia pessoas que iam  estao para olhar para a placa. Ela 

respondeu que no havia percebido ningum desde que havia comeado a trabalhar l, no 

ano passado. 

Bamber tirou mais fotos enquanto eu caminhava pelo imvel branco e reocupado. 

O nome da cidade estava gravado com letras negras em ambos os lados da estao. Olhei 

por sobre a cerca. 

Os antigos trilhos estavam cobertos de ervas daninhas e de capim, mas ainda 

permaneciam no lugar, com seus velhos dormentes de madeira e o ao enferrujado. Sobre 

aqueles trilhos abandonados, vrios trens haviam sado diretamente para Auschwitz. Senti 

meu corao ficar apertado conforme observava os dormentes. De repente, ficou difcil 

respirar. 

O comboio nmero 15 de 5 de agosto de 1942 havia transportado os pais de 

Sarah Starzynski diretamente para a morte. 



SARAH DORMIU MUITO MAL naquela noite. Ela ficava escutando Rachel gritar o 

tempo todo. Onde estaria Rachel agora? Ser que ela estava bem? Algum estaria 

cuidando dela, ajudando-a a se curar? Para onde foram levadas todas aquelas famlias 

judias? E sua me? E seu pai? E as crianas l no campo de Beaune-la-Rolande? Sarah, 

deitada de costas na cama, ouvia o silncio da velha casa. Tantas perguntas! E nenhuma 

resposta. Seu pai costumava responder a todas as suas indagaes. Por que o cu era azul, 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 121 



de que eram feitas as nuvens e como os bebs vinham ao mundo. Por que o mar tinha 

mars, como as flores cresciam e por que as pessoas se apaixonavam. Ele sempre tinha 

tempo para responder a ela, pacientemente, calmamente, com gestos e palavras claras e 

fceis de entender. Ele nunca havia dito que estava ocupado demais. Ele amava suas 

perguntas incessantes e costumava dizer que ela era uma menininha muito inteligente. 

Mas ela lembrou que, nos ltimos tempos, o pai no respondia s suas perguntas 

do modo como fazia antes. Suas perguntas sobre a estrela amarela, sobre no poder ir ao 

cinema,  piscina pblica. Sobre o toque de recolher. Sobre aquele homem, na Alemanha, 

que odiava os judeus, e cujo nome a fazia tremer. No, ele no havia respondido s 

perguntas dela apropriadamente. Ele permanecera vago, silencioso. E quando ela 

perguntara novamente, pela segunda ou terceira vez, logo antes de os homens virem 

busc-los naquela quinta-feira negra, o que  que havia exatamente em ser judeu que 

fazia com que outras pessoas os odiassem - certamente no podia ser que eles tivessem 

medo dos judeus pelo fato de eles serem "diferentes" - ele havia virado o rosto, como se 

no tivesse ouvido. Mas ela sabia que ele tinha escutado. 

Ela no queria pensar no pai. Doa demais. No conseguia nem mesmo se lembrar 

da ltima vez que o tinha visto. No campo... Mas quando, exatamente? Ela no sabia. Com 

relao  sua me, tinha havido aquela ltima vez, quando viu o rosto de sua me se virar 

para ela, indo embora com as outras mulheres, chorando, caminhando por aquela longa 

estrada poeirenta para a estao. Ela tinha uma imagem clara colada em sua mente, como 

uma fotografia. O rosto plido de sua me, o azul surpreendente de seus olhos. O 

fantasma de um sorriso. 

Mas no tinha havido uma ltima vez com seu pai. No havia uma ltima imagem 

 qual ela pudesse se agarrar, que ela pudesse invocar. Ento, ela tentava se lembrar dele, 

trazer  mente seu rosto magro e escuro, seus olhos assombrados. Os dentes brancos no 

rosto moreno. Ela sempre havia ouvido falar que parecia com sua me, e Michel tambm. 

Eles tinham os traos claros dos eslavos, as mas do rosto proeminentes e largas, os 

olhos oblqos. Seu pai costumava reclamar que nenhum dos filhos se parecia com ele. 

Mentalmente, ela mandou o sorriso do pai embora. Era doloroso demais. Profundo 

demais. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 122 



Amanh ela tinha que ir a Paris. Tinha que chegar em casa. Tinha que descobrir o 

que havia acontecido com Michel. Talvez ele tambm estivesse em segurana, como ela 

estava agora. Talvez algumas pessoas boas e generosas tivessem conseguido abrir a porta 

do esconderijo e libert-lo. Mas quem? ela se perguntava. Quem poderia t-lo ajudado? 

Ela jamais confiara em Madame Royer, a concierge de olhos maliciosos e um sorriso de 

lbios finos. No, ela no. Talvez o simptico professor de violino, aquele que gritou 

naquela negra manh de quinta-feira: "Para onde vocs os esto levando? Eles so 

pessoas boas e honestas! Vocs no podem fazer isso!" Sim, talvez ele tivesse conseguido 

salvar Michel, talvez ele estivesse seguro na casa daquele homem, que estaria tocando 

melodias polonesas para ele no violino. A risada de Michel com suas bochechas rosadas. 

Michel batendo palmas, danando e rodopiando. Talvez Michel estivesse esperando por 

ela, talvez ele dissesse para o professor de violino todas as manhs: "Sirka vai vir hoje? 

Quando  que Sirka vai chegar? Ela prometeu que ia voltar e viria me buscar, ela 

prometeu!" De manh, quando acordou com o canto do galo, ela percebeu que o 

travesseiro estava molhado, encharcado por suas lgrimas. Vestiu-se rapidamente, 

colocando as roupas que Genevive havia separado para ela. Roupas de menino limpas, 

fortes e fora de moda. Ela se perguntou a quem pertenceriam. Aquele Nicolas Duf aure 

que havia escrito diligentemente seu nome em todos aqueles livros? Ela colocou a chave e 

o dinheiro no bolso. 

No primeiro andar, a cozinha grande e fresca estava vazia. Ainda era cedo. O gato 

continuava dormindo, enroscado em cima de uma cadeira. A menina mordiscou um 

pedao de po macio e bebeu um pouco de leite. Ela continuava apalpando o bolso em 

busca do mao de dinheiro e da chave, certif icando-se de que estavam seguros. 

Era uma manh quente e cinzenta. Haveria tempestades violentas  noite, ela 

sabia. Aquelas tempestades barulhentas e assustadoras que costumavam amedrontar 

tanto Michel. Ela imaginou como iria chegar  estao. Orlans seria longe? Ela no tinha 

idia. Como iria fazer? Como ela iria conseguir chegar l? Eu cheguei at aqui, ela 

continuava dizendo para si mesma. Cheguei at aqui, ento no posso desistir agora, vou 

descobrir um jeito. Vou encontrar um modo. E ela no poderia ir embora sem se despedir 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 123 



de Jules e Genevive. Ento esperou, postando-se na soleira da porta, atirando migalhas 

de po para as galinhas e os pintinhos. 

Genevive desceu meia hora depois. Seu rosto ainda carregava os vestgios da 

crise da noite anterior. Alguns minutos mais tarde, Jules surgiu, plantando um beijo 

afetuoso na cabea raspada de Sarah. A menina os observou preparar o caf-da-manh 

com gestos lentos e cuidadosos. Ela havia se afeioado a eles, pensou. Mais do que se 

afeioado. Como ela iria lhes contar que estava indo embora hoje? Eles ficariam arrasados, 

ela tinha certeza. Mas no havia escolha. Ela tinha que voltar para Paris. 

Quando ela lhes contou, eles haviam terminado o caf-da-manh e estavam 

recolhendo tudo. 

- Ah, mas voc no pode fazer isso - falou a velha senhora de modo ofegante, 

quase deixando cair a xcara que estava enxugando. - As estradas esto sendo patrulhadas 

e os trens esto sendo vigiados. Voc nem sequer possui uma carteira de identidade. Vai 

ser impedida de continuar e ser enviada de volta ao campo. 

- Eu tenho dinheiro - disse Sarah. 

- Mas ele no ir impedir que os alemes... 

Jules interrompeu a esposa com a mo levantada. Ele tentou convencer Sarah a 

ficar um pouco mais. Conversou com ela de forma calma e com firmeza, como seu pai 

costumava fazer, ela pensou. Ela ouviu, balanando a cabea distraidamente. Mas tinha 

que faz-los entender. Como conseguiria explicar sua necessidade de chegar em casa? 

Como conseguiria permanecer calma e firme como Jules? Suas palavras saram impetuosas 

e desordenadas. Ela estava cansada de tentar ser adulta. Bateu o p no cho com irritao. 

- Se vocs tentarem me impedir... - disse seriamente - se vocs me impedirem, eu 

vou fugir. 

Ela se levantou e dirigiu-se para a porta. Eles no haviam feito nenhum 

movimento, observando-a petrificados e com os olhos arregalados. 

- Espere! - disse Jules finalmente. - Espere um minuto. 

- No. No vou esperar. Vou para a estao - disse Sarah, com a mo na 

maaneta. 

- Voc nem sabe onde fica a estao - disse Jules. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 124 



- Vou descobrir. Vou encontrar um jeito. Ela destrancou a porta. 

- Adeus - ela disse para o velho casal. - Adeus e obrigada. 

Ela se virou e caminhou para os portes. Tinha sido simples. Tinha sido fcil. Mas, 

quando passou pelos portes, curvando-se para acariciar o cachorro, repentinamente 

percebeu o que havia feito. Ela agora estava sozinha. Completamente sozinha. Ela se 

lembrou do grito agudo de Rachel. Os passos ruidosos dos homens marchando. O riso 

amedrontador do tenente. Sua coragem diminuiu. Contra a sua vontade, virou a cabea e 

olhou novamente para a casa. 

Jules e Genevive ainda a estavam observando pela janela, estticos. Quando 

ambos se moveram, foi exatamente ao mesmo tempo. Jules apanhou seu bon, e 

Genevive, sua bolsa. Eles correram para fora e trancaram a porta da frente. Quando 

chegaram at ela, Jules colocou uma das mos em seu ombro. 

- Por favor, no me impeam - murmurou Sarah, corando. Ela estava feliz, mas 

tambm aborrecida com o fato de eles a terem seguido. 

- Impedi-la? - Jules sorriu. - No vamos impedi-la, sua menina tola e teimosa. Ns 

vamos com voc. 



ENTRAMOS NO CEMITRIO SOB um sol quente e seco. Senti-me enjoada de 

repente. Tive que parar e respirar. Bamber estava preocupado. Eu lhe disse para no se 

preocupar, que era apenas falta de sono. Mais uma vez ele pareceu duvidar, mas no fez 

nenhum comentrio. 

O cemitrio era pequeno, mas levamos um bom tempo at acharmos algo. J 

tnhamos quase desistido quando Bamber percebeu que havia seixos sobre um dos 

tmulos, uma tradio judaica. Ns nos aproximamos. Sobre a pedra branca e achatada, 

pudemos ler: Os veteranos judeus deportados erigiram este monumento dez anos depois 

de seu aprisionamento, a fim de perpetuar a memria de seus mrtires, vtimas da 

barbaridade de Hitler. Maio de 1941 - Maio de 1951. 

- Barbaridade de Hitler! - observou Bamber secamente. - Soa como se os 

franceses no tivessem tido nada a ver com a coisa toda. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 125 



Havia vrios nomes e datas na lateral da lpide. Inclinei-me para observar mais de 

perto. Crianas. Apenas 2 ou 3 anos de idade. Crianas que haviam morrido no campo, em 

julho e agosto de 1942. Crianas do Vel' d'Hiv. 

Eu sempre havia estado intensamente consciente de que tudo o que havia lido 

sobre a batida policial era verdico. E ainda assim, naquele dia quente de primavera, 

enquanto observava o tmulo, eu me senti atingida. A realidade inteira dos fatos me 

atingiu. 

E eu sabia que no descansaria mais, no ficaria mais em paz, at que descobrisse 

precisamente o que havia acontecido a Sarah Starzynski. E o que os Tzac sabiam e 

estavam to relutantes em me contar. 

No caminho de volta para o centro da cidadezinha, vimos um velho senhor 

caminhando, arrastando os ps, carregando uma sacola de legumes. Ele devia ter seus 80 

anos, com um rosto redondo e vermelho e cabelos brancos. Perguntei-lhe se sabia onde 

ficava o antigo campo dos judeus. Ele nos olhou desconfiado. 

- O campo? - ele perguntou. - Vocs querem saber onde ficava o campo? Fizemos 

que sim com a cabea. 

- Ningum pergunta sobre o campo - ele murmurou. Ele mexia nos alhos-pors 

em seu cesto, evitando nossos olhos. 

- O senhor sabe onde ficava? - insisti. Ele tossiu. 

- Claro que sei. Moro aqui desde que nasci. Quando era garoto, eu no sabia o 

que era aquele campo. Ningum o mencionava. Agamos como se ele no existisse. 

Sabamos que tinha algo a ver com os judeus, mas no perguntvamos. Tnhamos muito 

medo. Ento, ns no nos metamos no assunto. 

- O senhor se lembra de qualquer coisa especfica sobre o campo? - perguntei. 

- Eu tinha uns 15 anos de idade - ele contou. - Eu me lembro do vero de 1942, 

das multides de judeus chegando da estao, percorrendo esta mesma rua. Bem aqui. - 

Seu dedo torto apontou para a grande rua em que estvamos. - Avenue de la Gare. 

Hordas de judeus. E um dia ouviu-se um barulho. Um barulho horrvel. Meus pais 

moravam a certa distncia do campo. Mas ouvimos mesmo assim. Um estrondo que varreu 

toda a cidade. Continuou o dia todo. Eu ouvi meus pais conversando com os vizinhos. Eles 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 126 



estavam dizendo que as mes haviam sido separadas das crianas l no campo. Para qu? 

Ns no sabamos. Eu vi um grupo de mulheres judias caminhando para a estao. No, 

elas no estavam caminhando. Estavam cambaleando pela estrada, chorando, intimidadas 

pelos policiais. 

Seus olhos se voltaram novamente para a rua, rememorando. Depois, ele pegou 

seu cesto com um grunhido. 

- Um dia - ele continuou - o campo ficou vazio. Os judeus haviam ido embora. Eu 

no sabia para onde. Parei de pensar nisso. Todos ns paramos. Ns no falamos sobre o 

assunto. No queremos nos lembrar. Algumas pessoas daqui nem sabem disso. 

Ele se virou e foi embora. Anotei tudo, sentindo meu estmago revirar novamente. 

Mas desta vez eu no tinha certeza se era enjo matinal ou se era o que eu havia decifrado 

nos olhos daquele velho senhor, sua indiferena, seu desdm. 

Pegamos o carro e subimos a rue Roland vindo da Place du Marche e 

estacionamos na frente da escola. Bamber comentou que a rua era chamada rue des 

Deportes - rua dos Deportados. Fiquei grata por isso. Eu acho que no teria agentado se 

ela se chamasse avenue de la Republique. 

A escola tcnica era um prdio sbrio e moderno com uma velha torre d'gua 

assomando em seu topo. Era difcil imaginar que o campo havia sido aqui, sob o cimento 

pesado e as reas de estacionamento. Havia estudantes fumando perto da entrada. Estava 

na hora do intervalo para o almoo. Sobre um quadrado de mato abandonado na frente 

da escola, percebemos esculturas arqueadas e estranhas com figuras entalhadas. Em uma 

delas, pudemos ler: "Eles precisam agir com os outros e pelos outros, em esprito de 

fraternidade." Nada mais. Bamber e eu nos entreolhamos, perplexos. 

Perguntei a um dos estudantes se as esculturas tinham alguma coisa a ver com o 

campo. Ele perguntou: "Que campo?" Um colega dele soltou uma risada nervosa. Expliquei 

a natureza do campo. Pareceu acalm-lo um pouco. Depois, a outra estudante, uma moa, 

disse que havia uma espcie de placa, um pouquinho mais abaixo na rua, na direo da 

cidade. Ns no a havamos notado quando passamos de carro. Perguntei  moa se era 

um memorial. Ela respondeu que achava que sim. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 127 



O monumento era de mrmore negro com letras douradas desbotadas. Havia sido 

erigido em 1965 pelo prefeito de Beaune-la-Rolande. Uma estrela-de-davi dourada havia 

sido gravada no topo. E havia nomes. Nomes sem fim. Notei dois nomes que haviam se 

tornado dolorosamente familiares: "Starzynski, Wladyslaw. Starzynski, Rywka." Na base da 

coluna de mrmore, percebi uma pequena urna quadrada. "Aqui esto depositadas as 

cinzas de nossos mrtires de Auschwitz-Bir-kenau." Um pouco mais acima, sob a lista de 

nomes, li outra frase: "Para as 3.500 crianas judias arrancadas de seus pais, internadas em 

Beaune-la-Rolande e Pithiviers, deportadas e exterminadas em Auschwitz." Em seguida, 

Bamber leu em voz alta, com seu educado sotaque britnico: "Vtimas dos nazistas, 

enterradas no cemitrio de Beaune-la-Rolande." Abaixo, descobrimos os mesmos nomes 

entalhados na tumba no cemitrio. As crianas do Vel' d'Hiv que haviam morrido no 

campo. 

- Vtimas do nazismo, novamente - murmurou Bamber. - Parece-me um caso 

grave de amnsia. 

Permanecemos ali, olhando em silncio. Bamber havia tirado algumas fotos, mas 

agora sua cmera estava novamente guardada. No mrmore preto, no havia qualquer 

meno de que apenas a polcia francesa havia sido responsvel pela administrao do 

campo, e por tudo o que acontecera atrs do arame farpado. 

Olhei novamente na direo do vilarejo, com o sinistro pinculo escuro da igreja  

minha esquerda. 

Sarah Starzynski havia caminhado penosamente por aquela mesma estrada. Ela 

passara pelo lugar onde eu estava agora e havia virado  esquerda, entrando no campo. 

Vrios dias mais tarde, seus pais haviam sado novamente, para serem levados para a 

estao, para suas mortes. As crianas haviam sido deixadas sozinhas durante semanas e 

depois enviadas para Drancy. E ento para suas mortes solitrias, depois da longa viagem 

at a Polnia. 

O que acontecera a Sarah? Teria ela morrido aqui? No havia sinal do nome dela 

no tmulo ou no memorial. Ser que ela teria escapado? Olhei para alm da torre d'gua, 

erigida no limite do vilarejo, voltada para o norte. Ser que ela ainda estaria viva? Meu 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 128 



celular tocou novamente, fazendo com que ns dois nos sobressaltssemos. Era minha 

irm Charla. 

- Voc est bem? - ela perguntou, com sua voz soando surpreendentemente clara. 

Parecia que ela estava bem ao meu lado e no a milhares de quilmetros de distncia, do 

outro lado do Atlntico. - Tive um pressentimento de que deveria ligar para voc. 

Meus pensamentos foram arrancados de Sarah Starzynski para o beb que eu 

estava carregando. Para o que Bertrand, noite passada, havia dito: "O fim de ns dois." 

Mais uma vez, senti o peso abrupto do mundo sobre meus ombros. 



A ESTAO DE TREM DE Orlans era um lugar movimentado, barulhento, um 

formigueiro fervilhando com uniformes cinzentos. Sarah se comprimiu contra o velho 

casal. Ela no queria demonstrar seu medo. 

Se ela havia conseguido chegar at aqui, isso significava que ainda havia 

esperana para ela. Esperana de chegar a Paris. Ela tinha que ser corajosa, tinha que ser 

forte. 

- Se algum perguntar - sussurrou Jules, enquanto esperavam na fila para 

comprar as passagens para Paris - voc  nossa neta Stphanie Dufaure. Seu cabelo foi 

raspado porque voc pegou piolho na escola. 

Genevive endireitou o colarinho de Sarah. 

- Pronto - ela disse, sorrindo. - Voc est com um ar asseado e agradvel. E 

bonita. Exatamente como nossa neta! - Vocs realmente tm uma neta? - perguntou 

Sarah. - Estas roupas so dela? Genevive deu uma risada. 

- Temos apenas netos bagunceiros, Gaspard e Nicolas. E um filho, Alain. Ele tem 

cerca de 40 anos. Mora em Orlans com Henriette, sua esposa. Essas roupas so de 

Nicolas, ele  um pouquinho mais velho do que voc. E ele s nos d dor de cabea, isso 

sim! Sarah admirou-se com a maneira como o velho casal fingia estar  vontade, sorrindo 

para ela, agindo como se aquela fosse uma manh perfeitamente normal, uma viagem a 

Paris perfeitamente normal. Mas ela percebeu o modo rpido como seus olhos se moviam 

em torno deles constantemente, sempre alertas, sempre se deslocando. Seu nervosismo 

aumentou quando ela viu soldados revistando todos os passageiros que embarcavam nos 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 129 



trens. Ela estendeu o pescoo para observ-los. Alemes? No, franceses. Soldados 

franceses. Ela no tinha identificao consigo. Nada. Nada, exceto a chave e o dinheiro. 

Silenciosamente, discretamente, ela entregou o grosso mao de notas para Jules. Ele 

baixou os olhos para ela, surpreso. Ela apontou com o queixo na direo dos soldados que 

bloqueavam o acesso aos trens. 

- O que voc quer que eu faa com isso, Sarah? - ele sussurrou, perplexo. 

- Eles vo pedir minha identidade a vocs. E eu no tenho. Isso pode ajudar. 

Jules observou a fileira de homens postados em frente ao trem. Ele ficou aturdido. 

Genevive cutucou-o com o cotovelo. 

- Jules! - ela falou. - Isso pode funcionar. Precisamos tentar. No temos outra 

opo. 

O velho senhor se endireitou. Ele fez que sim com a cabea para a esposa. Parecia 

ter recuperado a serenidade. As passagens foram compradas e, em seguida, eles se 

dirigiram para o trem. 

A plataforma estava lotada. Os passageiros se comprimiam contra eles de todos os 

lados, mulheres com bebs que choravam, senhores com rostos austeros, empresrios 

impacientes usando ternos. Sarah sabia o que tinha que fazer. Ela se lembrou do menino 

que escapara do estdio, aquele que havia fugido no meio da confuso. Era isso que ela 

tinha que fazer agora. Tirar o mximo proveito dos empurres e do barulho, das ordens 

berradas pelos soldados, da multido alvoroada. 

Ela soltou a mo de Jules e se abaixou. Era como submergir na gua, ela pensou. 

Uma massa compacta de saias e calas, sapatos e tornozelos. Ela avanou com dificuldade, 

abrindo caminho com os punhos, e depois o trem surgiu, bem  sua frente. 

Quando estava subindo no trem, uma mo a agarrou pelo ombro. Ela 

instantaneamente acalmou a expresso de seu rosto e moldou os lbios em um sorriso 

simptico. O sorriso de uma menininha normal. Uma menininha normal tomando o trem 

para Paris. Uma menininha normal como aquela de vestido lils, aquela que ela vira na 

plataforma, quando foram levados para o campo, naquele dia que parecia to distante. 

- Estou com a minha av - ela disse, lanando seu sorriso inocente, apontando 

para o interior do vago. Com um aceno de cabea, o soldado a soltou. Sem flego, ela se 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 130 



contorceu para chegar ao trem e olhou para fora pela janela. Seu corao estava aos pulos. 

L estavam Jules e Gene-vive emergindo da multido, erguendo os olhos para ela com 

assombro. Ela acenou para eles triunfalmente. Sentiu-se orgulhosa de si mesma. Ela 

conseguira entrar no trem sozinha, e os soldados nem mesmo a haviam importunado. 

Seu sorriso desapareceu quando viu o nmero de oficiais alemes que 

embarcavam no trem. Suas vozes eram altas e rudes enquanto abriam caminho atravs do 

corredor lotado. As pessoas desviavam os rostos, baixavam os olhos, tentavam fazer-se to 

pequenas tanto quanto possvel. 

Sarah estava em um canto do vago, meio escondida por Jules e Ge-nevive. A 

nica parte que era visvel era seu rosto, espreitando por entre os ombros do velho casal. 

Ela observou os alemes se aproximarem e os encarou, fascinada. Ela no conseguia tirar 

os olhos deles. Jules sussurrou para que ela olhasse para o outro lado. Mas ela no 

conseguia. 

Havia um homem em particular que a repugnava - alto, magro, com seu rosto 

branco e anguloso. Seus olhos tinham um tom de azul to plido que pareciam 

transparentes sob as pesadas plpebras rosadas. Quando o grupo de oficiais passou por 

eles, o homem alto e magro estendeu o brao comprido, com a faixa cinza, e deu um 

puxo na orelha de Sarah. Ela sentiu um calafrio, chocada. 

- Bem, garoto - riu o oficial - no precisa ter medo de mim. Um dia, voc tambm 

vai ser um soldado, certo? Jules e Genevive tinham sorrisos pintados, fixos, que no 

vacilaram em seus rostos. Eles seguravam Sarah despreocupadamente, mas ela podia 

sentir suas mos tremendo. 

- Que bonito neto vocs tm aqui - sorriu o oficial, esfregando sua imensa palma 

sobre a cabea raspada de Sarah. - Olhos azuis, cabelos louros, como as crianas do meu 

pas, no ? Um ltimo piscar de apreciao dos olhos plidos de plpebras pesadas. 

Depois ele se virou e seguiu o grupo de homens. Ele achou que eu era um menino, pensou 

Sarah. E ele no achou que eu era judia. Ser judia era algo que algum podia notar 

imediatamente? Ela no tinha certeza. Perguntou a Armelle uma vez. Armelle havia dito 

que ela no parecia judia por causa de seus cabelos louros e olhos azuis. Ento meus olhos 

e meus cabelos me salvaram hoje, ela pensou. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 131 



Ela passou a maior parte da viagem aninhada junto  maciez morna do velho casal. 

Ningum falou com eles, ningum lhes perguntou nada. Olhando fixamente a paisagem 

atravs da janela, ela pensava que Paris se aproximava cada vez mais a cada minuto, 

levando-a para mais perto de Michel. Ela observou as nuvens baixas e cinzentas se 

juntarem, as primeiras gotas grossas de chuva respingarem no vidro, escorrerem devagar e 

desaparecerem, achatadas pelo vento. 

O trem parou na estao de Austerlitz. A estao de onde ela tinha sado com seus 

pais naquele dia quente e poeirento. A menina seguiu o velho casal para fora do trem. 

seguindo para a plataforma e para o metr. 

O andar de Jules vacilou. Eles levantaram os olhos. Diretamente  frente, viram filas 

de policiais em seus uniformes azul-marinho. parando passageiros, exigindo carteiras de 

identidade. Genevive nada disse e gentilmente os empurrou para que continuassem. Ela 

caminhava a passo firme, erguendo seu queixo arredondado. Jules a seguiu, subitamente 

desperto, agarrando a mo de Sarah. 

De p na fila, Sarah estudou o rosto do policial. Um homem de seus 40 anos, 

usando uma grossa aliana de casamento de ouro. Ele parecia indiferente. Mas ela 

percebeu que seus olhos se moviam com rapidez do papel em sua mo para a pessoa  

frente dele. Ele estava fazendo seu trabalho diligentemente. 

Sarah fez com que sua mente ficasse vazia. No queria pensar no que poderia 

acontecer. Ela no se sentia forte o bastante para visualizar. Deixou seus pensamentos 

vagarem. Pensou no gato que tinham, um gato que a fazia espirrar. Qual era mesmo o 

nome do gato? No conseguia se lembrar. Algo bobo como Bonbon ou Rglisse. Eles 

deram o gato para algum porque ele causava coceira no nariz dela e seus olhos ficavam 

vermelhos e inchados. Ela ficou triste e Michel chorou o dia inteiro. Michel disse que era 

tudo culpa dela. 

O homem estendeu a mo de forma entediada. Jules entregou-lhe as carteiras de 

identidade em um envelope. O homem baixou os olhos e remexeu dentro dele, com os 

olhos disparando para Jules e depois para Genevive. Em seguida, ele disse: - A criana? 

Jules apontou para as carteiras. 

- A carteira da criana est a, Monsieur. Junto com as nossas. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 132 



Com um polegar hbil, o homem abriu o envelope ainda mais. Uma grande nota 

dobrada em trs apareceu no fundo do envelope. O homem no se mexeu. 

Ele baixou os olhos novamente para o dinheiro e depois para o rosto de Sarah. Ela 

olhou para ele tambm. Ela no se encolheu nem suplicou. Ela simplesmente olhou para 

ele. 

O momento pareceu se arrastar, interminvel, como aquele interminvel minuto 

quando o homem finalmente a deixou escapar do campo. 

O homem fez um sinal rspido com a cabea. Ele devolveu as carteiras para Jules e 

colocou o envelope no bolso com um gesto fluido. Depois, deu um passo para o lado para 

deix-los passar. 

- Obrigado, Monsieur - ele disse. - O prximo, por favor. 



A VOZ DE CHARLA ECOOU dentro do meu ouvido. - Julia, voc est falando 

srio? Ele no pode ter dito isso. Ele no pode colocar voc nessa situao. Ele no tem 

esse direito. 

Era a voz da advogada que eu estava ouvindo, a advogada tenaz e agressiva de 

Manhattan que no tinha medo de nada nem de ningum. 

- Pois ele disse - respondi, desanimada. - Ele disse que seria o fim de ns dois. Ele 

disse que me deixaria se eu tivesse essa criana. Disse que se sente velho, que no pode 

lidar com outra criana, que ele simplesmente no quer ser um pai velho. 

Houve uma pausa. 

- Isso tem algo a ver com a mulher com quem ele teve aquele caso? - perguntou 

Charla. - No lembro o nome dela. 

- No, Bertrand no falou nela nem uma vez. 

- No o deixe pression-la a fazer nada, Julia. Essa criana  sua tambm. Jamais 

se esquea disso, minha querida. 

A frase de minha irm ficou ecoando dentro de mim o dia todo. "Essa criana  sua 

tambm Eu havia conversado com minha mdica. Ela no ficou surpresa com a deciso de 

Bertrand. Sugeriu que talvez ele estivesse passando pela crise da meia-idade. Que a 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 133 



responsabilidade de outro filho era demais para ele suportar. Que ele estava frgil. 

Acontecia com muitos homens chegando aos 50. 

Estaria Bertrand realmente passando por uma crise? Se fosse esse o caso, eu no 

havia percebido a chegada dela. Como isso era possvel? Eu estava pensando que ele 

estava simplesmente sendo egosta, que ele estava pensando em si mesmo, como sempre. 

Eu disse isso a ele durante a nossa conversa. Disse a ele tudo o que estava na minha 

cabea. Como ele poderia impor um aborto depois dos vrios abortos espontneos pelos 

quais eu tinha passado, depois da dor, das esperanas destrudas, do desespero? Ele me 

amava? perguntei, desesperada. Ele realmente me amava? Ele me olhou, assentindo com a 

cabea. Claro que ele me amava. Como eu podia ser to boba? ele perguntou. E sua voz 

comovida voltou  minha mente, o modo afetado como ele admitiu seu medo de 

envelhecer. Uma crise de meia-idade. Talvez minha mdica estivesse certa, afinal de 

contas. E talvez eu no tenha percebido porque estava com muitas coisas na cabea 

durante os ltimos meses. Senti-me totalmente perdida. Incapaz de lidar com Bertrand e 

sua ansiedade. 

Minha mdica me informou que eu no tinha muito tempo para tomar minha 

deciso. J estava com seis semanas de gravidez. Se eu fosse abortar, teria que faz-lo 

dentro das prximas duas semanas. Teramos que fazer testes, encontrar uma clnica. Ela 

sugeriu que Bertrand e eu conversssemos sobre isso com um conselheiro matrimonial. 

Tnhamos que discutir o assunto, tnhamos que tratar da questo abertamente. 

- Se voc abortar contra a sua vontade - minha mdica observou - voc jamais ir 

perdo-lo. E se voc no o fizer, ele j admitiu para voc como essa situao  intolervel 

para ele. Tudo isso precisa ser resolvido, e rpido. 

Ela tinha razo. Mas eu no podia me forar a apressar as coisas. Cada minuto que 

eu ganhava representava mais sessenta segundos para essa criana. Uma criana que eu j 

amava. Ela ainda no era maior do que um gro de feijo e eu j a amava tanto quanto 

amava Zo. 

Fui  casa de Isabelle. Ela morava em um pequeno e colorido dplex na rue de 

Tolbiac. Eu simplesmente no tinha vontade de voltar para casa depois do escritrio e 

esperar pela volta do meu marido. Eu no conseguiria encarar a situao. Liguei para Elsa, 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 134 



a bab, e pedi-lhe que assumisse a casa. Isabelle preparou para mim algumas torradas 

com crottin de chavignol e fez rapidamente uma delicada salada. Seu marido estava 

viajando a negcios. 

- Tudo bem, cocotte - ela comeou, sentando-se  minha frente e fumando, 

soprando a fumaa para longe de mim - tente visualizar sua vida sem Bertrand. Tente 

imaginar. O divrcio. Os advogados. As conseqncias. Como tudo isso iria afetar Zo.



Como seriam suas vidas. Casas separadas. Existncias separadas. Zo saindo de sua casa e 

indo para a dele. Da casa dele para a sua. No haveria mais uma famlia de verdade. Cafs-

da-manh juntos, Natais juntos, frias juntos, nunca mais. Voc pode fazer isso? Voc 

consegue imaginar isso? Eu a encarei. Parecia impensvel. Impossvel. E, ainda assim, 

acontecia com muita freqncia. Zo era praticamente a nica criana em sua turma com 

pais que estavam casados h 15 anos. Eu disse a Isabelle que no podia mais falar no 

assunto. Ela me ofereceu um pouco de musse de chocolate e assistimos a Duas Garotas 

Romnticas no DVD. Quando cheguei em casa, Bertrand estava no chuveiro e Zo, na terra 

dos sonhos. Fui direto para a cama. Meu marido foi assistir a televiso na sala de estar. Na 

hora em que ele foi para a cama, eu j estava dormindo. 

Hoje foi dia de "visitar Mame". Pela primeira vez, quase telefonei para cancelar. Eu 

me sentia exausta. Queria ficar na cama e dormir a manh toda. Mas eu sabia que ela 

estaria esperando por mim. Eu sabia que ela estaria usando seu melhor vestido cinza e 

lils, com seu batom cor de rubi e seu perfume Shalimar. Eu no podia desapont-la. 

Quando cheguei, pouco antes do meio-dia, percebi a Mercedes prata de meu sogro 

estacionada no jardim da clnica de repouso. Isso me irritou. 

Ele estava ali porque queria me ver. Ele nunca vinha visitar a me ao mesmo 

tempo que eu. Todos ns tnhamos nossos agendamentos especficos. Laure e Ccile 

vinham nos fins de semana, Colette nas tardes de segunda-feira, Edouard s teras e 

sextas, eu geralmente vinha nas tardes de quarta-feira com Zo, e sozinha s quintas-feiras 

ao meio-dia. E cada um de ns cumpria essa agenda. 

Pois bem, l estava ele, sentado muito ereto, ouvindo sua me. Ela havia acabado 

o almoo, sempre servido ridiculamente cedo. De repente, senti-me nervosa, como uma 

estudante culpada de alguma travessura. O que ele queria comigo? Ele no podia 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 135 



simplesmente pegar o telefone e me ligar, se quisesse me ver? Por que esperar at agora? 

Disfarando todos os ressentimentos e a ansiedade com um sorriso caloroso, eu o beijei 

nas faces e me sentei perto de Mame, tomando a mo dela, como sempre fiz. Eu meio que 

esperava que ele fosse embora, mas ele permaneceu l, observando-nos com uma 

expresso amvel. Era desconfortvel. Eu sentia como se tivesse minha privacidade 

invadida, que cada palavra que eu dizia a Mame estava sendo ouvida e julgada. 

Depois de meia hora, ele se levantou, olhando para o relgio, lanando-me um 

sorriso estranho. 

- Preciso falar com voc, Julia, por favor - ele murmurou, baixando a voz de modo 

que os velhos ouvidos de Mame no pudessem captar. Percebi que ele parecia 

repentinamente nervoso, arrastando os ps, olhando para mim com impacincia. Ento, 

dei um beijo de despedida em Mame e o segui at o carro dele. Ele fez um gesto para que 

eu entrasse. Ele se sentou ao meu lado, remexeu as chaves com os dedos, mas no as 

colocou na ignio. Esperei, surpresa com os movimentos ansiosos dos dedos dele. O 

silncio imperava, total e pesado. Olhei  nossa volta para o jardim pavimentado, 

observando enfermeiras auxiliando idosos em cadeiras de rodas a entrar e a sair das 

dependncias da clnica. 

Finalmente, ele comeou a falar. 

- Como voc vai indo? - perguntou, com o mesmo sorriso forado. 

- Estou bem - respondi. - E voc? - Vou indo bem. Colette tambm vai bem. 

Outro silncio. 

- Falei com Zo na noite passada, quando voc no estava - ele continuou, sem 

olhar para mim. 

Estudei seu perfil, o nariz imperial, o queixo rgio. 

- Sim? - eu disse, cuidadosa. 

- Ela me contou que voc anda fazendo uma pesquisa... Ele parou, com as chaves 

tilintando nas mos. 

- Pesquisa sobre o apartamento - ele disse, finalmente voltando os olhos para 

mim. 

Fiz que sim com a cabea. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 136 



- Sim, eu descobri quem morava l antes de vocs se mudarem. Zo 

provavelmente lhe contou isso tambm. 

Ele suspirou, e seu queixo afundou no peito, com pequenas dobras de pele 

cobrindo o colarinho. 

- Julia, eu lhe avisei, lembra-se? Meu sangue comeou a ferver rapidamente. 

- Voc me disse para parar de fazer perguntas a Mame - retruquei bruscamente. - 

E foi isso que eu fiz. 

- Ento, por que voc tinha que continuar indagando sobre o passado? - ele 

perguntou. Seu rosto havia ficado plido. Estava respirando dolorosamente, como se isso o 

machucasse. 

Ento era isso. Agora eu sabia por que ele queria falar comigo hoje. 

- Descobri quem morou l - continuei acaloradamente - e isso  tudo. Eu tinha 

que saber quem eles eram. E no sei nada mais do que isso. Eu no sei o que sua famlia 

teve a ver com a histria toda.. 

- Nada! - ele interrompeu, quase gritando. - No tivemos nada a ver com a priso 

daquela famlia. 

Permaneci em silncio, encarando-o. Ele estava tremendo, mas eu no sabia dizer 

se era raiva ou alguma outra coisa. 

- No tivemos nada a ver com a priso daquela famlia - ele repetiu 

veementemente. - Eles foram presos durante a batida policial do Vel' d'Hiv. Ns no os 

denunciamos, nem fizemos nada parecido, voc est entendendo? Olhei para ele, chocada. 

- Edouard, eu nunca imaginei tal coisa. Nunca! Ele tentou recobrar a calma, 

alisando sua sobrancelha com dedos nervosos. 

- Voc estava fazendo muitas perguntas, Julia. Voc estava sendo muito curiosa. 

Deixe-me contar como aconteceu. Oua-me. Havia aquela concierge, Madame Royer. Ela 

era amiga de nossa concierge quando morvamos na rue de Turenne, no muito longe da 

rue de Saintonge. Madame Royer gostava de Mame, que era simptica com ela. Em 

primeiro lugar, foi ela quem disse a meus pais que o apartamento estava vago. O aluguel 

era bom e barato. Era maior do que o lugar onde morvamos na rue de Turenne. Foi assim 

que aconteceu. Foi assim que ns nos mudamos. Isso  tudo! Continuei a encar-lo e ele 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 137 



continuava a tremer. Eu nunca o tinha visto to perturbado, to perdido. Toquei a manga 

de sua camisa, hesitante. 

- Voc est bem, Edouard? - perguntei. Seu corpo tremia sob a minha mo. Eu me 

perguntei se ele estaria doente. 

- Sim, estou bem - ele respondeu, mas sua voz estava rouca. Eu no conseguia 

entender por que ele estava to agitado, to lvido. 

- Mame no sabe - ele continuou, baixando a voz. - Ningum sabe. Voc 

entende? Ela no deve saber. Ela no deve saber nunca. 

Fiquei perplexa. 

- Saber o qu? - perguntei. - Do que voc est falando, Edouard? - Julia - ele 

disse, com seus olhos penetrando nos meus - voc sabe quem era a famlia, voc viu os 

nomes deles. 

- No estou entendendo - murmurei. 

- Voc viu os nomes deles, no viu? - ele vociferou, fazendo-me dar um salto. - 

Voc sabe o que aconteceu. No sabe? Eu devo ter parecido completamente perdida, 

porque ele suspirou e enterrou o rosto nas mos. 

Eu fiquei sentada l, muda. Mas, afinal de contas, do que ele estava falando? O que 

havia acontecido que ningum sabia? - A menina - ele disse finalmente, levantando os 

olhos, com a voz to baixa que eu mal podia ouvir. - O que voc descobriu sobre a 

menina? - Como assim? - perguntei, petrificada. 

Havia algo em sua voz e em seus olhos que me assustou. 

- A menina - ele repetiu, com a voz abafada e estranha. - Ela voltou. Algumas 

semanas depois que ns nos mudamos. Ela voltou para a rue de Saintonge. Eu tinha 12 

anos. Nunca vou me esquecer. Nunca vou me esquecer de Sarah Starzynski. 

Para meu horror, vi seu rosto desabar. As lgrimas comearam a escorrer devagar 

pelas suas faces. Eu no conseguia falar. Eu s conseguia esperar e ouvir. Aquele no era 

mais o meu sogro arrogante. 

Aquela era outra pessoa. Algum que carregava um segredo h muitos anos. 

Sessenta anos. 



A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 138 



FOI UMA VIAGEM RPIDA de metr at a rue de Saintonge. Apenas algumas 

estaes e uma baldeao em Bastille. Quando viraram na rue de Bretagne, o corao de 

Sarah comeou a bater mais rpido. Ela estava indo para casa. Ela estaria em casa daqui a 

alguns minutos. Talvez, enquanto estivera fora, seu pai ou sua me tivessem conseguido 

voltar e talvez estivessem todos esperando por ela, com Michel, no apartamento, 

esperando por sua volta. Ela estava louca por pensar isso? Estaria fora de si? Ela no podia 

ter esperana, no tinha permisso para tal? Tinha 10 anos e queria ter esperana, queria 

acreditar, mais do que tudo, mais do que a prpria vida. 

Puxando com fora a mo de Jules, apressando-o a subir a rua, Sarah sentia a 

esperana crescer como uma planta louca e selvagem que ela no conseguia mais domar. 

Uma voz baixa e grave dentro dela dizia: "Sarah, no tenha esperana, no acredite, tente 

ficar preparada, tente imaginar que ningum est esperando por voc, que Papa e Maman 

no esto l, que o apartamento est todo sujo e empoeirado, e que Michel... Michel..." O 

nmero 26 surgiu  frente deles. Ela percebeu que nada havia mudado na rua. Ainda era a 

mesma rua estreita e silenciosa que ela sempre havia conhecido. Ela se perguntou como 

era possvel que vidas inteiras pudessem mudar, ser destrudas, e que as ruas e os prdios 

continuassem os mesmos. 

Jules empurrou a porta pesada para abri-la. O ptio estava exatamente do mesmo 

jeito, com suas folhagens verdes, o cheiro de poeira bolorenta, de umidade. Ao passar pelo 

ptio, Madame Royer abriu a porta de seu quarto e colocou a cabea para fora. Sarah 

soltou a mo de Jules e se precipitou para as escadas. Rpido agora, ela tinha que ser 

rpida, finalmente estava em casa, no havia tempo a perder. 

Ela ouviu a frase inquisitiva da concierge quando chegou ao primeiro andar, j sem 

flego: - Procurando algum? A voz de Jules a seguiu escada acima: - Estamos 

procurando pela famlia Starzynski. 

Sarah ouviu a risada de Madame Royer, um som perturbador e irritante: - Foram 

embora, Monsieur! Desapareceram! Vocs no vo encontr-los aqui, com certeza. 

Sarah fez uma pausa no alto das escadas do segundo andar e espiou o ptio. Ela 

via Madame Royer l de p, com seu avental azul sujo, com a pequena Suzanne sobre seu 

ombro. Foram embora... Desapareceram... O que a concierge queria dizer com isso? 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 139 



Desapareceram e foram para onde? Quando? No havia tempo a perder, no havia tempo 

para pensar nisso agora, pensou a menina, havia mais dois lances de escada antes de 

chegar em casa. Mas a voz aguda da concierge chegava at ela enquanto subia as escadas 

rapidamente: - Os policiais vieram busc-los, Monsieur. Vieram buscar todos os judeus da 

rea. Levaram todos em um nibus enorme. H muitos apartamentos vazios aqui agora, 

Monsieur. O senhor est procurando um apartamento para alugar? O dos Starzynski j foi 

alugado, mas eu poderia ajudar. H um apartamento muito agradvel no segundo andar, 

se estiverem interessados. Posso mostr-lo a vocs! Ofegante, Sarah chegou ao quarto 

andar. Ela estava to sem flego que precisou se apoiar na parede e pressionar o punho 

contra a dor na lateral do corpo. 

Ela esmurrou a porta do apartamento dos pais com golpes rpidos e incisivos 

usando as palmas das mos. Nenhuma resposta. Ela bateu novamente, mais forte, com os 

punhos. 

Ento, ouviu passos atrs da porta. Ela se abriu. 

Surgiu um menino de 12 ou 13 anos. 

- Pois no? - ele perguntou. 

Quem era ele? O que ele estava fazendo no apartamento dela? 

- Vim buscar meu irmo - ela gaguejou. - Quem  voc? Onde est Michel? - Seu 

irmo? - disse o menino lentamente. - No h nenhum Michel aqui. 

Ela o empurrou com brutalidade, mal percebendo os quadros novos na parede da 

entrada, uma estante desconhecida e um estranho tapete vermelho e verde. Atnito, o 

menino gritou, mas ela no parou, disparando pelo corredor comprido e familiar e virando 

 esquerda, para o seu quarto. Ela no percebeu o novo papel de parede, a cama nova, os 

pertences que nada tinham a ver com ela. 

O menino gritou pelo pai e houve um tumulto surpreso de passos no cmodo ao 

lado. 

Sarah arrancou a chave de seu bolso e pressionou o dispositivo com a palma da 

mo. A fechadura oculta ficou  mostra. 

Ela ouviu a campainha da porta soar e um murmrio de vozes alarmadas se 

aproximando. A voz de Jules. a voz de Genevive e a voz desconhecida de um homem. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 140 



Rpido agora, ela tinha que ser rpida. Ela murmurava repetidamente "Michel, 

Michel, Michel, sou eu, Sirka". Seus dedos tremiam tanto que ela deixou a chave cair. 

Atrs de seu ombro, o menino chegou correndo, sem flego. 

- O que voc est fazendo? - ele disse ofegante. - O que voc est fazendo no 

meu quarto? Ela o ignorou e apanhou a chave. Atrapalhou-se com a fechadura. Estava 

nervosa demais, impaciente demais. Ela levou alguns instantes para conseguir faz-la 

funcionar. A fechadura finalmente fez um clique e ela puxou a porta secreta para abri-la. 

Um cheiro putrefato golpeou-a como um soco. Ela se afastou. O menino ao seu 

lado recuou, assustado. Sarah caiu de joelhos. 

Um homem alto de cabelos grisalhos invadiu o quarto, seguido por Jules e 

Genevive. 

Sarah no conseguia falar, ela apenas tremia. Seus dedos cobriam os olhos e o 

nariz, bloqueando o cheiro. 

Jules se aproximou, ps uma das mos sobre o ombro dela, deu uma olhada para 

dentro do armrio. Ela o sentiu envolvendo-a em seus braos, tentando carreg-la dali. 

Ele murmurou em seu ouvido: - Venha, Sarah, venha comigo. 

Ela lutou com todas as suas foras, arranhando, chutando, mordendo - ela era 

toda dentes e unhas - e conseguiu se desvencilhar para voltar para a porta aberta do 

armrio. 

No fundo do armrio, ela viu a pequena massa de um corpo imvel, enroscado. E 

ento ela viu o amado rostinho, enegrecido, irreconhecvel. 

Ela caiu novamente de joelhos, e gritou com todas as suas foras. Gritou por sua 

me, por seu pai, por Michel. 



EDOUARD TZAC APERTOU O VOLANTE com as mos at que os ns de seus 

dedos ficaram brancos. Eu o encarava com os olhos arregalados, hipnotizada. 

- Ainda posso ouvir o grito dela - ele sussurrou. - No consigo esquecer. Jamais. 

Eu me sentia atordoada com o que sabia agora. Sarah Starzynski havia escapado 

de Beaune-la-Rolande. Ela voltara  rue de Saintonge. Ela havia feito uma horrvel 

descoberta. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 141 



Eu no conseguia falar. Conseguia somente olhar para o meu sogro. Ele continuou 

com uma voz rouca e baixa. 

- Houve um momento assustador, quando meu pai olhou para dentro do armrio. 

Tentei olhar tambm. Ele me puxou. Eu no conseguia entender o que estava 

acontecendo. Havia aquele cheiro... O cheiro de algo podre, ftido. Depois, meu pai 

lentamente retirou o corpo de um menino morto. Uma criana de no mais de 3 ou 4 anos 

de idade. Eu nunca tinha visto um cadver na vida. Foi uma viso muito dolorosa. O 

menino tinha cabelos louros ondulados. Estava enrijecido, enroscado, com o rosto 

pousado sobre as mos. Tinha uma cor esver-deada, horrvel. 

Ele parou de falar. As palavras o faziam engasgar. Pensei que ele fosse vomitar. 

Toquei seu cotovelo, tentei transmitir minha solidariedade, meu calor humano. Era uma 

situao irreal, eu tentando confortar meu sogro orgulhoso e arrogante reduzido a 

lgrimas - um senhor trmulo. Ele enxugou os olhos com dedos inseguros. Depois, 

continuou. 

- Ficamos todos l, horrorizados. A menina desmaiou. Ela caiu direto no cho. Meu 

pai a tomou nos braos e a colocou sobre a minha cama. Ela voltou a si, viu o rosto dele e 

recuou, gritando. Comecei a compreender, ouvindo meu pai e o casal que havia chegado 

com ela. O menino morto era seu irmozinho. Nosso apartamento novo havia sido a casa 

dela. O menino fora escondido l no dia da batida policial do Vel' d'Hiv, 16 de julho. A 

menina pensou que iria conseguir voltar para libert-lo, mas ela foi levada para um campo 

fora de Paris. 

Uma nova pausa que me pareceu interminvel. 

- E depois? O que aconteceu? - perguntei, finalmente conseguindo falar. 

- O casal veio de Orlans. A menina havia escapado de um campo prximo e 

acabou chegando  propriedade deles. Eles haviam decidido ajud-la, trazendo-a de volta 

a Paris, para sua casa. Meu pai lhes disse que nossa famlia havia se mudado no fim de 

julho. Ele no sabia sobre o armrio que ficava no meu quarto. Nenhum de ns sabia. Eu 

tinha percebido um forte mau cheiro e meu pai pensou que havia algo errado com o 

esgoto. Estvamos aguardando o encanador naquela semana. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 142 



- O que seu pai fez com... o menininho? - Eu no sei. Eu lembro que ele disse que 

queria cuidar de tudo. Ele estava em estado de choque, terrivelmente triste. Acho que o 

velho casal levou o corpo. No tenho certeza. No me lembro. 

- E depois? - indaguei, sem flego. Ele me lanou um olhar sarcstico. 

- E depois? E depois? - Uma risada amarga. - Julia, voc consegue imaginar como 

ns nos sentimos depois que a menina foi embora? O modo como ela olhou para ns. Ela 

nos odiava. Tinha averso a ns. Para ela, ns ramos os responsveis. ramos criminosos. 

Criminosos da pior espcie. Havamos nos mudado para a casa dela. Havamos deixado o 

irmo dela morrer. Seus olhos... Tanto dio, tanta dor, tanto desespero! Os olhos de uma 

mulher no rosto de uma menina de 10 anos. 

Eu conseguia ver aqueles olhos tambm. Estremeci. Edouard suspirou e esfregou 

seu rosto cansado e empalidecido com as palmas das mos. 

- Depois que eles foram embora, meu pai se sentou e colocou a cabea nas mos. 

Ele chorou. Por muito tempo. Eu nunca havia visto meu pai chorar. Ele era um homem 

forte e rude. Disseram-me que os homens da famlia Tzac nunca choram e nunca 

demonstram suas emoes. Foi um momento terrvel. Ele disse que algo de monstruoso 

havia acontecido. Algo de que ele e eu nos lembraramos durante toda a nossa vida. 

Depois, ele comeou a me dizer coisas que jamais havia mencionado. Disse que eu tinha 

idade suficiente para saber. Disse que no perguntou a Madame Royer sobre quem 

morava no apartamento antes que nos mudssemos. Ele sabia que havia sido uma famlia 

judia, e que eles haviam sido presos durante aquela grande batida policial. Mas ele fechara 

os olhos. Ele fechou os olhos, como tantos outros parisienses, durante aquele terrvel ano 

de 1942. Fechou os olhos no dia da batida policial, quando viu todas aquelas pessoas 

sendo levadas, amontoadas em nibus, sabe Deus para onde. Ele sequer perguntou por 

que o apartamento estava vazio, o que havia acontecido com os pertences da famlia. Ele 

agiu como qualquer outro membro de uma famlia parisiense, vido por se mudar para um 

lugar maior e melhor. Ele fechou os olhos. E, depois, aconteceu isso. A menina voltou e o 

menininho estava morto. Ele provavelmente j estava morto quando ns nos mudamos. 

Meu pai disse que ns jamais conseguiramos esquecer. Nunca. E ele estava certo, Julia. 

Ficou l, dentro de ns. E est aqui dentro de mim h sessenta anos. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 143 



Ele parou de falar, com o queixo ainda pressionado contra o peito. Tentei imaginar 

o que deve ter sido para ele carregar aquele segredo por tanto tempo. 

- E Mame? - perguntei, determinada a faz-lo falar, a arrancar dele a histria toda. 

Ele balanou a cabea lentamente. 

- Mame no estava l naquela tarde. Meu pai no queria que ela descobrisse o 

que havia acontecido. Ele se sentiu dominado pela culpa, sentia como se fosse culpado, 

mesmo que,  claro, no fosse. No suportava a idia de que ela ficasse sabendo. E de que 

talvez o julgasse. Ele me disse que eu tinha idade suficiente para guardar um segredo. Ela 

jamais deve saber, ele disse. Ele parecia to desesperado, to triste. Ento, eu concordei 

em guardar segredo. 

- E ela ainda no sabe? - falei baixinho. 

Ele suspirou de novo, profundamente. 

- No tenho certeza, Julia. Ela sabia sobre a batida policial. Todos ns sabamos, 

aconteceu bem na nossa frente. Quando ela voltou para casa naquela noite, meu pai e eu 

estvamos to estranhos, to esquisitos, que ela sentiu que algo havia acontecido. 

Naquela noite, e muitas noites depois, eu continuava vendo o menino morto. Eu tinha 

pesadelos. Eles duraram at os vinte e poucos anos. Fiquei aliviado ao nos mudarmos 

daquele apartamento. Acho que talvez minha me soubesse. Acho que talvez ela estivesse 

a par da situao pela qual meu pai passou e como ele deve ter se sentido. Talvez ele 

tenha finalmente contado a ela, porque era demais para suportar tudo sozinho. Ela nunca 

conversou comigo sobre isso. 

- E Bertrand? E suas filhas? E Colette? - Eles no sabem de nada. 

- Por que no? - perguntei. 

Ele colocou uma das mos sobre o meu pulso. Estava gelada, e seu toque frio 

penetrava na minha pele como gelo. 

- Porque eu prometi ao meu pai, em seu leito de morte, que no contaria aos 

meus filhos ou  minha mulher. Ele carregou sua culpa com ele pelo resto da vida. No 

podia dividi-la com ningum. No podia falar com ningum sobre esse assunto. E eu 

respeitei isso. Voc entende? Assenti. 

-  claro. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 144 



Fiz uma pausa. 

- Edouard, o que aconteceu com Sarah? Ele sacudiu a cabea. 

- Entre 1942 e o momento final em seu leito de morte, meu pai nunca pronunciou 

o nome dela. Sarah tornou-se um segredo. Um segredo no qual jamais parei de pensar. 

Acho que meu pai nunca percebeu quanto eu pensava nela. Como seu silncio com 

relao a ela me fazia sofrer. Eu ansiava por saber como e onde ela estava, o que havia 

acontecido com ela. Mas toda vez que eu tentava perguntar, ele me fazia calar. Eu no 

conseguia acreditar que ele no se importava mais, que ele havia virado a pgina, que ela 

no significava mais nada para ele. Era como se ele quisesse enterrar tudo no passado. 

- Voc guardou rancor por ele com relao a isso? Ele fez que sim com a cabea. 

- Guardei. Eu tinha rancor dele. Minha admirao por ele estava manchada para 

sempre. Mas eu no podia lhe dizer isso. E nunca disse. 

Ficamos em silncio por um pequeno instante. As enfermeiras provavelmente 

estavam comeando a se perguntar por que Monsieur Tzac e sua nora estavam sentados 

no carro h tanto tempo. 

- Edouard, voc no quer saber o que aconteceu a Sarah Starzynski? Ele sorriu 

pela primeira vez. 

- Eu no saberia por onde comear - ele respondeu. Tambm sorri. 

- Mas esse  o meu trabalho. Eu posso ajud-lo. 

Seu rosto pareceu menos perturbado, menos plido. Seus olhos subitamente 

brilharam, cheios de uma nova luz. 

- Julia, h uma ltima coisa. Quando meu pai morreu, quase trinta anos atrs, o 

advogado dele me disse que alguns papis confidenciais estavam guardados no cofre. 

- Voc os leu? - perguntei. Meu pulso se acelerou. Ele baixou os olhos. 

- Dei uma olhada, rapidamente, logo aps a morte de meu pai. 

- E...? - eu disse, sem flego. 

- Apenas papis da loja, coisas relativas a pinturas, mveis, prataria. 

- Isso  tudo? Ele sorriu com meu evidente desapontamento. 

- Creio que sim. 

- Como assim? - perguntei, perplexa. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 145 



- Eu nunca li os papis novamente depois disso. Examinei a pilha rapidamente e 

me lembro de ficar furioso por no haver nada l sobre Sarah. Fiquei ainda mais magoado 

com meu pai. 

Mordi o lbio. 

- Ento voc est me dizendo que no tem certeza de que no h nada l. 

- E. E nunca verifiquei novamente. 

- Por que no? Ele apertou os lbios. 

- Por que eu no queria ter certeza de que no h nada l. 

- E se sentir ainda pior com relao ao seu pai. 

- Isso - ele admitiu. 

- Ento voc no sabe com certeza o que tem l. Voc no sabe h trinta anos. 

- No - respondeu ele. 

Nossos olhos se encontraram. Levou apenas alguns segundos. 

Ele deu a partida no carro. Dirigiu como um alucinado para onde presumi ser o 

local do banco. Eu jamais vira Edouard dirigir to velozmente. Os motoristas brandiam 

punhos furiosos. Os pedestres corriam para os lados, aterrorizados. No dissemos uma s 

palavra enquanto nos movamos rapidamente, mas nosso silncio era caloroso e animado. 

Estvamos compartilhando aquilo. Estvamos compartilhando algo pela primeira vez. 

Ficvamos olhando um para o outro e sorrindo. 

Mas quando encontramos um lugar para estacionar na avenue Bos-quet e 

corremos para o banco, este estava fechado para o almoo, outro costume tipicamente 

francs que me irritava, especialmente hoje. Fiquei to desapontada que quase chorei. 

Edouard me beijou nas duas faces e me afastou gentilmente. 

- V, Julia. Voltarei s duas, quando abrir. Eu ligo se houver alguma coisa l. 

Caminhei pela avenida e peguei o nibus 92, que me deixaria em frente ao 

escritrio, sobre o Sena. 

Enquanto o nibus se afastava, eu me virei e vi Edouard esperando na frente do 

banco - uma figura rgida e solitria em seu casaco verde-escuro. 

Eu me perguntei como ele se sentiria se no houvesse nada no cofre sobre Sarah, 

apenas pilhas de papis sobre pinturas antigas e porcelanas. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 146 



E senti afeio por ele. 



TEM CERTEZA DISSO, Miss Jarmond? - minha mdica perguntou. Ela me olhava 

por cima dos culos em forma de meia-lua. 

- No - respondi com sinceridade. - Mas no momento preciso tomar essas 

providncias. 

Ela correu os olhos pela minha ficha mdica. 

- Ficarei feliz por marcar esses exames, mas no tenho certeza de que voc est 

inteiramente confortvel com sua deciso. 

Meus pensamentos voltaram para a noite anterior. Bertrand havia sido 

excepcionalmente carinhoso e atencioso. Ele passou a noite toda comigo nos braos, 

repetiu diversas vezes que me amava, que precisava de mim, mas que ele no conseguia 

encarar a perspectiva de ter um filho to tarde. Ele sentia que envelhecer nos faria ficar 

mais prximos, que poderamos viajar com freqncia, enquanto Zo estava ficando mais 

independente. Ele havia visualizado os nossos 50 anos como uma segunda lua-de-mel. 

Eu o ouvi, com as lgrimas descendo pelo meu rosto no escuro, sentindo a ironia 

da situao toda. Ele estava dizendo tudo, cada palavra, que eu sempre havia sonhado 

ouvir dele. Estava tudo l, a gentileza, o comprometimento, a generosidade. Mas o 

obstculo era que eu estava carregando um beb que ele no queria. Minha ltima chance 

de ser me. Eu ficava pensando no que Charla havia dito: "Essa criana tambm  sua." 

Durante anos eu desejei dar a Bertrand outro filho. Provar a mim mesma que eu podia ser 

a esposa perfeita que os Tzac aprovassem e respeitassem. Mas agora eu percebia que 

queria essa criana para mim mesma. Meu beb. Meu ltimo filho. Eu desejava sentir o 

peso de seu corpinho em meus braos. Eu ansiava pelo aroma suave e leitoso de sua pele. 

Meu beb. Sim, Bertrand era o pai, mas essa criana era minha. Minha carne. Meu sangue. 

Eu ansiava pelo nascimento, pela sensao da cabea do beb saindo de mim, por aquela 

sensao pura e inconfundvel de trazer uma criana ao mundo, ainda que com dor e 

lgrimas. Eu queria aquelas lgrimas, eu queria aquela dor. Eu no queria a dor do vazio, as 

lgrimas de um ventre infrtil e cicatrizado. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 147 



Sa do consultrio de minha mdica e fui em direo a Saint-Ger-main, onde iria 

encontrar Herv e Christophe para um drinque no Caf de Flore. Eu no havia planejado 

revelar nada, mas eles deram uma olhada em meu rosto e suspiraram de preocupao. 

Ento, a coisa saiu. Como sempre, eles tinham opinies opostas. Herv achava que eu 

devia abortar, pois meu casamento era o assunto mais importante. Christophe insistiu que 

o beb era o ponto crucial. No havia como no ter essa criana. Eu iria me arrepender 

pelo resto da minha vida. 

A discusso entre eles ficou to acalorada que se esqueceram da minha presena e 

comearam a brigar. Eu no podia agentar. Eu os interrompi batendo na mesa com o 

punho cerrado, fazendo com que os copos chacoalhassem. Eles olharam para mim com 

surpresa. Esse no era o meu estilo. Pedi desculpas, disse que estava muito cansada para 

continuar discutindo o assunto e fui embora. Eles ficaram embasbacados e consternados. 

No importa, pensei. Eu daria um jeito nisso, em outra ocasio. Eles eram os meus amigos 

mais antigos. Eles compreenderiam. 

Fui para casa andando, passando pelo Jardim de Luxemburgo. No tinha notcias 

de Edouard desde o dia anterior. Ser que isso significava que ele tinha examinado o cofre 

do pai e no havia achado nada relativo a Sarah? Eu podia imaginar a mgoa e o 

ressentimento voltando  tona. O desapontamento tambm. Eu me sentia culpada, como 

se fosse tudo culpa minha, esfregando sal em sua velha ferida. 

Caminhei lentamente pelas alamedas tortuosas e floridas, evitando os atletas que 

corriam, caminhantes, idosos, jardineiros, turistas, namorados, viciados em tai chi, 

jogadores de ptanque, adolescentes, pessoas que liam, outras que tomavam banho de 

sol. A gente habitual do Luxemburgo. E tantos bebs! E cada beb que eu via,  claro, 

fazia-me pensar no minsculo ser que eu carregava dentro de mim. 

Naquele dia, mais cedo, antes da consulta com minha mdica, conversei com 

Isabelle. Ela me apoiou de forma particularmente encorajadora, como sempre, e chamou 

minha ateno para o fato de que a escolha era minha, no importando com quantos 

terapeutas ou amigos eu conversasse, de que lado eu estava examinando a questo nem a 

opinio de quem eu estivesse levando em considerao. Era minha escolha, ponto final, e 

era exatamente isso que fazia tudo ainda mais doloroso. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 148 



Uma coisa eu sabia: Zo tinha que ficar fora disso a todo custo. Ela estaria de frias 

dentro de alguns dias, pronta para passar parte do vero em Long Island com os filhos de 

Charla, Cooper e Alex, e depois com meus pais, em Nahant. De certa forma, eu estava 

aliviada. Isso significava que o aborto seria realizado enquanto ela estivesse fora. Caso eu 

realmente concordasse com o aborto. 

Quando cheguei em casa, havia um grande envelope bege em cima da minha 

escrivaninha. Zo, no telefone com uma amiga, gritou do quarto que a concierge havia 

acabado de entregar. 

Sem endereo, somente com minhas iniciais rabiscadas com tinta azul. Eu o abri e 

puxei de dentro um arquivo vermelho desbotado. 

O nome "Sarah" saltou-me aos olhos. 

Eu soube imediatamente o que era aquele arquivo. Obrigada, Edouard, eu disse 

para mim mesma fervorosamente. Obrigada, obrigada, obrigada. 



DENTRO DO ARQUIVO, HAVIA dzias de cartas em papel fino azul, datadas de 

setembro de 1942 a abril de 1952, com caligrafia redonda e esmerada. Eu as li 

cuidadosamente. Eram todas de um certo Jules Dufaure, que morava perto de Orlans. 

Cada breve carta era sobre Sarah, seus progressos, sua educao escolar, sua sade. Frases 

curtas e educadas. "Sarah est indo bem. Este ano, ela est aprendendo latim. Teve 

catapora na primavera passada." "Sarah foi para a Bretanha neste vero com meus netos e 

visitou o Mont-Saint-Michel." Presumi que Jules Dufaure era o senhor de idade que havia 

escondido Sarah depois que ela escapou de Beaune-la-Rolande, e que a havia levado para 

Paris no dia da horrvel descoberta no armrio. Mas por que Jules Dufaure estava 

escrevendo para Andr Tzac sobre Sarah? E com tantos detalhes? Eu no conseguia 

entender. Teria Andr pedido a ele que o fizesse? Depois, encontrei a explicao. Um 

extrato bancrio. Todos os meses, Andr Tzac fazia com que seu banco enviasse dinheiro 

para os Dufaure, para Sarah. Percebi que era uma soma generosa. Isso aconteceu durante 

dez anos. 

Durante esses anos, o pai de Edouard tentou ajudar Sarah, a seu prprio modo. Eu 

no conseguia parar de pensar no imenso alvio de Edouard quando descobriu tudo isso 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 149 



trancado no cofre. Eu o imaginei lendo essas mesmas cartas e fazendo a descoberta. 

Finalmente, era a redeno de seu pai, depois de tanto tempo. 

Percebi que as cartas de Jules Dufaure no eram enviadas para a rue de Saintonge, 

mas para a antiga loja de Andr na rue de Turenne. Eu me perguntei a razo disso. 

Provavelmente por causa de Mame, supus. Andr no quis que ela soubesse. E ele tambm 

no quis que Sarah soubesse que ele estava enviando dinheiro para ela regularmente. A 

caligrafia caprichada de Jules Dufaure dizia: "Conforme sua solicitao, suas doaes no 

foram reveladas a Sarah." Na parte de trs do arquivo, encontrei um grande envelope de 

papel pardo. Retirei algumas fotografias de dentro dele. Os olhos oblqos j conhecidos. 

Os cabelos claros. Como ela havia mudado desde a fotografia da escola em junho de 1942! 

Havia nela uma tristeza palpvel. A alegria havia desaparecido de seu rosto. Ela j no era 

mais uma criana. Era uma jovem alta e esguia de cerca de 18 anos. Os mesmos olhos 

tristes, apesar do sorriso. Com ela, em uma praia, estavam dois rapazes mais ou menos da 

idade dela. Virei a foto. A caprichada caligrafia de Jules dizia: "Trouville, 1950. Sarah, com 

Gaspard e Nicolas Dufaure." Pensei em tudo pelo que ela havia passado. O Vel' d'Hiv. 

Beaune-la-Rolande. Seus pais. Seu irmo. Coisa demais para uma criana suportar. 

Eu estava to absorta em Sarah Starzynski que no senti a mo de Zo roar em 

meu ombro. 

- Mame, quem  essa menina? Cobri rapidamente as fotos com o envelope, 

murmurando algo sobre um prazo apertado. 

- Ento, quem  ela? - Zo perguntou. 

- Ningum que voc conhea, querida - eu disse apressadamente, fingindo 

arrumar minha escrivaninha. 

Ela suspirou e disse com uma voz adulta e rpida: - Voc anda esquisita, me. 

Voc acha que eu no sei, voc acha que eu no vejo. Mas eu vejo tudo. 

Ela se virou e saiu. Senti a culpa invadindo todo o meu ser. Levantei-me e a 

alcancei j no quarto. 

- Voc tem razo, Zo. Eu ando esquisita. Sinto muito. Voc no merece isso. 

Sentei-me em sua cama, incapaz de encarar seus olhos calmos e sbios. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 150 



- Mame, por que voc simplesmente no conversa comigo? Apenas me diga o 

que h de errado. 

Senti uma dor de cabea chegando. Uma daquelas fortes. 

- Voc acha que eu no vou entender porque s tenho 11 anos,  isso? Assenti. 

Ela encolheu os ombros. 

- Voc no confia em mim, no ? -  claro que eu confio em voc. Mas h coisas 

que eu no posso contar porque so tristes demais, difceis demais. Eu no quero que voc 

se magoe com essas coisas, da forma como elas me magoam. 

Ela tocou em meu rosto carinhosamente, com os olhos brilhando. 

- Eu no quero ficar magoada. Voc est certa, no me conte. Eu no vou dormir 

se souber. Mas me prometa que voc vai ficar bem logo, logo. 

Eu a tomei em meus braos e dei-lhe um abrao apertado. Minha menina linda e 

corajosa. Minha linda filha. Eu tinha sorte em t-la. Tanta sorte! Apesar do ataque violento 

de dor de cabea, meus pensamentos deram uma guinada para o beb. A irm ou o irmo 

de Zo. Ela no sabia de nada. Nada daquilo por que eu estava passando. Mordendo meu 

lbio, lutei contra as lgrimas. Depois de algum tempo, ela lentamente me afastou de si e 

olhou para mim. 

- Me diz quem  aquela menina. A menina nas fotos em preto-e-branco. Aquelas 

que voc estava tentando esconder de mim. 

- Est bem - eu disse. - Mas  segredo, certo? No diga nada a ningum. 

Promete? Ela fez que sim com a cabea. 

- Prometo. Eu juro tambm. 

- Voc lembra que eu descobri quem morava no apartamento da rue de Saintonge 

antes de Mame se mudar para l? Ela assentiu novamente. 

- Voc disse que era uma famlia polonesa que tinha uma menina da minha idade. 

- O nome dela  Sarah Starzynski. Aquelas fotos so dela. Zo apertou os olhos 

para mim. 

- Mas por que isso  segredo? No estou entendendo. 

-  um segredo de famlia. Algo muito triste aconteceu. Seu av no quer que 

ningum saiba a respeito. E seu pai no sabe nada sobre ela. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 151 



- Alguma coisa triste aconteceu com Sarah? - ela perguntou cuidadosamente. 

- Isso mesmo - respondi em voz baixa. - Uma coisa muito triste. 

- Voc vai tentar encontr-la? - ela perguntou, ficando sria com o meu tom de 

voz. 

- Vou. 

- Por qu? - Eu quero dizer a ela que nossa famlia no  o que ela pensa. Quero 

explicar o que aconteceu. Eu acho que ela no sabe o que seu bisav fez para ajud-la 

durante dez anos. 

- E como ele a ajudou? - Ele enviava dinheiro para ela, todos os meses. Mas ele 

pediu que ela no soubesse. 

Zo ficou em silncio por um momento. 

- Como voc vai encontr-la? Suspirei. 

- Eu no sei, querida. Apenas espero conseguir. Depois de 1952, no h nenhum 

sinal dela neste arquivo. Nem cartas, nem fotos. Nenhum endereo. 

Zo sentou-se sobre meus joelhos, pressionando suas costas esguias contra mim. 

Cheirei seus cabelos espessos e brilhantes, o familiar aroma adocicado tpico de Zo que 

sempre me lembrava de quando ela era pequenininha, e ajeitei com a palma da mo 

alguns fios de cabelo desarrumados. 

Pensei em Sarah Starzynski, que tinha a idade de Zo quando o horror entrou em 

sua vida. 

Fechei os olhos. Mas eu ainda podia ver o momento no qual os policiais 

arrancaram as crianas de suas mes em Beaune-la-Rolande. Eu no conseguia tirar essa 

imagem de minha mente. 

Abracei Zo to forte que ela respirou com dificuldade. 



ESTRANHO COMO DATAS PODEM COINCIDIR. Quase irnico. Tera-feira, 16 de 

julho de 2002. A comemorao do Vel' d'Hiv. E precisamente a data do aborto que iria 

acontecer em uma clnica onde eu nunca estivera, em algum lugar do 175 arrondissement, 

perto da clnica de repouso de Mame. Eu havia solicitado outro dia, sentindo que a data de 

16 de julho estava sobrecarregada de significados, mas no foi possvel. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 152 



Zo, recm-sada da escola, estava indo para Long Island via Nova York com sua 

madrinha, Alison, uma de minhas velhas amigas de Boston, que voava com freqncia 

entre Manhattan e Paris. Eu iria me juntar  minha filha e  famlia de Charla no dia 27. 

Bertrand no tiraria frias antes de agosto. Normalmente, passvamos algumas semanas 

na Borgonha, na velha casa dos Tzac. Nunca gostei realmente dos veres que passei l. 

Meus sogros eram tudo, menos relaxados. As refeies tinham que ser feitas 

pontualmente, as conversas eram amenas e as crianas eram vistas, mas no ouvidas. Eu 

me perguntava por que Bertrand sempre insistia para que passssemos algum tempo l 

em vez de sairmos de frias apenas ns trs. Felizmente, Zo se dava bem com os meninos 

de Laure e Ccile. Bertrand jogava partidas de tnis interminveis com os cunhados. E eu 

me sentia de fora, como sempre. Laure e Ccile ficavam a distncia, ano aps ano. Elas 

convidavam suas amigas divorciadas e passavam horas  beira da piscina bronzeando-se 

cuidadosamente. Elas queriam ficar com os seios bronzeados. Mesmo depois de 15 anos, 

eu ainda no estava acostumada. Eu jamais mostrava meus seios. E eu sentia como se elas 

rissem de mim pelas costas por eu ser a amricaine pudica. Ento, eu passava a maior 

parte dos meus dias caminhando pela floresta com Zo, fazendo extenuantes passeios de 

bicicleta at que eu sentisse que conhecia a rea de cor, e exibindo meu impecvel nado 

borboleta enquanto as outras mulheres languidamente fumavam e se bronzeavam em 

seus minsculos biqunis Ers que jamais entravam na piscina. 

- Elas so apenas vacas francesas invejosas. Voc fica bonita demais em um biquni 

- zombava Christophe sempre que eu reclamava daqueles veres desagradveis. - Elas 

falariam com voc se voc estivesse cheia de celulite e varizes. 

Ele me fazia rir, ainda que eu no acreditasse muito nele. Mas eu amava a beleza 

do lugar, a casa antiga e silenciosa que estava sempre fresca, mesmo durante os veres 

mais quentes, com o grande jardim, cheio de velhos carvalhos e a vista sobre o sinuoso rio 

Yonne. E a floresta prxima, onde Zo e eu fazamos longas caminhadas, ficando 

maravilhadas com o gorjeio de um passarinho quando era beb, com um galho de uma 

forma estranha ou com o brilho melanclico de um brejo escondido. 

O apartamento da rue de Saintonge, de acordo com Bertrand e Antoine, ficaria 

pronto no incio de setembro. Bertrand e sua equipe haviam feito um trabalho excelente. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 153 



Mas eu ainda no me via morando l, agora que eu sabia o que havia acontecido. A 

parede havia sido demolida, mas eu me lembrava do profundo armrio escondido. O 

armrio no qual o pequeno Michel esperara em vo pela volta de sua irm. 

Essa histria estava me assombrando implacavelmente. Eu tinha que admitir que 

no ansiava por morar naquele apartamento. Eu temia as noites l. Temia trazer de volta o 

passado e no tinha idia de como evitar isso. 

Era difcil no poder conversar com Bertrand sobre o assunto. Eu precisava de sua 

abordagem prtica, ansiava por ouvi-lo dizer que, apesar do horror, ns superaramos 

tudo, encontraramos um jeito. Eu no podia contar a ele. Tinha prometido ao seu pai. Eu 

me perguntava o que Bertrand pensaria da histria toda. E suas irms? Tentei imaginar a 

reao delas. E a de Mame. Era impossvel. Os franceses eram fechados como mariscos. 

Nada deveria ser mostrado. Nada deveria ser revelado. 

Tudo tinha que permanecer calmo, sereno.  como as coisas eram. Como sempre 

haviam sido. E eu achava tudo cada vez mais difcil de suportar. 

Depois da ida de Zo para os Estados Unidos, a casa parecia vazia. Eu passava mais 

tempo no escritrio, trabalhando em uma matria interessante para a edio de setembro 

sobre jovens escritores franceses e o mundo literrio parisiense. Interessante e demorado. 

Todas as noites eu achava cada vez mais difcil sair do escritrio, desconcertada pela 

perspectiva dos cmodos silenciosos que me esperavam. Eu tomava o caminho mais longo 

para casa, aproveitando-me do que Zo chamava de "os longos atalhos de mame", 

apreciando a beleza flamejante da cidade ao pr do sol. Paris comeava a ter aquela 

aparncia deliciosamente abandonada que assumia em meados de julho. As lojas haviam 

baixado suas grades de ferro, com letreiros que diziam FECHADO PARA FRIAS, 

ABRIREMOS EM 1 DE SETEMBRO. Eu tinha que caminhar por longos trechos para 

encontrar uma pharmacie, uma mercearia, uma boulangerie ou uma lavanderia abertas. Os 

parisienses estavam saindo da cidade para sua temporada de vero, deixando a cidade 

para os infatigveis turistas. E enquanto eu caminhava para casa naquelas perfumadas 

noites de julho, andando direto do Champs-lyses para Montparnasse, eu sentia que 

Paris sem os parisienses finalmente me pertencia. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 154 



Sim, eu amava Paris, sempre havia amado, mas enquanto eu caminhava ao 

crepsculo pela Ponte Alexandre III, com a abbada dourada dos Invalides brilhando como 

uma jia gigantesca, eu sentia saudades dos Estados Unidos com tal pungncia que a dor 

queimava na boca do meu estmago. Eu sentia saudade do meu pas - o que eu tinha 

para chamar de pas, mesmo que eu j tivesse vivido na Frana mais da metade da minha 

vida. Eu sentia falta da informalidade, da liberdade, do espao, do desembarao, da lngua, 

da simplicidade de poder chamar todas as pessoas de "you", e no os complicados vous e 

tu que eu jamais consegui dominar com perfeio e que ainda me derrubavam. Eu tinha 

que admitir: sentia saudade da minha irm, dos meus pais, eu tinha saudade dos Estados 

Unidos. Eu tinha saudade como jamais havia sentido antes. 

 medida que eu me aproximava do nosso bairro, atrada pela austeridade alta e 

marrom da Tour Montparnasse que os parisienses amavam odiar (mas da qual eu gostava 

porque me permitia encontrar o caminho para voltar de qualquer arrondissement onde eu 

estivesse), repentinamente me perguntei como teria sido Paris sob a ocupao. A Paris de 

Sarah. Uniformes verde-acinzentados e capacetes redondos. O implacvel toque de 

recolher e o Ausweis (o passe). Cartazes alemes escritos em letras gticas. Enormes 

susticas pregadas sobre os nobres edifcios de pedra. 

E crianas usando a estrela amarela. 



A CLNICA ERA UM LUGAR ELEGANTE, agradvel, com enfermeiras sorridentes, 

recepcionistas solcitas e cuidadosos arranjos de flores. O aborto seria feito na manh 

seguinte, s sete horas. Pediram-me que chegasse na noite anterior, no dia 15 de julho. 

Bertrand havia viajado para Bruxelas para fechar um negcio importante. Eu no insisti 

para que fosse comigo. De alguma forma eu me sentia melhor se ele no estivesse por 

perto. Era mais fcil me ajeitar sozinha no quarto pintado com uma delicada cor de 

damasco. Em outro momento, eu teria me perguntado por que a presena de Bertrand 

pareceria suprflua. O que era surpreendente, considerando que ele era parte integrante 

da minha vida diria. Ainda assim, ali estava eu, atravessando a crise mais grave da minha 

vida sem ele, e aliviada com sua ausncia. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 155 



Eu me movia como um rob, dobrando minhas roupas mecanicamente, colocando 

minha escova de dentes na prateleira sobre a pia, olhando pela janela para as fachadas 

burguesas da rua silenciosa. Que diabos voc est fazendo? - sussurrou uma voz interior 

que eu vinha tentando ignorar o dia todo. Voc est maluca? Voc realmente vai at o fim 

com isso? Eu no havia contado minha deciso final a ningum. Ningum mesmo, exceto 

Bertrand. Eu no queria pensar em seu sorriso de felicidade quando contei a ele que o 

faria, no modo como ele me abraou, beijando o topo da minha cabea com incontido 

ardor. 

Sentei-me na cama estreita e tirei o arquivo de Sarah de minha bolsa. Sarah era a 

nica pessoa em quem eu agentava pensar nesse momento. Encontr-la parecia uma 

misso sagrada, a nica forma possvel de manter minha cabea erguida, de afastar a 

tristeza na qual minha vida estava imersa. Encontr-la, sim, mas como? No havia 

nenhuma Sarah Dufaure ou Sarah Starzynski na lista telefnica. Assim teria sido fcil 

demais. O endereo nas cartas de Jules Dufaure j no existia. Ento, eu havia decidido 

tentar rastrear seus filhos, ou netos, os rapazes na fotografia tirada em Trouville: Gaspard e 

Nicolas Dufaure, homens que supus que deveriam estar por volta dos sessenta ou setenta 

e poucos anos. 

Infelizmente, Dufaure era um nome comum. Havia centenas deles na rea de 

Orlans. Isso significava telefonar para cada um deles. Trabalhei muito nisso na semana 

anterior, passei horas na internet, debruada sobre listas telefnicas, fazendo ligaes sem 

fim, e depois encarando decepcionantes becos sem sada. 

E ento, naquela mesma manh, falei com uma certa Nathalie Dufaure, cujo 

nmero estava na lista telefnica de Paris. Uma voz jovem e alegre me atendeu. Repeti a 

rotina costumeira, o que eu havia dito vezes interminveis para estranhos do outro lado da 

linha: "Meu nome  Julia Jarmond, sou jornalista e estou tentando encontrar Sarah 

Dufaure, nascida em 1932, e os nicos nomes que eu tenho so Gaspard e Nicolas 

Dufaure..." Ela me interrompeu. Sim, Gaspard Dufaure era seu av. Ele morava em 

Aschres-le-March, bem perto de Orlans. Seu nmero no constava da lista. Fiquei 

agarrada ao telefone, sem flego. Perguntei a Nathalie se ela de alguma forma se 

lembrava de Sarah Dufaure. A moa riu. Era uma risada gostosa. Ela explicou que havia 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 156 



nascido em 1982 e que no sabia muito sobre a infncia do av. No, ela nunca ouvira 

falar de Sarah Dufaure. Pelo menos, no se lembrava de nada especfico. Ela podia ligar 

para o av se eu quisesse. Ele era um homem rude, no gostava de telefones, mas ela 

podia fazer isso e me ligar de volta. Ela pediu meu nmero. Depois ela disse: "Voc  

americana? Adoro seu sotaque." Esperei pelo telefonema dela o dia todo. Nada. Eu ficava 

verificando o celular, checando se as baterias estavam carregadas, se estava ligado. Ainda 

assim, nada. Talvez Gaspard Dufaure no estivesse interessado em falar com uma jornalista 

sobre Sarah. Talvez eu no tivesse sido persuasiva o suficiente. Talvez eu tenha sido 

persuasiva demais. Talvez no devesse ter dito que era jornalista. Eu deveria ter dito que 

era uma amiga da famlia. Mas, no, eu no podia dizer isso. No era verdade. Eu no 

podia mentir. Eu no queria mentir. 

Aschres-le-March. Procurei no mapa. Um pequeno vilarejo a meio caminho 

entre Orlans e Pithiviers, o campo-irmo de Beaune-la-Rolande, que tambm no era 

longe. No era o antigo endereo de Jules e Genevive. Ento, no era onde Sarah havia 

passado dez anos de sua vida. 

Fui ficando cada vez mais impaciente. Eu deveria ligar novamente para Nathalie 

Dufaure? Enquanto eu brincava com a idia, o celular tocou. Eu o agarrei, respirei, e disse: 

"Al?" Era meu marido, ligando de Bruxelas. Senti a decepo me abalar os nervos. 

Percebi que eu no queria falar com Bertrand. O que eu poderia dizer a ele? 



A NOITE FOI CURTA E INQUIET . 

A Ao amanhecer, uma enfermeira matronal 

surgiu com uma roupa de papel azul dobrada em seus braos. Eu iria precisar dela para "a 

operao". Ela sorriu. Tambm havia um gorro e chinelos do mesmo papel azul. Ela voltaria 

dentro de meia hora e eu seria levada de maca diretamente para a sala de cirurgia. Ela me 

fez lembrar, ainda com o mesmo sorriso amvel, que eu no podia comer ou beber nada 

por causa da anestesia. Foi embora, fechando a porta gentilmente. Eu imaginei quantas 

mulheres ela iria acordar naquela manh com aquele sorriso, quantas mulheres grvidas 

prestes a ter bebs curetados de seus ventres. Como eu. 

Vesti o traje, dcil. O toque do papel na minha pele me fazia sentir coceira. No 

havia nada mais a fazer a no ser esperar. Liguei a televiso, procurei o LCI, o canal de 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 157 



notcias 24 horas. Assisti sem conseguir me concentrar. Minha mente parecia entorpecida, 

em branco. Dentro de mais ou menos uma hora, estaria acabado. Eu estava pronta para 

isso? Eu podia lidar com isso? Eu era forte o bastante? Eu me sentia incapaz de responder 

a essas perguntas. Eu podia somente ficar l deitada, com minha roupa e meu gorro de 

papel, e esperar. Esperar para ser levada de maca at a sala de cirurgia. Esperar para ser 

posta para dormir. Esperar para que o mdico realizasse o procedimento. Eu no queria 

pensar sobre os movimentos exatos que ele iria fazer dentro de mim, entre minhas pernas 

abertas. Rapidamente expulsei o pensamento de minha mente, concentrando-me em uma 

loura esbelta fazendo amplos gestos profissionais com unhas bem-feitas sobre um mapa 

da Frana pontilhado com rostos redondos em forma de sol. Lembrei-me da ltima sesso 

com o terapeuta, uma semana antes. A mo de Bertrand sobre o meu joelho. 

- No, ns no queremos essa criana. Ns dois concordamos com isso. 

Permaneci em silncio. O terapeuta olhou para mim. Eu havia concordado com a 

cabea? Eu no conseguia me lembrar. Lembro-me de me sentir sedada, hipnotizada. E 

depois, Bertrand, no carro: - Foi a coisa certa a fazer, amour. Voc vai ver. Isso tudo vai 

acabar logo. 

E o modo como ele me beijou, apaixonado, quente. A loura desapareceu. Um 

apresentador surgiu e ouvi o jingle familiar do jornal televisivo. 

- Hoje, 16 de julho de 2002, marca o sexagsimo aniversrio da batida policial do 

Vlodrome d'iver, no qual milhares de famlias judias foram presas pela polcia francesa. 

Um momento negro no passado da Frana. 

Rapidamente aumentei o volume. Enquanto a cmera mostrava a rue Nlaton, 

pensei em Sarah, onde quer que ela estivesse agora. Ela iria se lembrar do dia de hoje. No 

precisava que a fizessem lembrar. Nunca. Para ela, e para todas aquelas famlias que 

haviam perdido entes queridos, 16 de julho jamais seria esquecido, e nesta manh, mais 

do que em todas as manhs, eles abririam os olhos pesados de tanta dor. Eu queria dizer a 

ela, dizer a eles, dizer a todas aquelas pessoas - como? eu pensei, me sentindo 

desamparada, intil - eu queria gritar, gritar para ela, para eles, que eu sabia, que eu me 

lembrava, e que eu no conseguia esquecer. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 158 



Vrios sobreviventes - alguns dos quais eu havia conhecido e entrevistado - foram 

apresentados em frente  placa do Vel' d'Hiv. Percebi que eu ainda no vira a edio desta 

semana do Seine Scenes com meu artigo publicado. Ela saa hoje. Decidi deixar uma 

mensagem no celular de Bamber, pedindo a ele que enviasse uma cpia para a clnica. 

Liguei meu telefone, com os olhos fixos na televiso. Surgiu o rosto grave de Franck Lvy. 

Ele falou sobre a comemorao e comentou que iria ser mais importante do que nos anos 

anteriores. O telefone emitiu um bip, indicando que havia mensagem na caixa postal. Uma 

mensagem era de Bertrand, bem tarde ontem  noite, dizendo que me amava. 

A mensagem seguinte era de Nathalie Dufaure. Ela pedia desculpas por ligar to 

tarde, mas no havia conseguido ligar antes. Ela tinha boas notcias: seu av havia 

concordado em se encontrar comigo e poderia me contar tudo sobre Sarah Dufaure. Ele 

parecia to excitado que despertou a curiosidade de Nathalie. Sua voz animada abafou o 

tom calmo de Franck Lvy: - Se voc quiser, posso lev-la a Aschres amanh, tera-feira. 

Podemos ir no meu carro, sem problema. Eu realmente quero ouvir o que Papy tem a 

dizer. Por favor, me ligue para que possamos nos encontrar em algum lugar. 

Meu corao estava acelerado, de forma quase dolorosa. O apresentador estava 

de volta  tela, apresentando outro tpico. Era cedo demais para ligar para Nathalie 

Dufaure agora. Eu teria que esperar algumas horas. Meus ps danavam de expectativa 

dentro dos chinelos de papel. "... contar tudo sobre Sarah Dufaure." O que Gaspard 

Dufaure teria para contar? O que eu iria descobrir? Uma batida na porta me sobressaltou. 

O sorriso afetado da enfermeira me sacudiu de volta  realidade. 

- Hora de irmos, madame - ela disse animadamente, mostrando dentes e 

gengivas. 

Ouvi as rodas emborrachadas da maca rangerem do outro lado da porta. 

De repente, tudo ficou perfeitamente claro. Nunca estivera to claro, to fcil. 

Levantei-me e a encarei. 

- Sinto muito - eu disse em voz baixa. - Mudei de idia. Arranquei o gorro de 

papel. Ela me olhava fixamente, sem piscar. 

- Mas madame... - ela comeou. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 159 



Rasguei o vestido de papel. A enfermeira desviou os olhos chocados de minha 

repentina nudez. 

- Os mdicos esto esperando - ela falou. 

- Eu no me importo - eu disse com firmeza. - No vou fazer isso. Quero ter meu 

beb. 

Sua boca estremeceu de indignao. 

- Vou mandar o mdico vir v-la imediatamente. 

Ela se virou e saiu. Ouvi o clique severo de desaprovao de suas sandlias 

batendo no linleo. Enfiei um vestido de jeans pela cabea, calcei os sapatos, peguei 

minha bolsa e sa do quarto. Descendo as escadas, passando por enfermeiras surpresas 

carregando bandejas de caf-da-manh, percebi que havia deixado minha escova de 

dentes, as toalhas, o xampu, o sabonete, o desodorante, o kit de maquiagem e o creme 

facial no banheiro. E da? pensei, passando correndo pela entrada pomposa e arrumada. E 

da? E da? A rua estava vazia, com aquela aparncia fresca e cintilante que as caladas 

parisienses ostentam de manh cedo. Chamei um txi e fui para casa. 

Dezesseis de julho de 2002. 

Meu beb. Ele estava seguro dentro de mim. Eu queria rir e chorar. E o fiz. O 

motorista de txi me olhou diversas vezes pelo espelho retrovisor, mas eu no me 

importei. Eu iria ter essa criana. 



FAZENDO UMA ESTIMATIVA POR ALTO, contei mais de 2 mil pessoas reunidas  

margem do Sena, ao longo da ponte Bir-Hakeim. Os sobreviventes. As famlias. Filhos e 

netos. Rabinos. O prefeito da cidade. O primeiro-ministro. O ministro da Defesa. Vrios 

polticos. Jornalistas. Fotgrafos. Franck Lvy. Milhares de flores, um grande toldo bem 

alto, uma plataforma branca. Uma multido impressionante. Guillaume estava ao meu 

lado, com o rosto solene e os olhos tristes. 

Num timo, me lembrei da senhora da rue Nlaton. O que ela tinha dito mesmo? 

"Ningum se lembra. Por que se lembrariam? Aqueles foram os dias mais negros de nosso 

pas." De repente, desejei que ela estivesse aqui agora, fitando as centenas de rostos 

silenciosos e emocionados  minha volta. Da tribuna, uma linda mulher de meia-idade com 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 160 



um volumoso cabelo ruivo cantava. Sua voz lmpida elevou-se sobre o rudo do trfego 

das redondezas. Ento, o primeiro-ministro comeou seu discurso. 

- H sessenta anos, bem aqui, em Paris, mas tambm em toda a Frana, a 

aterrorizante tragdia comeou a acontecer. A marcha na direo do horror estava se 

acelerando. A sombra da Shoah j havia mergulhado na tristeza as pessoas inocentes 

agrupadas no Vlodrome d'Hiver. Este ano, como em todos os anos, estamos reunidos 

neste lugar para lembrar, de modo a no esquecer nada sobre as perseguies, as 

capturas, as mortes e o destino massacrado de tantos judeus franceses. 

Um senhor  minha esquerda tirou um leno do bolso e chorou sem fazer rudo. 

Senti afeio por ele. Por quem ele estaria chorando? eu me perguntava. Quem ele teria 

perdido?  medida que o primeiro-ministro continuava seu discurso, meus olhos se 

moviam pela multido. Haveria algum aqui que conhecesse ou se lembrasse de Sarah 

Starzynski? Ser que ela estaria aqui? Agora mesmo, neste exato momento? Ser que ela 

estaria aqui com seu marido, um filho, um neto? Atrs de mim, na minha frente? 

Cuidadosamente, escolhi mulheres por volta dos 70 anos, examinando rostos enrugados, 

solenes, em busca dos oblqos olhos verdes. Mas eu no me senti confortvel fitando 

esses estranhos angustiados. Baixei o olhar. A voz do primeiro-ministro parecia crescer em 

fora e clareza, ribombando sobre ns. 

- Sim, Vel' d'Hiv, Drancy e todos os campos de trnsito, aquelas antecmaras da 

morte, foram organizados, administrados e guarnecidos por franceses. Sim, o primeiro ato 

da Shoah aconteceu bem aqui, com a cumplicidade do Estado francs. 

Os muitos rostos  minha volta pareciam serenos, ouvindo o primeiro-ministro. Eu 

os observava enquanto ele continuava com a mesma voz poderosa. Mas cada um daqueles 

rostos continha uma dor que jamais poderia ser apagada. O discurso do primeiro-ministro 

foi aplaudido por um longo tempo. Percebi pessoas chorando e se abraando. 

Ainda com Guillaume, fui falar com Franck Lvy, que estava carregando uma cpia 

do Seine Scenes debaixo do brao. Ele me cumprimentou efusivamente e nos apresentou a 

alguns jornalistas. Pouco depois, fomos embora. Eu disse a Guillaume que havia 

descoberto quem morava no apartamento dos Tzac, e que de alguma forma isso havia 

me aproximado de meu sogro, que havia mantido um segredo obscuro durante sessenta 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 161 



anos. E que eu estava tentando encontrar Sarah, a menininha que havia escapado de 

Beaune-la-Rolande. 

Dentro de meia hora, eu iria encontrar Nathalie Dufaure na frente da estao 

Pasteur do metr. Ela iria me levar de carro a Orlans, at seu av. Guillaume me beijou 

calorosamente e me abraou. Ele me desejou boa sorte. 

Ao atravessar a congestionada avenida, acariciei minha barriga com a mo. Se eu 

no tivesse sado da clnica naquela manh, estaria neste momento recobrando a 

conscincia em meu aconchegante quarto cor de damasco, observada por uma enfermeira 

sorridente. Um saboroso caf-da-manh - croissant, gelia e caf au lait - e eu teria 

deixado o lugar sozinha,  tarde, um pouco oscilante, com um absorvente entre as pernas 

e uma dor imprecisa no ventre. Um vcuo em minha mente e em meu corao. 

No havia uma s palavra de Bertrand. A clnica teria telefonado para ele para 

inform-lo de que eu havia sado antes de fazer o aborto? Eu no sabia. Ele ainda estava 

em Bruxelas e deveria voltar hoje  noite. 

Eu me perguntei como eu contaria a ele. Como ele iria reagir. 

Enquanto eu caminhava pela avenue Emile Zola, ansiosa por no me atrasar para o 

encontro com Nathalie Dufaure, perguntei-me se eu ainda me importava com o que 

Bertrand pensava, com o que Bertrand sentia. Esse pensamento perturbador me assustou. 



QUANDO VOLTEI DE ORLANS no incio daquela noite, o apartamento parecia 

quente e sufocante. Fui abrir uma janela e me curvei sobre o barulhento Boulevard du 

Montparnasse. Era estranho imaginar que logo estaramos nos mudando para a silenciosa 

rue de Saintonge. Passamos 12 anos aqui. Zo nunca havia morado em outro lugar. Seria 

nosso ltimo vero ali, pensei de modo passageiro. Eu havia me afeioado a este 

apartamento, com a luz do sol invadindo a grande e branca sala de estar todas as tardes, o 

Jardim de Luxemburgo logo ali na rue Vavin, a facilidade de estar localizada em um dos 

arrondissements mais movimentados de Paris, um dos lugares onde voc podia realmente 

sentir as batidas do corao da cidade, seu pulso rpido e excitante. 

Chutei minhas sandlias para o alto e me deitei no sof macio e bege. O peso do 

dia caiu sobre mim como chumbo. Fechei os olhos e fui imediatamente trazida de volta  

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 162 



realidade com um sobressalto causado pelo telefone. Era minha irm, ligando de seu 

escritrio de frente para o Central Park. Eu a imaginei atrs de sua vasta mesa, com seus 

culos de leitura encarapitados na ponta do nariz. Contei a ela que no tinha feito o 

aborto. 

- Ai, meu Deus - respirou Charla aliviada. - Voc no fez. 

- Eu no consegui - eu disse. - Foi impossvel. 

Eu podia ouvi-la sorrindo do outro lado da linha, aquele sorriso largo e irresistvel. 

- Que menina corajosa, maravilhosa - ela disse. - Estou orgulhosa de voc, 

querida. 

- Bertrand ainda no sabe - eu disse. - Ele s vai voltar tarde da noite. 

Provavelmente pensa que eu fiz. 

Uma pausa transatlntica. 

- Voc vai contar a ele, no vai? - Mas  claro. Tenho que contar, mais cedo ou 

mais tarde. 

Depois da conversa com minha irm, deitei no sof por um longo tempo, com 

minha mo dobrada sobre a barriga como um escudo protetor. Pouco a pouco, senti a 

vitalidade pulsando novamente dentro de mim. 

Como sempre, pensei em Sarah Starzynski, e no que eu sabia agora. Eu no 

precisei gravar o que Gaspard Dufaure me disse. Nem anotar nada. Estava tudo escrito 

dentro de mim. 



UMA CASA PEQUENA E LINDA nos arredores de Orlans. Canteiros de flores 

bem cuidados. Um cachorro velho e plcido com problemas de viso. Uma velha senhora 

cortando legumes na pia, que me cumprimentou com a cabea quando entrei. 

A voz spera de Gaspard Dufaure. Sua mo com veias azuis afagando a cabea 

enrugada do cachorro. E o que ele disse. 

- Meu irmo e eu sabamos que houve problemas durante a guerra. Mas ramos 

pequenos na poca e no nos lembrvamos de que tipo de problemas havia. Foi somente 

depois que meus avs morreram que eu descobri por intermdio de meu pai que Sarah 

Dufaure na verdade se chamava Starzynski e que era judia. Meus avs a esconderam 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 163 



durante todos aqueles anos. Havia algo triste em Sarah, ela no era uma pessoa alegre, 

extrovertida. Era difcil se aproximar dela. Disseram-nos que ela havia sido adotada por 

meus avs porque seus pais haviam morrido durante a guerra. Isso  tudo o que sabamos. 

Mas podamos dizer que ela era diferente. Quando ia  igreja conosco, seus lbios nunca 

se moviam durante o Pai-nosso. Ela nunca rezava. Ela nunca comungava. Ficava com os 

olhos fixos  frente dela com uma expresso congelada que me assustava. Meus avs 

sorriam para ns firmemente e nos diziam para deix-la em paz. Meus pais faziam o 

mesmo. Pouco a pouco, Sarah se tornou parte de nossas vidas, a irm mais velha que no 

tnhamos. E ela cresceu e se tornou uma moa adorvel e melanclica. Ela era muito sria, 

muito madura para a sua idade. As vezes, depois da guerra, amos a Paris, com meus pais, 

mas Sarah nunca queria ir junto. Ela dizia que odiava Paris. Dizia que jamais voltaria l. 

- Ela alguma vez falou sobre o irmo? Sobre seus pais? - perguntei. 

Gaspard sacudiu a cabea. 

- Nunca. S fiquei sabendo da histria do irmo e do que aconteceu com ele 

atravs de meu pai, quarenta anos atrs. Quando morava com ela, eu no sabia. 

A voz de Nathalie Dufaure entrou na conversa. 

- O que aconteceu com o irmo dela? - ela perguntou. 

Gaspard Dufaure olhou para sua neta fascinada, atenta a cada palavra. Depois, ele 

olhou para a sua mulher, que no havia falado durante toda a conversa, mas que nos 

olhava com benevolncia. 

- Vou lhe contar em outra ocasio, Natou.  uma histria muito triste. 

Houve uma longa pausa. 

- Monsieur Dufaure - eu disse - preciso saber onde Sarah Starzynski est agora.  

por isso que eu vim v-lo. O senhor pode me ajudar? Gaspard Dufaure coou a cabea e 

me lanou um olhar zombeteiro. 

- O que eu realmente preciso saber, Mademoiselle Jarmond - ele sorriu -  por 

que isso  to importante para voc. 



O TELEFONE TOCOU NOVAMENTE. Era Zo, de Long Island. Ela estava se 

divertindo bastante, o clima estava timo, ela estava bronzeada, tinha uma bicicleta nova, 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 164 



seu primo Cooper era "legal", mas ela estava com saudade de mim. Eu disse a ela que eu 

tambm estava com saudade dela e que estaria com ela em menos de dez dias. Depois, 

baixou a voz e perguntou se eu tinha feito algum progresso para localizar Sarah Starzynski. 

Eu tive que sorrir diante da seriedade de seu tom. Respondi que, na verdade, eu tinha feito 

progressos, e eu iria lhe contar tudo em breve. 

- Ah, mame, que tipo de progresso? - ela implorou. - Eu preciso saber! Agora! - 

Est bem - respondi, cedendo ao entusiasmo dela. - Hoje eu encontrei um homem que a 

conheceu quando ela era criana. Ele me disse que Sarah saiu da Frana em 1952 e foi para 

a cidade de Nova York para ser bab de uma famlia americana. 

Zo soltou um gritinho. 

- Quer dizer que ela est nos Estados Unidos? - Acho que sim - respondi. Um 

breve silncio. 

- Como voc vai encontr-la nos Estados Unidos, mame? - ela perguntou, com 

sua voz claramente menos animada. - Os Estados Unidos so um pas muito maior do que 

a Frana. 

- S Deus sabe, querida - suspirei. Enviei beijos calorosos pelo telefone, mandei 

todo o meu amor para ela e desliguei. 

"O que eu realmente preciso saber, Mademoiselle Jarmond - ele sorriu -  por que 

isso  to importante para voc." Eu havia decidido, no impulso do momento, contar a 

verdade para Gaspard Dufaure. Como Sarah Starzynski havia entrado na minha vida. Como 

eu havia descoberto seu terrvel segredo. E como ela estava ligada aos parentes de meu 

marido. Como, agora que eu sabia sobre os fatos do vero de 1942 (tanto os fatos 

pblicos - Vel' d'Hiv, Beaune-la-Rolande - quanto os particulares - a morte do pequeno 

Michel Starzynski no apartamento dos Tzac), encontrar Sarah havia se tornado um 

objetivo importante, algo pelo qual eu estava lutando com todas as minhas foras. 

Gaspard Dufaure ficou surpreso com a minha obstinao. Por que encontr-la, 

para qu? ele perguntou, balanando sua cabea grisalha. Respondi que era para dizer a 

ela que ns nos importvamos. Para dizer a ela que no havamos esquecido. 

- Ns? - ele sorriu. - Quem so "ns"? Os parentes de seu marido, o povo francs? 

Eu retruquei, ligeiramente irritada com seu sorriso: - No. Eu, apenas eu. Queria pedir 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 165 



desculpas, queria dizer a ela que eu no conseguia esquecer a batida policial, o campo, a 

morte de Michel e o trem direto para Auschwitz que havia separado seus pais para 

sempre. 

- Desculpas por qu? - Ele retaliou. - Por que voc, uma americana, deveria pedir 

desculpas? Seus compatriotas no libertaram a Frana em junho de 1944? Voc no tem 

nada por que pedir desculpas - ele disse rindo. 

Olhei para ele diretamente nos olhos. 

- Desculpas por no saber. Desculpas por ter 45 anos e no saber de nada. 



SARAH DEIXOU A FRANA n

o fim de 1952 e foi para os Estados Unidos. 

- Por que Estados Unidos? - perguntei. 

- Ela nos disse que tinha que ir para um lugar que no houvesse sido diretamente 

atingido pelo Holocausto da forma como a Frana fora. Ficamos todos aborrecidos. 

Especialmente meus avs. Eles a amavam como a filha que nunca tiveram. Mas ela no se 

deixou influenciar. Foi embora e nunca mais voltou. Pelo menos, no que eu saiba. 

- E depois, o que aconteceu a ela? - perguntei, soando como Nathalie, usando o 

mesmo entusiasmo, o mesmo interesse. 

Gaspard Dufaure encolheu os ombros e suspirou profundamente. Ele havia se 

levantado, seguido pelo velho co cego. Sua esposa havia preparado para mim outra 

xcara de caf forte e acre. Sua neta permanecia em silncio, enroscada na poltrona, com 

seus olhos indo dele para mim de forma silenciosa e afetuosa. Ela se lembraria disso, 

pensei. Ela se lembraria de tudo. 

Seu av veio se sentar novamente com um resmungo, entregan-do-me o caf. Ele 

olhou em torno da pequena sala, para as fotografias desbotadas na parede, para a moblia 

desgastada. Coou a cabea e suspirou. Eu aguardei e Nathalie tambm. Finalmente, ele 

falou. 

Eles no ouviram mais falar de Sarah depois de 1955. 

- Ela escreveu algumas cartas para os meus avs. E, um ano mais tarde, enviou um 

carto dizendo que ia se casar. Eu me lembro de meu pai nos contar que Sarah iria se casar 

com um ianque. - Gaspard sorriu. - Ficamos felizes por ela. Mas depois no houve mais 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 166 



telefonemas, no chegaram mais cartas. Nunca mais. Meus avs tentaram localiz-la. Eles 

fizeram tudo o que puderam para encontr-la, ligaram para Nova York, escreveram cartas, 

enviaram telegramas. Tentaram localizar seu marido. Nada. Sarah havia desaparecido. Foi 

horrvel para eles. Esperaram, ano aps ano, por um sinal, um telefonema, um carto. No 

veio nada. Ento, meu av faleceu no incio dos anos 60, logo seguido por minha av 

alguns anos mais tarde. Acho que eles estavam com o corao despedaado. 

- O senhor sabe que seus avs poderiam ser declarados "justos entre as naes"? 

- eu disse. 

- O que significa isso? - ele perguntou, perplexo. 

- O Instituto Yad Vashem, de Jerusalm, concede medalhas queles que, sendo 

no-judeus, salvaram judeus durante a guerra. Elas tambm podem ser obtidas 

postumamente. 

Ele pigarreou, desviando os olhos de mim. 

- Apenas a encontre. Por favor, encontre-a, Mademoiselle Jarmond. Diga-lhe que 

sinto saudade dela. Meu irmo Nicolas tambm. Diga a ela que ns lhe mandamos todo o 

nosso amor. 

Antes de sair, ele me entregou uma carta. 

- Minha av escreveu esta carta para meu pai depois da guerra. Talvez voc queira 

dar uma olhada. Voc pode devolver para Nathalie depois que terminar de ler. 



MAIS TARDE, EM CASA, sozinha, decifrei a caligrafia em estilo antigo. Ao l-la, 

chorei. Consegui me controlar, enxuguei as lgrimas e assoei o nariz. 

Depois, liguei para Edouard e a li em voz alta para ele pelo telefone. Ele soou 

como se estivesse chorando, mas parecia estar tentando tudo que podia para me fazer 

pensar que no. Ele me agradeceu com a voz embargada e desligou. 

8 de setembro de 1946 Alain, meu querido filho, Quando Sarah voltou na semana 

passada, depois de passar o vero com voc e Henriette, suas bochechas estavam 

rosadas... E ela sorria. Jules e eu ficamos surpresos e emocionados. Ela ir lhe escrever em 

breve para agradecer ela mesma, mas eu queria lhe dizer como estou agradecida por sua 

ajuda e hospitalidade. Os quatro ltimos anos foram horrveis, como voc sabe. Quatro 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 167 



anos de prises, de medo, de privaes. Para todos ns, para nosso pas. Quatro anos que 

custaram um preo altssimo, para Jules e para mim, mas especialmente para Sarah. Eu 

acho que ela jamais ir superar o que aconteceu no vero de 1942, quando ns a levamos 

de volta ao apartamento de sua famlia no Marais. Naquele dia, algo se partiu dentro dela. 

Algo desmoronou. 

Nada disso foi fcil, e seu apoio tem sido inestimvel. Esconder Sarah do inimigo, 

mantendo-a a salvo daquele distante vero at o Armistcio, foi horrvel. Mas Sarah agora 

tem uma famlia. Ns somos sua famlia. Seus filhos, Gaspard e Nicolas, so seus irmos. 

Ela  uma Dufaure. Ela tem o nosso sobrenome. 

Eu sei que ela jamais ir esquecer. Por trs das faces rosadas e do sorriso, h uma 

dureza nela. Ela jamais ser uma criana normal de 14 anos de idade. Ela  como uma 

mulher, uma mulher amarga. s vezes parece que ela  mais velha do que eu. Nunca fala 

sobre sua famlia, sobre seu irmo. Mas eu sei que ela os carrega dentro de si, sempre. Sei 

que ela vai ao cemitrio toda semana, s vezes mais do que isso, para visitar o tmulo do 

irmo. Ela quer ir sozinha, recusando a minha companhia. s vezes eu a sigo, somente para 

ter certeza de que ela est bem. Ela se senta na frente da pequena lpide e fica muito 

quieta. s vezes fica sentada l durante horas, segurando aquela chave de metal que ela 

carrega consigo o tempo todo. A chave do armrio em que o pobrezinho do irmo 

morreu. Quando ela volta para casa, seu rosto est frio e fechado. Para ela  difcil 

conversar, fazer contato comigo. Eu tento lhe dar todo o amor que tenho porque ela  a 

filha que nunca consegui ter. 

Ela nunca fala sobre Beaune-la-Rolande. Se alguma vez passamos de carro perto 

do vilarejo, ela fica plida. Ela vira a cabea para o outro lado e fecha os olhos. Eu me 

pergunto se um dia o mundo ir saber o que aconteceu l, se tudo aquilo ser mostrado. 

Ou se permanecer um segredo para sempre, enterrado em um passado escuro e 

tumultuado. 

No ano passado, desde o fim da guerra, Jules tem ido ao Lut-tia com freqncia, 

s vezes com Sarah, para se informar sobre as pessoas que esto voltando dos campos 

para casa. Com esperana, sempre com esperana. Todos tnhamos esperana, com todas 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 168 



as nossas foras. Mas agora ns sabemos. Seus pais jamais voltaro. Eles foram 

assassinados em Auschwitz, durante aquele terrvel vero de 1942. 

s vezes fico imaginando quantas crianas como ela passaram por aquele inferno 

e sobreviveram, e agora tm que continuar sem seus entes queridos. Tanto sofrimento, 

tanta dor! Sarah precisou desistir de tudo o que era: sua famlia, seu sobrenome, sua 

religio. Ns nunca conversamos sobre isso, mas eu sei como o vcuo  profundo, como a 

perda dela  cruel. Sarah fala em ir embora do pas, em comear uma nova vida, em outro 

lugar, longe de tudo que ela conhece, longe de tudo o que ela passou. Ela ainda  

pequena, frgil demais para ir embora da fazenda, mas esse dia chegar. Jules e eu 

teremos que deix-la ir embora. 

Sim, a guerra acabou, finalmente acabou, mas, para seu pai e para mim, nada  a 

mesma coisa. Nada ser a mesma coisa novamente. A paz tem um gosto amargo. E o 

futuro  de mau agouro. Os eventos que ocorreram mudaram a face do mundo. E da 

Frana. A Frana ainda est se recuperando de seus anos mais negros. Eu me pergunto se 

algum dia ela ir se recuperar. Esta no  mais a Frana que eu conheci quando era 

menina. Esta  outra Frana que eu no reconheo. Agora estou velha e sei que meus dias 

esto contados. Mas Sarah, Gaspard e Nicolas ainda so jovens. Eles tero que viver nesta 

nova Frana. Tenho pena deles, e sinto medo pelo que vem pela frente. 

Meu filho querido, esta carta no tinha a inteno de ser triste. Ai de mim, acabou 

ficando assim e realmente sinto muito por isso. O jardim precisa de cuidados, as galinhas 

precisam de comida e eu vou terminando por aqui. Deixe-me agradecer novamente por 

tudo o que fez por Sarah. Deus abenoe a vocs dois pela generosidade, pela lealdade, e 

que Deus abenoe os meninos, Sua me amorosa, Genevive 



OUTRO TELEFONEMA. MEU CELULAR. Eu deveria t-lo desligado. Era Joshua. 

Fiquei surpresa em ouvir a voz dele. Em geral, ele no liga to tarde. 

- Acabei de v-la no noticirio, meu bem - ele falou lentamente. - Bonita como 

uma pintura. Um pouquinho plida, mas deslumbrante. 

- Noticirio? - respirei. - Que noticirio? - Liguei a TV para assistir ao noticirio na 

TF 1 e l estava a minha Julia, logo abaixo do primeiro-ministro. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 169 



- Ah - eu disse - a cerimnia do Vel' d'Hiv. 

- timo discurso, voc no achou? - Muito bom. 

Uma pausa. Ouvi o clique de seu isqueiro ao acender um Marlboro suave, o da 

caixa prateada, do tipo que voc s consegue nos Estados Unidos. Eu estava imaginando o 

que ele teria para me dizer. 

- O que foi, Joshua? - perguntei cautelosamente. 

- Nada, na verdade. S liguei para dizer que voc fez um bom trabalho. Andam 

falando bastante sobre aquela sua matria a respeito do Vel' d'Hiv. Eu s queria lhe dizer 

isso. As fotos de Bamber tambm esto timas. Vocs dois conseguiram se sair muito 

bem. 

- Ah - eu disse. - Obrigada. 

Mas eu o conhecia melhor do que isso. 

- Mais alguma coisa? - acrescentei cuidadosamente. 

- H uma coisa que me incomoda. 

- Continue - eu disse. 

- Na minha opinio, faltou uma coisa. Voc falou com os sobreviventes, com as 

testemunhas, com o velho em Beaune-la-Rolande etc, tudo timo. timo, timo. Mas voc 

esqueceu algumas coisas. Os policiais. Os policiais franceses. 

- E ento? - perguntei, comeando a sentir a irritao me beliscar. - O que  que 

h com os policiais franceses? - Teria sido perfeito se voc tivesse conseguido que alguns 

daqueles policiais que participaram da batida falassem sobre ela, se voc tivesse 

encontrado alguns daqueles sujeitos, apenas para ouvir o lado deles da histria. Mesmo 

que eles estejam velhos agora. O que esses caras diziam para os seus filhos? As famlias 

deles sabiam? Ele estava certo,  claro. Eu no tinha pensado nisso antes. A irritao 

diminuiu. Arrasada, eu no disse nada. 

- Ei, Julia, sem problema - Joshua riu. - Voc fez um timo trabalho. Talvez 

aqueles policiais no quisessem falar, de qualquer forma. Voc provavelmente no leu 

muito sobre eles em sua pesquisa, leu? - No - respondi. - Pensando bem, no material 

que eu li, no h nada sobre como a polcia francesa se sentiu com relao a isso. Eles 

estavam apenas fazendo o trabalho deles. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 170 



- Sim, o trabalho deles - repetiu Joshua. - Mas com certeza eu teria gostado de 

saber como eles conviviam com isso. E, falando nesse assunto, e os maquinistas que 

conduziram aquela quantidade sem fim de trens de Drancy para Auschwitz? Eles sabiam o 

que estavam transportando? Eles realmente pensavam que era gado? Eles sabiam que 

estavam levando aquelas pessoas, o que iria acontecer com elas? E todos os caras 

dirigindo aqueles nibus? Eles sabiam de alguma coisa? Ele estava certo novamente,  

claro. Permaneci em silncio. Uma boa jornalista teria investigado esses tabus mais a 

fundo. A polcia francesa, o sistema ferrovirio francs, as linhas de nibus francesas. 

Mas eu fiquei obcecada com as crianas do Vel' d'Hiv. E com uma criana em 

particular. 

- Voc est bem, Julia? - sua voz voltou. 

- Mais do que bem - menti. 

- Voc precisa de frias - ele declarou. - Precisa entrar num avio e ir para o seu 

pas. 

Era exatamente isso que eu tinha em mente. 



O LTIMO TELEFONEMA DA NOITE foi de Nathalie Dufaure. Ela parecia em 

xtase. Eu imaginei seu rosto delicado e frgil iluminado de animao, com seus olhos 

castanhos brilhando. 

- Julia! Eu olhei todos os papis de vov e achei. Achei o carto de Sarah! - Carto 

de Sarah? - repeti, perdida. 

- O carto que ela enviou para dizer que iria se casar, o ltimo carto. Ela 

menciona o nome do marido. 

Apanhei uma caneta, tateei  minha volta em vo em busca de um pedao de 

papel. Nada de papel. Apontei a ponta da esferogrfica para as costas de minha mo. 

- E qual  o nome? - Ela escreveu para dizer que iria se casar com Richard J. Rains-

ferd - ela soletrou o nome. - O carto est datado de 15 de maro de 1955. Sem endereo. 

Nada. S isso. 

- Richard J. Rainsferd - repeti, escrevendo em letra de forma sobre minha pele. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 171 



Agradeci a Nathalie, prometi mant-la informada sobre meus progressos e depois 

liguei para o nmero de Charla em Manhattan. Falei com a assistente dela, Tina, que me 

fez esperar um pouco. Depois, ouvi a voz de Charla. 

- Voc de novo, meu amor? Fui diretamente ao assunto. 

- Como  que se encontra uma pessoa nos Estados Unidos, como voc localiza 

algum? - Pela lista telefnica - ela disse. 

-  assim to fcil? - H outros meios - ela respondeu enigmaticamente. 

- E uma pessoa que desapareceu em 1955? - Voc tem o nmero do seguro 

social, o nmero da placa do carro ou mesmo um endereo? - No. Nada. 

Ela assoviou por entre os dentes. 

- Vai ser difcil. Pode no funcionar. Mas vou tentar, tenho alguns amigos que 

podem ajudar. D-me o nome. 

Naquele momento eu ouvi a porta da frente bater e o rudo de chaves sendo 

jogadas sobre a mesa. 

Meu marido, voltando de Bruxelas. 

- Eu ligo de volta - sussurrei para minha irm e desliguei. 



BERTRAND ENTROU NA SALA. Ele parecia tenso, plido, seu rosto estava 

abatido. Ele veio at mim e me tomou em seus braos. Senti seu queixo se aninhar no alto 

de minha cabea. Senti que tinha que falar rpido. 

- Eu no fiz - eu disse. Ele mal se moveu. 

- Eu sei - ele respondeu. - O mdico me telefonou. Afastei-me dele. 

- Eu no consegui, Bertrand. 

Ele deu um sorriso estranho, desesperado. Foi at a bandeja perto da janela na 

qual estavam as bebidas e serviu-se de um copo de conhaque. Percebi como ele bebeu 

rpido, jogando a cabea para trs com um movimento brusco. Foi um gesto feio e que 

me incomodou. 

- E agora? - ele disse, colocando o copo sobre a bandeja, num gesto firme. - O 

que faremos agora? Tentei sorrir, mas pude sentir que era um sorriso falso, melanclico. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 172 



Bertrand se sentou no sof e afrouxou a gravata, abrindo os dois primeiros botes da 

camisa. 

Ento ele disse: - No consigo encarar a idia de ter essa criana, Julia. Tentei dizer 

a voc. Voc no quis ouvir. 

Algo em sua voz me fez olhar para ele mais de perto. Parecia vulnervel, 

enfraquecido. Por uma frao de segundo eu vi o rosto cansado de Edouard Tzac, a 

expresso que ele tinha no carro quando me contou sobre a volta de Sarah. 

- No posso impedir que voc tenha esse beb. Mas eu preciso que voc saiba 

que no consigo lidar com isso. Ter essa criana ir me destruir. 

Eu queria expressar pena - ele parecia perdido, indefeso - mas, em vez disso, uma 

inesperada sensao de ressentimento tomou conta de mim. 

- Destruir voc? - repeti. 

Bertrand se levantou e serviu-se de outra bebida. Desviei o olhar enquanto ele 

bebia. 

- Alguma vez voc j ouviu falar de crise da meia-idade, amour? Vocs americanos 

gostam tanto dessa expresso! Voc anda to envolvida com seu trabalho, seus amigos, 

sua filha, que nem percebeu pelo que estou passando. Para dizer a verdade, voc no se 

importa. No  verdade? Eu o encarei, chocada. 

Ele se reclinou no sof, lenta e cuidadosamente, olhando para o teto. Gestos lentos 

e cautelosos que eu nunca o tinha visto usar. A pele de seu rosto parecia enrugada. De 

repente, eu estava olhando para um marido que estava envelhecendo. O jovem Bertrand j 

no existia mais. Bertrand sempre fora triunfantemente jovem, vibrante, enrgico. O tipo 

de pessoa que nunca fica quieta, sempre em movimento, alegre, rpido, vido. O homem 

para quem eu estava olhando era como um fantasma do meu marido de antes. O que 

aconteceu? Como  que eu no percebi isso? Bertrand e sua tremenda gargalhada. Suas 

piadas. Sua audcia. As pessoas sussurravam, admiradas, espantadas: "Esse  o seu 

marido?" Bertrand nos jantares monopolizava as conversas, mas ningum se importava; ele 

era to interessante! O modo como Bertrand olhava para voc, o brilho poderoso de seus 

olhos azuis e aquele sorriso travesso e diablico. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 173 



Esta noite no havia nada firme, nada em ordem com ele. Parecia ter se deixado 

abandonar. Estava l sentado, frouxo, fraco. Seus olhos estavam pesarosos, suas plpebras, 

cadas. 

- Voc nunca percebeu, no , pelo que eu venho passando. Percebeu? Sua voz 

estava montona, sem modulao. Sentei-me ao seu lado, acariciei sua mo. Como eu 

poderia jamais admitir que no havia percebido? Como eu poderia explicar quanto eu me 

sentia culpada? - Por que voc no me disse, Bertrand? Os cantos de sua boca se viraram 

para baixo. 

- Eu tentei. Nunca consegui. 

- Por qu? Seu rosto se endureceu. Ele soltou uma pequena risada seca. 

- Voc no me ouve, Julia. 

E eu sabia que ele estava certo. Naquela noite horrvel, quando sua voz ficou 

rouca. Quando ele expressou seu maior medo, o de envelhecer. Quando eu percebi quanto 

ele estava frgil. Muito mais frgil do que eu jamais havia imaginado. E eu desviara o olhar. 

Aquilo havia me perturbado, me incomodado. E ele sentiu. Ele no ousara me dizer como 

isso o fizera se sentir mal. 

Sentada ao lado dele, segurando sua mo, eu nada disse. A ironia da situao 

comeou a se manifestar em mim. Um marido deprimido. Um casamento falindo. Um beb 

a caminho. 

- Por que no samos para comer um pouco, no Select ou no Rotonde? - sugeri 

carinhosamente. - Podemos conversar para tentar resolver tudo isso. 

Ele se ergueu. 

- Talvez outra hora. Agora estou cansado. 

Ocorreu-me que ele andava cansado com bastante freqncia nos ltimos meses. 

Cansado demais para ir ao cinema, cansado demais para ir correr no Jardim de 

Luxemburgo, cansado demais para levar Zo a Versalhes numa tarde de domingo. 

Cansado demais para fazer amor. Fazer amor... Quando fora a ltima vez? H semanas. Eu 

o observei se mover com dificuldade ao atravessar a sala com um caminhar pesado. Ele 

havia engordado. Eu tambm no havia percebido isso. Bertrand tinha tanto cuidado com 

sua aparncia! "Voc anda to envolvida com seu trabalho, seus amigos, sua filha, que 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 174 



voc nem percebeu... Voc no me ouve, Julia." Senti a vergonha me invadir. Eu no 

precisava encarar a verdade? Bertrand no vinha sendo parte da minha vida nas ltimas 

semanas, mesmo que dividssemos a mesma cama e morssemos sob o mesmo teto. Eu 

no contei a ele sobre Sarah Starzynski. Sobre meu novo relacionamento com Edouard. Eu 

no havia deixado Bertrand fora de tudo o que era importante para mim? Eu o havia 

cortado de minha vida, e a ironia era que eu estava carregando um filho dele. 

Da cozinha, eu o ouvi abrir a geladeira. Percebi o rudo do papel-alumnio. Ele 

voltou para a sala com uma coxa de galinha em uma das mos e o papel-alumnio na 

outra. 

- S uma coisa, Julia. 

- Sim? - Quando eu lhe disse que no conseguiria encarar ter essa criana, eu falei 

srio. Voc tomou sua deciso. Tudo bem. Eu preciso de tempo para mim mesmo. Preciso 

de umas frias. Voc e Zo iro se mudar para a rue de Saintonge depois do vero. Eu vou 

procurar outro lugar para morar nas proximidades. Depois veremos como ficam as coisas. 

Talvez mais tarde eu consiga aceitar essa gravidez. Se eu no conseguir, ns iremos nos 

divorciar. 

No fiquei surpresa. Eu j estava esperando por isso. Levantei-me, alisei meu 

vestido e disse calmamente: - A nica coisa que importa agora  Zo. O que quer que 

acontea, temos que conversar com ela, voc e eu. Temos que prepar-la e fazer a coisa 

do jeito certo. 

Ele colocou a coxa de galinha de volta no papel-alumnio. 

- Por que voc  to difcil, Julia? - ele disse. No havia sarcasmo em seu tom. 

Somente amargura. - Voc soa exatamente como sua irm. 

Sa da sala sem responder. Fui ao banheiro e abri a torneira. Ento, a ficha caiu: eu 

no fiz minha escolha? Escolhi o beb em vez de Bertrand. Eu no me comovi com seu 

ponto de vista, seus medos interiores, eu no fiquei com medo de ele se mudar por alguns 

meses - ou definitivamente. Bertrand no podia desaparecer. Ele era o pai da minha filha e 

da criana dentro de mim. Ele nunca poderia sair completamente de nossas vidas. 

Mas enquanto eu me olhava no espelho, com o vapor lentamente preenchendo o 

banheiro, apagando meu reflexo com seu bafo enevoado, senti que tudo havia mudado 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 175 



drasticamente. Eu ainda amava Bertrand? Eu ainda precisava dele? Como eu podia querer 

essa criana, mas no ele? Eu quis chorar, mas as lgrimas no desceram. 



EU AINDA ESTAVA NO BANHO quando ele entrou. Segurava o arquivo vermelho 

sobre Sarah que eu havia deixado em minha bolsa. 

- O que  isso? - ele disse, sacudindo o arquivo. Sobressaltada, eu me movi 

abruptamente, fazendo com que a gua transbordasse por um dos lados da banheira. Seu 

rosto estava confuso, afogueado. Ele prontamente se sentou sobre a privada fechada. Em 

outros tempos, eu teria rido s gargalhadas da comicidade de sua posio. 

- Deixe-me explicar - comecei. Ele ergueu a mo. 

- Voc no consegue evitar, no ? Voc no consegue deixar o passado em paz. 

Ele examinou o arquivo rapidamente, folheou algumas cartas de Jules Dufaure 

para Andr Tzac, examinou as fotografias de Sarah. 

- O que  isso tudo? Quem deu isso a voc? - Seu pai - respondi baixinho. Ele me 

encarou. 

- O que meu pai tem a ver com tudo isso? Sa da banheira, apanhei uma toalha e 

virei de costas para ele enquanto me enxugava. Por alguma razo eu no queria os olhos 

dele sobre a minha pele nua. 

-  uma longa histria, Bertrand. 

- Por que voc teve que trazer tudo isso  tona? Essas coisas aconteceram h 

sessenta anos! Est tudo morto, tudo esquecido. 

Eu me virei para encar-lo. 

- No, no est. H sessenta anos algo aconteceu  sua famlia. Algo que voc no 

sabe. Voc e suas irms no sabem de nada. Nem Mame. 

Ele ficou boquiaberto. Parecia aturdido. 

- O que aconteceu? Diga! - ele exigiu. 

Apanhei o arquivo das mos dele com um gesto rpido, segurando-o contra o 

meu corpo. 

- Agora voc me diga o que estava fazendo, examinando minha bolsa. 

Parecamos moleques brigando na hora do recreio. Ele revirou os olhos. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 176 



- Eu vi o arquivo na sua bolsa. Eu me perguntei o que seria. S isso. 

- Muitas vezes tenho arquivos em minha bolsa. Voc nunca os examinou antes. 

- Essa no  a questo. Diga do que se trata isso tudo. Diga imediatamente. 

Sacudi a cabea. 

- Bertrand, ligue para seu pai. Diga a ele que voc achou o arquivo. Pergunte a ele. 

- Voc no confia em mim,  isso? Seu rosto ficou abatido. De repente, senti pena 

dele. Ele parecia magoado, incrdulo. 

- Seu pai me pediu para no lhe contar - eu disse delicadamente. 

Bertrand se levantou do assento da privada como se estivesse exausto e estendeu 

a mo para a maaneta da porta. Ele parecia derrotado, esgotado. 

Ele recuou um passo para acariciar meu rosto suavemente. Seus dedos estavam 

quentes de encontro  minha face. 

- Julia, o que aconteceu conosco? Para onde foi tudo? Ele saiu do banheiro. 

As lgrimas desceram, e eu as deixei escorrer pelo meu rosto. Ele me ouviu 

soluando, mas no voltou. 



NO VERO DE 2002, sabendo que Sarah Starzynski havia sado de Paris h 

cinqenta anos a caminho da cidade de Nova York, eu me senti impelida a atravessar o 

Atlntico novamente como uma pea de ao atrada por um poderoso m. Eu mal podia 

esperar para sair da cidade. Mal podia esperar para ver Zo e procurar Richard J. Rainsferd. 

Mal podia esperar para embarcar naquele avio. 

Eu me perguntava se Bertrand havia ligado para seu pai para descobrir o que 

acontecera no apartamento da rue de Saintonge muitos anos antes. Bertrand nada disse a 

respeito. Ele continuava cordial, mas indiferente. Eu sentia que ele tambm estava 

impaciente para que eu fosse logo embora. Para que ele pensasse em tudo? Para ver 

Amlie? Eu no sabia e no me importava. Eu disse a mim mesma que no me importava. 

Algumas horas antes de minha partida para Nova York, liguei para meu sogro para 

me despedir. Ele no mencionou ter conversado com Bertrand e eu no lhe perguntei. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 177 



- Por que Sarah parou de escrever para os Dufaure? - perguntou Edouard. - O que 

voc acha que aconteceu, Julia? - Eu no sei, Edouard. Mas eu vou fazer o melhor que 

puder para descobrir. 

Essas mesmas perguntas me assombravam dia e noite. Quando embarquei no 

avio, algumas horas mais tarde, eu ainda estava me perguntando a mesma coisa. 

Sarah Starzynski ainda estaria viva? 



MINHA IRM, COM SEUS brilhantes cabelos castanhos, suas covinhas, seus 

lindos olhos azuis. Sua compleio forte e atltica, to parecida com a de nossa me. Les 

soeurs Jarmond. Mais altas do que todas as mulheres da famlia Tzac. Os sorrisos 

enigmticos, alegres. Uma pontada de inveja. Por que vocs amricaines so to altas?  

alguma coisa na comida, vitaminas, hormnios? Charla era ainda mais alta do que eu. Duas 

gravidezes no fizeram nada alm de adicionar uma espcie de acolchoado  sua silhueta 

poderosa e elegante. 

No instante em que viu meu rosto no aeroporto, Charla soube que eu tinha algo 

na cabea, e que no tinha nada a ver com o beb que eu decidira ter, ou com minhas 

dificuldades matrimoniais. Ao entrarmos de carro na cidade, seu telefone celular tocava 

incessantemente. Sua assistente, seu chefe, seus clientes, seus filhos, a bab. Ben, seu ex-

marido de Long Island. Barry, seu marido atual em viagem de negcios a Atlanta - as 

ligaes pareciam no ter fim. Eu estava to feliz por v-la que no me importei. Apenas o 

fato de estar perto dela, com nossos ombros se roando, fazia com que eu me sentisse 

feliz. 

Quando estvamos sozinhas no estreito prdio com fachada de arenito na East 

81st Street, em sua impecvel cozinha cromada, e depois de ela se servir de vinho branco e 

oferecer suco de ma para mim (por causa da minha gravidez), a histria toda saiu. Charla 

sabia pouco sobre a Frana. Ela no falava muito francs, sendo espanhol a nica lngua 

alm do ingls em que ela era fluente. A Frana ocupada significava pouco para ela. 

Sentou-se em silncio enquanto expliquei sobre a batida policial, os campos, os trens para 

a Polnia. Paris em julho de 1942. O apartamento da rue de Saintonge. Sarah e Michel, seu 

irmo. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 178 



Observei seu rosto adorvel empalidecer de horror. O copo de vinho branco 

permanecia intacto. Ela apertava os lbios com fora contra a boca e balanava a cabea. 

Fui direto para o fim da histria, para o ltimo carto de Sarah, datado de 1955, da cidade 

de Nova York. Ento ela disse: - Ai, meu Deus. - Tomou um pequeno gole do vinho. - 

Voc veio aqui para encontr-la, no foi? Concordei com um movimento de cabea. 

- Mas como voc vai comear? - O nome que eu mencionei pelo telefone, lembra? 

Richard J. Rainsferd. Esse  o nome do marido dela. 

- Rainsferd? - ela disse. Eu soletrei. 

Charla se levantou agilmente e pegou o telefone sem fio. 

- O que voc est fazendo? - perguntei. 

Ela ergueu a mo, fazendo um gesto para que eu ficasse em silncio. 

- Ol, telefonista, estou procurando um homem chamado Richard J. Rainsferd. 

Estado de Nova York. Isso mesmo, RA.I.N.S.EE.RD. Nada? Est bem, pode verificar Nova 

Jersey por favor? Nada... Connec-ticut?... timo. Sim, obrigada. S um minuto. 

Ela escreveu algo em um pedao de papel. Depois, entregou-me com um floreio. 

- Ns a encontramos - ela disse triunfalmente. Incrdula, eu li o nmero e o 

endereo. 

Sr. e sra. RJ. Rainsferd, 2.299 Shepaug Drive, Roxbury, Connecticut. 

- No  possvel que sejam eles - murmurei. - No pode ser to fcil. 

- Roxbury - Charla refletiu. - No fica no municpio de Litchfield? Eu tive um 

namorado l. Voc j tinha ido embora nessa poca. Greg Tanner. Um gato. O pai dele era 

mdico.  um lugar bonito, Roxbury. A cerca de 160 quilmetros de Manhattan. 

Fiquei sentada no meu banquinho alto, perplexa. Eu simplesmente no conseguia 

acreditar que encontrar Sarah Starzynski tinha sido to fcil, to imediato. Eu mal tinha 

aterrissado. Ainda nem tinha falado com minha filha. E eu j tinha localizado Sarah. Ela 

ainda estava viva. Parecia impossvel, irreal. 

- Escute - eu disse - como podemos saber se  mesmo ela? Charla estava sentada 

 mesa, ocupada, usando o laptop. Ela vasculhou a bolsa em busca dos culos e os 

posicionou sobre o nariz. 

- Vamos descobrir agora mesmo. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 179 



Eu me coloquei atrs dela enquanto seus dedos corriam habilmente sobre o 

teclado. 

- O que voc est fazendo agora? - perguntei, confusa. 

- Agenta as pontas - ela me interrompeu de modo brusco, digitando 

vigorosamente. Sobre seu ombro, vi que ela j estava na internet. 

A tela dizia: "Bem-vindo a Roxbury, Connecticut. Eventos, reunies sociais, pessoas, 

imveis." - Perfeito. Exatamente o que estamos precisando - disse Charla, estudando a 

tela. Depois, ela delicadamente retirou o pedao de papel de meus dedos, pegou o 

telefone novamente e digitou o nmero que estava no papel. 

Estava indo tudo rpido demais. Eu estava ficando apavorada. 

- Charla! Espere! Mas o que  que voc vai dizer, pelo amor de Deus?! Ela tampou 

o fone com a palma da mo. Os olhos azuis ficaram indignados por cima dos aros dos 

culos. 

- Voc confia em mim, no confia? Ela usou a voz da advogada poderosa, no 

controle da situao. Pude apenas concordar com a cabea. Eu me sentia desamparada, 

em pnico. Levantei-me, andei pela cozinha mexendo nos eletrodomsticos, nas 

superfcies lisas. 

Quando a olhei novamente, ela sorriu. 

- Talvez voc deva tomar um pouco de vinho, afinal de contas. E no se preocupe 

com a identificao da chamada, o prefixo 212 no aparece. 

De repente ela levantou um dos dedos e apontou para o telefone. 

- Sim, oi, boa noite, quem est falando ... a... sra. Rainsferd? Eu no consegui 

evitar um sorriso diante do tom anasalado. Ela sempre foi tima em disfarar a voz. 

- Ah, desculpe... Ela saiu? A sra. Rainsferd havia sado. Ento realmente havia uma 

sra. Rainsferd. Continuei ouvindo, incrdula. 

- Sim... aqui  Sharon Burstall da Biblioteca Minor Memorial na South Street. Eu 

estava imaginando se vocs estariam interessados em vir  nossa primeira reunio de 

vero, que est marcada para o dia 2 de agosto... Ah, entendo. Ah, sinto muito, senhora. 

Humm. Sim. Realmente sinto muito pelo incmodo, senhora. Obrigada. Adeus. 

Ela desligou o telefone e me lanou um sorriso de satisfao consigo mesma. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 180 



- E ento? - perguntei, ofegante. 

- A mulher com quem falei  a enfermeira de Richard Rainsferd. Ele est preso ao 

leito. Precisa de tratamento intensivo. Ela vai l todas as tardes. 

- E a senhora Rainsferd? - indaguei com impacincia. 

- Volta a qualquer minuto. 

Olhei para Charla inexpressivamente. 

- E ento, o que fao? - eu perguntei. - Simplesmente apareo l? Minha irm riu. 

- Voc tem alguma outra idia? 



L ESTAVA. NMERO 2.299 da Shepaug Drive. Desliguei o motor e fiquei no 

carro, com as mos frias e midas pousadas sobre os joelhos. 

De onde eu estava, conseguia ver a casa, alm dos pilares gmeos de pedra cinza 

do porto. Era uma construo baixa e larga, em estilo colonial, provavelmente construda 

no fim dos anos 30, eu imaginei. Menos impressionante do que as propriedades 

milionrias que eu vira no caminho, mas harmoniosa e de bom gosto. 

Dirigindo pela estrada 67, fui atingida em cheio pela beleza rural e intocada do 

condado de Litchfield: montes ondulados, rios cintilantes, vegetao luxuriante, mesmo 

durante a exploso do vero. Eu havia esquecido como a Nova Inglaterra podia ser quente. 

Apesar do poderoso ar-condicionado, eu transpirava. Desejei ter trazido uma garrafa de 

gua mineral comigo. Minha garganta estava ressecada. 

Charla havia mencionado que os habitantes de Roxbury tinham alto poder 

aquisitivo. Roxbury era um daqueles lugares especiais: chique, com um sabor artstico dos 

velhos tempos, e de que ningum nunca se cansava, ela explicou. Artistas, escritores, 

estrelas de cinema: aparentemente havia muitos deles por l. Eu me perguntei o que 

Richard Rainsferd fazia para viver. Ser que ele sempre teve casa aqui? Ou ele e Sarah 

haviam sado de Manhattan? E filhos? Quantos filhos eles teriam? Espiei atravs do pra-

brisa para o exterior de madeira da casa e contei o nmero de janelas. Supus que havia 

provavelmente dois ou trs quartos l, a menos que os fundos fossem maiores do que eu 

pensava. Filhos que talvez tivessem a minha idade. E netos. Estiquei o pescoo para ver se 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 181 



havia algum carro estacionado em frente  casa. S pude distinguir uma garagem fechada, 

separada da casa. 

Dei uma olhada no relgio. Pouco depois das duas. S levei algumas horas para ir 

de carro da cidade. Charla havia me emprestado seu Volvo, que era to impecvel quanto 

sua cozinha. De repente, desejei que ela pudesse estar comigo hoje. Mas ela no pde 

cancelar seus compromissos. 

- Vai dar tudo certo, irmzinha - ela disse, jogando as chaves do carro para mim. - 

Mantenha-me informada, est bem? Fiquei sentada no Volvo, a ansiedade crescendo com 

o calor sufocante. Mas, afinal de contas, o que eu iria dizer para Sarah Starzynski? Eu nem 

mesmo podia cham-la assim. Nem Dufaure. Ela agora era a sra. Rainsferd, ela vinha sendo 

a sra. Rainsferd durante os ltimos cinqenta anos. Sair do carro e tocar o sino de metal 

que eu podia ver logo  direita da porta da frente parecia impossvel. 

- Sim, ol, sra. Rainsferd, a senhora no me conhece, meu nome  Julia Jarmond, 

mas eu s queria conversar com a senhora sobre a rue de Saintonge e o que aconteceu, a 

famlia Tzac, e... 

Eu parecia pouco convincente, artificial. O que eu estava fazendo aqui? Por que 

vim de to longe? Eu deveria ter-lhe escrito uma carta e esperado que ela respondesse. Vir 

aqui era ridculo. Uma idia ridcula. O que eu esperava, afinal de contas? Que ela me 

recebesse de braos abertos, que me servisse uma xcara de ch e murmurasse " claro 

que eu perdo a famlia Tzac"? Loucura. Surreal. Eu vim aqui para nada. Tenho que ir 

embora, e agora mesmo. 

Eu estava prestes a recuar e ir embora quando uma voz me sobressaltou. 

- Est procurando algum? Girei sobre o assento mido para encontrar uma 

mulher bronzeada na casa dos 30 anos. Ela tinha cabelos curtos e escuros e uma silhueta 

slida. 

- Estou procurando a sra. Rainsferd, mas no tenho certeza de que estou na casa 

certa. 

A mulher sorriu. 

- Voc est na casa certa. Mas minha me saiu. Foi fazer compras, mas volta daqui 

a vinte minutos. Sou Ornella Harris. Moro na casa ao lado. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 182 



Eu estava olhando para a filha de Sarah. A filha de Sarah Starzynski. Tentei me 

manter perfeitamente calma e consegui dar um sorriso educado. 

- Sou Julia Jarmond. 

- Prazer em conhec-la - ela disse. - Posso ajud-la em alguma coisa? Quebrei a 

cabea  procura de algo para dizer. 

- Bem, eu esperava encontrar sua me. Eu deveria ter telefonado, mas eu estava 

passando por Roxbury e pensei em parar para dizer ol. 

- Voc  amiga da mame? - ela disse. 

- No exatamente. Eu conheci um de seus primos recentemente, e ele me disse 

que ela morava aqui. 

O rosto de Ornella se iluminou. 

- Ah, voc provavelmente conheceu Lorenzo! Isso foi na Europa? Tentei no 

parecer perdida. Quem poderia ser Lorenzo? - Na verdade, sim, foi em Paris. Ornella deu 

uma risadinha. 

- , ele  uma figura. Tio Lorenzo. Mame o adora. Ele no vem nos ver com muita 

freqncia, mas telefona bastante. 

Ela ergueu o queixo na minha direo. 

- Ei, voc quer entrar e tomar um ch gelado ou algo parecido? Est quente 

demais aqui fora. Assim voc pode esperar por mame. Ouviremos seu carro quando ela 

entrar. 

- Eu no quero incomodar... 

- Meus filhos esto passeando de barco no lago Lillinonah com o pai, ento por 

favor, fique  vontade! Sa do carro, sentindo-me cada vez mais nervosa, e segui Ornella 

at o ptio de uma casa vizinha no mesmo estilo da residncia dos Rainsferd. A grama 

estava coberta de brinquedos espalhados, frisbees, bonecas Barbie sem cabea e peas de 

Lego. Sentando-me sob a sombra fresca, me perguntei com que freqncia Sarah 

Starzynski vinha aqui ver seus netos brincarem. Como ela vivia na casa ao lado, 

provavelmente vinha todos os dias. 

Ornella me entregou um copo grande de ch gelado, que aceitei agradecida. 

Bebemos em silncio. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 183 



- Voc mora por aqui? - ela finalmente perguntou. 

- No, moro em Paris. Eu me casei com um francs. 

- Paris, puxa! - ela elogiou. - Lugar lindo, hein? -  verdade, mas estou muito feliz 

por estar no meu pas. Minha irm mora em Manhattan e meus pais moram em Boston. 

Vim passar o vero com eles. 

O telefone tocou e Ornella foi atender. Ela murmurou algumas palavras em voz 

baixa e voltou para o ptio. 

- Era Mildred - ela disse. 

- Mildred? - perguntei inexpressivamente. 

- A enfermeira de meu pai. 

A mulher com quem Charla conversou ontem. Que havia mencionado um senhor 

preso a uma cama. 

- Seu pai... est melhor? - perguntei hesitante. Ela sacudiu a cabea. 

- No, no est. O cncer est muito adiantado. Ele no vai sobreviver. Ele nem 

mesmo consegue falar, est inconsciente. 

- Lamento muito - murmurei. 

- Graas a Deus mame  muito forte.  ela quem est me dando fora para passar 

por tudo isso, e no o contrrio. Ela  maravilhosa. Meu marido Eric tambm. Eu no sei o 

que faria sem esses dois. 

Eu assenti. Ento ns ouvimos o rudo de rodas de carro sobre o cascalho. 

-  mame! - disse Ornella. 

Ouvi uma porta de carro bater e o rangido de passos nas pedrinhas. Ento veio 

uma voz sobre a cerca viva, suave e aguda: - Nella! Nella! Havia um sotaque estrangeiro e 

cantado em sua voz. 

- Estou indo, me. 

Meu corao pulava dentro do peito. Tive que colocar minha mo sobre o esterno 

para acalm-lo. Seguindo o vaivm dos quadris achatados de Ornella de volta sobre a 

grama, eu me senti desfalecer de excitao e agitao. 

Eu ia conhecer Sarah Starzynski. Eu ia v-la com meus prprios olhos. S Deus 

sabe o que eu iria dizer a ela. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 184 



- Mame, esta  Julia Jarmond, uma amiga do tio Lorenzo. Ela  de Paris, est s 

de passagem por Roxbury. 

A mulher sorridente que vinha na minha direo estava usando um vestido 

vermelho que chegava at os tornozelos. Ela tinha quase 60 anos. Tinha a mesma 

compleio forte da filha: ombros redondos, coxas rolias e braos grossos e generosos. 

Cabelos negros ficando grisalhos presos em um coque, pele bronzeada, curtida, e olhos 

muito negros. 

Olhos negros. 

Essa no era Sarah Starzynski. Isso eu sabia. 



ENTO VOC AMIGA DO LORENZO, si? Prazer em conhec-la! O sotaque era 

bem italiano. No havia dvidas quanto a isso. Tudo naquela mulher era italiano. Fiquei 

tmida, gaguejando bastante. 

- Sinto muito, sinto muitssimo. 

Ornella e sua me me olharam fixamente. Seus sorrisos ficaram em suspenso e 

desapareceram. 

- Acho que encontrei a sra. Rainsferd errada. 

- A sra. Rainsferd errada? - repetiu Ornella. 

- Estou procurando Sarah Rainsferd - eu disse. - Acho que cometi um erro. 

A me de Ornella suspirou e afagou meu brao. 

- Por favor, no se preocupe. Essas coisas acontecem. 

- Estou indo embora agora - murmurei, com meu rosto pegando fogo. - Sinto 

muito por ter desperdiado seu tempo. 

Eu me virei e comecei a ir em direo ao carro, tremendo de vergonha e decepo. 

- Espere! - Veio a voz clara da sra. Rainsferd. - Senhorita, espere! Parei. Ela veio at 

mim e pousou sua mo rolia sobre meu ombro. 

- Olhe, voc no fez erro nenhum, senhorita. Franzi a sobrancelha. 

- Como assim? - A moa francesa, Sarah, era a primeira esposa de meu marido. 

Eu a encarei. 

- Voc sabe onde ela est? - murmurei. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 185 



A mo rolia me afagou novamente. Os olhos negros pareciam tristes. 

- Querida, ela est morta. Morreu, 1972. Sinto muito por lhe dizer isso. Suas 

palavras levaram sculos para penetrar em minha mente. Minha cabea estava rodando. 

Talvez fosse o calor, o sol me martelando. 

- Nella! Traga um pouco d'gua! A sra. Rainsferd pegou meu brao, me levou de 

volta  varanda e ajudou-me a me sentar em um banco de madeira almofadado. Ela me 

deu um pouco d'gua. Bebi, com os dentes fazendo rudo contra a borda do copo, e o 

entreguei a ela depois de terminar. 

- Sinto tanto por lhe dar essas notcias, acredite. 

- Como ela morreu? - perguntei em voz baixa. 

- Acidente de carro. Richard e ela j estavam morando em Roxbury desde o incio 

dos anos 60. O carro de Sarah derrapou no gelo no asfalto. Bateu contra uma rvore. As 

estradas muito perigosas aqui no inverno, sabe? Ela morta instantaneamente. 

Eu no conseguia falar. Me sentia absolutamente desolada. 

- Voc chateada, pobre querida, agora - ela murmurou, acariciando minha face 

com um gesto fortemente maternal. 

Sacudi minha cabea e murmurei algo. Eu me sentia esgotada, extenuada. Uma 

concha vazia. A idia do longo percurso de carro de volta a Nova York me fazia querer 

gritar. E depois... O que eu iria dizer a Edouard, a Gaspard? Como? Que ela estava morta? 

Simples assim? Que no havia mais nada a fazer? Ela estava morta. Ela morrera aos 40 

anos de idade. Ela se fora. Morta. Fim. 

Sarah estava morta. Eu nunca conseguiria falar com ela. Eu jamais poderia pedir 

desculpas a ela, pedir desculpas por Edouard, dizer a ela quanto a famlia Tzac se 

importava. Eu jamais poderia dizer a ela que Gaspard e Nicolas Dufaure sentiam saudades 

dela, que eles mandavam lembranas. Era tarde demais. Trinta anos de atraso. 

- Eu nunca a conheci, sabe - a sra. Rainsferd continuou. - S conheci Richard 

alguns anos mais tarde. Ele um homem triste. E o menino... 

Levantei a cabea, prestando total ateno. 

- Menino? - Sim, William. Voc conhece William? - Filho de Sarah? - Sim, filho de 

Sarah. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 186 



- Meu meio-irmo - disse Ornella. 

A esperana comeou a se manifestar novamente. 

- No, eu no o conheo. Conte-me sobre ele. 

- Pobre bambino, ele s 12 anos quando me morre, sabe? Um menino com o 

corao partido. Eu o criei como meu. Eu dei a ele amor pela Itlia. Casou moa italiana de 

meu vilarejo natal. 

Ela sorria com orgulho. 

- Ele mora em Roxbury? - perguntei. Ela sorriu, afagou minha face novamente. 

- Mamma mia, no. William mora na Itlia. Ele saiu de Roxbury em 1980, com 20 

anos. Casou com Francesca em 1985. Tem duas meninas adorveis. Volta para ver seu pai 

de vez em quando, e eu e Nella, mas no muitas vezes. Ele odeia este lugar. Lembra a 

morte da me dele. 

Eu me senti muito melhor, de repente. Estava menos calor, menos abafado. 

Descobri que conseguia respirar melhor. 

- Sra. Rainsferd - comecei. 

- Por favor - ela disse. - Pode me chamar de Mara. 

- Mara - concordei. - Preciso falar com William. Preciso encontr-lo.  muito 

importante. A senhora poderia me dar o endereo dele na Itlia? 



A LIGAO ESTAVA RUIM e

eu quase no conseguia ouvir a voz de Joshua. 

- Voc precisa de um adiantamento? - ele disse. - No meio do vero? - Preciso! - 

gritei, espantada diante da descrena em sua voz. 

- Quanto? Eu disse a ele. 

- E a, o que est acontecendo, Julia? O garanho do seu marido virou po-duro 

ou o qu? Eu suspirei impacientemente. 

- Voc vai me dar ou no, Joshua?  importante. 

-  claro que eu vou dar - ele disse rispidamente. -  a primeira vez em muitos 

anos que voc me pede dinheiro. Espero que no esteja com problemas. 

- No estou com problemas. Apenas preciso viajar. S isso. E preciso viajar 

depressa. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 187 



- Ah - ele disse, e eu podia sentir sua curiosidade aumentando. - E para onde voc 

vai? - Vou levar minha filha para a Toscana. Eu explico melhor em outra ocasio. 

Meu tom foi claro e determinado. Ele provavelmente sentiu que era intil tentar 

arrancar mais alguma coisa de mim. De Paris, eu podia sentir sua contrariedade pulsar. O 

adiantamento estaria em minha conta no fim daquela tarde, ele disse laconicamente. 

Agradeci e desliguei. 

Depois, coloquei minhas mos sob o queixo e pensei. Se eu dissesse a Bertrand o 

que estava fazendo, ele faria uma cena. Iria tornar as coisas complicadas, difceis. Eu no 

agentaria. Eu poderia contar a Edou-ard... No, era muito cedo. Cedo demais. Tinha que 

conversar com William Rainsferd primeiro. Eu j tinha o endereo dele e seria fcil localiz-

lo. Conversar com ele era outra questo. 

E havia Zo. Como ela iria reagir com suas travessuras em Long Island sendo 

interrompidas? E no ir a Nahant, para a casa dos avs? Isso me preocupou no incio. De 

alguma forma eu no pensava que ela iria se importar. Ela nunca tinha estado na Itlia. E 

eu poderia faz-la participar do segredo. Eu poderia dizer a verdade a ela, dizer que 

estvamos indo conhecer o filho de Sarah Starzynski. 

E depois, havia meus pais. O que eu poderia dizer a eles? Como eu comearia? Eles 

tambm estavam esperando por mim em Nahant depois da estadia em Long Island. O que 

eu iria dizer a eles? - E - disse Charla lentamente, mais tarde, quando expliquei tudo isso a 

ela - voc acha que est certo correr para a Toscana com Zo, encontrar esse cara e 

simplesmente pedir desculpas sessenta anos depois? Hesitei diante da ironia na voz dela. 

- Bem, por que no? - perguntei. 

Ela suspirou. Estvamos sentadas na grande sala da frente que ela usava como 

escritrio no segundo andar da casa. Seu marido iria chegar mais tarde naquela noite. O 

jantar estava esperando na cozinha. Ns o tnhamos preparado juntas mais cedo. Charla 

adorava cores brilhantes, assim como Zo. A sala era uma mistura de verde-pistache, 

vermelho-rubi e laranja vivo. A primeira vez que entrei l, minha cabea comeou a latejar, 

mas eu me acostumei a elas e secretamente achava tudo intensamente extico. Eu sempre 

tive inclinao por cores neutras e suaves como marrom, bege, branco ou cinza, mesmo no 

meu guarda-roupa. Charla e Zo preferiam exagerar em tudo o que era de cor viva, mas 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 188 



ambas sabiam resolver a questo lindamente. Eu tanto invejava quanto admirava a audcia 

delas. 

- Pare de ser a irm mais velha mandona. Voc est grvida, no se esquea disso. 

No sei se fazer essas viagens todas  a coisa certa neste momento. 

Eu no disse nada. Ela tinha certa razo. Levantou-se e foi colocar um velho disco 

de Carly Simon para tocar. "You're So Vain", com Mick Jagger choramingando nos vocais. 

Ento, ela se virou e me encarou. 

- Voc tem mesmo que encontrar esse homem agora, neste minuto? Quero dizer, 

isso no pode esperar? Mais uma vez, ela tinha razo. Devolvi o olhar. 

- Charla, no  to simples. E no pode esperar. No, no consigo explicar.  

importante demais. E a coisa mais importante da minha vida neste momento. Alm do 

beb. 

Ela suspirou novamente. 

- Essa msica da Carly Simon sempre me lembra o seu marido. "Youre so vain, 

betcha think this song is aboutyou... " Soltei uma risada irnica. 

- O que voc vai dizer para o papai e a mame? - ela perguntou. - Sobre no ir



para Nahant? E sobre o beb? - S Deus sabe. 

- Pense nisso, ento. Pense nisso com cuidado. 

- J pensei. Estou pensando. 

Ela veio por trs de mim e esfregou meus ombros. 

- Isso significa que voc j tem tudo organizado? - J. 

- Rapidinha, hein! Suas mos me provocaram uma sensao gostosa nos ombros, 

fazendo com que eu me sentisse sonolenta e aquecida. Olhei em torno da colorida sala de 

trabalho de Charla, a mesa coberta de arquivos e livros, as cortinas leves cor de rubi se 

movendo ao sabor da brisa suave. A casa estava silenciosa sem os filhos de Charla. 

- E onde esse cara mora? - ela perguntou. 

- Ele tem um nome. William Rainsferd. Mora em Lucca. 

- Onde  isso? - Uma cidadezinha entre Florena e Pisa. 

- O que ele faz para viver? Nota de rodap: "Voc  to vaidoso, aposto que pensa 

que essa cano  sobre voc." (N. da E.) Fim da nota de rodap. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 189 



- Eu pesquisei sobre ele na internet, mas sua madrasta me disse de qualquer 

maneira.  crtico de gastronomia. A mulher dele  escultora. Eles tm dois filhos. 

- E quantos anos tem William Rainsferd? - Voc parece uma policial. Ele nasceu 

em 1959. 

- E voc vai simplesmente entrar na vida desse homem e virar tudo de cabea para 

baixo. 

Afastei as mos dela, exasperada. 

- Claro que no! Eu s quero que ele conhea o nosso lado da histria. Eu quero 

ter certeza de que ele saiba que ningum esqueceu o que aconteceu. 

Um sorriso irnico. 

- Ele provavelmente tambm no esqueceu. A me dele carregou tudo com ela 

durante toda a vida. Talvez ele no queira ser lembrado. 

Uma porta bateu no andar de baixo. 

- Algum em casa? A linda mulher e sua irm de Paris? O som surdo de passos 

subindo as escadas. 

Barry, meu cunhado. O rosto de Charla se iluminou. To apaixonada!, pensei. Eu 

me senti feliz por ela. Depois de um divrcio doloroso e cansativo, ela estava 

verdadeiramente feliz de novo. 

Ao v-los se beijarem, pensei em Bertrand. O que iria acontecer com nosso 

casamento? Que direo tomaria? Nosso casamento voltaria a ser o que era? Afastei tudo 

isso de minha mente enquanto seguia Charla e Barry at o primeiro andar. 

Mais tarde, na cama, as palavras de Charla sobre William Rainsferd voltaram  

minha mente. "Talvez ele no queira ser lembrado." Eu me virei e me debati durante a 

maior parte da noite. Na manh seguinte, eu disse a mim mesma que iria descobrir em 

breve se William Rainsferd tinha algum problema em falar sobre sua me e seu passado. 

Eu iria v-lo, afinal de contas. Iria conversar com ele. Dentro de dois dias, Zo e eu 

partiramos do JFK e viajaramos para Paris, e depois seguiramos para Florena. 

William Rainsferd sempre passava as frias de vero em Lucca. Mara havia me dito 

isso ao me dar o endereo dele. E Mara telefonou-lhe para dizer que eu estava procurando 

por ele. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 190 



William Rainsferd estava ciente de que uma tal Julia Jarmond iria ligar para ele. 

Isso era tudo o que ele sabia. 



O CALOR DA TOSCANA NADA tinha a ver com o calor da Nova Inglaterra. Era 

absurdamente seco, isento de qualquer vestgio de unidade. Saindo do aeroporto de 

Peretola de Florena com Zo a reboque, o calor era to devastador que pensei que iria 

murchar imediatamente, desidratada. Eu ficava culpando a gravidez por tudo, tentando me 

consolar, dizendo a mim mesma que normalmente no me sentia assim esgotada, 

ressecada. O jet lag tambm no ajudava. O sol parecia me morder, comendo minha pele e 

meus olhos apesar do chapu de palha e dos culos escuros. 

Eu havia alugado um carro, um Fiat de aparncia modesta, que estava esperando 

por ns no meio de um estacionamento banhado pelo sol. O ar-condicionado era mais do 

que brando. Ao dar marcha a r, me perguntei repentinamente se iria conseguir fazer o 

percurso de 45 minutos at Lucca. Eu necessitava de um quarto fresco, sem sol, sentindo 

compulso por dormir em lenis leves e macios. A energia de Zo me impulsionava. Ela 

no parava de falar, apontava para a cor do cu - um azul profundo, sem nuvens - os 

ciprestes beirando a estrada, as oliveiras plantadas em pequenas fileiras, as velhas casas 

em runas avistadas a distncia, empoleiradas nos cumes dos montes. 

- Agora vem Montecatini - ela dizia com a voz aguda, sabendo de tudo, 

apontando e lendo de um guia - famosa por seu luxuoso spa e por seu vinho. 

Enquanto eu dirigia, Zo lia em voz alta sobre Lucca. Era uma das raras cidades 

toscanas a manterem suas famosas muralhas medievais circundando um centro intacto 

onde poucos carros podiam entrar. Havia muita coisa a ser vista, Zo continuou: a catedral, 

a igreja de San Miche-le, a torre Guinigui, o museu Puccini, o Palazzo Mansi... Eu sorria 

para ela, divertida com sua animao. Ela me olhou de volta. 

- Acho que no vamos ter muito tempo para fazer turismo - ela sorriu. - Temos 

trabalho a fazer, no , mame? - Temos mesmo - concordei. 

Zo j havia encontrado o endereo de William Rainsferd no seu mapa local de 

Lucca. No era longe da via Fillungo, a artria principal da cidade, uma grande rua de 

pedestres onde eu havia reservado quartos na Casa Giovanna, uma pequena penso. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 191 



Ao nos aproximarmos de Lucca e do confuso labirinto de estradas que a 

margeiam, descobri que eu tinha que me concentrar nos estranhos mtodos de direo 

dos carros  minha volta, que ficavam arrancando, parando ou virando sem qualquer tipo 

de sinalizao. Definitivamente piores do que os parisienses, decidi, comeando a me 

sentir perturbada e irritada. Tambm havia um lento puxo na parte inferior de minha 

barriga de que eu no gostei, que parecia estranhamente com a sensao de que minha 

menstruao estava para chegar. Algo que eu havia comido no avio e que no me caiu 

bem? Ou algo pior? Senti a apreenso palpitando dentro de mim. 

Charla estava certa. Era loucura vir aqui neste estado. Eu ainda no tinha chegado 

aos trs meses de gravidez e poderia ter esperado. William Rainsferd poderia ter esperado 

mais seis meses por minha visita. 

Mas ento olhei para o rosto de Zo. Estava lindo, iluminado de alegria e 

animao. Ela ainda no sabia nada sobre a minha separao de Bertrand. Ainda estava 

inocente, preservada de todos os nossos planos. Esse seria um vero que ela jamais 

esqueceria. 

Ao dirigir o Fiat para um dos estacionamentos grtis perto das muralhas da cidade, 

eu soube que queria fazer com que essa parte fosse para ela to maravilhosa quanto 

possvel. 

Eu DISSE A Zo que precisava colocar os ps para cima durante algum tempo. 

Enquanto ela batia papo no saguo com a amvel Giovanna, uma mulher de aparncia 

saudvel e de voz quente, tomei um banho frio e me deitei na cama. A dor no meu baixo-

ventre diminuiu aos poucos. 

Nossos quartos contguos eram pequenos, em um dos ltimos andares do prdio 

antigo e alto, mas perfeitamente confortvel. Fiquei pensando na voz de minha me 

quando liguei para ela do apartamento de Charla para dizer que eu no ia para Nahant, 

que eu iria levar Zo de volta para a Europa. Eu sabia, por causa das breves pausas e do 

modo como pigarreou, que ela estava preocupada. Finalmente, ela me perguntou se 

estava tudo bem. Respondi alegremente que estava tudo bem, que eu tinha uma 

oportunidade de visitar Florena com Zo e que depois voltaria para os Estados Unidos 

para estar com ela e papai. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 192 



- Mas voc mal chegou! E por que ir embora quando voc ficou com Charla 

apenas alguns dias? - ela protestou. - E por que interromper as frias de Zo aqui? Eu 

simplesmente no entendo. E voc estava dizendo quanto sentia saudades dos Estados 

Unidos. Isso tudo est me parecendo to apressado! Senti-me culpada. Mas como eu 

poderia explicar a histria toda para ela e papai pelo telefone? Um dia, pensei. No agora. 

Eu ainda me sentia culpada, deitada sobre a colcha rosa-claro que recendia levemente a 

lavanda. Eu nem tinha contado ainda para mame sobre a gravidez. E nem para Zo. Eu 

desejava contar o segredo a eles, assim como a papai tambm. Mas algo me impedia. 

Alguma bizarra superstio, alguma apreenso profundamente enrazada em mim que eu 

jamais havia sentido antes. Nos ltimos meses, minha vida parecia ter sutilmente mudado 

de direo. 

Teria algo a ver com Sarah, com a rue de Saintonge? Ou era apenas um 

amadurecimento tardio? Eu no sabia dizer. Eu s sabia que me sentia como se tivesse 

emergido de uma neblina suave, protetora, que havia durado muito tempo. Agora meus 

sentidos estavam aguados, perspicazes. No havia neblina. No havia nada suave. Havia 

somente fatos. Encontrar esse homem. Dizer a ele que sua me jamais fora esquecida 

pelos Tzac, pelos Dufaure. 

Eu estava impaciente para v-lo. Ele estava bem aqui, nesta mesma cidade, talvez 

caminhando pelo alvoroo da via Fillungo agora, neste exato momento. De alguma forma, 

enquanto eu estava deitada em meu pequeno quarto, os sons das vozes e das risadas que 

vinham da rua estreita atravs da janela aberta, acompanhados pelo ronco ocasional de 

uma Vespa ou o som agudo da sineta de uma bicicleta, me senti prxima a Sarah, mais 

perto do que jamais estivera antes, porque eu estava prestes a conhecer o filho dela, sua 

carne, seu sangue. Isso era o mais prximo que eu jamais estaria da menininha com a 

estrela amarela. 

Simplesmente estenda a mo, pegue esse telefone e ligue para ele. Simples. Fcil. 

Ainda assim eu estava me sentindo incapaz de fazer isso. Eu olhava inerte e fixamente para 

o telefone preto e obsoleto, e suspirei de desespero e irritao. Continuei deitada, me 

sentindo uma idiota, quase envergonhada. Percebi que estava to obcecada pelo filho de 

Sarah que nem havia levado em conta a cidade de Lucca, com seu charme e sua beleza. Eu 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 193 



havia me arrastado por ela como uma sonmbula, seguindo Zo, que parecia deslizar pela 

complexidade das antigas ruas sinuosas como se ela sempre tivesse vivido aqui. Eu no 

tinha visto nada de Lucca. Nada importava para mim, exceto William Rainsferd. E eu nem 

conseguia ligar para ele. 

Zo entrou e se sentou na beira da cama. 

- Voc est bem? - ela perguntou. 

- Dei uma boa descansada - respondi. 

Ela me inspecionou, com seus olhos cor de avel percorrendo meu rosto. 

- Acho que voc deveria descansar mais um pouco, mame. Franzi as 

sobrancelhas. 

- Pareo cansada? Ela fez que sim com a cabea. 

- Apenas descanse, mame. Giovanna me deu alguma coisa para comer. Voc no 

precisa se preocupar comigo. Est tudo sob controle. 

No consegui evitar um sorriso diante de tanta seriedade. Quando chegou perto 

da porta, ela se virou. 

- Mame... 

- Sim, querida? - Papai sabe que estamos aqui? Eu ainda no havia contado a 

Bertrand sobre trazer Zo a Lucca. Ele sem dvida explodiria quando descobrisse. 

- No, querida, ele no sabe. 

Ela mexeu na maaneta da porta com os dedos. 

- Voc e papai brigaram? Era intil mentir para aqueles olhos claros e solenes. 

- Brigamos sim, querida. Papai no concorda com a minha tentativa de descobrir 

mais coisas sobre Sarah. Ele no ficaria feliz se soubesse. 

- Vov sabe. 

Eu me ergui, sobressaltada. 

- Voc falou com seu av sobre isso tudo? Ela confirmou com a cabea. 

- Falei. Ele realmente se importa com Sarah. Eu liguei para ele de Long Island e 

disse a ele que voc e eu estvamos vindo aqui para conhecer o filho dela. Eu sabia que 

voc iria ligar para ele mais cedo ou mais tarde, mas eu estava to animada que tinha que 

contar a ele. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 194 



- E o que ele disse? - perguntei, fascinada com a franqueza de minha filha. 

- Ele disse que estvamos certas em vir aqui. E que ele iria dizer isso a papai caso 

ele fizesse algum rebulio. Ele disse que voc  uma pessoa maravilhosa. 

- Edouard disse isso? - Disse. 

Sacudi a cabea, confusa e emocionada. 

- Vov disse mais uma coisa. Ele disse que voc tinha que ir com calma, que eu 

tinha que cuidar para que voc no se cansasse demais. 

Ento Edouard sabia. Ele sabia que eu estava grvida. Ele havia conversado com 

Bertrand. Foi provavelmente uma longa conversa entre pai e filho. E Bertrand, agora, 

estava ciente do que havia acontecido no apartamento da rue de Saintonge no vero de 

1942. 

A voz de Zo arrancou Edouard dos meus pensamentos. 

- Por que voc simplesmente no liga para William, mame? Por que no marca 

um horrio com ele? Eu me sentei na cama. 

- Voc est certa, meu amor. 

Peguei o pedao de papel que continha o nmero de William, escrito com a 

caligrafia de Mara, e disquei no telefone antiquado. Meu corao batia com fora. Isso era 

surreal, pensei. Aqui estava eu, ligando para o filho de Sarah. 

Ouvi alguns toques irregulares e depois o chiado de uma secretria eletrnica. 

Uma voz de mulher em italiano rpido. Desliguei rapidamente, sentindo-me ridcula. 

- Mas isso foi burrice - observou Zo. - Nunca desligue diante de uma mquina. 

Voc me disse isso milhares de vezes. 

Disquei novamente, sorrindo diante do desgosto adulto que ela estava sentindo 

com relao a mim. Desta vez eu esperei pelo bipe. E, quando eu falei, saiu tudo 

maravilhosamente bem, como se eu tivesse ensaiado durante dias. 

- Boa tarde, aqui  Julia Jarmond, estou ligando em nome da sra. Mara Rainsferd. 

Minha filha e eu estamos em Lucca, hospedadas na Casa Giovanna na via Fillungo. 

Estaremos aqui durante alguns dias. Aguardo notcias suas. Obrigada, at logo. 

Aliviada, mas tambm desapontada, recoloquei o fone no gancho preto. 

- Muito bem - disse Zo. - Agora continue descansando. Vejo voc mais tarde. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 195 



Ela deu um beijo em minha testa e saiu do quarto. 



JANTAMOS EM UM RESTAURANTEZINHO agradvel atrs do hotel, perto do 

anfiteatro - um grande crculo de casas antigas onde, sculos atrs, costumavam ser 

realizados jogos medievais. Senti-me renovada depois de descansar e apreciei o desfile 

colorido de turistas, dos habitantes de Lucca, dos vendedores de rua, das crianas, dos 

pombos. Descobri que os italianos amam as crianas. Zo era chamada de principessa 

pelos garons e pelos vendedores das lojas. Ela era bajulada, recebida com sorrisos, 

beliscavam suas orelhas, apertavam seu nariz, acariciavam seu cabelo. No incio, isso me 

deixou nervosa, mas ela se divertia, esforando-se ardorosamente em falar seu italiano 

rudimentar: "Sono francese e americana, mi chiama Zo." O calor diminura, deixando 

correntes de ar fresco em seu rastro. Entretanto, eu sabia que estaria quente e abafado em 

nossos pequenos quartos, bem acima da rua. Os italianos, como os franceses, no gostam 

de ar-condicionado. Eu no teria me importado com a rajada gelada de um ar-

condicionado  noite. 

Quando voltamos para a Casa Giovanna, entorpecidas pelo jet lag, havia um 

recado afixado em nossa porta. "Perfavore telefonare William Rainsferd." Fiquei paralisada, 

atnita. Zo soltou um gritinho. 

- Agora? - eu disse. 

- Bem, so s 15 para as nove - disse Zo. 

- Est bem - respondi, abrindo a porta com dedos trmulos. Com o fone preto 

grudado no ouvido, disquei o nmero pela terceira vez naquele dia. Secretria eletrnica, 

eu disse a Zo apenas movimentando os lbios. Fale, ela me respondeu tambm sem fazer 

qualquer som. Depois do bipe, murmurei meu nome, hesitei, e estava prestes a desligar 

quando uma voz masculina disse: - Al? Um sotaque americano. Era ele. 

- Oi - eu disse. - Aqui  Julia Jarmond. 

- Oi - ele disse. - Estou no meio do jantar. 

- Ah, sinto muito... 

- No tem problema. Voc quer se encontrar comigo amanh antes do almoo? - 

 claro - respondi. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 196 



- H um timo caf no alto das muralhas, logo depois do Palazzo Mansi. 

Poderamos nos encontrar l ao meio-dia? - Est bem - eu disse. - Hum... Como nos 

reconheceremos? Ele riu. 

- No se preocupe. Lucca  um lugar minsculo. Eu vou encontr-la. Uma pausa. 

- At logo - ele disse, e desligou. 



NA MANH SEGUINTE, a dor na minha barriga havia voltado. No era muito 

forte, mas me incomodou com uma discreta persistncia. Decidi ignor-la. Se eu ainda 

estivesse com dor depois do almoo, pediria a Giovanna para chamar um mdico. 

Caminhando para o caf, eu me perguntei como iria abordar o assunto com William. Eu 

havia parado de pensar nisso e percebia agora que no deveria t-lo feito. Iria remexer em 

lembranas tristes e dolorosas. Talvez ele no quisesse conversar sobre a me. Talvez essa 

histria fosse algo que ele tivesse deixado no passado. Ele tinha a vida dele aqui, longe de 

Roxbury, longe da rue de Saintonge. Uma vida buclica e pacata. E c estava eu trazendo 

de volta o passado. Os mortos. 

Zo e eu descobrimos que a gente na verdade podia caminhar sobre as grossas 

muralhas medievais que circundavam a pequena cidade. Elas eram altas e largas, e em seu 

topo havia uma trilha larga guarnecida por uma densa fileira de castanheiras. Ns nos 

misturamos  incessante correnteza de pessoas correndo e caminhando, ciclistas, 

patinadores, mes com os filhos, senhores conversando em voz alta, adolescentes em 

lambretas, turistas. 

O caf era um pouco mais adiante, sob a sombra de rvores frondosas. Eu me 

aproximei com Zo, sentindo-me estranhamente tola, quase entorpecida. O terrao estava 

vazio, exceto por um casal de meia-idade que tomava sorvete e alguns turistas alemes 

debruados sobre um mapa. Baixei meu chapu sobre os olhos e alisei minha saia 

amarrotada. 

Eu estava ocupada lendo o menu para Zo quando ele disse meu nome. 

- Julia Jarmond. 

Ergui os olhos e me deparei com um homem alto e forte, de quarenta e poucos 

anos. Ele se sentou em frente a Zo e a mim. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 197 



- Oi - disse Zo. 

Descobri que no conseguia falar. Eu conseguia somente encar-lo. Seu cabelo era 

louro-escuro e salpicado de cinza. Entradas na testa. Maxilar quadrado. Um lindo nariz. 

- Oi - ele disse para Zo. - Pea o tiramisu. Voc vai amar. Depois, ele levantou os 

culos escuros, empurrando-os para trs sobre a testa para coloc-los sobre a cabea. Os 

olhos da me. Oblqos e cor de turquesa. Ele sorriu. 

- Ento voc  jornalista, presumo? Baseada em Paris? Pesquisei sobre voc na 

internet. 

Eu tossi, mexendo com os dedos nervosamente no meu relgio. 

- Eu tambm pesquisei sobre voc, sabe? Foi um livro fabuloso, seu ltimo, Tuscan 

Feasts. 

William Rainsferd suspirou e deu uns tapinhas na barriga. 

- Ah, aquele livro contribuiu muito para que eu ganhasse mais 5 quilos. E nunca 

consegui me livrar deles. 

Sorri alegremente. Ia ser difcil mudar dessa conversa agradvel e tranqila para o 

que eu sabia que estava  frente. Zo olhou para mim intencionalmente. 

- Foi muito gentil da sua parte vir aqui nos encontrar... Obrigada... Minha voz 

soava perdida, pouco convincente. 

- Tudo bem - ele sorriu, estalando os dedos para chamar o garom. Pedimos 

tiramisu, uma Coca-Cola para Zo e dois cappuccinos. 

-  a sua primeira vez em Lucca? - ele perguntou. 

Assenti. O garom nos rodeava. William Rainsferd falou com ele em italiano rpido 

e fluente. Ambos riram. 

- Venho a este caf com muita freqncia - ele explicou. - Gosto de ficar aqui. 

Mesmo em um dia quente como este. 

Zo experimentou o tiramisu, com sua colher tinindo contra a ti-gelinha de vidro. 

Um repentino silncio caiu sobre ns. 

- O que posso fazer para ajud-la? - ele perguntou sorridente. - Mara mencionou 

algo sobre minha me. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 198 



Em meu ntimo, agradeci a Mara. Parecia que ela havia tornado as coisas mais 

fceis. 

- Eu no sabia que sua me havia falecido - eu disse. - Lamento. 

- Tudo bem. - Ele encolheu os ombros, colocando um torro de acar em seu 

caf. - Aconteceu h muito tempo. Eu era criana. Voc a conheceu? Parece um pouco 

jovem demais para isso. 

Sacudi a cabea. 

- No, no conheci sua me. Acontece que eu estou me mudando para o 

apartamento onde ela morava durante a guerra. Rue de Saintonge, em Paris. E eu conheo 

pessoas que eram prximas a ela.  por isso que estou aqui.  por isso que eu vim v-lo. 

Ele colocou a xcara de caf sobre a mesa e olhou para mim em silncio. Os olhos 

claros estavam calmos e pensativos. 

Sob a mesa, Zo colocou uma mo mida sobre meu joelho nu. Observei alguns 

ciclistas passarem por ns. O calor estava nos massacrando novamente. Respirei fundo. 

- No tenho certeza de como comear - titubeei. - E eu sei que deve ser difcil 

para voc ter que pensar nesse assunto novamente, mas eu senti que tinha que fazer isto. 

Os parentes de meu marido, os Tzac, conheceram sua me na rue de Saintonge, em 1942. 

Pensei que o nome Tzac poderia faz-lo lembrar-se de algo, mas ele permaneceu 

imvel. Rue de Saintonge tambm no pareceu lembr-lo de nada. 

- Depois do que aconteceu, quero dizer, os trgicos eventos de julho de 1942, e a 

morte de seu tio, eu apenas queria lhe assegurar que a famlia Tzac jamais conseguiu 

esquecer sua me. Meu sogro, especialmente, pensa nela todos os dias. 

Houve um silncio. Os olhos de William Rainsferd pareciam estar se contraindo. 

- Sinto muito - eu disse rapidamente - eu sabia que tudo isso seria doloroso para 

voc. Sinto muito. 

Quando ele finalmente falou, sua voz parecia estranha, quase sufocada. 

- O que voc quer dizer com trgicos eventos? 

- Bem, a batida policial do Vel' d'Hiv - balbuciei. - Famlias judias, presas em Paris, 

em julho de 1942.. 

- Continue - ele disse. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 199 



- E os campos... As famlias enviadas de Drancy para Auschwitz... William Rainsferd 

espalmou as mos, sacudiu a cabea. 

- Desculpe, mas eu no vejo o que isso tem a ver com a minha me. Zo e eu 

trocamos olhares desconfortveis. 

Um longo minuto se arrastou. Eu me sentia gravemente desconfortvel. 

- Voc mencionou a morte de um tio? - ele disse finalmente. 

- Sim... Michel. O irmozinho de sua me. Na rue de Saintonge. Silncio. 

- Michel? - Ele parecia perplexo. - Minha me nunca teve um irmo chamado 

Michel. E eu nunca ouvi falar da rue de Saintonge. Sabe, acho que no estamos falando 

sobre a mesma pessoa. 

- Mas o nome de sua me era Sarah, certo? - murmurei, confusa. Ele assentiu. 

- Isso mesmo. Sarah Dufaure. 

- Sim, Sarah, Dufaure,  ela - eu disse avidamente. - Ou melhor, Sarah Starzynski. 

Eu esperava que os olhos dele se iluminassem. 

- Como  que ? - ele disse, com as sobrancelhas se inclinando para baixo. - Sarah 

o qu? - Starzynski. O nome de solteira de sua me. 

William Rainsferd me olhou fixamente, erguendo o queixo. 

- O nome de solteira de minha me era Dufaure. 

Um sinal de alerta disparou em minha cabea. Havia algo errado. Ele no sabia. 

Ainda havia tempo para ir embora, tempo para sair antes que eu destrusse a paz 

da vida desse homem. 

Colei um sorriso jovial em meu rosto, murmurei algo sobre um engano e arrastei 

minha cadeira para trs alguns centmetros, instando Zo carinhosamente a deixar sua 

sobremesa. Eu no iria mais desperdiar o tempo dele. Eu lamentava muitssimo. Levantei-

me de minha cadeira. Ele tambm se levantou. 

- Acho que estamos falando da Sarah errada - ele disse, sorrindo. - No importa, 

aproveite sua estada em Lucca. Foi bom conhec-la, de qualquer forma. 

Antes que eu pudesse emitir qualquer som, Zo colocou sua mo em minha bolsa 

e entregou algo a ele. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 200 



William Rainsferd baixou os olhos para a fotografia da menininha com a estrela 

amarela. 

- Essa  sua me? - Zo perguntou baixinho. 

Parecia que tudo havia ficado silencioso  nossa volta. Nenhum rudo vinha da rua 

movimentada. Mesmo os pssaros pareciam ter parado de gorjear. Havia somente o calor. 

E o silncio. 

- Meu Deus - ele disse. 

Ento ele se sentou de novo, pesadamente. 



A FOTOGRAFIA ESTAVA POUSADA ENTRE NS, sobre a mesa. William Rainsferd 

olhava da foto para mim e de mim para a foto, repetidamente. Ele leu a legenda no verso 

diversas vezes, com uma expresso incrdula, perplexa. 

- Parece exatamente com a minha me quando era criana - ele disse finalmente. 

- Isso eu no posso negar. 

Zo e eu permanecamos em silncio. 

- Eu no entendo. No pode ser. No  possvel. 

Ele esfregava as mos uma na outra nervosamente. Percebi que usava uma aliana 

de casamento de prata. Ele tinha dedos longos e delgados. 

- A estrela... - Ele ficava sacudindo a cabea. - Essa estrela em seu peito... 

Seria possvel que esse homem no soubesse a verdade sobre o passado de sua 

me? Sua religio? Seria possvel que Sarah no houvesse contado nada aos Rainsferd? 

Observando seu rosto perplexo, sua ansiedade, eu entendi. No, ela no havia contado a 

eles. Ela no havia revelado nada sobre sua infncia, suas origens, sua religio. Ela havia 

rompido totalmente com seu terrvel passado. 

Desejei estar longe dali. Longe desta cidade, deste pas, da incompreenso desse 

homem. Como pude ter sido to cega? Como no consegui prever isso? Nem uma vez 

imaginei que Sarah pudesse ter mantido tudo aquilo em segredo. Seu sofrimento havia 

sido enorme. Eis por que ela nunca escreveu para os Dufaure. Eis por que ela jamais 

contou ao filho sobre quem ela realmente era. Ela quis comear uma nova vida na 

Amrica. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 201 



E c estava eu, uma estranha, revelando a dura verdade para esse homem, uma 

desajeitada portadora de ms notcias. 

William Rainsferd empurrou a fotografia de volta para mim, com a boca tensa. 

- Para que voc veio aqui? - ele falou em voz baixa. Minha garganta estava seca. - 

Para me dizer que minha me tinha outro nome? Que ela estava envolvida em uma 

tragdia?  por isso que voc est aqui? Eu podia sentir minhas pernas tremendo debaixo 

da mesa. No era isso que eu imaginara. Eu havia imaginado dor, pesar, mas no isso. No 

a raiva dele. 

- Pensei que voc soubesse - arrisquei. - Eu vim porque minha famlia se lembra 

de tudo pelo que ela passou em 1942.  por isso que estou aqui. 

Ele sacudiu a cabea, remexeu os cabelos com dedos agitados. Seus culos 

escuros caram com um estrpito sobre a mesa. 

- No - ele respirou. - No. No, no. Isso  loucura. Minha me era francesa. Ela 

se chamava Dufaure e nasceu em Orlans. Ela perdeu os pais durante a guerra. Ela no 

tinha irmos, no tinha famlia. Ela nunca morou em Paris, nessa rue de Saintonge. Essa 

menininha judia no pode ser ela. Voc cometeu um grande engano. 

- Por favor - eu disse suavemente. - Deixe-me explicar, deixe-me contar-lhe a 

histria toda.. 

Ele levantou e empurrou as palmas das mos na minha direo, como se quisesse 

me afastar. 

- Eu no quero saber. Guarde a "histria toda" para voc mesma. Senti a dor 

familiar repuxar as minhas entranhas, corroendo meu tero por dentro com uma fisgada. 

- Por favor - eu disse debilmente. - Por favor, escute o que tenho a dizer. 

William Rainsferd ficou de p, com um gesto rpido e leve para um homem to 

grande. Ele baixou os olhos para mim, com o rosto sombrio. 

- Vou ser muito claro. Eu no quero ver voc novamente. No quero falar a 

respeito disso novamente. Por favor, no me telefone mais. 

E foi embora. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 202 



Zo e eu ficamos paralisadas. Tudo isso por nada. Essa viagem toda, todos os 

esforos, para isso. Para esse beco sem sada. Eu no conseguia acreditar que a histria de 

Sarah acabava aqui, to rapidamente. Simplesmente no podia se esgotar assim. 

Ficamos sentadas em silncio por um longo momento. Depois, trmula, apesar do 

calor, paguei a conta. Zo no disse uma palavra. Ela parecia atordoada. 

Eu me levantei, com a exausto impedindo cada movimento. E agora? Para onde 

ir? De volta a Paris? De volta para a casa de Charla? Eu me arrastei. Meus ps pesavam 

como chumbo. Podia ouvir a voz de Zo me chamando, mas eu no queria me virar. 

Queria voltar para o hotel, e rpido. Para pensar. Para prosseguir com a minha vida. Para 

ligar para a minha irm. E para Edouard e Gaspard. 

A voz de Zo estava alta agora, ansiosa. O que ela queria? Por que ela estava 

choramingando? Percebi transeuntes me olhando. Voltei-me na direo da minha filha, 

irritada, dizendo a ela para se apressar. 

Ela correu para o meu lado e agarrou minha mo. Seu rosto estava plido. 

- Mame... - ela sussurrou com a voz fina e tensa. 

- O qu? O que foi? - falei rispidamente. 

Ela apontou para as minhas pernas. Comeou a choramingar como um 

cachorrinho. 

Olhei para baixo. Minha saia branca estava encharcada de sangue. Olhei de volta 

para a minha cadeira, manchada com uma meia-lua cor de carmim. Grossos filetes 

vermelhos escorriam lentamente pelas minhas coxas. 

- Voc est machucada, mame? - Zo perguntou, com a voz sufocada. 

- O beb - eu disse, aterrorizada. Zo me encarou. 

- O beb? - ela gritou, com seus dedos apertando o meu brao. - Mame, que 

beb? Do que voc est falando? Seu rosto pontiagudo gradualmente desapareceu da 

minha frente. Minhas pernas se dobraram. Aterrissei primeiro com o queixo na rua quente 

e seca. 

Depois, o silncio. E a escurido. 



A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 203 



ABRI OS OLHOS e vi o rosto de Zo a alguns centmetros do meu. Eu sentia o 

inconfundvel cheiro de hospital  minha volta. Um quarto pequeno e verde. Soro 

intravenoso no meu antebrao. Uma mulher usando uma blusa branca rabiscando algo em 

uma tabela. 

- Mame... - sussurrou Zo, apertando minha mo. - Mame, est tudo bem. No 

se preocupe. 

A jovem se postou ao meu lado, sorriu e afagou a cabea de Zo. 

- Voc vai ficar bem, Signora - ela disse, em ingls surpreendentemente bom. - 

Perdeu bastante sangue, mas agora est bem. 

Minha voz saiu como um gemido. 

- E o beb? - O beb est bem. Fizemos uma tomografia. Havia um problema com 

a placenta. Agora voc precisa descansar. Nada de levantar por algum tempo. 

Ela saiu do quarto, fechando a porta silenciosamente atrs dela. 

- Voc me deu um susto do cacete - disse Zo. - E eu posso dizer "cacete" hoje. 

Eu no acho que voc v me dar uma bronca. 

Eu a puxei para perto de mim, abraando-a o mais forte que consegui, apesar do 

soro em meu brao. 

- Mame, por que voc no me contou sobre o beb? - Eu ia contar, querida. 

Ela levantou os olhos para mim. 

-  por causa do beb que voc e papai esto tendo problemas? - . 

- Voc quer o beb mas o papai no quer, no  isso? 

- Mais ou menos isso. 

Ela afagou minha mo com carinho. 

- Papai est vindo. 

- Ai, meu Deus - eu disse. 

Bertrand aqui. Bertrand no meio das conseqncias disso tudo. 

- Eu liguei para ele - disse Zo. - Ele estar aqui dentro de algumas horas. 

Meus olhos ficaram cheios de lgrimas que escorreram lentamente pelo meu 

rosto. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 204 



- Mame, no chore - implorou Zo, enxugando meu rosto freneticamente com as 

mos. - Est tudo bem, est tudo bem agora. 

Dei um sorriso cansado, assentindo para tranqiliz-la. Mas meu mundo parecia 

insignificante, vazio. Eu no parava de pensar em William Rainsferd indo embora. "Eu no 

quero ver voc novamente. Eu no quero falar a respeito disso novamente. Por favor, no 

me telefone mais. Seus ombros curvados, cados. A tenso em sua boca. 

Os dias, as semanas e os meses a seguir se estenderam, tristes e cinzentos. Eu 

jamais havia me sentido to desesperada, to perdida. O meu mago havia sido arrancado. 

O que eu ainda tinha? Um beb que meu futuro ex-marido no queria e que eu teria que 

criar sozinha. Uma filha que logo seria adolescente e que poderia no ser mais a 

maravilhosa menininha que era agora. De repente, o que havia para esperar? Bertrand 

chegou, calmo, eficiente, carinhoso. Eu me coloquei nas mos dele, ouvi-o conversando 

com o mdico, observei-o confortar Zo com um ocasional olhar enternecido. Ele cuidou 

de todos os detalhes. Eu deveria permanecer l at que o sangramento parasse 

totalmente. Depois, deveria viajar de volta a Paris e levar tudo com calma at o outono, at 

o quinto ms. Bertrand no mencionou Sarah uma s vez. Ele no fez uma s pergunta. 

Recolhi-me em um silncio confortvel. Eu no queria falar sobre Sarah. 

Comecei a me sentir como uma velhinha, levada para c e para l, como Mame era 

levada para c e para l, dentro dos limites de seu "lar", recebendo os mesmos sorrisos 

plcidos, a mesma benevolncia inspida. Era fcil deixar outra pessoa controlar sua vida. 

De qualquer maneira, eu no tinha muito por que lutar. Com exceo desta criana. 

A criana que Bertrand tambm no mencionou uma vez sequer. 



ALGUMAS SEMANAS MAIS TARDE, quando aterrissamos em Paris, parecia que 

havia se passado um ano inteiro. Eu ainda me sentia cansada e triste. Pensava em William 

Rainsferd todos os dias. Diversas vezes peguei o telefone, ou uma caneta e um papel, com 

a inteno de conversar com ele, escrever, explicar, dizer algo, pedir desculpas - mas no 

tinha coragem. 

Eu deixava os dias passarem e vi o vero se transformar em outono. Ficava deitada 

na cama e lia, escrevia meus artigos no laptop, falava com Joshua, Bamber, Alessandra, 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 205 



com minha famlia e meus amigos pelo telefone. Meu quarto era meu local de trabalho. 

Tudo pareceu complicado no incio, mas funcionou. Minhas amigas Isabelle, Holly e 

Susannah se revezavam para vir e preparar meu almoo. Uma vez por semana, uma de 

minhas cunhadas ia ao Inno ou ao Franprix mais prximo para comprar mantimentos com 

Zo. Ccile, rolia e sensual, fazia crepes fofinhos pingando manteiga e a harmoniosa e 

angular Laure criava exticas saladas com baixo teor calrico que eram 

surpreendentemente saborosas. Minha sogra vinha com menos freqncia, mas enviava a 

faxineira, a dinmica e perfumada Madame Leclre, que passava o aspirador de p com 

uma energia to terrvel que me dava contraes. Meus pais vieram ficar comigo durante 

uma semana e se hospedaram em seu hotelzinho favorito na rue Delambre, em xtase 

com a idia de serem avs novamente. 

Edouard vinha me visitar todas as sextas-feiras com um buqu de rosas cor-de-

rosa. Ele se sentava na poltrona prxima  cama e, repetidamente, pedia que eu 

descrevesse a conversa que acontecera entre William e eu em Lucca. Ele balanava a 

cabea e suspirava. Ele disse, diversas vezes, que deveria ter previsto a reao de William. 

Como nem ele e nem eu imaginamos que William no sabia, que Sarah jamais contara 

uma s palavra? - Ns no podemos ligar para ele? - ele perguntava, com olhos 

esperanosos. - No posso ligar para ele e explicar? - Depois, ele olhava para mim e 

murmurava - No, claro, no posso fazer isso, que idiota eu sou! Que ridculo da minha 

parte! Perguntei  minha mdica se eu poderia fazer uma reuniozinha em casa, deitada 

no sof da sala. Ela concordou e me fez prometer que eu no carregaria nada pesado e 

permaneceria na horizontal,  la Rcamier. Uma noite, no fim do vero, Gaspard e Nicolas 

Dufaure vieram conhecer Edouard. Nathalie Dufaure tambm estava l. E eu havia 

convidado Guillaume. Foi um momento mgico e emocionante. Trs senhores de idade 

avanada que tinham uma menininha inesquecvel em comum. Eu os observei se 

debruando sobre as velhas fotos de Sarah, sobre as cartas. Gaspard e Nicolas nos 

perguntaram sobre William e Nathalie ouvia, ajudando Zo a servir comida e bebidas. 

Nicolas, uma verso ligeiramente mais jovem de Gaspard, com o mesmo rosto 

redondo e cabelos brancos em tufos, falou de seu relacionamento particular com Sarah, e 

de como ele costumava provoc-la por causa de seu silncio que tanto o incomodava, e 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 206 



como qualquer reao, ainda que fosse encolher os ombros, um insulto ou um chute eram 

um triunfo porque ela, por um instante, emergia de seu mundo secreto, de seu isolamento. 

Ele nos contou sobre a primeira vez que ela tomou banho de mar, em Trouville, no 

comeo dos anos 50. Ela havia ficado olhando para o oceano em absoluto xtase, e depois 

estendeu os braos, gritou de prazer e correu para a gua com suas pernas geis e 

magrelas, e se arremessou contra as ondas frias e azuis com gritinhos de alegria. E eles a 

seguiram, gritando to alto quanto ela, extasiados com uma nova Sarah que eles nunca 

tinham visto. 

- Ela era linda - Nicolas recordou. - Uma linda garota de 18 anos reluzindo de vida 

e energia, e eu senti naquele dia, pela primeira vez, que havia felicidade dentro dela, que 

havia esperana para ela mais  frente. 

Dois anos mais tarde, entretanto, Sarah saiu da vida dos Dufaure para sempre, 

carregando seu passado secreto para a Amrica. E vinte anos mais tarde ela estava morta. 

Eu me perguntava como aqueles vinte anos na Amrica haviam sido. Seu casamento, o 

nascimento de seu filho. Ela tinha sido feliz em Roxbury? Somente William tinha essas 

respostas, eu pensava. Somente William poderia nos contar. Meus olhos encontraram os 

de Edouard, e eu podia dizer que ele estava pensando a mesma coisa. 

Ouvi a chave de Bertrand na fechadura e meu marido surgiu, bronzeado, lindo, 

exalando Habit Rouge, sorrindo jovialmente, apertando as mos das pessoas com 

tranqilidade, e eu no pude deixar de me lembrar da letra daquela msica de Carly Simon 

que fazia Charla se lembrar de Bertrand: "You walked into the party like you were walking 

onto ayacbt." Nota de rodap: "Voc entrou na festa como se estivesse embarcando em 

um iate." (N. do T.) Fim da nota de rodap. 



BERTRAND DECIDIU ADIAR A MUDANA para a rue de Saintonge por causa 

dos problemas com minha gravidez. Nessa nova vida esquisita  qual eu ainda no 

conseguia me acostumar, ele estava presente fisicamente de forma til e amistosa, mas 

no estava comigo espiritualmente. Ele viajava mais do que o normal, chegava em casa 

tarde e saa cedo. Ainda compartilhvamos a mesma cama, mas no era mais uma cama 

matrimonial. O muro de Berlim havia brotado no meio dela. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 207 



Zo parecia aceitar tudo isso sem dificuldade ou hesitao. Ela muitas vezes falava 

sobre o beb, quanto ele significava para ela, como ela estava animada. Ela foi fazer 

compras com minha me durante a estada de meus pais, e ambas ficaram loucas na 

Bonpoint, a boutique de roupas para bebs exorbitantemente cara e chique na rue de 

1'Universit. 

A maioria das pessoas reagiu como minha filha, meus pais e minha irm, meus 

sogros e Mame: elas estavam emocionadas com o nascimento que estava por vir. At 

Joshua, mal-afamado por seu desprezo por bebs e licenas por motivo de sade, parecia 

interessado. 

- Eu no sabia que era possvel algum ter um filho na meia-idade - ele disse 

maliciosamente. 

Ningum jamais mencionou a crise que meu casamento estava atravessando. 

Ningum parecia perceber. Ser que eles acreditavam secretamente que Bertrand, depois 

do nascimento da criana, voltaria ao juzo normal? Que ele iria aceitar esse filho com os 

braos abertos? Percebi que Bertrand e eu havamos nos trancado em um estado de 

torpor, de no conversar, de no dizer nada. Estvamos os dois esperando o nascimento. 

Depois veramos como tudo ficaria e teramos que seguir adiante. Depois, seria necessrio 

tomar as decises. 

Uma manh, senti o beb comear a se mexer l dentro de mim, a dar aqueles 

primeiros chutezinhos que geralmente as pessoas confundem com gases. Eu queria o beb 

fora de mim, em meus braos. Odiava esse estado de silenciosa letargia, essa espera. 

Sentia-me aprisionada. Eu queria pular direto para o inverno, para o incio do ano que 

vem, para o nascimento. 

Eu odiava o fim do vero que se protelava, o calor diminuindo aos poucos, a 

poeira, os furtivos minutos que escorriam devagar com a lentido do melao. Odiava a 

palavra em francs para o incio de setembro, a volta s aulas e o reinicio depois do vero: 

la rentre, repetida infinitamente no rdio, na televiso, nos jornais. Eu odiava as pessoas 

me perguntando qual seria o nome do beb. A amniocentese havia revelado o sexo, mas 

eu no quis saber. O beb no tinha nome ainda. O que no significava que eu no estava 

pronta para ele. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 208 



Eu marcava com um X no meu calendrio cada dia que passava. Setembro se 

transformou em outubro. Minha barriga ficou bonita, redonda. Eu j podia levantar, voltar 

para o escritrio, pegar Zo na escola, ir ao cinema com Isabelle, encontrar Guillaume no 

Select para almoar. 

Mas embora meus dias parecessem mais cheios, ocupados, o vazio e a dor 

permaneciam. 

William Rainsferd. Seu rosto. Seus olhos. Sua expresso quando ele olhou para a 

menininha com a estrela. "Meu Deus." Sua voz ao pronunciar essas palavras. 

Como estaria sua vida agora? Ele teria apagado tudo de sua mente no momento 

em que virara as costas para mim e para Zo? Ele j teria esquecido ao chegar em casa? 

Ou seria diferente? Seria um inferno para ele porque no conseguia parar de pensar no 

que eu lhe contara, porque a revelao que eu fizera havia mudado sua vida inteira? Sua 

me havia se tornado uma estranha. Algum com um passado sobre o qual ele nada sabia. 

Eu me perguntei se ele havia dito algo para sua esposa, para suas filhas. Algo 

sobre uma mulher americana aparecendo em Lucca com uma criana, mostrando uma 

foto, dizendo a ele que sua me era judia, que ela havia sido presa durante a guerra, que 

havia sofrido, perdido um irmo, e pais dos quais ele nunca ouvira falar. 

Perguntei-me se ele havia pesquisado informaes relativas ao Vel' d'Hiv, se havia 

lido artigos e livros sobre o que aconteceu em julho de 1942 no corao de Paris. 

Perguntei-me se ele ficava acordado  noite na cama e pensava em sua me, em 

seu passado, na verdade sobre esse passado, no que permanecia em segredo, calado, 

encoberto pela escurido. 



O APARTAMENTO DA RUE DE SAINTONGE estava quase pronto. Bertrand 

acertou tudo para que Zo e eu nos mudssemos logo depois do nascimento do beb, em 

fevereiro. Estava lindo, diferente. A equipe dele havia feito um trabalho maravilhoso. No 

tinha mais a marca de Mame, e eu imaginei que em nada lembrava o apartamento que 

Sarah havia conhecido. 

Mas ao percorrer os cmodos recm-pintados, a nova cozinha, meu escritrio 

particular, eu me perguntei se conseguiria suportar morar aqui. Morar onde o irmozinho 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 209 



de Sarah havia morrido. O armrio secreto no existia mais, fora destrudo quando dois 

quartos foram transformados em um - mas de alguma forma aquilo no mudou nada para 

mim. 

Foi aqui que tudo aconteceu. E eu no poderia apagar isso da minha memria. Eu 

no contara  minha filha sobre a tragdia que havia acontecido aqui. Mas ela sentia, de 

seu modo particular e emocional. 

Em uma manh mida de novembro, fui ao apartamento para comear a trabalhar 

na escolha de cortinas, papel de parede, carpete. Isabelle foi particularmente til e me 

acompanhou a lojas e mais lojas de departamento. Para alegria de Zo, decidi ignorar os 

tons calmos e plcidos aos quais recorri no passado e resolvi investir em cores novas e 

ousadas. Bertrand fez um gesto indiferente com a mo: - Voc e Zo tomam as decises,  

o seu lar, afinal de contas. 

Zo se decidiu por verde-limo e lils para seu quarto. Era to semelhante ao 

gosto de Charla que eu tive que sorrir. 

Uma montanha de catlogos me esperava sobre as tbuas corridas ainda nuas. Eu 

os estava folheando cuidadosamente quando meu celular tocou. Reconheci o nmero da 

clnica de repouso de Mame. Ultimamente ela andava cansada, irritvel, s vezes 

insuportvel. Era difcil faz-la sorrir, e mesmo Zo passava por dificuldades nesse sentido. 

Ela estava impaciente com todos. Visit-la, recentemente, havia se tornado uma tarefa 

desagradvel. 

- Miss Jarmond? Aqui  Vronique, da clnica de repouso. Lamento informar que 

no tenho boas notcias. Madame Tzac no est bem, ela teve um derrame. 

Endireitei as costas, com o choque me fazendo estremecer. 

- Um derrame? - Ela est um pouco melhor, o Docteur Roche est com ela agora, 

mas a senhora deve vir at aqui. J entramos em contato com seu sogro. Mas no estamos 

conseguindo falar com seu marido. 

Desliguei me sentindo agitada, em pnico. Ouvi a chuva l fora tamborilando 

contra as vidraas. Onde estaria Bertrand? Liguei para ele e caiu na caixa postal. Em seu 

escritrio perto da Madeleine, ningum parecia saber onde ele estava, nem mesmo 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 210 



Antoine. Eu disse a Antoine que estava na rue de Saintonge, e pedi a ele que fizesse 

Bertrand me ligar assim que possvel. Disse que era muito urgente. 

- Mon Dieu, o beb? - ele gaguejou. 

- No, Antoine, no o bb, a grand-mre - respondi e desliguei. Olhei para fora. 

A chuva havia engrossado. Era uma cortina cinza e reluzente. Eu iria me molhar. Tanto pior, 

pensei. Que se dane. Mame. Querida e maravilhosa Mame. Minha Mame. No, Mame no 

podia ir embora agora, eu precisava dela. Era cedo demais. Eu no estava preparada. Mas 

como eu poderia estar preparada para a morte dela? - pensei. Olhei  minha volta, para a 

sala de estar, lembrando-me de que este havia sido o lugar exato onde eu a havia 

conhecido. E mais uma vez eu me senti esmagada pelo peso de todos os eventos que 

aconteceram aqui, e que pareciam voltar para me assombrar. 

Decidi ligar para Ccile e Laure para ter certeza de que elas sabiam e estavam a 

caminho. Laure soou profissional e breve, j estava no carro. Ela me veria l, disse. Ccile 

pareceu-me mais emocional, frgil, com um sinal de lgrimas em sua voz. 

- Ah, Julia, no consigo suportar a idia de Mame... Voc sabe...  horrvel demais... 

Eu disse a ela que no conseguia encontrar Bertrand. Ela pareceu surpresa. 

- Mas eu acabei de falar com ele - ela disse. 

- Voc conseguiu falar com ele pelo celular? - No - ela respondeu, sua voz 

hesitante. 

- No escritrio, ento? - Ele est vindo me buscar e chegar a qualquer minuto. 

Vai me levar para a clnica. 

- Eu no consegui entrar em contato com ele. 

- Ah, ? Entendo. 

Ento eu compreendi. Senti a raiva me invadir. 

- Ele estava na casa da Amlie, no ? - Amlie? - ela repetiu suavemente. Bati o 

p no cho com impacincia. 

- Ora, vamos, Ccile. Voc sabe exatamente de quem eu estou falando. 

- A campainha est tocando,  Bertrand - ela falou baixinho, apressada. 

E desligou. Fiquei no meio da sala vazia, com minha mo apertando o celular 

firmemente como uma arma. Pressionei minha testa contra o frio da vidraa. Eu queria 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 211 



bater em Bertrand. No era mais seu interminvel caso com Amlie que me atingia. Era o 

fato de que as irms dele tinham o nmero daquela mulher e sabiam onde encontr-lo em 

caso de emergncias como esta. E eu no. Era o fato de que, mesmo que nosso casamento 

estivesse chegando ao fim, ele ainda no tinha coragem de me dizer que ainda estava 

vendo essa mulher. Como sempre, eu era a ltima a saber. A eterna esposa vaudevillesque 

trada. 

Fiquei l por muito tempo, imvel, sentindo o beb me chutar. Eu no sabia se 

devia rir ou chorar. 

Ainda me importava com Bertrand, era por isso que eu me sentia magoada? Ou 

era s uma questo de orgulho ferido? Amlie e seu glamour e perfeio parisienses, seu 

apartamento atrevidamente moderno com vista para o Trocadro, seus filhos bem-

educados - "Bonjour, Ma-dam" - e seu poderoso perfume que ficava entranhado nos 

cabelos e nas roupas de Bertrand. Se ele a amava, e no me amava mais, por que ele tinha 

medo de me dizer? Ele tinha tanto medo de me magoar? De magoar Zo? O que o fazia 

ter tanto medo? Quando ele iria perceber que no era sua infidelidade que eu no 

conseguia suportar, mas sua covardia? Fui para a cozinha. Minha boca estava ressecada. 

Abri a torneira e bebi diretamente dela, com minha barriga incmoda roando de 

encontro  pia. Olhei para fora novamente. A chuva parecia ter diminudo. Vesti a capa de 

chuva, apanhei a bolsa e me dirigi para a porta. 

Algum bateu. Trs batidas curtas. 

Bertrand, pensei com desagrado. Antoine ou Ccile provavelmente disseram a ele 

para ligar ou vir. 

Imaginei Ccile esperando no carro l embaixo. Seu embarao. O silncio nervoso 

e tenso que se seguiria to logo eu entrasse no Audi. 

Bem, eu iria mostrar a eles. Eu iria dizer a eles. No iria bancar a esposa francesa 

tmida e boazinha. Iria pedir a Bertrand que me dissesse a verdade de agora em diante. 

Abri a porta com fora. 

Mas o homem que esperava por mim na soleira no era Bertrand. 

Reconheci a altura e os ombros largos imediatamente. Cabelos louro-acinzentados 

escurecidos e colados na cabea por causa da chuva. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 212 



William Rainsferd. 

Recuei, atnita. 

- Cheguei em m hora? - ele perguntou. 

- No - consegui dizer. 

Mas o que diabos ele estava fazendo aqui? O que ele queria? Ns nos encaramos. 

Algo em seu rosto havia mudado desde a ltima vez que o vi. Ele parecia melanclico, 

assombrado. No era mais o simptico gourmet bronzeado. 

- Eu preciso falar com voc - ele disse. -  urgente. Desculpe, eu no consegui 

descobrir seu telefone. Por isso vim aqui. Voc no estava em casa na noite passada, ento 

pensei em voltar hoje de manh. 

- Como voc conseguiu este endereo? - perguntei, confusa. - Ainda no est na 

lista telefnica, ainda no nos mudamos. 

Ele tirou um envelope do bolso da jaqueta. 

- O endereo estava aqui. A mesma rua que voc mencionou em Lucca. Rue de 

Saintonge. 

Sacudi a cabea. 

- No entendi. 

Ele me entregou o envelope. Estava velho, desgastado nos cantos. No havia nada 

escrito nele. 

- Abra-o - ele disse. 

Retirei de dentro dele um caderno fino, muito gasto, um desenho desbotado e 

uma longa chave de lato que caiu no cho com um tinido. Ele se curvou para peg-la, 

aninhando-a na palma da mo para que eu pudesse v-la. 

- O que significa isso tudo? - perguntei cautelosamente. 

- Quando voc foi embora de Lucca, fiquei em estado de choque. Eu no 

conseguia tirar aquela fotografia da minha mente. No conseguia parar de pensar nela. 

- Sim - eu disse, com meu corao batendo rapidamente. 

- Viajei para Roxbury para ver meu pai. Ele est muito doente, conforme eu acho 

que voc sabe. Morrendo de cncer. Ele no consegue mais falar. Vasculhei sua 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 213 



escrivaninha e encontrei este envelope. Ele o guardou, mesmo depois de todos esses anos. 

Ele nunca o havia mostrado para mim. 

- Por que voc est aqui? - sussurrei. Havia dor em seus olhos, dor e medo. 

- Porque eu preciso que voc me conte o que aconteceu. O que aconteceu com 

minha me quando ela era criana. Eu preciso saber de tudo. Voc  a nica pessoa que 

pode me ajudar. 

Olhei para a chave em sua mo. Depois olhei para o desenho. Um desajeitado 

esboo de um menininho com cabelos claros e encaraco-lados. Ele parecia estar em um 

pequeno armrio, com um livro sobre seus joelhos e um ursinho de pelcia perto dele. No 

fundo, um rabisco desbotado: "Michel, 26, rue de Saintonge." Folheei o caderno. No havia 

datas. Frases curtas rabiscadas como um poema, em francs, difceis de entender. Algumas 

palavras se sobressaam diante de meus olhos: "le camp", "La clef "ne jamais oublier", 

"mourir". 

- Voc leu isso? - perguntei. 

- Eu tentei, mas meu francs  pssimo. S consigo entender partes disso. 

O telefone tocou, sobressaltando-nos. Remexi o bolso  procura dele. Era Edouard. 

- Onde voc est, Julia? - ele perguntou carinhosamente. - Ela no est bem. Ela 

quer ver voc. 

- Estou indo - respondi. 

William Rainsferd baixou os olhos para mim. 

- Voc tem que ir? - Tenho. Uma emergncia de famlia. A av de meu marido. Ela 

teve um derrame. 

- Lamento. 

Ele hesitou, depois colocou uma das mos sobre meu ombro. 

- Quando posso ver voc? Conversar com voc? Abri a porta da frente, virei-me 

para ele e baixei os olhos para a mo sobre meu ombro. Era estranho mover-me e v-lo na 

soleira da porta daquele apartamento, o mesmo lugar que havia causado tanta dor  sua 

me, tanta tristeza, e pensar que ele ainda no sabia o que havia acontecido aqui,  sua 

famlia, aos seus avs, ao seu tio. 

- Voc vem comigo - eu disse. - H uma pessoa que eu quero que voc conhea. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 214 



O ROSTO CANSADO E SEM VIO DE MAME. Ela parecia adormecida. Falei com 

ela, mas no tinha certeza de que ela me ouvia. Depois, senti seus dedos em torno de meu 

pulso. Ela estava apertando. Ela sabia que eu estava ali. 

Atrs de mim, a famlia Tzac estava em volta da cama. Bertrand. Sua me, Colette. 

Edouard. Laure e Ccile. E, atrs deles, hesitante no corredor, estava William Rainsferd. 

Bertrand havia olhado na direo dele uma ou duas vezes, perplexo. Ele provavelmente 

pensou que fosse meu novo namorado. Em qualquer outra ocasio, eu teria rido. Edouard 

olhou para ele diversas vezes, curioso, com os olhos arregalados, e depois de volta para 

mim com insistncia. 

Foi mais tarde, quando estvamos saindo da clnica de repouso, que eu peguei o 

brao de meu sogro. Docteur Roche havia acabado de nos dizer que o quadro de Mame 

era estvel. Mas ela estava fraca. No havia como dizer o que iria acontecer em seguida. 

Tnhamos que nos preparar, ele disse. Tnhamos que nos convencer uns aos outros de que 

esse provavelmente era o fim. 

- Estou to triste e lamento tanto, Edouard! - murmurei. Ele acariciou meu rosto. 

- Minha me ama voc, Julia. Ela ama voc de todo corao. 

Bertrand apareceu com o rosto carrancudo. Olhei para ele, pensando rapidamente 

em Amlie, brincando com a idia de dizer algo que o magoasse, que o atingisse, mas 

desisti. Afinal, haveria tempo depois para discutir o assunto. Isso no importava agora. No 

momento, somente Mame importava. E a silhueta alta esperando por mim no corredor. 

- Julia - disse Edouard, olhando para trs por cima do ombro - quem  esse 

homem? - O filho de Sarah. 

Admirado, Edouard encarou a figura alta durante alguns minutos. 

- Voc ligou para ele? - No. Ele descobriu recentemente alguns papis que seu 

pai havia escondido todo esse tempo. Algo que Sarah escreveu. Ele est aqui porque quer 

saber a histria toda. Chegou hoje. 

- Eu gostaria de falar com ele - disse Edouard. 

Fui buscar William, disse-lhe que meu sogro queria conhec-lo. Ele me seguiu, 

fazendo parecer menos importantes Bertrand e Edouard, Colette e suas filhas. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 215 



Edouard Tzac ergueu os olhos para ele. Seu rosto estava calmo, compenetrado, 

mas seus olhos estavam midos. 

Ele estendeu a mo. William a pegou. Foi um momento poderoso, silencioso. 

Ningum falou. 

- O filho de Sarah Starzynski - murmurou Edouard. 

Olhei na direo de Colette, Ccile e Laure, que observavam a cena com educada e 

curiosa incompreenso. Elas no conseguiam entender o que estava acontecendo. 

Somente Bertrand compreendia, somente ele sabia da histria toda, embora jamais a 

houvesse discutido comigo desde a noite em que achou o arquivo vermelho intitulado 

"Sarah". Ele sequer mencionou o assunto depois de conhecer os Dufaure em nosso 

apartamento, alguns meses antes. 

Edouard pigarreou. Suas mos ainda estavam enlaadas. Ele falou em ingls 

decente, com um forte sotaque francs. 

- Sou Edouard Tzac. Esta  uma hora difcil para conhecer voc. Minha me est 

morrendo. 

- Sim, eu sinto muito - disse William. 

- Julia ir lhe contar a histria toda. Mas sua me, Sarah... Edouard fez uma pausa. 

Sua voz ficou embargada. Sua esposa e filhas olhavam para ele, surpresas. 

- Mas o que  que est havendo? - murmurou Colette, preocupada. - Quem  

Sarah? 

-  uma histria que aconteceu h sessenta anos - disse Edouard, lutando para 

controlar sua voz. 

Lutei contra o desejo de ir at ele e passar o brao em torno de seus ombros. 

Edouard respirou fundo e alguma cor voltou ao seu rosto. Ele sorriu para William, um 

sorriso pequeno, tmido, que eu nunca vira Edouard usar antes. 

- Eu jamais esquecerei sua me. Jamais. 

Seu rosto se contraiu, o sorriso desapareceu, e eu vi a dor e a tristeza fazerem com 

que ele respirasse fundo outra vez, com dificuldade, como ele tinha feito no dia em que 

me contou a histria. 

O silncio ficou pesado, insuportvel, e as mulheres observavam a cena, perplexas. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 216 



- Estou extremamente aliviado por poder lhe dizer isso hoje, depois de todos esses 

anos. 

William Rainsferd assentiu. 

- Obrigado, senhor - ele disse em voz baixa. Percebi que seu rosto tambm estava 

plido. - Eu no sei muita coisa, vim at aqui para entender. Acredito que minha me 

tenha sofrido. E eu preciso saber por qu. 

- Fizemos por ela o que pudemos - disse Edouard. - Isso eu posso jurar. Julia ir 

lhe dizer. Ela ir explicar e contar a histria de sua me. Ir lhe relatar o que meu pai fez 

por sua me. Adeus. 

Ele recuou, e repentinamente era um senhor enrugado e abatido. Os olhos de 

Bertrand o observavam, curiosos, imparciais. Ele provavelmente jamais havia visto seu pai 

to emocionado. Eu me pergunto que efeito isso causou nele, o que significava para ele. 

Edouard se afastou, seguido pela esposa e pelas filhas, bombar-deando-o de 

perguntas. Seu filho os seguiu, com as mos no bolso, em silncio. Eu me perguntei se 

Edouard iria contar a verdade a Colette e s filhas. Muito provavelmente, pensei. E eu 

imaginei o choque delas. 



WILLIAM RAINSFERD E EU ficamos sozinhos no corredor da clnica de repouso. 

Do lado de fora, na rue de Courcelles, ainda estava chovendo. 

- Que tal um caf? - ele disse. Ele tinha um sorriso lindo. 

Caminhamos sob o chuvisco at o caf mais prximo. Sentamo-nos e pedimos 

dois expressos. Por alguns instantes, ficamos l sentados em silncio. 

Ento ele perguntou: - Voc  ntima daquela senhora? - Sou - eu disse. - Muito 

ntima. 

- Vejo que voc est esperando um beb. Afaguei minha barriga arredondada. 

- Vai nascer em fevereiro. Finalmente, ele disse lentamente: - Conte-me a histria 

de minha me. 

- Isso no vai ser fcil - eu disse. 

- Eu sei. Mas preciso ouvi-la. Por favor, Julia. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 217 



Lentamente, comecei a falar, com uma voz sussurrada, apenas levantando os olhos 

para ele de vez em quando. Enquanto eu falava, meus pensamentos iam para Edouard, 

provavelmente sentado em sua elegante sala de estar cor de salmo na rue de 

1'Universit, contando exatamente a mesma histria para sua mulher, suas filhas, seu filho. 

A batida policial. O Vel' d'Hiv. O campo. A fuga. A menininha que voltou. A criana morta 

no armrio. Duas famlias ligadas pela morte e por um segredo. Duas famlias ligadas pela 

tristeza. Parte de mim queria que esse homem soubesse toda a verdade. Outra parte 

ansiava por proteg-lo, defend-lo da spera realidade. Daquela horrvel imagem da 

menina e seu sofrimento. Sua dor, sua perda. A dor dele, a perda dele. Quanto mais eu 

falava, quanto mais detalhes eu fornecia, quanto mais respostas eu dava s perguntas dele, 

mais eu sentia as minhas palavras penetrando nele como lminas, ferindo-o. 

Quando terminei, ergui meus olhos para ele. Seu rosto e seus lbios estavam 

plidos. Ele tirou o caderno do envelope e o entregou para mim em silncio. A chave de 

lato estava pousada sobre a mesa, entre ns. 

Segurei o caderno entre minhas mos, devolvendo-lhe o olhar. Seus olhos me 

encorajavam a continuar. 

Abri o caderno. Li a primeira frase para mim mesma. Depois eu li em voz alta, 

traduzindo do francs diretamente para nossa lngua materna. Era um processo lento. A 

caligrafia, um rabisco mido e inclinado, era difcil de ler. 

Onde est voc, meu pequeno Michel? Meu lindo Michel. Onde voc est agora? 

Ser que voc se lembra de mim? Michel. 

Eu, Sarah, sua irm. 

Aquela que jamais voltou. Aquela que deixou voc no armrio. Aquela que pensou 

que voc estaria seguro. 

Michel. 

Os anos se passaram e eu ainda tenho a chave. 

A chave do nosso esconderijo secreto. 

Est vendo? Eu a guardei, dia aps dia, tocando-a, lembrando-me de voc. Jamais 

me separei dela desde o dia 16 de julho de 1942. Ningum aqui sabe. Ningum aqui sabe 

sobre a chave, sobre voc. Sobre voc no armrio. Sobre papai e mame. Sobre o campo. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 218 



Sobre o vero de 1942. Sobre quem eu realmente sou. 

Michel. 

Nem um dia se passou sem que eu pensasse em voc. 

Sem me lembrar da rue de Saintonge nmero 26. 

Eu carrego o peso de sua morte como carregaria um filho. 

Vou carregar esse peso at o dia em que eu morrer. 

As vezes eu quero morrer. 

No consigo suportar o peso de sua morte. 

Da morte de mame, da morte de papai. 

Vises de trens de gado levando-os para a morte. 

Ouo os trens em minha mente, eu os ouo repetidamente h trinta anos. No 

consigo suportar o peso de meu passado. Ainda assim, no consigo me desfazer da chave 

do seu armrio.  a nica coisa concreta que me liga a voc, alm de seu tmulo. 

Michel. 

Como eu posso fingir que sou outra pessoa? Como eu posso faz-los acreditar 

que sou outra mulher? No, no consigo esquecer. 

O estdio. 

O campo. 

O trem. 

Jules e Genevive. 

Alain e Henriette. 

Nicolas e Gaspard. 

Meu filho no me deixa esquecer. Eu o amo. Ele  meu filho. 

Meu marido no sabe quem eu sou. 

Qual  a minha histria. 

Mas eu no consigo esquecer. 

Vir aqui foi um terrvel engano. 

Pensei que eu pudesse mudar. Pensei que eu poderia deixar tudo para trs. 

Mas no consigo. 

Eles foram para Auschwitz. Foram assassinados. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 219 



Meu irmo. Ele morreu no armrio. 

No me resta mais nada. 

Pensei que restasse, mas eu estava enganada. 

Um filho e um marido no so suficientes. 

Eles nada sabem. 

Eles no sabem quem eu sou. 

Eles jamais sabero. 

Michel. 

Em meus sonhos, voc vem me buscar. 

Voc me pega pela mo e me leva embora. 

Esta vida  demais para eu agentar. 

Olho para a chave e sinto saudade de voc e do passado. 

Dos dias inocentes e tranqilos de antes da guerra. 

Agora eu sei que minhas cicatrizes jamais iro se curar. 

Espero que meu filho me perdoe. 

Ele jamais saber. 

Ningum jamais saber. 

Zakhor. Al Tichkah. Lembre-se. Nunca esquea. 



O CAF ERA UM LUGAR barulhento e animado. Ainda assim, cresceu em torno de 

William e de mim uma bolha de silncio total. 

Fechei o caderno, desolada com o que sabamos agora. 

- Ela se matou - William disse, abatido. - No foi acidente. Ela jogou aquele carro 

diretamente contra a rvore. 

Eu no disse nada. No conseguia falar, no sabia o que dizer. 

Eu queria estender a mo e tocar a mo dele, mas algo me impediu. Respirei 

fundo. Mas as palavras ainda no saam. 

A chave de lato estava pousada sobre a mesa, entre ns, como uma testemunha 

silenciosa do passado, da morte de Michel. Eu senti que William se fechava, como ele j 

havia feito uma vez em Lucca, quando ele levantou as palmas das mos, como se quisesse 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 220 



me afastar dele. Ele no se moveu, mas eu senti claramente que ele se distanciava. Mais 

uma vez, resisti  necessidade poderosa e compulsiva de toc-lo, de abra-lo. Por que eu 

sentia que havia tanto a compartilhar com esse homem? De alguma forma, ele no era um 

estranho para mim e, de forma ainda mais bizarra, eu sentia que era ainda menos estranha 

para ele. O que havia nos aproximado? Minha busca, minha sede pela verdade, minha 

compaixo por sua me? Ele no sabia nada sobre mim, sobre meu casamento falido, meu 

quase-aborto em Lucca, minha profisso, minha vida. O que eu sabia sobre ele, sua 

mulher, seus filhos, sua carreira? Seu presente era um mistrio. Mas seu passado e o 

passado de sua me estavam gravados em mim como tochas flamejantes ao longo de uma 

estrada escura. E eu desejava mostrar a esse homem que eu me importava, que o que 

aconteceu com a me dele havia modificado a minha vida. 

- Obrigado - ele disse finalmente. - Obrigado por me contar tudo isso. 

A voz dele parecia estranha, artificial. Percebi que eu quis que ele desmoronasse, 

que chorasse, que me mostrasse alguma forma de emoo. Por qu? Sem dvida porque 

eu mesma precisava de alvio, precisava de lgrimas que levassem para longe a dor, a 

tristeza, o vazio. Precisava compartilhar meus sentimentos com ele, em uma comunho 

particular, ntima. 

Ele estava indo embora, levantando-se da mesa, pegando a chave e o caderno. Eu 

no suportava a idia de ele ir to cedo. Estava convencida de que, se ele fosse embora 

agora, eu jamais ouviria falar dele novamente. Ele no iria querer me ver ou falar comigo. 

Eu perderia a ltima ligao com Sarah. Eu o perderia. E, por alguma razo obscura ou por 

estar desolada, William Rainsferd era a nica pessoa com quem eu queria estar naquele 

exato momento. 

Ele deve ter lido algo em meu rosto, porque ele hesitou, parado em frente  mesa. 

- Eu vou a esses lugares - ele disse. - Beaune-la-Rolande e rue Nlaton. 

- Eu posso ir com voc, se quiser que eu v. 

Seus olhos pousaram sobre mim. Novamente percebi o contraste de sentimentos, 

pois o que eu sabia inspirava nele um fardo complexo de ressentimento e gratido. 

- No, prefiro ir sozinho. Mas eu gostaria que voc me desse os endereos dos 

irmos Dufaure. Eu gostaria de visit-los tambm. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 221 



-  claro - respondi, olhando em minha agenda e rabiscando para ele os 

endereos em um pedao de papel. 

De repente, ele se sentou de novo, pesadamente. 

- Sabe, eu poderia beber alguma coisa - ele disse. 

- Est bem.  claro - eu disse, fazendo um sinal para o garom. Pedimos vinho 

para William e um suco de fruta para mim. 

Bebendo em silncio, percebi intimamente como eu me sentia confortvel com 

ele. Dois compatriotas americanos apreciando calmamente uma bebida. De alguma forma, 

no precisvamos conversar. E isso no causava nenhuma sensao esquisita. Mas eu sabia 

que, assim que ele terminasse as ltimas gotas de seu vinho, ele iria embora. 

Esse momento chegou. 

- Obrigado, Julia, obrigado por tudo. 

Ele no disse "vamos manter contato, trocar e mails, conversar por telefone de vez 

em quando". No, ele no disse nada. Mas eu sabia o que o silncio dele dizia, em alto e 

bom som. No me telefone. Por favor, no entre em contato comigo. Preciso repensar a 

minha vida inteira. Preciso de tempo e de silncio, e de paz. Preciso descobrir quem eu sou 

agora. 

Eu o observei se afastar sob a chuva, com sua figura alta desaparecendo na rua 

barulhenta. 

Pousei as mos entrelaadas sobre minha barriga arredondada, deixando a solido 

me invadir. 



QUANDO CHEGUEI EM CASA naquela noite, encontrei toda a famlia Tzac 

esperando por mim. Eles estavam sentados com Bertrand e Zo em nossa sala de estar. 

Imediatamente percebi a tenso na atmosfera. 

Parecia que eles haviam se dividido em dois grupos: Edouard, Zo e Ccile, que 

estavam "do meu lado", aprovando o que eu havia feito, e Colette e Laure, que 

desaprovavam. 

Bertrand nada disse, permanecendo estranhamente em silncio. Seu rosto estava 

pesaroso, com os cantos de sua boca cados. Ele no olhou para mim. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 222 



Como eu tinha sido capaz de fazer tal coisa? explodiu Colette. Rastrear aquela 

famlia, entrar em contato com aquele homem, que no fim das contas nada sabia sobre o 

passado da me. 

- Aquele pobre homem - ecoou minha cunhada, tremendo. 

- Imagine s, agora ele descobre quem realmente , que sua me era judia, que 

sua famlia toda foi liqidada na Polnia, que seu tio morreu de fome. Julia deveria t-lo 

deixado em paz. 

Edouard se levantou abruptamente, erguendo as mos para o ar. 

- Meu Deus! - ele rugiu. - O que se abateu sobre esta famlia? - Zo veio se 

abrigar sob meu brao. - Julia fez algo de muita coragem, algo generoso - ele continuou, 

tremendo de raiva. - Ela quis se certificar de que a famlia da menina soubesse que nos 

importvamos, que soubesse que meu pai se importava o bastante para garantir que uma 

famlia adotiva cuidasse de Sarah Starzynski, que ela fosse amada. 

- Ah, papai, por favor - interrompeu Laure. - O que Julia fez foi pattico. Trazer de 

volta o passado nunca  uma boa idia, especialmente o que quer que tenha acontecido 

durante a guerra. Ningum quer se lembrar daquilo, ningum quer pensar nisso. 

Ela no olhou para mim, mas percebi todo o peso de sua animosidade. Eu 

conseguia ler seus pensamentos facilmente. Exatamente o tipo de coisa que uma 

americana faria. Nenhum respeito pelo passado. Nenhuma idia do que seja um segredo 

de famlia. Nenhuma educao. Nenhuma sensibilidade. Uma americana grosseira e sem 

instruo: l'Amricaine avec ses gros sabots. 

- Eu discordo! - disse Ccile, com sua voz estridente. - Estou feliz que voc tenha 

me contado o que aconteceu, Pre.  uma histria horrvel, aquele menininho morrer no 

apartamento, a menina voltar. Acho que Julia estava certa ao entrar em contato com 

aquela famlia. Afinal de contas, ns no fizemos nada de que possamos nos envergonhar. 

- Talvez! - disse Colette, comprimindo os lbios. - Mas se Julia no tivesse sido to 

enxerida, Edouard jamais teria mencionado essa histria. Certo? Edouard encarou a 

mulher. Seu rosto estava frio, assim como sua voz. 

- Colette, meu pai me fez prometer que eu jamais revelaria o que aconteceu. 

Respeitei seu desejo, com dificuldade, durante os ltimos sessenta anos. Mas agora estou 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 223 



feliz que vocs saibam. Agora eu posso compartilhar com vocs o que aconteceu, mesmo 

que aparentemente isso perturbe alguns de vocs. 

- Graas a Deus Mame no sabe de nada - suspirou Colette, passando a mo nos 

cabelos louro-acinzentados para arrum-los. 

- Ah, Mame sabe - falou a voz de Zo. 

Suas faces ficaram rubras como uma beterraba, mas ela nos encarou 

corajosamente. 

- Ela me contou o que aconteceu. Eu no sabia sobre o menininho, eu acho que 

mame no queria que eu soubesse dessa parte. Mas Mame me contou tudo sobre isso. 

Zo continuou. 

- Ela sabe sobre a histria desde que aconteceu, a concierge disse a ela que Sarah 

havia voltado. E ela disse que vov tinha todos aqueles pesadelos sobre uma criana morta 

em seu quarto. Ela disse que era horrvel saber e nunca poder conversar sobre isso com 

seu marido, seu filho e, mais tarde, com a famlia. Ela disse que o episdio transformou 

meu bisav, que aquilo tinha causado algo a ele, algo sobre o que ele no podia 

conversar, nem mesmo com ela. 

Olhei para meu sogro. Ele olhava fixamente para minha filha, incrdulo. 

- Zo, ela sabia? Ela sabia da histria todos esses anos? Zo fez que sim com a 

cabea. 

- Mame disse que era um terrvel segredo para se carregar, que ela nunca parou 

de pensar na menina, e disse que estava feliz que eu soubesse disso agora. Ela disse que 

deveramos ter conversado sobre isso muito antes, que ns deveramos ter feito o que 

mame fez, ns no deveramos ter esperado. Deveramos ter encontrado a famlia da 

menina. Estivemos errados em manter tudo oculto. Foi isso o que ela me disse. Logo antes 

de seu derrame. 

Houve um longo e doloroso silncio. 

Zo se ergueu. Ela encarou Colette, Edouard, suas tias e seu pai. E a mim. 

- H mais uma coisa que eu quero dizer a vocs - ela acrescentou, suavemente 

mudando do francs para o ingls e acentuando seu sotaque americano. - Eu no me 

importo com o que alguns de vocs pensam. Eu no me importo se vocs pensam que 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 224 



mame estava errada, se vocs pensam que mame fez uma besteira. Eu estou muito 

orgulhosa do que ela fez. Como ela encontrou William, como ela contou a ele. Vocs no 

tm idia do que isso custou, do que isso significou para ela. E o que isso significa para 

mim. E provavelmente o que isso significa para ele. E vocs querem saber de uma coisa? 

Quando eu crescer, eu quero ser como ela. Eu quero ser uma me de quem meus filhos 

tenham orgulho. Bonne nuit. 

Ela fez uma pequena reverncia engraada, saiu da sala e silenciosamente fechou a 

porta. 

Permanecemos em silncio por um longo tempo. Observei o rosto de Colette ficar 

ptreo, quase rgido. Laure verificou sua maquiagem com um espelho de bolsa. Ccile 

parecia petrificada. 

Bertrand no havia dito uma s palavra. Ele estava de frente para a janela, com as 

mos atrs das costas, sem olhar para mim uma s vez. Ou para qualquer um de ns. 

Edouard se levantou, afagou minha cabea com um gesto carinhoso e paternal. 

Seus olhos de um azul plido piscaram para mim. Ele murmurou algo em francs, por 

sobre a minha orelha. 

- Voc fez a coisa certa. Voc agiu bem. 

Mais tarde naquela noite, enquanto eu estava deitada em minha cama solitria, 

incapaz de ler, pensar ou fazer qualquer outra coisa a no ser ficar deitada examinando o 

teto, fiquei imaginando coisas. 

Pensei em William, onde quer que ele estivesse, tentando encaixar as novas peas 

de sua vida. 

Pensei na famlia Tzac, por uma vez tendo que sair da concha, tendo que 

comunicar o triste e sombrio segredo debatido abertamente. Pensei em Bertrand virando 

suas costas para mim. 

" Tu asfait ce quil fallait. Tu as bienfait", Edouard havia me dito. 

Edouard estaria certo? Eu no sabia. Eu ainda me perguntava isso. 

Zo abriu a porta, subiu na minha cama engatinhando como um comprido e 

silencioso cozinho e se aninhou a mim. Ela pegou minha mo, lentamente a beijou e 

descansou a cabea no meu ombro. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 225 



Eu ouvia o som abafado do trfego no Boulevard du Montparnas-se. Estava 

ficando tarde. Bertrand estava com Amlie, sem dvida. Eu o sentia distante de mim, como 

um estranho. Como algum que eu praticamente desconhecia. 

Duas famlias que eu havia juntado, s por hoje. Duas famlias que jamais seriam as 

mesmas novamente. 

Ser que fiz a coisa certa? Eu no sabia o que pensar. Eu no sabia em que 

acreditar. 

Zo pegou no sono ao meu lado, com sua respirao lenta fazendo ccegas em 

meu rosto. Pensei na criana por nascer, e senti um tipo de paz me invadindo. Um 

sentimento sereno que me confortou por alguns instantes. 

Mas a dor e a tristeza continuavam. 

Nova Tor 2005 ZO! - GRITEI. - Pelo amor de Deus, segure a mo da sua irm. Ela 

vai cair da e quebrar o pescoo! Minha filha de pernas compridas me lanou um olhar 

zangado. 

- Voc  uma me incrivelmente paranica. 

Ela pegou o brao rolio da criana e a empurrou de volta para seu velocpede. 

Suas perninhas pedalavam furiosamente pelo caminho, com Zo cercando-a por trs. Meu 

beb balbuciava de prazer, esticando o pescoo para ter certeza de que eu estava olhando, 

com a evidente vaidade de uma criana de 2 anos de idade. 

Central Park e a primeira promessa provocante de primavera. Estiquei minhas 

pernas e inclinei meu rosto na direo do sol. 

O homem ao meu lado acariciou minha face. 

Neil. Meu namorado. Um pouquinho mais velho do que eu. Advogado. Divorciado. 

Morava no bairro Flatiron com seus filhos adolescentes. Foi-me apresentado por minha 

irm. Eu gostava dele. No estava apaixonada, mas apreciava sua companhia. Era um 

homem inteligente, culto. Ele no tinha inteno de se casar comigo, graas a Deus, e 

aturava minhas filhas de vez em quando. 

Houve alguns namorados desde que viemos morar aqui. Nada srio. Nada 

importante. Zo os chamava de meus pretendentes. Charla, de meus gals, no estilo 

Scarlett. Antes de Neil, o ltimo pretendente se chamava Peter, tinha uma galeria de arte, 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 226 



uma rea careca na parte de trs da cabea que lhe causava desgosto e um sto ventoso 

em Tribeca. Eram homens decentes, levemente entediantes, totalmente americanos, de 

meia-idade. Educados, srios e meticulosos. Tinham bons empregos, boa instruo, eram 

cultos e geralmente divorciados. Eles vinham me buscar e depois me deixar, ofereciam o 

brao e o guarda-chuva. Eles me levavam para almoar, ao Met, ao MoMA,  City Opera, 

ao NYCB, aos shows na Broadway, para jantar e, s vezes, para a cama. Eu suportava. Sexo 

era algo que eu agora fazia porque eu sentia que tinha que fazer. Era mecnico e 

enfadonho. Nessa rea, tambm, algo havia desaparecido. A paixo. A excitao. O calor. 

Tudo havia desaparecido. 

Eu sentia que algum - eu? - havia avanado o filme da minha vida, e l eu 

aparecia como um personagem de Charles Chaplin feito de madeira, fazendo tudo de 

forma apressada e desajeitada, como se eu no tivesse outra escolha, com um sorriso rijo 

colado em meu rosto, agindo como se estivesse feliz com minha nova vida. 

As vezes, Charla me olhava furtivamente e perguntava: - Ei, tudo bem com voc? 

Ela me cutucava e eu resmungava: - Ah, sim, tudo bem. 

Ela no parecia convencida, mas por algum tempo me deixava em paz. 

Minha me, tambm, examinava meu rosto com os olhos e franzia os lbios, 

preocupada. 

- Est tudo bem, querida? Eu afastava sua ansiedade com um sorriso 

despreocupado. 



UMA GLORIOSA E CLARA MANH de Nova York. Do tipo que nunca se v em 

Paris. Ar muito fresco. Cu completamente azul. A silhueta da cidade nos cercando por 

sobre as rvores. A massa plida do Dakota de frente para ns. O cheiro de cachorros-

quentes e pretzels flutuando na brisa. 

Estendi minha mo e acariciei o joelho de Neil, com os olhos ainda fechados 

contra o crescente calor do sol. Nova York e seu clima violento e contrastante. Veres 

escaldantes. Invernos brancos congelantes. E a luz que caa sobre a cidade, uma luz 

prateada, forte e brilhante que eu tinha aprendido a amar. Paris e sua chuva fina e cinza 

pareciam pertencer a outro mundo. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 227 



Abri meus olhos e fiquei olhando minhas filhas fazendo travessuras. De um dia 

para o outro, ou assim me parecia, Zo havia crescido e se tornado uma adolescente 

espetacular, mais alta do que eu, com pernas fortes e geis. Ela parecia com Charla e 

Bertrand, pois havia herdado a classe deles, seu fascnio, seu charme, aquela combinao 

poderosa e animada de Jarmond e Tzac que me encantava. 

A pequenininha era outra coisa. Mais macia, mais redonda, mais frgil. Ela 

precisava de abraos, de beijos, de mais cuidados e ateno do que Zo precisara quando 

tinha a idade dela. Era porque o pai no estava por perto? Porque Zo, o beb e eu 

havamos trocado a Frana por Nova York, no muito tempo depois do nascimento? Eu 

no sabia e no me questionava demais. 

Foi um retorno estranho voltar a morar nos Estados Unidos depois de tantos anos 

em Paris. Ainda parecia estranho, s vezes. Ainda no parecia que eu estava em casa. 

Perguntava-me quanto tempo ainda levaria para que eu me sentisse em casa. Mas 

aconteceu. Foi difcil. No foi uma deciso fcil de tomar. 

O nascimento do beb foi prematuro, causa para pnico e dor. Ela nasceu logo 

depois do Natal, dois meses antes da data prevista. Passei por uma cesariana 

horrivelmente longa na emergncia do Saint-Vincent de Paul Hospital. Bertrand estava l, 

curiosamente tenso, emocionado, apesar do que sentia pelo beb. Uma menininha 

pequena e perfeita. Ele ficou desapontado? eu me perguntei. Eu no estava. Essa criana 

significava tanto para mim! Eu lutei por ela. Eu no cedi. Ela era a minha vitria. 

Logo depois do parto e logo antes da mudana para a rue de Sain-tonge, Bertrand 

reuniu a coragem necessria para me dizer que amava Amlie, que queria viver com ela 

dali em diante, que queria se mudar para o apartamento do Trocadro com ela, que no 

podia mais mentir para mim e para Zo, que teramos que nos divorciar, mas que poderia 

ser rpido e fcil. Foi ento, observando-o realizar sua cansativa e complicada confisso, 

observando-o percorrer a sala para cima e para baixo, com suas mos atrs das costas, 

seus olhos baixos, que me ocorreu a primeira idia de mudar para a Amrica. Ouvi 

Bertrand at o fim. Ele parecia esgotado, abalado, mas conseguiu. Ele foi honesto comigo, 

finalmente. E honesto consigo mesmo. E eu devolvi o olhar para meu marido lindo e 

sensual e agradeci. Ele parecia surpreso. Ele admitiu que esperava uma reao mais forte, 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 228 



mais amarga. Gritos, insultos, uma confuso. O beb em meus braos gemeu, agitando 

seus pequenos punhos. 

- Sem confuso - eu disse. - Sem gritos, sem insultos. Tudo bem? - Tudo bem - 

ele disse. Ele me beijou, e tambm o beb. 

J parecia que ele estava fora da minha vida. Como se ele j tivesse ido embora. 

Naquela noite, toda vez que eu me levantava para amamentar a criana faminta, 

eu pensava nos Estados Unidos. Boston? No, eu odiava a idia de voltar ao passado,  

cidade da minha infncia. 

Ento me veio a idia. 

Nova York. Zo, o beb e eu iramos para Nova York. Charla estava l, meus pais 

no muito longe. Nova York. Por que no? Eu no conhecia muito bem a cidade, eu nunca 

tinha morado l por muito tempo, a no ser pelas visitas anuais  minha irm. 

Nova York. Talvez a nica cidade que pudesse competir com Paris por causa de 

sua completa e absoluta diferena. Quanto mais eu pensava nisso, mais a idia me 

agradava secretamente. No falei sobre esse assunto com meus amigos. Eu sabia que 

Herv, Christophe, Guillaume, Susannah, Holly, Jan e Isabelle ficariam aborrecidos com a 

idia da minha partida. Mas sabia que eles tambm compreenderiam e aceitariam. 

E depois, Mame havia falecido. Ela foi morrendo aos poucos desde o derrame em 

novembro. Nunca mais conseguiu falar, embora tenha recuperado a conscincia. Foi 

transferida para a UTI do hospital Cochin. Eu esperava sua morte, preparando-me para 

encarar o fato, mas ainda assim a notcia me chocou. 

Foi depois do enterro, que aconteceu na Borgonha, no pequeno e triste cemitrio, 

que Zo me disse: - Mame, temos que ir morar na rue de Saintonge? - Acho que seu pai 

espera que sim. 

- Mas voc quer morar l? - ela perguntou. 

- No - respondi sinceramente. - Desde que eu descobri o que aconteceu l, no 

tenho vontade. 

- Eu tambm no. Ento ela disse: - Mas para onde poderamos nos mudar ento, 

mame? E respondi, jocosamente, brincando, esperando que ela bufasse de desaprovao: 

- Bem, o que voc acha da cidade de Nova York? 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 229 



COM ZO, FOI FCIL ASSIM. Bertrand no ficou feliz com nossa deciso sobre 

sua filha se mudar para to longe. Mas Zo foi firme com relao a ir embora. Ela disse que 

voltaria, a intervalos de alguns meses, e que Bertrand poderia ir visit-la tambm para v-

la e ao beb. Expliquei a Bertrand que no havia nada decidido, nada definitivo sobre a 

mudana. No era para sempre. Seria apenas por alguns anos. Para deixar Zo 

compreender o lado americano dela. Para me ajudar a continuar com a minha vida. Para 

comear algo novo. Ele j tinha se estabelecido com Amlie. Oficialmente, eles formavam 

um casal. Os filhos de Amlie eram quase adultos. Moravam fora de casa e tambm 

passavam um tempo com o pai. Bertrand teria ficado tentado pela perspectiva de uma 

nova vida sem a responsabilidade diria de criar filhos - dele ou dela? Talvez. Ele 

finalmente disse sim. E depois, comecei a tomar as providncias. 

Aps uma estada inicial em sua casa, Charla me ajudou a encontrar um lugar para 

morar, um apartamento branco e simples de dois quartos, com "vista livre para a cidade" e 

porteiro, na West 86th Street, entre a Amsterdam e a Columbus. Eu o subloquei de um de 

seus amigos que havia se mudado para Los Angeles. O prdio estava cheio de famlias e 

pais divorciados, era uma colmia barulhenta de bebs, crianas, bicicletas, carrinhos de 

beb, patinetes. Era um lar confortvel e aconchegante, mas, l tambm, algo estava 

faltando. O qu? Eu no sabia dizer. 

Graas a Joshua, fui contratada como correspondente em Nova York de um 

moderno site francs na internet. Eu trabalhava em casa e ainda usava Bamber como 

fotgrafo quando precisava de fotos de Paris. 

Encontramos uma nova escola para Zo, o Trinity College, a alguns quarteires de 

distncia. 

- Mame, eu nunca vou me adaptar, agora eles me chamam de "a francesinha" - 

ela reclamava, e eu no conseguia evitar um sorriso. 



OS HABITANTES DE NOVA YORK eram fascinantes de se observar, com seus 

passos determinados, seus gracejos, sua cordialidade. Meus vizinhos diziam "Oi" no 

elevador, ofereceram-nos flores e doces quando nos mudamos e brincavam com o 

porteiro. Eu havia esquecido isso tudo. Eu estava to acostumada ao mau humor 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 230 



parisiense e s pessoas morando no mesmo corredor e mal se cumprimentando umas s 

outras com a cabea ao se cruzarem nas escadas. 

Talvez a coisa mais curiosa sobre tudo isso era que, apesar do redemoinho 

excitante de vida que eu tinha agora, eu sentia saudade de Paris. Sentia saudade da Torre 

Eiffel iluminada pontualmente, todas as noites, como uma mulher sedutora adornada de 

jias que brilhavam. Sentia saudade das sirenes antiareas uivando sobre a cidade toda 

primeira quarta-feira, ao meio-dia, para o exerccio mensal. Sentia saudade da feira ao ar 

livre aos sbados no Boulevard Edgar-Quinet, onde o verdureiro me chamava de "map'tite 

dame embora eu fosse provavelmente sua freguesa mais alta. Como Zo, eu tambm me 

sentia francesinha, embora fosse americana. 

Ir embora de Paris no foi to fcil como eu previra. Nova York, com sua energia, 

suas nuvens de vapor se elevando dos bueiros, sua vastido, suas pontes, seus prdios e o 

trnsito sempre engarrafado, ainda no era o meu lar. Eu sentia saudade de meus amigos 

parisienses, embora houvesse feito novos e maravilhosos amigos aqui. Eu sentia saudade 

de Edouard, de quem tinha ficado prxima e que me escrevia todos os meses. Eu sentia 

saudade, especialmente, do modo como os homens franceses olham as mulheres, o que 

HoUy costumava chamar de olhar "nu". Eu havia me acostumado a isso l, mas agora, em 

Manhattan, s havia alegres motoristas de nibus para gritar "Ei, magrela!" para Zo  "Ei, 

lourinha!" para mim. Senti-me como se tivesse ficado invisvel. Eu me perguntava por que 

minha vida parecia to vazia. Era como se um furaco a tivesse devastado. Como se eu 

tivesse perdido o cho. 

E as noites. 

As noites eram solitrias, mesmo aquelas que eu passava com Neil. Deitar na 

cama, ouvir os sons da grande e pulsante cidade e deixar as imagens voltarem  mente, 

como a mar lentamente subindo na praia. 



SARAH. Ela nunca me deixou. Ela havia me modificado para sempre. Sua histria, 

seu sofrimento, eu os carregava dentro de mim. Eu sentia como se a conhecesse. Eu a 

conhecia como criana. Como uma jovem. Como a dona de casa de 45 anos que jogou o 

carro contra uma rvore em uma estrada coberta de gelo na Nova Inglaterra. Podia ver seu 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 231 



rosto perfeitamente. Os olhos verdes oblqos. O formato de sua cabea. Sua postura. Suas 

mos. Seu raro sorriso. Eu a conhecia. Eu poderia t-la parado na rua se ela ainda estivesse 

viva. 

Zo era perspicaz. Ela me pegou em flagrante pesquisando sobre William 

Rainsferd no Google. 

Eu no percebi que ela havia voltado da escola. Em uma tarde de inverno, ela 

entrou em casa sem que eu a ouvisse. 

- H quanto tempo voc vem fazendo isso? - ela perguntou, soando como uma 

me que encontra o filho adolescente fumando maconha. 

Ruborizada, admiti que eu andei pesquisando sobre ele regularmente no ltimo 

ano. 

- E...? - ela insistiu, com os braos cruzados, franzindo o cenho para mim. 

- Bem, parece que ele saiu de Lucca - confessei. 

- Ah. Ento onde  que ele est? - Ele voltou para os Estados Unidos tem alguns 

meses. 

Eu no conseguia mais agentar seu olhar, ento me levantei e fui para a janela, 

olhando para a movimentada Amsterdam Avenue l embaixo. 

- Ele est em Nova York, mame? Sua voz estava mais suave agora, menos rspida. 

Ela veio por trs de mim e colocou sua linda cabea em meu ombro. 

Assenti. Eu no conseguia encar-la e dizer a ela como fiquei excitada quando 

descobri que ele tambm estava aqui. Como fiquei emocionada, maravilhada por terminar 

na mesma cidade que ele, dois anos depois do nosso ltimo encontro. Seu pai era nova-

iorquino, recordei. Ele provavelmente morou aqui quando era criana. 

Ele estava na lista telefnica. No West Village. A apenas 15 minutos de metr 

daqui. E durante dias, durante semanas, eu me perguntei em agonia se deveria telefonar 

para ele ou no. Desde Paris, ele jamais tentara entrar em contato comigo. Eu nunca mais 

ouvi falar dele desde aquela vez. 

A excitao diminuiu gradualmente depois de algum tempo. Eu no tinha coragem 

de ligar para ele. Mas continuava pensando nele, noite aps noite. Dia aps dia. Em 

segredo, em silncio. Imaginava se algum dia eu iria esbarrar com ele, no parque, em 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 232 



alguma loja de departamentos, num bar, num restaurante. Ele estaria aqui com a mulher e 

as filhas? Por que ele tinha voltado para os Estados Unidos, como eu? O que teria 

acontecido? - Voc entrou em contato com ele? - Zo perguntou. 

- No. 

- Vai fazer isso? - Eu no sei, Zo. Comecei a chorar em silncio. 

- Ai, mame, por favor - ela suspirou. 

Enxuguei as lgrimas com raiva, sentindo-me uma idiota. 

- Mame, ele sabe que voc agora mora aqui. Tenho certeza de que ele sabe. Ele 

tambm pesquisou sobre voc. Ele sabe o que voc faz aqui e sabe onde voc mora. 

Esse pensamento nunca tinha me ocorrido. William pesquisando sobre mim no 

Google. William procurando meu endereo. Ser que Zo tinha razo? Ele saberia que eu 

morava em Nova York tambm, no Upper West Side? Ser que ele pensava em mim? O 

que ele sentia, exatamente, quando pensava? - Voc tem que esquecer, me. Voc tem 

que deixar essa histria para trs. Ligue para Neil, veja-o com mais freqncia, continue 

com sua vida. 

Eu me virei para ela, com minha voz soando alta e rspida. 

- No consigo, Zo. Eu preciso saber se o que eu fiz por ele o ajudou. Eu preciso 

saber.  pedir muito?  algo impossvel? O beb comeou a chorar no quarto ao lado. Eu 

havia perturbado seu sono. Zo foi peg-la e voltou com sua irm rolia e com soluos. 

Zo acariciou meu cabelo carinhosamente por sobre os cachos da minha filha 

menor. 

- Acho que voc nunca vai saber, me. Eu no acho que ele algum dia estar 

preparado para lhe dizer. Voc mudou a vida dele. Voc a virou de cabea para baixo, 

lembre-se disso. Ele provavelmente nunca ir querer ver voc novamente. 

Arranquei a criana dos braos dela e a pressionei com fora contra mim, 

saboreando seu calor, sua fofura. Zo tinha razo. Eu precisava virar a pgina, continuar 

com a minha vida. 

Como fazer isso, era outro assunto. 



A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 233 



EU ME MANTINHA OCUPADA. No tinha um nico minuto para mim mesma, 

dividindo-me entre Zo, sua irm, Neil, meus pais, meus sobrinhos, meu trabalho e o 

rosrio sem fim de festas para as quais Charla e o marido Barry me convidavam e s quais 

eu ia sem cessar. Conheci mais pessoas em dois anos do que tinha conhecido em toda a 

minha estada em Paris, uma mistura de raas cosmopolita com a qual me divertia. 

Sim, eu deixara Paris para sempre, mas sempre que eu voltava por causa do meu 

trabalho ou para ver meus amigos, ou Edouard, eu sempre acabava me encontrando no 

Marais, e voltava mais e mais vezes, como se meus passos no conseguissem evitar me 

levar l. Rue des Rosiers, rue du Roi-de-Sicile, rue des Ecouffes, rue de Saintonge, rue de 

Bretagne, eu as via desfilar diante de mim com novos olhos que se lembravam do que 

aconteceu aqui em 1942, mesmo que tenha ocorrido muito antes de eu nascer. 

Perguntei-me quem estaria morando no apartamento da rue de Saintonge agora, 

quem ficaria junto  janela observando o ptio frondoso, quem correria a mo ao longo do 

mrmore liso da lareira. Eu me perguntei se os novos inquilinos tinham qualquer suspeita 

de que um menininho havia morrido dentro da casa deles, e que a vida de uma menina 

havia sido transformada naquele dia para sempre. 

Eu tambm voltava ao Marais em meus sonhos. s vezes, os horrores do passado 

que eu no testemunhei surgiam com tal crueza que eu tinha que acender a luz para 

afastar o pesadelo. 

Foi durante uma daquelas noites insones e vazias, quando eu estava deitada na 

cama, fatigada pela conversa social, com a boca seca depois do copo extra de vinho ao 

qual eu no deveria ter cedido, que a antiga dor voltou e veio me assombrar. 

Os olhos dele. O rosto dele quando eu li em voz alta a carta de Sarah. Aquilo tudo 

voltou e me deixou sem sono, mergulhando em meu ntimo. 

A voz de Zo me arrastou de volta ao Central Park, ao lindo dia de primavera, e  

mo de Neil sobre a minha coxa. 

- Me, este monstrinho quer um picol. 

- De jeito nenhum - respondi. - Nada de picol. O beb se jogou com o rosto na 

grama e gritou. 

- Ela  impressionante, no ? - Neil comentou. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 234 



JANEIRO DE 2005 TAMBM ME LEVAVA, vez aps outra, a Sarah e a William. A 

importncia da sexagsima comemorao da libertao de Auschwitz estava nas 

manchetes do mundo todo. Parecia que jamais a palavra "Shoah" fora pronunciada antes 

com tanta freqncia. 

E, toda vez que eu a ouvia, meus pensamentos saltavam dolorosamente para ele e 

para ela. E eu me perguntava, enquanto assistia  cerimnia em memria de Auschwitz na 

TV, se William alguma vez pensava em mim quando ele tambm ouvia a palavra, quando 

ele tambm via as monstruosas imagens em preto-e-branco do passado preenchendo a 

tela, os corpos esquelticos empilhados e sem vida, os crematrios, as cinzas, o horror 

daquilo tudo. 

A famlia dele morrera naquele lugar terrvel. Os pais de sua me. Como ele podia 

no pensar nisso? eu refletia. Na tela, com Zo e Charla ao meu lado, eu assisti aos flocos 

de neve carem no campo, o arame farpado, a torre de vigilncia atarracada. A multido, os 

discursos, as oraes, as velas. Os soldados russos e sua marcha caracterstica. 

E a viso final e inesquecvel do cair da noite e as estradas de ferro chamejantes, 

brilhando atravs da escurido com uma lancinante e comovente mistura de luto e 

recordaes. 



O TELEFONEMA ACONTECEU EM UMA TARDE DE MAIO, quando eu menos 

esperava. Eu estava em minha mesa de trabalho, brigando com os caprichos de um novo 

computador. Peguei o telefone e meu "sim" soou rspido at para mim mesma. 

- Oi. Aqui  William Rainsferd. 

Endireitei as costas, com o corao agitado, tentando permanecer calma. 

- William Rainsferd. 

Eu no disse nada, emudecida, apertando o fone contra o meu ouvido. 

- Voc est a, Julia? Engoli em seco. 

- Sim, estou apenas tendo alguns problemas com o computador. Como vai voc, 

William? - Bem - ele disse. 

Um breve silncio. Mas no pareceu tenso ou forado. 

- H quanto tempo! - eu disse de maneira pouco convincente. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 235 



-  verdade - ele respondeu. Outro silncio. 

- Estou sabendo que voc agora  nova-iorquina - ele disse finalmente. - 

Pesquisei sobre voc. 

Ento Zo estava certa. 

- Bem, o que acha de nos encontrarmos? - ele perguntou. 

- Hoje? 

- Se voc puder. 

Pensei na criana que dormia no quarto ao lado. Ela estivera na creche de manh, 

mas eu podia lev-la comigo. No entanto, ela no ia gostar de ter sua soneca 

interrompida. 

- Posso - eu disse. 

- timo. Eu vou at o seu bairro. Tem alguma idia de onde poderamos nos 

encontrar? - Voc conhece o Caf Mozart? Na West 70th Street com a Broadway? - 

Conheo, est timo. Vejo voc l daqui a meia hora? Desliguei. Meu corao estava 

batendo to rpido que eu quase no conseguia respirar. Fui acordar minha filha, ignorei 

seus protestos, vesti-a, armei o carrinho de beb e sa. 



ELE J ESTAVA L QUANDO CHEGAMOS. Primeiramente vi suas costas, os 

ombros poderosos e seus cabelos, prateados e volumosos, no tendo mais qualquer 

vestgio de louro. Ele estava lendo um jornal, mas se virou quando me aproximei, como se 

pudesse sentir meus olhos sobre ele. Ento, ele se levantou e houve um momento 

embaraoso e divertido quando no soubemos se deveramos apertar as mos ou nos 

beijar. Ele riu. Eu tambm ri, e ele finalmente me deu um abrao, um grande abrao 

apertado, empurrando meu queixo contra sua clavcula e afagando a parte de baixo das 

minhas costas, e depois se curvando para admirar minha filha. 

- Que linda garotinha - ele murmurou. 

Ela solenemente entregou a ele sua girafa de borracha favorita. 

- E ento, qual  o seu nome? - ele perguntou. 

- Lucy - ela ciciou. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 236 



- Esse  o nome da girafa - comecei, mas William j havia comeado a apertar o 

brinquedo. Os guinchos abafaram a minha voz, fazendo o beb rir de alegria. 

Encontramos uma mesa e nos sentamos, deixando a criana no carrinho. Ele deu 

uma olhada no cardpio. 

- J experimentou o cheesecake Amadeus? - ele perguntou, erguendo uma das 

sobrancelhas. 

- J - respondi. -  um convite ao pecado. Ele sorriu. 

- Ei, voc est fabulosa, Julia. Nova York certamente lhe faz bem. 

Corei como uma adolescente, imaginando Zo me olhando e revirando os olhos. 

Ento, o celular dele tocou. Ele atendeu. Eu podia dizer pela expresso em seu 

rosto que era uma mulher. Eu me perguntei quem seria. Sua esposa? Uma de suas filhas? A 

conversa continuou. Ele parecia perturbado. Curvei-me sobre minha filha, brincando com a 

girafa. 

- Desculpe - ele disse, guardando o telefone. - Era a minha namorada. 

- Ah. 

Eu devo ter soado confusa, porque ele soltou uma risada. 

- Estou divorciado agora, Julia. 

Ele olhou diretamente para mim. Seu rosto ficou srio. 

- Sabe? Depois do que voc me contou, tudo mudou. Finalmente ele estava me 

dizendo o que eu precisava saber. O resultado. As conseqncias. 

Eu no sabia bem o que dizer. Eu receava que, se dissesse uma s palavra, ele 

parasse. Mantive-me ocupada com minha filha, entregando a ela a garrafa d'gua, 

certificando-me de que ela no a derramasse sobre si mesma, arrumando um guardanapo 

de papel. 

A garonete veio anotar nossos pedidos. Dois cheesecakes Amadeus, dois cafs e 

uma panqueca para minha filha. 

William disse: - Tudo desmoronou. Foi um inferno. Um ano terrvel. 

Nada dissemos por alguns minutos, olhando  nossa volta para as mesas 

movimentadas. O caf era um lugar barulhento e animado, com msica clssica emanando 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 237 



de caixas de som camufladas. Minha filha balbuciava para si mesma, sorrindo para mim e 

para William, sacudindo seu brinquedo. A garonete trouxe nossos pedidos. 

- Voc est bem agora? - perguntei hesitante. 

- Estou - ele respondeu rapidamente. - Sim, estou. Levei algum tempo para me 

acostumar a essa nova parte de mim. Compreender e aceitar a histria de minha me. 

Lidar com toda a dor que ela causava. s vezes ainda no consigo. Mas estou trabalhando 

nisso, e muito. Fiz algumas coisas necessrias. 

- Como o qu? - perguntei, dando pedacinhos melados de panqueca amassada 

para a minha filha. 

- Percebi que eu no podia mais carregar tudo aquilo sozinho. Eu me sentia 

isolado, destrudo. Minha esposa no conseguia compreender o que eu estava 

atravessando. E eu simplesmente no conseguia explicar, a comunicao entre ns era 

inexistente. Levei minhas filhas para Auschwitz comigo, no ano passado, antes da 

celebrao pelo sexagsimo aniversrio. Precisei contar o que aconteceu aos bisavs delas. 

No era fcil, e essa foi a nica forma que encontrei para fazer isso. Mostrar a elas. Foi uma 

viagem comovente e cheia de lgrimas, mas eu me senti em paz, finalmente, e senti que 

minhas filhas compreenderam. 

Seu rosto estava triste, pensativo. Eu no falei nada, deixei que ele falasse quanto 

precisasse. Limpei o rosto do beb e dei mais gua a ela. 

- Fiz uma ltima coisa, em janeiro. Voltei a Paris. H um novo memorial ao 

Holocausto no Marais, talvez voc saiba sobre ele. - Concordei com um movimento de 

cabea. Eu tinha ouvido falar dele e planejava ir l na minha prxima viagem. - Chirac o 

inaugurou no fim de janeiro. H um muro de nomes logo na entrada. Um enorme muro de 

pedra cinzenta gravado com 76 mil nomes. Os nomes de cada judeu deportado da Frana. 

Observei seus dedos brincarem com a borda da xcara de caf. Eu estava sentindo 

como era difcil olhar para o rosto dele diretamente. 

- Fui l para encontrar os nomes deles. E l estavam. Wladyslaw e Rywka 

Starzynski. Meus avs. Senti a mesma paz que eu havia sentido em Auschwitz. A mesma 

dor. Eu me senti grato por eles serem lembrados, pelo fato de os franceses se lembrarem 

deles e os homenagearem daquela maneira. Julia, havia pessoas chorando na frente 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 238 



daquele muro. Pessoas jovens, pessoas de idade, pessoas da minha idade, tocando o muro 

com as mos e chorando. 

Ele fez uma pausa, respirando cuidadosamente pela boca. Mantive meus olhos na 

xcara, nos dedos dele. A girafa do beb guinchava, mas ns no a estvamos ouvindo. 

- Chirac fez um discurso. Eu no entendi,  claro. Pesquisei mais tarde na internet e 

li a traduo. Um bom discurso. Instando as pessoas a se lembrarem da responsabilidade 

da Frana durante a batida policial do Vel' d'Hiv e o que se seguiu. Chirac pronunciou as 

mesmas palavras que minha me escreveu no fim de sua carta. Zakhor, Al Tichkab. 

Lembre-se. Nunca esquea. Em hebraico. 

Ele se curvou e apanhou um grande envelope de papel pardo na mochila que 

estava a seus ps e o entregou para mim. 

- Essas so fotos que eu tenho dela e eu queria mostr-las a voc. De repente, eu 

descobri que no sabia quem era minha me, Julia. Quero dizer, eu sabia como era a 

aparncia dela, seu sorriso, mas nada sobre sua vida interior. 

Limpei a calda de meus dedos para poder pegar nelas. Sarah no dia de seu 

casamento. Alta, esguia, com seu sorriso leve, seus olhos misteriosos. Sarah segurando 

William quando era beb. Sarah com William quando ele estava aprendendo a andar, 

segurando-o pela mo. Sarah, por volta dos 30 anos, usando um vestido de baile cor de 

esmeralda. E Sarah, logo antes de sua morte, em um grande close-up colorido. Percebi que 

seus cabelos estavam grisalhos. Prematuramente grisalhos e estranhamente bonitos. Como 

os dele, agora. 

- Eu me lembro dela sendo alta, magra e silenciosa - disse William enquanto eu 

olhava cada foto com crescente emoo. - Ela no ria muito, mas era uma pessoa intensa 

e uma me amorosa. Mas ningum jamais mencionou suicdio depois de sua morte. 

Nunca. Nem mesmo papai. Eu acho que papai nunca leu aquele caderno. Ningum leu. 

Talvez ele o tenha encontrado muito tempo depois da morte dela. Todos pensvamos que 

tinha sido um acidente. Ningum sabia quem era minha me, Julia. Nem mesmo eu. E  

com isso que eu ainda acho to difcil conviver. O que a levou  morte, naquele dia frio e 

nevado. Como ela tomou aquela deciso. Por que ns nunca soubemos nada sobre seu 

passado? Por que ela escolheu no contar ao meu pai? Por que ela manteve todo o seu 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 239 



sofrimento, toda a sua dor, para si mesma? - Essas fotos so lindas - eu disse finalmente. - 

Obrigada por t-las trazido. 

Fiz uma pausa. 

- H algo que eu preciso perguntar - eu disse, guardando as fotos, reunindo 

coragem e finalmente olhando para ele. 

- Pode perguntar. 

- Voc guarda alguma mgoa de mim? - perguntei com um sorriso leve. - Sinto 

como se eu tivesse destrudo a sua vida. 

Ele sorriu. 

- No guardo mgoa nenhuma, Julia. Eu apenas precisava pensar. Compreender. 

Juntar novamente todas as peas. Levei algum tempo.  por isso que voc no teve 

notcias minhas por tanto tempo. 

Senti o alvio me invadir. 

- Mas eu sabia o tempo todo onde voc estava - ele sorriu. - Passei um bom 

tempo rastreando voc. - Mame, ele sabe que voc agora mora aqui. Ele tambm 

pesquisou sobre voc. Ele sabe o que voc faz aqui e sabe onde voc mora. - Quando 

exatamente voc se mudou para Nova York? - ele perguntou. 

- Pouco depois do nascimento da minha filha. Na primavera de 2003. 

- Por que voc saiu de Paris? Se voc no se importar em me dizer... Dei um 

sorriso triste. 

- Meu casamento estava terminado. Eu tinha acabado de ter esse beb. No 

consegui morar no apartamento da rue de Saintonge depois de tudo o que aconteceu l. E 

senti vontade de me mudar novamente para os Estados Unidos. 

- Ento como voc fez, realmente? - Ficamos com minha irm durante algum 

tempo, no Upper East Side, e depois ela encontrou um lugar para sublocar de um de seus 

amigos. E meu ex-chefe encontrou para mim um timo emprego. E voc? - A mesma 

histria. A vida em Lucca simplesmente no parecia mais possvel. E minha mulher e eu... - 

Sua voz extinguiu-se aos poucos. Ele fez um pequeno gesto com os dedos como se a dizer 

at logo, adeus. - Eu morei aqui quando era garoto, antes de Roxbury. E a idia rondava a 

minha cabea j havia algum tempo. Ento eu finalmente resolvi pr em prtica. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 240 



Primeiramente fiquei com um de meus amigos mais antigos, no Brooklyn, e depois 

encontrei um lugar no Village. Estou fazendo aqui o mesmo trabalho de antes. Crtico de 

gastronomia. 

O telefone de William tocou. A namorada, de novo. Eu me virei, tentando dar a ele 

a privacidade de que precisava. Ele finalmente guardou o telefone. 

- Ela  um pouco possessiva - ele disse timidamente. - Acho que vou deslig-lo 

durante algum tempo. 

Ele mexeu no telefone. 

- H quanto tempo vocs esto juntos? 

- Alguns meses. - Ele olhou para mim. - E voc? Est saindo com algum? - Estou. 

- Pensei no sorriso meigo e corts de Neil. Seus gestos cuidadosos. O sexo rotineiro. Eu 

quase acrescentei que no era importante, que era s pela companhia, porque eu no 

conseguia ficar sozinha, porque todas as noites eu pensava nele, William, e na me dele, 

todas as noites, durante os ltimos dois anos e meio, mas fiquei de boca fechada. Disse 

apenas: - Ele  uma boa pessoa. Divorciado. Advogado. 

William pediu mais caf. Enquanto ele me servia, percebi, mais uma vez, a beleza 

das mos dele, seus longos dedos afilados. 

- Cerca de seis meses depois de nosso ltimo encontro - ele disse - voltei  rue de 

Saintonge. Eu tinha que ver voc. Falar com voc. Eu no sabia onde encontr-la, no tinha 

o seu nmero e no conseguia me lembrar do nome de seu marido, ento eu nem podia 

procurar na lista telefnica. Pensei que voc ainda estava morando l. Eu no tinha idia 

de que voc tinha se mudado. 

Ele fez uma pausa, correu a mo pelo cabelo espesso e prateado. 

- Eu li tudo sobre a batida policial do Vel' d'Hiv, fui a Beaune-la-Rolande e  rua 

onde era o estdio. Fui ver Gaspard e Nicolas Dufaure. Eles me levaram ao tmulo de meu 

tio no cemitrio de Orlans. Que homens gentis! Mas foi difcil, foi duro passar por isso. E 

eu desejei que voc estivesse l comigo. Eu jamais deveria ter feito aquilo tudo sozinho, eu 

deveria ter dito sim quando voc pediu para ir junto. 

- Talvez eu devesse ter insistido - eu disse. 

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- Eu deveria ter ouvido voc. Era muita coisa para suportar sozinho. E ento, 

quando finalmente voltei  rue de Saintonge, e quando aquelas pessoas desconhecidas 

abriram a porta, eu tive a sensao de que voc tinha me abandonado. 

Ele baixou os olhos. Coloquei a minha xcara de caf de volta no pires, sentindo o 

ressentimento me invadir. Como ele poderia pensar isso depois de tudo o que eu tinha 

feito por ele, depois de todo o tempo, os esforos, a dor, o vazio? Ele deve ter decifrado 

algo em meu rosto, porque rapidamente colocou a mo sobre a minha manga. 

- Desculpe por ter dito isso - ele murmurou. 

- Eu nunca o abandonei, William. 

Minha voz soou tensa. 

- Eu sei disso, Julia. Desculpe. 

A voz dele estava profunda, vibrante. 

Relaxei. Consegui dar um sorriso. Bebemos nossos cafs em silncio. s vezes 

nossos joelhos se esbarravam sob a mesa. Era uma sensao natural, estar com ele. Como 

se fizssemos isso h anos. Como se esta no fosse apenas a terceira vez que nos vamos. 

- Seu marido no se importa que voc more aqui com as crianas? - ele 

perguntou. 

Encolhi os ombros. Baixei os olhos para a criana que havia adormecido no 

carrinho. 

- No foi fcil. Mas ele est apaixonado por outra pessoa. Est apaixonado j h 

algum tempo. Isso ajudou. Ele no v muito as meninas, no entanto. Ele vem aqui s vezes 

e Zo passa as frias na Frana. 

- A mesma coisa com minha ex-mulher. Ela teve outro filho. Um menino. Vou a 

Lucca sempre que posso para ver minhas filhas. Ou elas vm aqui, porm mais raramente. 

Elas esto bem crescidas agora. 

- Quantos anos elas tm? - Stefania tem 21 e Giustina, 19. Soltei um assobio. 

- Voc as teve bem jovem. 

- Talvez jovem demais. 

A chave de Sarah - Tatiana de Rosnay 242 



- Eu no sei - eu disse. - s vezes eu me sinto esquisita com o beb. Queria que 

ela tivesse nascido antes. H uma diferena de idade to grande entre ela e Zo! - Ela  

um beb adorvel - ele disse, dando uma saudvel mordida em seu cheesecake. 

-  sim. A favorita da me coruja. Ns dois rimos muito. 

- Voc se ressente de no ter tido um menino? - ele perguntou. 

- No. Voc sente isso? - No. Eu amo as minhas filhas. Talvez elas tenham netos, 

no entanto. O nome dela  Lucy, ento? Eu o encarei. Depois olhei para ela. 

- No, essa  a girafa de brinquedo - eu disse. Houve uma pequena pausa. 

- O nome dela  Sarah - eu disse baixinho. 

Ele parou de mastigar, colocou o garfo no prato. Seus olhos mudaram. Ele olhou 

para mim, para a criana adormecida e no disse nada. 

Depois, ele enterrou o rosto nas mos e ficou assim durante vrios minutos. Eu 

no sabia o que fazer. Toquei no ombro dele. 

Silncio. 

Senti-me novamente culpada, como se eu tivesse feito algo imperdovel. Mas eu 

sempre soube, o tempo todo, que esse beb tinha que se chamar Sarah. Assim que me 

disseram que era menina, no momento de seu nascimento, eu soube qual era o seu nome. 

No havia outro nome que minha filha pudesse ter. Ela era Sarah. Minha Sarah. 

Um eco da outra Sarah, da menina com a estrela amarela que havia mudado a minha vida. 

Finalmente ele afastou as mos e vi seu rosto sofrido, lindo. A dor aguda, a 

emoo em seus olhos. Ele no tinha medo de me deixar v-los. Ele no lutou contra as 

lgrimas. Parecia que ele queria que eu as visse todas, a beleza e a dor de sua vida, ele 

queria que eu visse seus agradecimentos, sua gratido, sua dor. 

Tomei sua mo e a apertei com fora. Eu no conseguia mais olhar para ele, ento 

eu fechei meus olhos e coloquei a mo dele contra o meu rosto. Chorei com ele. Senti seus 

dedos ficarem molhados com as minhas lgrimas, mas eu mantive a mo dele ali. 

Continuamos sentados por um longo tempo, at que a multido  nossa volta 

diminuiu, at que o sol se deslocou e a luz mudou. At sentirmos que nossos olhos 

poderiam se encontrar novamente, sem lgrimas.

